Mago da Água e do Gelo
2 Advento do Frio
Notas iniciais
Paris, França, 7 de fevereiro de 1966.
Aquela tarde de inverno estava chuvosa e enegrecida. As grossas e gélidas gotas tocavam pesadamente o sobretudo negro de um homem que se encostava com ar despreocupado em um poste de luz. Seus olhos castanho-claros estavam mantidos fixos na porta de entrada de uma construção belíssima a sua frente, na calçada oposta. Tratava-se de uma grande casa cinzenta com telhas azuis, portava muitas janelas e, talvez, possuísse uns três andares. Havia somente algumas luzes acesas lá dentro. A rua se encontrava deserta, e o vento muito frio daquele dia uivava, esvoaçando seus longos cabelos loiros. Olhou de relance para seu relógio de pulso: eram quase 18h. Já não era sem tempo!
“Ela já deve estar de saída.” pensou consigo mesmo.
Sua rotina durante os últimos dois dias tinha sido praticamente se postar diante daquele lugar em tempo integral, afinal, aquela que era motivo de sua longa espera passava, no mínimo, 10 das 24 horas do dia ali. Ele acreditava que ela somente saía pelo fato de que a “Bibliothèque de l'Arsenal*” fechava às 18h, se não, faria dali sua moradia.
A chuva se tornou ainda mais violenta, e relâmpagos se uniram à tempestade que se formava. Ele abotoou alguns dos botões do sobretudo e cruzou os braços. Um ser humano normal bateria os dentes e se encolheria de frio, mas não ele, que já tinha suportado temperaturas muito mais severas durante treinamentos junto a um companheiro há 200 e alguns anos... Sorriu ao lembrar-se dele, ainda mais diante daquela biblioteca.
“Dégel, Dégel... Você certamente já teria devorado todos os livros dali em menos de um mês. Haha!”
Seu sorriso se desfez num piscar de olhos quando um arrepio terrível percorreu sua espinha e todos os poucos pelos de seu corpo se eriçaram. Algo estava muito errado por ali... A cosmo energia que começou a emanar do entorno do pátio da “Bibliothèque de l'Arsenal” era maligna e negra. As intenções de seu detentor certamente não eram nada boas. Será que... Poderia ser possível?! Alguém mais sabia quem era ela?!
Ele se teleportou até a porta de entrada da biblioteca e elevou seu cosmo como ameaça ao inimigo. Um brilho dourado tornou a emanar de seu corpo gerando uma energia agressiva, apesar de sua expressão se manter serena. A resposta foi imediata: o cosmo mau se extinguiu totalmente. Mas ele sabia, por toda a sua vasta experiência em combate, que não seria tão fácil...
“Sei que não desistiu, maldito. Não garanto que continuará com vida se ousar se aproximar desta jovem.”
A última luz da janela mais próxima à porta se apagou e esta se abriu devagar. Ouviam-se passos e uma voz idosa feminina animada vindos do interior do lugar:
–... Mas eu gosto muito que fique aqui até fechar, querida. Sua companhia é ótima. Não precisa se desculpar.
Ele se teleportou para alguns metros mais longe, impedindo de ser visto. Atentou-se ao escutar a voz jovial de uma mulher. Essa sim, só poderia ser ela:
– Muito obrigada, senhora Jules. Estarei de volta amanhã cedinho. – disse cansada.
– Oh, sim, minha flor. Parece exausta! – disse a senhora Jules – Não quer que eu a acompanhe até sua casa?
As duas abriram a porta e saíram. Lá estava... Era ela mesma: a garota que tinha sido motivo de sua estadia em Paris nesses últimos dias. Para o sexo feminino, até que tinha uma altura razoável, pele branca, cabelos longos lisos e castanhos. Era uma moça muito bonita, de traços finos e olhos muito azuis. Sua silhueta revelava uma gravidez avançada.
– Eu agradeço, mas não precisa. – recusou educadamente – Vou indo.
