Mago da Água e do Gelo
10 O tempo é precioso
Notas iniciais
Quando os carros pararam na estrada próxima ao bosque de Rodório, descemos, nos unimos ao Mestre e observamos os veículos partirem dali. Logo depois, ele se virou para nós:
– Bem crianças, fico feliz que tenham gostado do nosso passeio em Atenas. É um dia especial onde nosso Milo completa seis anos de vida... – disse ele, sorrindo de início, mas tornando-se sério em seguida – Mas devemos continuar com nossa rotina em prol do Santuário e da Deusa a partir de agora. – cruzou os braços, parecendo cansado – Vamos voltar.
– Sim, Mestre. – respondemos em uníssono.
Começamos nossa caminhada de volta ao Solo Sagrado de Atena.
– E ai, Milo? – perguntou Shaka, animado e se aproximando dele para olhar o brinquedo mais de perto – Gostou do presente?
– Ahh, eu gostei sim! – respondeu ele, olhando para o cavaleiro medieval em sua mão e dando-o a Shaka para que ele o visse “com as mãos”, como toda criança gosta – Ele é muito show, né?
– Achei legal que a armadura é de metal mesmo. – comentou Mu, também se aproximando e dando umas batidas com o dedo no boneco, emitindo sons metálicos – Ferro, pra ser mais preciso. – concluiu sorrindo.
– Ihh... Olha o carneirinho se fazendo de sabichão! – implicou Aldebaran, imitando a pose de Mu – Vai pular cerca pra eu dormir, vai! HUAHUHUAHUAHUAHAUA! – zuou, dando uns pulos altos.
– Bééééé! – baliu Aiolia, se juntando a Deba para zuar o futuro Cavaleiro de Áries – Béééééé... É fééééérro... Bééééééé!
Esses dois eram extremamente inconvenientes de vez em quando. Mu os olhou, irritado, mas decidiu não dar o que queriam: atenção. Virou-se para frente, puxou assunto com Shaka, que devolveu o boneco a Milo, e continuaram caminhando. Achei estranho que Aiolia e Daba não insistiram na implicância como de costume.
– Mas o que foi mais irado foi o freezer patinador...! – disse Deba, cutucando Aiolia e lhe piscando um olho.
Me olharam com ar maroto. Ahh, sim. Mudaram o alvo. Agora, era eu (quase que como sempre). ¬¬
– É mesmo! Aê, sorvete! – chamou Aiolia, se aproximando de mim e me dando uns tapas nas costas – Você ainda tá me devendo umas aulas, hien? Hehehe! – riu ele.
– O peçonhento era VIP hoje. – zuou Deba, apontando para Milo, que lhe respondeu arqueando as sobrancelhas várias vezes e fazendo cara de importante.
– Caraca! Sabe o que eu lembrei agora, mané?! – animou-se Aiolia, me olhando – Daquela nossa queda na escada! Hahahaha! Te contei essa, Deba?! – olhou para Aldebaran, que voltara a dar pulos altos para zuar Mu, que fechou a cara e o ignorou.
– Não, pô! Qual foi?! – perguntou Deba, me pegando de surpresa, me erguendo do chão e me ABRAÇANDO mais forte do que o normal. Senti minhas costelas estalarem, mas não lhe dei atenção mesmo assim – Meu novo golpe: Picador de Gelo! Hahahahaha!
No mesmo segundo, o cosmo do Milo... Ah, não. O olhei de relance: sua expressão tinha mudado de contente para muito irritado. Aiolia riu alto e apontou para nós.
– Mas conta ai, bichano, da rolada na escada com o picolé! HUAHUHAUAHUAHAU! – disse Deba, me pondo no chão e rindo da cambaleada que dei pra frente – KKKKKKKKKKK!
