Mago da Água e do Gelo
9 Em Atenas
Notas iniciais
Atenas, Grécia
30 minutos depois...
Não parei por um segundo sequer de lhe acariciar os cabelos e de admirá-lo... Como era lindo...
Por uns instantes, pensei novamente no que Saga havia dito na Casa de Escorpião. Sorri, com toda a certeza de que aquele garoto adormecido no meu colo nunca fora meu amigo por qualquer outra razão a não ser o amor que sente por mim. Ri baixo e balancei a cabeça, me lembrando de todas as “demonstrações” de querer atenção dele...
Rabiscar meus cadernos, rasga-los, jogá-los no lago ou bem longe, esbarrar na minha mão enquanto eu escrevia, gritar nos meus ouvidos para me tirar a concentração, se jogar no meu colo do nada, me pegar pelos ombros e sacodir, jogar coisas em mim, passar do meu lado com uma caneta e me rabiscar, inventar apelidos infames novos e adicionar a minha lista (não tem como contar todos... Senão passarei a eternidade só para lista-los).
Eu estava exausto fisicamente. Passei dos limites com meu cosmo e corpo e o sentia meio dormente. Fechei os olhos e quase adormeci também, mas senti a velocidade do carro diminuir devagar. Abri os olhos e observei o exterior pela janela. Lojas, pessoas andando pelas calçadas, carros circulando... Tínhamos chegado à Atenas. O carro estacionou ao lado do meio-fio.
– Aê! Chegamos! — animou-se Deba.
– Eba! – exclamou Aiolia.
Saga se movimentou no banco do carona, abriu a porta e saiu. O vi andando do lado de fora na direção da porta em que Deba estava do lado, que foi aberta por ele.
– Sem correr! – advertiu Saga, enquanto Deba e Aiolia saiam depressa do carro – Fiquem juntos!
Me olhou, fez um gesto para que eu me apressasse e sorriu como se nada tivesse acontecido.
– Vamos, Camus! – olhou para Milo, que dormia profundamente no meu colo – Acorda ele ai!
É... Ele realmente acreditou que ter feito o que fez estava certo. Não concordei em nada com sua atitude, mas... Enfim, não valia a pena me irritar com ele ou guardar qualquer ressentimento. Ao menos eu Milo estávamos bem. Aliás, agradeço a ele por ter me feito enxergar sem mais nenhuma sombra de dúvida o quanto eu era importante para o Milo.
– Ok. – assenti e olhei para o futuro Cavaleiro de Escorpião.
Nem adianta... Nunca adiantou eu tentar evitar um sorriso ao olhar para aquele ser perfeito: ainda sorria e ressonava baixo, e seu rosto ainda marcado pelo choro estava levemente corado. Seus cabelos longos e loiros caiam pelo meu braço até tocarem o banco do carro. Por mais que estivesse no décimo sono e relaxado, não senti em nenhum momento a força com que me abraçava diminuir.
Aproximei minha boca de seu ouvido.
– Milo... – chamei com um sussurro.
– Hummm... – murmurou e espreguiçou um braço, que depois voltou à mesma posição de antes.
– Ei... Milo... – chamei em tom mais alto.
– Huuummm... (sem se mexer).
Não deu certo chama-lo. Dei um sorriso e ergui uma sobrancelha, ao mesmo tempo em que levei minha mão ao seu rosto e o acariciei. Seu sorriso aumentou e ele voltou a se espreguiçar, dessa vez por inteiro. Deu um suspiro demorado e ia voltar a me abraçar. Peguei seus braços com carinho antes que se entrelaçassem em meu corpo de novo e os uni.
– Milo... – chamei com a voz calma, e acarinhei seu rosto com o meu.
– Camus... – sorri ao ouvi-lo dizer o meu nome.
Abriu os olhos e os esfregou. Me olhou e sorriu.
– Já chegamos. – anunciei, dando um sorriso de canto.
– Ahh... – murmurou ele, ainda meio dormindo – Ah tá.
– Ei! Vocês dois! – disse a voz impaciente de Shaka – Tem coisas mais legais aqui fora!
– Vão bora! – chamou Deba.
– Tisc... – fez ele, com uma expressão brava olhando lá para fora. Ergueu o tronco, me encarou e sorriu – Não acho que tenham “coisas mais legais lá fora”. – me olhou dos pés a cabeça.