– Tudo bem, querida. Amm... – a senhora Jules fez uma pausa, mas pareceu finalmente se decidir em perguntar – E pra quando é o neném? Deve estar bem perto de nascer, não?
– B-bem, eu... – ela hesitou em responder, e sua expressão cansada tornou-se triste.
– Já sabe se é menino ou menina? – animou-se a senhora Jules, não percebendo seu erro – Já escolheu um nome? E o papai? Está animado?
Aquelas perguntas... Pobre menina.
“Mas que velha intrometida!” pensou consigo mesmo, ao sentir o quanto era doloroso para a jovem mãe falar sobre o assunto.
De repente, sentiu o mesmo cosmo maligno que se manifestara anteriormente se aproximar dele.
“Apareça de uma vez, covarde!”
“Lute comigo, Cavaleiro de Atena!” silvou uma voz grave e furiosa.
Um clarão surgiu e ele desapareceu na velocidade da luz.
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As duas nem puderam notar o que acabara de acontecer. Felizmente a luz não é perceptível aos olhos de humanos comuns.
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Agarrou rapidamente o inimigo pelo pescoço e os teleportou para um local mais afastado para impedi-lo de se aproximar da jovem e da velha senhora. Ao toca-lo, percebeu rapidamente que não era humano: a pele era escamosa e grossa, ao mesmo tempo em que ele pode sentir algo leve tocar as costas de suas mãos...
“Escamas e... Penas?!”
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– Senhora Jules, eu realmente tenho que voltar para casa. – respondeu, ignorando as perguntas feitas pela bibliotecária – Passar bem. Que Deus a abençoe. – disse triste, e deu as costas para iniciar sua caminhada.
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Soltou a criatura e se afastou rapidamente quando seus pés tocaram o chão. Tal besta tinha corpo de serpente, asas e cabeça de galo, algumas penas pelo pescoço e cabeça, e devia ter uns quatro metros de altura.
“Um basilisco**... Mas quem será que o enviou?...” pensou ele, mais preocupado em descobrir quem era o verdadeiro inimigo do com a criatura mitológica enorme e nada amigável à sua frente.
O monstro soltou um grunhido agudo e ensurdecedor:
– CAVALEIRO DE ATENA, NÃO ME SUBESTIME! – enfureceu-se e tentou encara-lo – MORRA!
Ele desviou seus olhos antes que estes se encontrassem com os da criatura. Tornar-se pedra estava totalmente fora de questão.
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– Oh... Minha querida, por favor, não me leve a mal. – disse a senhora Jules, arrependida ao perceber o quanto havia entristecido a moça – Espere! Não quer tomar um chá na minha casa?! Farei um bolo e...
Ela se virou para encarar a velha bibliotecária.
– Senhora Ju... – não... Não pode terminar a frase.
Um líquido quente e denso jorrou e respingou sobre a jovem, caindo sobre seus olhos e impedindo sua visão.
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– Uma penosa como você não será problema. – disse com a voz calma, e deu um sorriso desdenhoso.
– AHHHH, É???!!!! – cacarejou o basilisco, humilhado.
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O cheiro forte e metálico inundou suas narinas, e ela sentiu o calor que emanava do sangue quando este tocou sua pele branca. Ela levou as mãos aos olhos e limpou-os como pode. O que conseguiu enxergar em seguida fez seu coração bater em ritmo de galope, e ela deu um grito quase sem som, abafado pelo medo sem fim: o corpo já sem vida da bibliotecária, perfurado totalmente por algo que parecia uma estrela-da-manhã*** foi sendo erguido do chão devagar por quem a assassinou.
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O monstro abriu as enormes asas e voou furiosa e rapidamente em sua direção. Ele, ao mesmo tempo, elevou seu cosmo e se posicionou:
– MURALHA DE CRISTAL.****
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Dois imensos olhos vermelhos surgiram da escuridão e a fitaram, cheios de ódio. A garota não tinha reação e somente tremia de pavor. Não sentia mais as extremidades de seu corpo, somente o suor gelado que escorria por sua pele.