– Tipo, eu cheguei todo molhado antes da gente sair porque queria dar umas porradas nesse friorento abusado... – contou ele, me olhando e rindo – Só que a escada tava escorregando por causa da chuva, e esse daqui me para do nada no meio do caminho. – me deu uma cutucada e riu mais – Muito louco a gente rolando! Ai, na moral, tu me pegou de jeito naquela, hien doido?!
– Hahahahaha! – riu Deba, olhando para ver se o Mestre, Saga e Aiolos não estavam olhando – Pegou de jeitiiiiiiiiinhoo, foi freezer?! – e fez um gesto obsceno que prefiro não descrever.
Os dois riam de chorar, sem perceberem que Milo se aproximou, me deu o boneco e tenho certeza que ia fazer algo totalmente irracional. O peguei pelo braço antes que pudesse avançar em cima deles.
“Ei, esquece.”
“Não!”
“Sim.”
“Não! Que droga é essa do Deba ficar te agarrando e você pegar o Aiolia de jeito?!”
“Deixa pra lá. Deba sempre faz isso. E com o Aiolia, bem... Foi um acidente.”
“Eles não acham! Me solta!”
“Que seja. Eu estou te dizendo que foi.”
Ele se virou e me encarou, irado.
“Ah, vai se ferrar!”
De novo? É a segunda vez em um dia que ele me manda essa.
Fez um movimento brusco com o braço e eu o soltei. Andou mais rápido na frente, me deixando para trás e com o presente de aniversário dele na mão. Respirei fundo e balancei a cabeça negativamente. Ele é difícil... Beeeeemm difícil às vezes, se me entendem.
Por incrível que pareça, dei um sorriso de canto, andei rápido e me pus ao seu lado. Ele me olhou espantado, sem esperar aquela reação minha.
– Você esqueceu. – disse eu calmamente e lhe estendendo o boneco.
Ele franziu a testa e o pegou bruscamente da minha mão, andando mais rápido.
– Humpf... – fez ele, fechando os olhos e virando o rosto pro outro lado, indignado.
Hehehe... Fica lindo até com cara de bravo. Deixei ele fazer cena, me tratar mal, pensar que está no controle e que me venceu: assim que se deve manipular criaturas perigosas como essa ao meu lado que finge me ignorar. Fiz até cara de triste e submisso, como se me sentisse muito mal com o que tinha feito de errado.
Sou teimoso... Muito. Mas sei ceder até certo limite para conseguir o que eu quero. Aprendam com o mestre:
Lembro-me muito bem da promessa que eu lhe tinha feito no carro mais cedo.
Quando chegamos ao Santuário e passávamos pelo pátio, o Mestre e o pessoal se separaram de nós. Eu não ia perder aquela oportunidade por nada. Antes que ele pisasse no primeiro degrau, me adiantei e me pus em sua frente com os braços meio abertos.
– Quem disse que você vai subir a pé? – disse eu, erguendo uma sobrancelha e sorrindo de canto.
– Tisc... – ele cruzou os braços, olhou para baixo e corou.
Estendi a mão, peguei um de seus braços, me ajoelhei e beijei sua mão. Me olhou e corou mais ainda.
– S-Seu... M-Maldito...
– Você começou. – disse eu, inclinando a cabeça para o lado com ar inocente.
– Cretino... Filho da p...
– Você pode... – disse eu, cortando-o, pegando-o no colo rapidamente e me levantando -... Continuar a me “elogiar” enquanto subimos.
– M-Me s-solta... – disse ele, fazendo cara de bravo e desviando o olhar.
– Ooohhh, sim. – respondi sarcasticamente e começando a subir – Quando chegarmos à sua Casa.
Me deu uns socos no peito e se debateu, mas sem força suficiente para me ferir ou se desvencilhar dos meus braços. Fazendo cena e manha... Orgulhoso... Vejamos até onde ele resiste.
– Calma. A gente já vai chegar e eu te solto, tá? – falei, e comecei a correr, passando pela Casa de Áries vazia e chegando à escada para Touro.