Senti meu coração acelerar. Ele já batia em ritmo anormal de alegria só de estar junto a ele, mas deu um solavanco e devo ter ficado muito corado. Ahhh... Esse... Maldito! Ok... Tudo bem que nada era mais óbvio que nós dois sempre nos amamos, mas... Fiquei meio sem reação (tá, sou lerdo...¬¬). Ele estava me cantando?!
Isso é bem bizarro, não? Duas crianças... Maldita precocidade! Melhor mudar de assunto U.U.
– Vamos? – perguntei, fazendo um gesto meio sem jeito para sairmos.
Ele se espreguiçou, estendendo os braços e os entrelaçando no meu pescoço.
– Me leva no colo? – pediu com a voz manhosa.
Mas... O que?! Agora era explicito. Ele realmente estava querendo me desestabilizar. Nunca tinha feito dessa maneira. Confesso que gosto quando ele faz essas manhas, mas eu não me sentia tão confortável com isso na frente de todos...
Ele nunca havia chegado tão longe quanto aquele dia... Ainda mais que, se eu cedesse, todos iam me ver carregando um garoto da minha idade no colo (não que isso fosse difícil, já que naquela idade eu já carregava mais de 20 vezes o meu peso. Os 23kg do Milo não eram nada.). Pessoas que não nos entendem achariam, no mínimo, estranho. Mesmo o Mestre e o pessoal iram nos repreender por estarmos indo longe demais.
Não que eu não quisesse faze-lo... Se eu pudesse, faria tudo que ele quer. Se há alguém que me quebra/derrete fácil, esse alguém é ele. Sorri meio sem jeito e fiz que não com a cabeça.
– Ahhh... Por favor... – disse ele, mais manhoso.
Maldição! Respirei fundo, desviei o olhar e tentei me manter sério. 1... 2... 3... 4... 5...
Levou a mão ao meu rosto e o acariciou. A tirei carinhosamente dali... Isso não vale!
6... 7... 8...
– Me leva, vai... – sussurrou no meu ouvido.
9... 13... 19... (perdi a conta).
Respirei ainda mais fundo... Meu coração quase saindo pela boca... Cerrei os punhos. Felizmente, eu ainda tive um pingo de consciência. Sabia que não ia conseguir vencê-lo (e nem queria), mas aquele não era o lugar nem hora de eu carrega-lo no colo. Tenho a mais pura certeza que ele também tinha consciência disso, mas adora me testar... Ama lutar contra a minha barreira de racionalidade... Conheço.
Já que era assim, resolvi jogar do seu jeito.
– Agora não, tá? – sussurrei e o encarei, com um sorriso de canto – Mas prometo que eu te levo até a sua Casa no colo quando voltarmos. – e lhe pisquei um olho.
Ele concordou, deu um sorrisão vitorioso e se levantou, me puxando pelo braço. Deu certo ;)
– Vamos! – exclamou animado, me levando para fora do carro.
Saímos e nos deparamos com muitos olhos impacientes sobre nós.
– Até que enfim! – suspirou Mu.
Todos nos reunimos no canto da calçada. O Mestre olhou ao redor para ver se nós oito estávamos ali, sorriu e disse:
– Então, Milo, o que quer fazer primeiro, criança? – olhou para ele.
Ele fez uma expressão pensativa, mas logo seu rosto se iluminou.
– Parque! – anunciou, com um sorriso animado.
– Tudo bem. – disse o Mestre, sorrindo levemente – Crianças, deem as mãos a mim, Saga e Aiolos, sim?
Fomos andando até lá. Havia um parque na cidade naquela época. Sempre íamos lá aos aniversários do Milo. Roda gigante, pula-pula, montanha-russa, trem fantasma, piscina de bolas, palhaços... Brincamos bastante aquele ano, comemos algodão doce, pipoca, balas, bebemos refrigerante e tomamos sorvete. Acho que nunca me diverti tanto com o parque como naquele dia... Depois de termos ido a todos os brinquedos e brincado bastante, o Mestre, quando conseguiu nos reunir novamente, disse:
– Bem, já ficamos bastante tempo aqui, garotos. – coçou a nuca – Vamos para outro lugar agora, senão não poderemos aproveitar coisas diferentes. Milo? – olhou para ele.