“Pai Nosso que Estais no Céu, santificado seja o Vosso Nome...” começou a rezar, mesmo não sendo tão crente assim... Era o que podia fazer: esperar por um milagre. Esperança nunca havia lhe faltado.
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O basilisco, que vinha a grande velocidade pareceu perder toda a força, caiu com um baque alto e foi sendo arrastado pelo chão de asfalto, abrindo um sulco neste por todo o caminho que percorreu. Sua pele colorida e penas tornaram-se cinzentas, suas asas abertas e sua expressão de fúria mantinham-se intactas e imóveis, assim como todo seu corpo. Uma estátua imensa agora ocupava uma das vias automotivas de Paris.
Ele se aproximou e a transformou em pedaços com um só golpe. Jamais deixaria que algo tão bizarro causasse algum transtorno na rotina do povo de Paris na manhã seguinte.
“Patético...”
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Ouviu-se um rosnado ameaçador. A besta surgiu das trevas, expondo suas patas e corpo de leão, imensas asas de morcego e feições humanas. Transpassado em sua cauda de dragão tingida pelo sangue, e agora totalmente erguido no ar, estava o corpo da senhora Jules.
“... Venha a nós o Vosso Reino...” fechou os olhos, sentindo seu corpo quase desfalecer.
A criatura se aproximou da jovem, mostrando seus dentes pontiagudos. Ela podia sentir o seu hálito fétido, que lhe parecia de um demônio. Questionou-se se ele havia vindo do inferno busca-la pessoalmente e desconcentrou-se de sua oração por uns segundos.
Pensou em seu bebê... “Não! Eu Lhe imploro: que esse monstro leve somente a mim! Meu filho, não... Não! Por favor! Cadê Você?! Por que não está aqui para salvar seu filho?! Droga! Você acabou com a minha vida!” rezou estranhamente e praguejou confusa. Levou as mãos ao seu ventre, mesmo sabendo que era impossível protege-lo.
– Huuumanaaaa... Humanaaa que carrega ouro no ventree... – rugiu a besta – Rasgar-te-ei ao meiooo!
Uma lágrima rolou por seu rosto.
“... Seja feita a Vossa vontade...”
A criatura ergueu uma de suas enormes patas, e suas garras afiadas cortaram o vento. Um brilho dourado surgiu entre os dois na velocidade da luz.
– REVOLUÇÃO ESTELAR!*****
Vários baques secos ecoaram pelo pátio da biblioteca, seguidos por um estrondo e vários sons de pedras ruindo. Ela abriu os olhos... Sua visão já turva. Desmaiou.
Ele a pegou nos braços com cuidado, temendo por seu estado frágil. A respiração dela estava fraca, e seu coração batia muito rapidamente.
O mantícore****** que a atacou jazia morto no chão próximo à entrada da “Bibliothèque de l'Arsenal”. A REVOLUÇÃO ESTELAR o havia arremessado contra a parede, deixando um grande buraco estampado nela. Certamente o barulho do impacto chamaria muita atenção da vizinhança... Ele deveria, ao menos, sumir com a besta e o corpo já gélido da pobre senhora Jules. Entrou na biblioteca e avistou uma mesa bem grande, foi até lá e repousou delicadamente a moça sobre ela.
“Por Atena, ela está tão gelada. Minha Deusa, eu Te peço, proteja a ela e ao menino.” Preocupou-se.
Certificou-se de que ela estava segura e saiu. Pôs-se diante dos dois cadáveres, lamentando profundamente a morte da velha bibliotecária. Culpou-se, não conseguindo se perdoar por essa vida inocente perdida. Quem quer que estivesse tentando matar a jovem e a criança em seu ventre fez tudo muito bem premeditado... Mandou o basilisco para mantê-lo ocupado enquanto o mantícore eliminaria mãe e filho. Mas quem seria? Não... Ele não tinha tempo para pensar nisso agora.