– Não! – pediu ele, me abraçando com toda força – Não... Não corre.
Desacelerei e voltei a andar, olhando para ele carinhosamente.
– Tá bem. – concordei, olhando-o de relance com um sorriso vitorioso.
– Não quero que acabe... – murmurou ao terminar de se entregar, e deitou a cabeça no meu peito.
Seguimos sem precisar de mais palavras. Vimos o entardecer e o Sol se por, além das estrelas banharem o céu que escurecia e a Lua cheia tomar seu lugar na noite durante o caminho. Devemos ter demorado umas quatro horas para chegar à Casa de Escorpião.
Quando chegamos, andei até a parte habitável da Casa e fui até uma sala com alguns sofás e uma mesinha de centro. O repousei em um sofá, mas continuei envolvido em seus braços, que me abraçaram mais forte.
– Dorme aqui? – pediu ele com voz manhosa, acariciando meu peito com o rosto.
Lá vem ele com esses pedidos difíceis. Eu queria mais do que tudo passar todo o tempo do mundo ao seu lado, mas nos era exigido que, desde crianças e mesmo como apenas futuros Cavaleiros de Ouro, nos postássemos em nossas Casas durante a noite. Lhe fiz carinho nos cabelos.
– Milo...
Antes que eu começasse a justificar a minha resposta negativa, uma grave e conhecida voz acompanhada de um cosmo muito poderoso e familiar ecoou pela Casa de Escorpião.
– Milo!
Ele me soltou e me encarou, fazendo uma expressão impaciente em relação a quem o chamava e interrompia aquele momento nosso. Se levantou e caminhou em direção ao saguão de entrada, me puxando pela mão para que eu o seguisse.
Ao chegarmos lá, soltei carinhosamente sua mão quando nos deparamos com mestre Altar. Nos ajoelhamos em respeito a sua frente.
– Ahh, meu jovem. – disse ele, parecendo exausto, porém alegre – Vim lhe parabenizar pela data de hoje. Eu estava em uma missão e não pude acompanha-los no passeio. Que Atena o abençoe, criança. – se curvou e o abraçou.
– Obrigado, mestre Altar. – agradeceu ele, abraçando o mestre de volta e sorrindo meio sem jeito.
O irmão do Mestre o soltou e se ergueu, virando-se para mim em seguida.
– Ah, Camus, já que está aqui... – disse ele, bagunçando meus cabelos -... O Mestre lhe aguarda em sua Sala, sim? Deseja vê-lo neste instante. – fez um gesto para que eu o seguisse – Venha, criança. Ele está cansado, não o faça esperar.
Olhei para Milo, que me retribuiu com os olhos preocupados.
“O que será que o Mestre quer contigo?”
Sorri tristemente.
“Ahmm, não sei... Mas, olha, e-eu... Nunca gostei tanto de subir essas escadas.”
Ele fez o mesmo.
“É... Eu também.”
– Camus? – chamou o mestre Altar, pondo as mãos na cintura.
“Eu vou indo. Boa noite. Fique com a Deusa...”.
“Tá... Boa noite. Se cuida, por favor...”.
Senti seu cosmo emanar tristeza e medo... Fui puxado educadamente pelo braço pelo mestre Altar e forçado a andar.
– Boa noite, Milo. – disse o mestre Altar, já caminhando em direção à saída da Oitava Casa – Que Atena esteja contigo.
Ele não respondeu... Olhei de relance pela última vez para trás e jurei tê-lo visto enxugar os olhos com o braço que segurava o boneco.
– O tempo é precioso, meu jovem. – disse o irmão do Mestre, enquanto eu andava ao seu lado e tentava acompanhar seus passos largos e apressados pelas escadas para a Casa de Sagitário – Muito precioso para os Cavaleiros de Ouro.