– Ammm... – pensou, com um dedo encostado na boca – Shopping! – anunciou com um sorriso.
– Sim, é claro. – disse o Mestre, concordando — Todos de mãos dadas, crianças!
Todos demos as mãos e nos agrupamos. Já sabíamos o que ia acontecer, já que o shopping era bem longe dali.
– Saga, por favor. – pediu o Mestre.
O Cavaleiro de Gêmeos assentiu e elevou seu cosmo. Criara uma ilusão para que as pessoas do parque não nos vissem sumir. Tudo se distorceu e sumiu... O Mestre nos teleportou e aparecemos na entrada do shopping. Saga ainda continuou a manter seu cosmo ativo, criando uma nova ilusão para que a multidão que passava pensasse que viemos andando normalmente até ali.
– Venham, meninos. – chamou o Mestre, satisfeito.
Eu e Milo dávamos a mão a Aiolos, Mu e Shaka a Saga e Aiolia e Deba, ao Mestre. Quando entramos, logo senti aquele cheiro de coisas novas característico de shopping e olhei a decoração colorida de vermelho, verde e dourado. Grinaldas, bolas espelhadas, estrelas, velhos barbudos com roupas vermelhas, renas, meias...
– Está todo decorado para o Natal. – disse o Mestre, olhando em todas as direções e sorrindo – Até que está bem bonito, não acham?
Milo, Shaka, Aiolos e Deba fizeram que não com a cabeça e expressões de repulsa.
– Ora, garotos. – disse o Mestre, repreendendo-os – O que eu lhes sempre ensinei sobre isso, hien?
– Devemos sempre respeitar as outras religiões e crenças. – respondemos em coro.
– Ótimo. – sorriu o Mestre, satisfeito.
Nunca me importei ou reneguei as outras religiões. E concordo com o Mestre que os cristãos realmente capricharam na decoração aquele ano. Estava tudo muito bonito e com ar alegre.
Me estranhei em estar apreciando a paisagem com tanta atenção, afinal, é bem difícil eu presta-la totalmente em decorações. Normalmente, isso é bem indiferente.
De repente, a escuridão se fez...
Cerrei os punhos e abaixei a cabeça. A tristeza veio como um golpe certo... Percebi que toda aquela minha vontade de viver aquele dia vinha de um desespero terrível no fundo do meu espírito...
... Aquele seria talvez, o último aniversário do Milo que eu poderia comemorar ao seu lado.
Rangi os dentes, mordi os lábios e senti o gosto de sangue na boca. Cruzei o braço livre sobre a barriga. Tentei, eu juro, me conter, mas não dava...
M-Meus olhos... Sim... Se encheram de lágrimas. Não me lembrava da última vez que aquilo tinha acontecido. Foi tão intenso que escorreram pelo meu rosto e caíram no chão claro. Não... Ele não podia ver isso. Eu não me daria ao direito de me entristecer... Não naquele dia, no seu dia. Não ao lado dele.
– Camus... – ouvi sua voz me chamar.
Ergui a cabeça e esbocei um sorriso, olhando em sua direção, mas não poderia encará-lo. Certamente ele ia perceber, ainda mais que eu não tinha conseguido conter a tristeza que deve ter emanado do meu cosmo.
– Oi. – respondi, passando o rosto no braço para secar as lágrimas.
– Que foi? – preocupou-se ele, me olhando por detrás de Aiolos.
– Nada. – disse eu, coçando a cabeça e olhando para cima, disfarçando.
“Para de mentir!”
“Mas não é nada, não! Eu tava olhando...”
“O que?”
Pensa rápido, pensa...
“O chão!”
“Que?!”
– O chão! – disse eu, fingindo estar animado e escondendo o meu cosmo com toda força – Ele é...
Ele me olhou com “cara de tacho”.
– ... Diferente do nosso. – disse eu, sem saber o que o piso poderia ter de tão interessante.
– Dãããããããããã... – fez Deba, que escutava tudo ao nosso lado – Sou um freezer retardado... Dãããããã! – fez, me imitando e zuando.
Entrei na dele e fiz cara de maluco com a língua pra fora. Fiquei aliviado quando Milo e ele deram risadas gostosas da encenação que eu fiz (e a minha integridade indo por água abaixo ¬¬).