Rezou pela alma da senhora Jules, e finalmente se posicionou e elevou seu cosmo. A luz consumiu ambos os corpos, que desapareceram num instante. Ele deu meia-volta e retornou ao interior da biblioteca. Andou rapidamente até a mesa onde havia deixado a jovem.
“Mas... O que?!” espantou-se e arregalou os olhos.
Ela não estava mais ali. Olhou preocupado para os lados, e ouviu uma respiração ofegante vinda de uma das alas de estantes de livros. Se teleportou para perto de onde ela estava, evitando fazer uma aparição repentina e assustá-la ainda mais. Seguiu caminhando devagar até virar no corredor onde a viu encolhida e sentada no chão gelado, tremendo de frio e medo.
Ao perceber que ele se aproximava, a jovem o encarou com os olhos muito azuis arregalados de pavor e tentou se levantar, gemendo de dor.
– Acalme-se, minha jovem. – disse ele calmamente, estendendo a mão num gesto de paz – Não estou aqui para o seu mal.
Sem deixar de encará-lo, ela voltou a sentar-se no chão e se encostou numa estante, ainda trêmula. Ele se aproximou devagar, se pôs diante dela e se agachou, mantendo sua expressão serena. Despiu seu sobretudo e a cobriu cuidadosamente com ele.
Ambos ficaram calados por uns minutos, até que ele resolveu sentar-se ao lado dela no chão e se encostar na estante, tentando passar-lhe alguma cumplicidade e confiança.
– Com fome? – perguntou ele, dando um leve sorriso.
Ela balançou a cabeça negativamente e o repreendeu em pensamento:
“Como ele pode pensar em comer depois do que acabou de acontecer?!”
– Não... Obrigada. – agradeceu, franzindo a testa. Parecia um pouco mais calma, porém, sua respiração acelerada não negava sua exaustão.
– Tudo bem. – ele levou a mão ao bolso e puxou uma barrinha de chocolate – Eu estou. – e começou a abrir a embalagem.
A moça o olhava dos pés à cabeça.
“Que homem... Amm... Diferente... Não entendo. Se mantém tão calmo, mesmo após aquela cena horrível...” Pensou consigo mesma. “Será que é como Ele...?”
– O-o senhor não é daqui, não é? – disse ela, finalmente – Seu sotaque...
Ele terminou de mastigar um pedaço de chocolate, e disse:
– Ah, sim... Desculpe-me. – pigarreou, educado – Permita que eu me apresente. Meu nome é Shion. Vim da Grécia.
– Grécia?... – disse ela, parecendo se questionar sobre algo.
“Ele também me disse algo sobre a Grécia... Mas este moço não parece ser de lá.” Pensou ela, olhando para uma direção acima dos olhos de Shion.
Ele logo percebeu o que deveria ser e sorriu, acompanhando seu olhar.
– Hum, você reparou nelas não foi, jovem? – disse ele sobre as pintas em sua testa – Como eu disse: vim da Grécia, mas nem de longe sou grego.
– Oh, me desculpe, meu senhor. – disse ela, sem jeito – N-não queria constrange-lo...
– Não, senhorita, não constrangeu. Estou plenamente acostumado. – disse, mantendo o sorriso – Bem, já que falamos em apresentações... É a sua vez, não?
A jovem, pela primeira vez, esboçou um sorriso.
– Meu nome é Sophie, e sou daqui mesmo. – disse com um suspiro.
– É um nome muito bonito. – disse ele, tentando trazer alguma felicidade ao coração dela.
– Meu pai quem escolheu. Que Deus o tenha. – comentou Sophie.
– Ele se foi? Sinto muito. – disse Shion.
– Ele e minha mãe faleceram há um ano. – suspirou ela.
“E-Ela é órfã. Ainda passou pela dor de perder os pais tão recentemente... Por Atena... Por que tanto sofrimento para um só ser?” sabia que não devia questionar os planos dos deuses, mas não conseguia conter sua revolta.
Pobre garota... Ele imaginou por tudo o que ela poderia ter passado da morte dos pais até agora. Provavelmente era uma menina normal, que vivia junto à família e amigos encarando seu dia-a-dia com muitos planos para o futuro, como todo jovem... Agora...
“Minha Atena... Por quê?” lamentou novamente.
Uma tristeza invadiu fortemente o peito do Mestre do Santuário. O destino... Tantas vezes cruel... Principalmente o de moças como Sophie.
– Foi o senhor quem me salvou daquele monstro?
A pregunta dela o tirou repentinamente de seus pensamentos.
– Bem, digamos que sim. – respondeu ele.
– O senhor é um anjo? Ou um deus?
Aquela pergunta o deixou meio desconcertado.
– Não, não, Sophie. – disse ele rapidamente – Sou humano, como você.
Ela o encarou, desconfiada.
– Desculpe-me, senhor Shion, mas não posso acreditar no que diz. – disse ela, parecendo indignada – Alguém como eu não derrotaria uma criatura daquelas e sairia sem um arranhão. – Sophie pareceu ficar ainda mais triste – O senhor só pode ser como Ele! – e começou a chorar – Não aguento mais ser enganada! Quero que o obscuro se torne realidade!
“Ele? Ele quem? Será que ela se referia ao...” pensou Shion. Segurou a mão fria de Sophie, a fim de tentar confortá-la.
– Não chore, criança... – disse ele, preocupado com seu estado – Acalme-se. – E se levantou, estendendo-lhe a outra mão – Venha. Vamos encontrar um lugar mais quente e confortável para você.
Ela enxugou os olhos e o encarou.
– Me diga a verdade, por favor...
– Eu digo se me deixar leva-la. – disse ele, tentando convencê-la.
– Me desculpe, mas podemos passar na ala ao lado antes? – pediu Sophie.
– Podemos sim. – ele faria o que pudesse para vê-la feliz naqueles momentos.
Abaixou-se, vestiu-a com seu sobretudo, pegou-a nos braços com cuidado e caminhou devagar até a tal ala. Ao chegarem, ele pode observar a pequena placa de ferro fixada na lateral da primeira estante: “Roman”*******. Já na entrada do corredor, Sophie disse:
– Ali, por favor. – suspirou ela ao apontar na direção de alguns livros – Minha mãe o leu para mim antes de falecer...
Shion andou até onde Sophie apontava. Em outra plaquinha menor fixada na prateleira daqueles livros, anunciava-se a letra “C”. Ela estendeu a mão, retirou um livro da estante e o abraçou junto ao peito. Ele teve curiosidade de ver qual era, mas os braços da jovem cobriram seu título.
– Bem, podemos ir agora? – perguntou ele calmamente.
– Sim. Muito obrigada, senhor Shion. – agradeceu a jovem.
– Peço que mantenha a calma. – disse Shion – Feche os olhos, por favor.
– Tudo bem. – suspirou ela, fazendo o que ele pediu.
Ele os teleportou até uma sala de leitura, onde havia um velho sofá, o chão não era de pedra e uma lareira já continha um pequeno pedaço de madeira. Shion a acendeu com algumas faíscas que saíram de seu dedo e deitou a jovem devagar sobre o sofá, puxou um banquinho e se sentou ao seu lado.
– Nossa... – disse Sophie, que o encarou espantada e olhou para a lareira já em chamas, impressionada com o que acabara de vê-lo fazer — ... I-Incrível...
Ele sorriu e balançou a cabeça negativamente. “Tão inocentes, os humanos comuns...” Pensou ele, e voltou a encará-la.
– Sophie, pode me dizer quem é este que você se refere como Ele? – perguntou, querendo confirmar sua suspeita.
– Só se o senhor me prometer que vai me contar toda a verdade... – suspirou ela – Eu sei que há algo acontecendo neste mundo que vai além da compreensão da maioria dos mortais. – ela tossiu demoradamente, se recompôs e disse, enfim – Creio que essa percepção minha tenha feito com que Ele se aproximasse de mim.
– Eu prometo, Sophie. – disse Shion. Ela tinha todo o direito de saber... Merecia.