– Que isso, Camus... – me repreendeu Shaka – Sempre achei que você não fosse certo mesmo.
– Tomou o remédio hoje não? – riu Mu da minha expressão insana inédita.
– Melhor internar, cara! Hahahaha! – riu Aiolos, me dando um chute leve.
– Ei, ei... – animou-se Saga – Olhem aquilo, molecada! – apontou para frente.
Olhei para onde ele apontava e acredito que meus olhos brilharam: era a pista de gelo!
– Uau! – fez Aiolia, e olhou para o irmão – Bem que você disse que tinha, irmão.
Era a minha chance de me distrair um pouco daqueles pensamentos terríveis, mas nem precisei demonstrar interesse:
– Mestre, nós podemos patinar?! – perguntou Milo, animado e me pegando pelo braço.
Olhei para os outros quatro, que também o olhavam cheios de expectativas.
– Claro, Milo. – respondeu o Mestre, piscando um olho – Mas só um pouco, ok? Temos que estar de volta ao Santuário às 17h e já são 16h.
– O picolé está no habitat! Hahahahahahahaha! – riu Deba, me jogando para cima e dando um ABRAÇO (faz isso até hoje, se me pegar distraído ¬¬).
– Ahhh, Mestre! – disse Mu, tristonho – Eu também queria!
– Eu também! – choramingou Aiolia – Tinha até pedido pro Camus me ensinar!
– Coitado do Camus, cara! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! – riu Aiolos.
– Nada, esse daí adora dar uma de professor, né rapá? – disse Saga, me piscando um olho.
O Mestre se agachou e nos olhou com ternura. Fez cafuné nos cabelos dos dois.
– Meninos, eu sei o quanto estão chateados, mas ainda voltaremos aqui para vocês patinarem outro dia, está bem? – explicou ele, olhando para Mu e Aiolia – Vocês brincaram bastante no parque... E o Milo é o aniversariante, logo é ele quem vai, ok? Justo?
– Justo. – responderam os dois em uníssono, voltando a sorrir. Até parece que crianças normais iam se contentar com essa do Mestre. Hehehehe. Nosso senso de justiça vem de berço ;)
Milo sorriu e me puxou em direção à pista.
– Devagar, sim? – ouvi a voz do Mestre ao longe.
Entramos na fila, que felizmente não estava longa.
– Caraca! A gente vai patinar no gelo! – ele estava muito contente, me abraçava e pulava ao meu redor – Que maneiro!
Lhe dei um sorriso de canto e balancei a cabeça negativamente... Só ele mesmo.
– Uhuuulll!
Não resisti e ri muito daquela felicidade pura dele... Tantas vezes ele tinha pedido ao Mestre para treinar comigo na piscina rasa da Casa de Aquário, mas sempre ouvia um “não” como resposta justificado pelo fato de que ele deveria focar em seu próprio tipo de treinamento e não me atrapalhar.
Eu estava feliz... Feliz em poder compartilhar com ele aquela experiência que queria tanto ter.
Quando chegou a nossa vez, o rapaz responsável pela pista nos olhou dos pés a cabeça, revirou os olhos e suspirou irritado.
– Onde estão os pais de vocês? – disse ele, impaciente.
Olhamos para trás e apontamos para o Mestre, que acenou sorrindo.
– Ok. – conformou-se ele – Calçam quanto, garotos?
Devo ter feito cara de desentendido. Afinal, eu patinava descalço nos treinos.
– Precisamos trocar os sapatos? – perguntou Milo, franzindo a testa.
– Sim. – respondeu o rapaz, irritado – Precisam colocar os patins.
– Algum problema, meu jovem? – disse o Mestre, que se aproximou de nós, estranhando a demora.
– Preciso saber o número que calçam, senhor. – respondeu o rapaz, olhando para nós e para o Mestre, devendo achar estranho um pai tão diferente dos filhos.
– Os dois calçam 30, rapaz. – declarou o Mestre, bagunçando nossos cabelos.
O responsável nos deu os patins de gelo, nos sentamos nuns banquinhos ali perto e os calçamos. Por Atena... Que estranho é andar com aquilo.
“Que show esses trecos, né?”
“Nada... Não sei usar isso.”
“Duvido.”
– Vocês vão precisar de ajuda certo, crianças? – perguntou o supervisor, cheio de certeza – Podem deixar que eu ensino a vocês.