Ela se encolheu, cruzou os braços, mantendo o livro junto ao peito, e disse cansada:
– Ele foi quem trouxe minha felicidade de volta depois que perdi meus pais, despertou em mim o amor, – ela fez uma pausa e esboçou um sorriso apaixonado – fez minha vida ter algum sentido de novo e com que eu me desse uma nova chance... Ele é um deus... – olhou para seu ventre e o acariciou.
– ... E o pai dessa criança... – completou Shion.
Lágrimas correram pelos olhos da moça, que levou as mãos ao rosto.
– S-Sim... – disse ela, fragilizada — ... M-Mas Ele se foi... Deixou-me... N-Nos deixou sozinhos.
Shion sentiu ódio dos deuses... Poderiam ao menos dizer a verdade a elas! “Malditos sejam todos Eles! Já não basta usarem-nas e desgraçar suas vidas?!” praguejou. Suspirou, indignado.
– Me diga Sophie: Ele não te disse nada sobre seu destino?! Ou porque te escolheu? Nem que te deixaria inevitavelmente?! – disse ele, irritado.
Ela o encarou com os olhos mareados, e fez que sim com a cabeça.
– Ele me disse que não poderia ficar desde que nos falamos pela primeira vez. – disse, voltando a chorar – Mas eu ignorei seu aviso... Estava tão perdida e triste nesse mundo e Ele me fez sentir tão bem, tão viva de novo. Fiquei tão... Apaixonada. – disse ainda chorosa.
Sophie fez uma pausa e tentou se recompor, enxugando seu rosto com um braço, sem largar o livro que lhe parecia tão precioso. Shion abaixou os olhos e respeitou o tempo em silêncio que ela precisava. Pensou consigo mesmo se todos Eles causavam esse efeito nas mortais que escolhiam e balançou a cabeça negativamente, revoltado.
– Senhor Shion... – disse ela, com a voz pouco firme.
Ele voltou a encará-la.
– O que disse sobre meu destino? – perguntou ela.
– Sophie, lhe contarei a verdade, como lhe prometi. — disse Shion, já decidindo iniciar a longa conversa que tinha prometido à jovem – Bem, como você mesma disse que tem ciência, há coisas nesse mundo que estão além da compreensão da maioria dos mortais.
Ela se sentou e o encarou atentamente.
– Sophie, você conhece a mitologia grega?
– Sim. – concordou ela.
– A Deusa Atena?
– Sim senhor... – disse ela, parecendo animada – A deusa concebida por Zeus, que governa a Terra, a justiça e as guerras.
Shion concordou e continuou.
– Bem, minha jovem, entenda que todos esses deuses que a humanidade atual considera como mitológicos são verdadeiros.
Ela se espantou por um segundo, mas concordou com a cabeça, receptiva. Afinal, ela já havia conhecido e se relacionado com um deles...
– Atena, como Deusa protetora da Terra, possui guerreiros humanos que a protegem e doutrinam desde eras mitológicas conhecidos como Cavaleiros de Atena. São 88 Cavaleiros, cada um deles regido por uma constelação do céu da Terra. – disse Shion calmamente – Na Grécia, existe um local sagrado: o Santuário de Atena, onde os Cavaleiros são treinados e preparados para executarem suas missões e deveres para com a Deusa desde muito jovens, e o Universo é constantemente observado e acompanhado a procura de qualquer mal que possa atingir este planeta ou a própria Atena.
Sophie ouvia tudo atentamente, e disse admirada:
– O senhor é um desses Cavaleiros, não é? – disse ela, sorrindo.
Shion deu um leve sorriso. “Ela é bem rápida.”
– Bem, digamos que eu já fui. – disse ele, erguendo as pintinhas na testa.
– Já foi? Como assim? O senhor é tão forte!
– Sophie, eu sou o Mestre do Santuário. Ocupo um cargo designado a um ex-Cavaleiro de Ouro. – disse ele, tentando ser claro – Mas não é pelo fato de eu não portar mais a minha Armadura que eu tenha perdido meus poderes.
Sophie acenou com a cabeça, mas franziu a testa, sem entender totalmente. Shion continuou pacientemente.
– Tentarei explicar: os Cavaleiros de Atena possuem níveis de poder diferenciados entre eles. Quando um aspirante a Cavaleiro prova seu total valor e merecimento diante de Atena, ele recebe uma indumentária sagrada, forjada desde eras mitológicas: a Armadura. – pigarreou e continuou – Cada Armadura Sagrada representa a constelação que rege o Cavaleiro que a traja.
– Mas, o senhor disse Cavaleiro de Ouro... – questionou Sophie.
– Sim, criança. As Armaduras foram forjadas em 3 diferentes metais, dividindo os 88 Cavaleiros hierarquicamente. – disse Shion – São esses metais bronze, prata e ouro. Já deve imaginar como devem ser em ordem de valor e poder, não?
– Aham. – concordou ela. Seus olhos brilharam, cheios de perguntas e sede de conhecimento – O senhor é de qual constelação? – sorriu ela.
– Aries. – disse ele, e retribuiu o sorriso. Sentiu-se aliviado ao perceber que toda aquela conversa e explicações a estavam deixando feliz e animada.
– Uau...
O Mestre continuou sua explicação:
– Os Cavaleiros de Ouro, como você já concluiu, são os mais poderosos guerreiros de Atena. Somos 12 ao todo, regidos pelas constelações da Elíptica.
– Os 12 signos do Zodíaco, não é? – disse ela, animada – Se o senhor é Aries, os outros 11 devem ser as constelações seguintes...
– Sim, jovem. – disse Shion com um leve sorriso – É uma mulher muito inteligente, de fato.
Ela sorriu e corou.
– E por sermos tão poderosos, quero que entenda que não poderíamos ser completamente humanos. – disse Shion, observando a jovem tornar-se séria e pensativa – Pense em heróis como Hércules...
– ...Perseu... – continuou ela, voltando a encará-lo.
– ...Aquiles... – disse ele.
Ela franziu a testa e pareceu assustada. Percebeu que não havia pensado nisso em todo seu tempo de sua gravidez. “Então... Era isso que o mostro quis dizer...”.
“Humanaa que carrega ouro no ventre...” lembrou-se de seus dizeres e voz horripilante.
Se Ele era um deus, então...
– E-Entendo... — Sophie encarou o Mestre do Santuário. Seu coração batia aos pulos — M-Meu bebê... – disse ela, parecendo apavorada e tocando seu ventre com uma das mãos, sem deixar de soltar o livro, que segurava com o outro braço – É-É um...
“Ela... Já sabe.” Shion deu um suspiro, concordou com um gesto de cabeça e olhou para baixo, sem conseguir encarar aqueles olhos apavorados. “Por Atena...” lamentou “Estava tão feliz e esperançosa...”
Ela derramou uma lágrima...
– Ele me usou... – disse ela, tremendo e respirando alto, fortemente magoada – Como Zeus fez com as mortais que geraram seus filhos bastardos... – abaixou o tom de voz, parecendo não conseguir falar mais.
– Sophie... – Shion tentou dizer algo que a consolasse, mas sabia que seria inútil...
Ela se levantou lentamente e deu alguns passos em direção à lareira. Ele fez o mesmo, preocupado com seu estado muito fragilizado.
– Estou com tanto frio... – sussurrou ela, com o olhar perdido e distante – Desde que Ele se deitou comigo... – ela caiu e Shion a segurou nos braços. Estava gélida e muito pálida. — ... Eu sinto frio...
“Frio... Sim.” Pensou Shion.
Ela fechou os olhos e respirava fraca e aceleradamente. Shion se ajoelhou próximo à lareira, rezando “Atena, minha Deusa, por favor...”.
Sentiu algo morno molhar sua mão esquerda, que sustentava as pernas de Sophie. Ele a repousou sobre sua coxa e retirou sua mão dela. Seu coração acelerou quando a viu tingida de sangue vivo.