– Não precisa, moço. – disse ele, parecendo orgulhoso – O meu amigo sabe patinar melhor que o senhor! – declarou, pegando minha mão.
Olhei para baixo, envergonhado. O homem se espantou.
– Ah, é? – respondeu ele, duvidando – Hahahaha! Tudo bem, então.
Nos ergueu do chão, nos passou sobre a mureta de proteção e nos colocou sobre o gelo. O Mestre e os outros se aproximaram para nos assistir, animados. Apesar daqueles patins desnecessários e irritantes nos pés, fiquei firme tranquilamente, mas o Milo...
– Ihhhhh... – fez ele, nervoso e tentando se equilibrar – IiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaauUUU!
Cheguei perto e o segurei antes que caísse.
“Meu herói.” Me piscou um olho.
Devo ter corado e olhei tímido para baixo, sem deixar de sorrir. Hoje ele estava demais... Por Atena.
– Vem. – falei, lhe estendendo a mão.
Ele sorriu e a pegou. Fiquei ao seu lado e o fui puxando devagar, lhe ensinado os movimentos com os pés e como se equilibrar. Ele tremia, inseguro no início, mas logo estávamos patinando lado a lado. Eu olhava para seus pés para vigiar se estava fazendo certo.
“Ei...”
O olhei de relance.
“V-Você... É... L-Lindo, sabia?”
Ah, minha Deusa, o que eu faço com ele? Devo ter ficado mais vermelho que meus cabelos. Desviei o olhar para baixo e senti as batidas aceleradas em meu peito. Sorte que percebi que a mureta de proteção se aproximava e nos desviei.
“M-Me faz muito feliz também...”.
Sorri ao ouvir aquelas palavras. Não resisti e retribui seu olhar. Aqueles olhos azuis me fitavam profundamente. O faço feliz?... Senti meus olhos ficarem mareados, mas consegui conter as lágrimas.
“Eu não sou bom nisso... Hehehe!”
Não soube em relação ao que ele estava falando. Se for para me deixar derretido em meio aquele monte de gelo, é um mestre e estava sendo muito modesto. Se for para patinar, bem... Ele estava aprendendo.
“Você está indo bem.” Lhe pisquei um olho e sorri.
“Ahh é? Em que eu estou indo bem, hien?” sorriu ele, se inclinou para frente e pegou a minha outra mão. Me encarou com brilho nos olhos “Por Atena... Muito lindo...”.
Freei os pés no gelo, arrancando umas lascas da pista e o segurei para que parasse também. Ficamos de frente um para o outro e ele me olhou dos pés a cabeça com um sorriso fascinado. Corei mais e olhei para baixo. Não consegui responder... Fiquei sem palavras...
“Patina pra eu ver?”
“Mas... E você?”
“Não combina comigo... Quero ver você... Te admirar no seu ambiente... Sempre quis... Realiza o meu pedido, por favor...”.
O encarei... Ele venceu. Tudo... Faço tudo... Por um sorriso seu... Assenti, e o levei até a mureta. O ergui da pista de gelo e o coloquei no chão do lado de fora.
Todos nos olharam sem entender. Eu os via fazendo olhares e gestos um para o outro se perguntando por que tínhamos nos separado. O Mestre foi até Milo, lhe ajudou a tirar os patins e o levou para perto do pessoal. Ele se debruçou na mureta e ficou me olhando. Vi Mu, Deba, Aiolia e Shaka fazerem o mesmo ao seu lado. Percebi que não só o Mestre e o pessoal estavam olhando, mas todas as pessoas que patinavam na pista e as que observavam em volta pararam para ver.
Devo ter corado de vergonha... Já disse que detesto ser o centro das atenções. Mas foi um pedido dele... Do aniversariante do dia... Daquele que mais me importa... Do... Meu amor.
Respirei fundo e me concentrei... Aos poucos, a imagem das pessoas ali foi desaparecendo como se fossem fantasmas. Agora, eu somente o via, além do Mestre e o pessoal. Me concentrei ainda mais, e passei somente a vê-lo ali, encostado na mureta e com um sorriso cheio de expectativas. Fui até perto dele e lhe fiz uma reverência sem deixar de encará-lo com um sorriso leve nos lábios.