– E-Eu v-vou m-morrer... – suspirou ela, abrindo os olhos e fitando-o não mais com aquele olhar de medo, mas com um leve sorriso – Vou v-ver meus pais... E-Ele t-também...
O Mestre sabia que essa vida ia ser perdida desde o início, mas viver todos aqueles momentos era bem doloroso para ele, por mais que tivesse controle de suas emoções. Mesmo que tentasse, não estava preparado para nenhuma dessas perdas que presenciava há sete anos.
Ela já havia aceitado seu destino... Repousou a mão sobre seu ventre.
– E-Eu me orgulho de s-ser m-mãe de um herói... – suspirou ela, sem forças – P-Por favor... C-Cuide bem d-dele...
Shion retribuiu o seu olhar, assentiu e sorriu tristemente, continuando a rezar por sua alma.
Não demorou muito até que o menino veio ao mundo em silêncio.
Ela estendeu uma mão fracamente em direção ao recém-nascido. Shion o levou para perto, permitindo que a mãe o tocasse. Sophie disse sorrindo, com um último e intenso brilho nos olhos:
– Camus...
Aquela última luz se esvaiu do olhar dela. O bebê chorou assim que a mão de sua mãe deixou de tocá-lo.
– Shhh... – o Mestre tentou acalmar o pequeno – Calma, calma...
O recém-nascido aquietou-se algum tempo depois. Shion derramou algumas lágrimas ao fechar os olhos azuis vidrados e sem vida da jovem Sophie. Um singelo brilho dourado saiu do bolso do sobretudo negro que a vestia, se direcionou para o bebê e se apagou.
Passos ecoaram pela sala. Shion já havia pressentido o cosmo de quem entrava ali.
– Não vai cobri-lo? – disse uma voz familiar e grave – Está bem frio aqui.
– Ele não precisa disso, eu acho. – disse Shion com a voz firme, sem olhar para quem lhe falava.
O homem que acabara de chegar se inclinou para frente e olhou para a moça.
– Tisc... Pobre menina. – lamentou.
Shion deu um longo suspiro e se levantou cabisbaixo com o bebê nos braços. Estava exausto de tudo aquilo.
– Meu irmão, você sabe que não deveria se envolver dessa maneira. – disse o Cavaleiro de Altar – Que Atena o dê forças...
– E-Eu não consigo vê-las como o-objetos, irmão! – alterou-se o Mestre, derramando uma última lágrima.
– Acalme-se... – disse o irmão de Shion com a voz calma, dando-lhe alguns tapas no ombro – Não há mais dor para a mãe. – ele olhou para o Cavaleiro de Altar, que trajava um terno cinza.
– Sim... – suspirou Shion. Ele sabia que não podia ter evitado a morte de Sophie... Era seu destino trazer o menino ao mundo em troca de sua vida. Rezou em silêncio mais uma vez por sua alma e tentou guardar somente a imagem de seu sorriso. “Que os Elíseos a acolham...”
Virou-se de costas, não querendo mais vê-la. Tentou lembrar-se de sua última palavra, e sua consciência pesou ainda mais quando não conseguiu... Como pode se esquecer? Tudo aquilo o deixara tão cansado que sua memória falhou gravemente.
Porém, alguma intuição o levou a lembrar-se do objeto nas mãos de Sophie...
– Irmão, pegue esse livro sob a mão dela, por favor. – disse ele, olhando para o menino adormecido em seus braços e dando um leve sorriso. Um cordão dourado fino e um pingente de símbolo ♒ brilhavam em seu pescoço anda manchado de sangue.
– Tudo bem. – disse seu irmão, ao abaixar-se e pegar o tal livro. Caminhou até Shion – A propósito, — e entregou-lhe o livro – qual o nome dele?
Shion olhou para a capa do misterioso livro que Sophie fez questão de ter por perto até deixar este mundo. Suspirou animado quando leu:
“L’Étranger********– Albert Camus”
–Camus... – respondeu Shion sorrindo tristemente – Camus de Aquário.
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