Olhei para o gelo... Fazer o que ele havia pedido era muito fácil, natural e instintivo... Patinei de todas as formas possíveis e imaginárias, dei mortais e giros em todos os graus... Não faço ideia do quanto fiquei ali, mas me lembro que o tempo parecia ter parado. Eu me concentrei o máximo que podia para que aquelas lembranças que ficariam de mim para ele fossem eternas.
Até que parei, depois de fazer uma curva brusca e fechada, em frente a ele e repeti a reverência, sem deixar de sorrir. O encarei profundamente, deixando transparecer pela primeira vez um olhar apaixonado... Ele retribuiu, mas seus olhos se encheram de lágrimas.
Minha concentração se desfez quando o vi chorar... Desesperado... Senti seu cosmo voltar à beira do caos.
As pessoas voltaram a aparecer, juntamente com sons de aplausos e assovios altos e ensurdecedores. Corri até ele, mas fui erguido do chão pelo Mestre antes que pudesse tocá-lo. Olhei para baixo e vi os patins que eu vestia serem retirados por Saga, que também calçou meus sapatênis.
– Isso foi muito bom, Camus. – me elogiou o Mestre, e bagunçou meus cabelos – Crianças, vamos lanchar e partir. – e me pôs no chão.
– Um verdadeiro “showboy”! Hahaha! – riu Aiolos, me dando uns tapas nas costas.
Corri em sua direção e o abracei. Milo ainda chorava muito... Me abraçou e encostou o rosto no meu pescoço.
“Não... Não chora... E-Eu...”.
“V-Você... Foi p-perfeito... O-Obrigado...”.
“F-Foi pra você...”.
Ele me abraçou com mais força e chorou mais.
“Por A-Atena... N-Não me deixa... N-Não me deixa, Camus... E-Eu n-não p-posso v-viver... Sem v-você...”.
– Milo, para de chorar... – disse Shaka, olhando-o sem entender – É seu aniversário.
– É, Milo... – disse Mu, colocando a mão em seu ombro -... Não viu o show que o Camus fez pra você?
Ele chorou mais sem controle e gemeu alto. Fiz-lhe carinho na nuca e no rosto, secando as lágrimas que corriam ali.
– O que foi, Milo? – perguntou o Mestre, ficando ao nosso lado – Fale o que te aflige, criança.
Ele não conseguia responder... Soluçava e me abraçava o mais forte que podia. Eu sabia que não ia ficar no Santuário por mais muito tempo. O Mestre já havia me dito algo assim. Eu tentei me manter o mais forte possível, mas meu coração já estava em pedaços por não poder contradizer aquela verdade... Vê-lo daquele jeito me destruía... Eu me sentia incapaz de acabar com sua dor.
– O peçonhento ficou assim no carro também, Mestre. – declarou Deba, com as mãos na cintura.
– É! – confirmou Aiolia – Depois que o Saga disse que o picolé vai embora.
O Mestre lançou a Saga um olhar repreendedor. O Cavaleiro de Gêmeos desviou o olhar, parecendo indignado por ser repreendido.
“Ei... Eu não aguento te ver assim...”.
“F-Ficaa... A-Aqui... Camus...”.
Eu precisava acabar com aquela dor... Precisava protegê-lo, mas não havia nada que eu pudesse dizer que o confortasse... Somente mentir e dizer que eu ficaria. Isso nunca... Jamais .
Mas... Por algum motivo inexplicável, por instinto eu...
“O-Olha... Olha pra mim...”.
Ele ergueu a cabeça devagar e me encarou. Retribui o olhar, e o encarei profundamente. Não eram necessárias palavras ou gestos naqueles instantes... Eu apenas dizia com a alma o quanto o amava.
Aos poucos, as lágrimas em seus olhos secaram, sua respiração desacelerou e ele esboçou um sorriso tímido.
– Então, meninos? Vamos? – disse o Mestre, apressando-nos – Vamos comer?
– Sim! – responderam todos, menos nós dois.
Depois que todos viraram as costas, ele pegou minha mão e a beijou. Sorri, aliviado ao sentir que ele estava, ao menos, contente.
Demos as mãos ao Mestre, fomos andando até uma lanchonete lá dentro do shopping, nos sentamos em mesinhas por ali e lanchamos.
– Bem, garotos, infelizmente chegou a hora de irmos embora. – disse o Mestre, e deu o último gole em seu copo de suco – Gostaram do passeio?
– Siiiiiiimmmm! – respondemos todos juntos.
O Mestre sorriu e fez um gesto para um garçom, que lhe fez um sinal de “ok” e entrou na lanchonete. Depois de uns segundos, saiu trazendo... Um bolo de chocolate com seis velinhas vermelhas já acesas e uma caixa embrulhada num papel colorido.
Olhei para Milo já sorrindo. Ele olhava com os olhos brilhantes de alegria para o bolo e o presente, subiu na cadeira e debruçou na mesa.
– ÊÊÊÊÊÊÊ! – fizemos todos, sorrindo e olhando para ele – Um... Dois... Três e jáááá! – começamos a bater palmas e a cantar – Parabéns pra você, nesta data querida! Muitas felicidades! Muitos anos de vida! É big, é big, é big, é big, é big! É hora, é hora, é hora, é hora, é hora, é hora! Rá-Tim-Bum! Milo! Milo! Milo! Milo! AAAÊÊÊÊ!
– Faça um pedido, mané! – brincou Aiolos.
– Sem cuspir, que eu quero comer! – zuou Deba.
Ele me olhou sorrindo, se virou para o bolo, fechou os olhos e soprou as velas.
– AAAÊÊÊÊ! – fizemos todos ao vê-las se apagarem.
O garçom deu uma espátula para o Mestre, que a ofereceu ao Milo.
– Corte o seu bolo, criança. – disse o Mestre, sorrindo para ele.
Animado e totalmente sem jeito, cortou um pedaço que ia se desfazer todo da maneira que ele tentava retirar do resto do bolo. Rimos muito... Desengonçado era pouco. O Mestre o ajudou, pegou um guardanapo e repousou o pedaço.
– Esse primeiro pedaço é pra quem, hien? – riu o Mestre, dando-lhe a fatia de bolo toda destruída nas mãos.
Sem hesitar, ele me ofereceu o primeiro pedaço com um sorriso e o rosto corado. Retribuí o sorriso e o peguei, feliz. Como eu disse, ele me quebra/derrete fácil...
– O cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais! E o meu pedaço? – cantaram os outros, zuando.
Depois que todos fomos servidos e comíamos e bebíamos refrigerante:
– E o presente, Milo? – perguntou Shaka, curioso.
– Abre! Abre! Abre! – cantamos.
Ele pegou a caixa e rasgou o papel. Sorriu ao ver o conteúdo. Me inclinei para ver melhor: era um boneco de ação soldado medieval com a armadura brilhando de nova.
– Uau! Que maneiro! – exclamou ele, contente – Obrigado, Mestre! – e o abraçou.
– Que bom que gostou, Milo. – disse o Mestre, retribuindo o abraço – Bem, vamos indo, garotos. Já estamos atrasados.
Nos levantamos, o Mestre pegou o restante do bolo embrulhado pelo garçom e o agradeceu. Demos a mão a Saga e caminhamos em direção à saída. Passamos por muitos corredores repletos de lojas, mas uma me chamou muita atenção... Aliás, de todos nós, crianças. Afinal, que pequeno não fica fascinado ao olhar a vitrine de uma loja de brinquedos?
Por trás do vidro, havia muitas coisas legais. Eu olhei para uma coleção de livrinhos de histórias infantis clássicas e me interessei bastante...
Senti minha camisa ser puxada, olhei para quem o fazia e me deparei com um Milo boquiaberto e fascinado com o que via. Acompanhei seu olhar e vi o objeto de sua atenção: um dragão azul escuro de mais ou menos 1 metro de altura que tinha a boca aberta, parecendo rugir, e nos olhava furioso com as asas enormes erguidas. Era realmente muito bonito.
Ele olhou para seu soldado e para o dragão... E eu tive uma ideia no mesmo instante. Sorri animado.
“Isso!”
“O que?!”
“Ammm... O dragão! Ele é muito legal.” Disfarcei e olhei para baixo para que ele não desconfiasse de nada.
– Vamos, moleques! – ralhou Aiolos, nos puxando – Já tá todo mundo lá na frente.
Saímos do shopping, entramos nos carros, que já nos esperavam lá fora e seguimos em direção ao Santuário.
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