Eu o escutava, mas não prestava atenção em suas palavras. Me entristeci e preocupei com Milo... Os sentimentos ruins aumentavam em seu cosmo... Eu os sentia enquanto subia a escadaria e olhava repetidas vezes para trás, até que a Oitava Casa desapareceu da minha vista ao entrarmos na Nona.
– Está preocupado com algo, garoto? – perguntou mestre Altar enquanto iniciávamos nossa subida para Capricórnio.
– Amm... Não, mestre. – respondi, tentando me concentrar mais nas escadas... Naquele momento, mais uma vez me senti um completo incapaz de protegê-lo.
Suspirei inconformado. O que estava ao meu alcance naquele momento era somente a Deusa e Sua benção. Rezei em silêncio, pedindo a Atena que o protegesse e acalmasse seu espírito. Depois de alguns minutos de oração para Ela, algo em meu cosmo me fez sentir que ele estava bem... E devia ter adormecido. Sorri, agradecendo-A com todas as minhas forças e fé.
Mas arregalei os olhos e parei subitamente quando toquei da situação corrente por completo. O Mestre queria falar comigo! Será que eu havia feito algo errado?!
– Humm... Bem, andemos mais rápido. – disse e me pegou no colo – Shion tem muitas coisas a fazer, criança.
Correu em velocidade sobrenatural. Nem consegui ver o caminho... Só enxerguei com nitidez quando chegamos à Casa de Aquário.
– Vista-se adequadamente, garoto. – pediu ele, me pondo no chão do saguão de entrada.
Mesmo que meio tonto, assenti, corri até o meu quarto e arranquei toda a roupa casual que eu trajava. Fui até o guarda-roupa, puxei uma túnica azul-marinho com detalhes dourados do cabide e a vesti. Abaixei, peguei uma sandália e a calcei, trancei suas tiras nos meus calcanhares e canelas e as amarrei. Penteei meu cabelo do jeito que deu, joguei a escova longe e corri de volta ao saguão de entrada.
Mestre Altar me olhou dos pés a cabeça e assentiu, aprovando minha vestimenta. Me pegou no colo novamente e só voltei a enxergar na entrada da Sala do Mestre. Ele me pôs no chão e fez um gesto para que eu andasse.
– Venha. – disse ele, repousando a mão em minhas costas.
Andei ao seu lado, sentindo um calafrio longo na barriga. Nossos passos ecoaram pela Sala, quebrando seu silêncio que imperava ali. Avistei, depois de contemplar o grande tapete vermelho que antecedia o altar, o Mestre sentado em seu trono com os braços repousados no colo e os olhos fechados. Trajava vestes brancas com detalhes verdes e usava seu elmo dourado.
Saga e Aiolos trajavam suas Armaduras e se postavam um a cada lado dele com as mãos para trás, compenetrados e cheios de honra. Mesmo inseguro da situação que seguia, eu ainda consegui admira-los e pensar que um dia queria chegar a, ao menos, um terço do que eram. O Cavaleiro de Gêmeos me olhou e sorriu, piscando um olho, e o Cavaleiro de Sagitário nos cumprimentou com um gesto de cabeça.
Nos aproximamos mais e eu me ajoelhei perante o Mestre, olhando timidamente para ele e os dois Cavaleiros de Ouro que o escoltavam.
– Shion... – chamou o mestre Altar, se aproximando do irmão e tocando uma de suas mãos.
– Hum... – murmurou o Mestre, abrindo os olhos devagar e olhando para quem o acordava.
– Camus está aqui. – anunciou mestre Altar em voz baixa, virando-se para mim e dando um meio sorriso – Vou me retirar. Saga... Aiolos... Camus. – olhou para os dois e para mim, que o reverenciamos com um gesto de cabeça — Com licença.
E andou até uma das portas que levavam aos aposentos internos e nos deixou. Olhei para o Mestre, que me encarou serenamente.
– Camus, eu lhe convoquei a minha presença – disse ele, se inclinando para frente e me olhando – devido ao tempo que corre sem piedade contra a sua permanência aqui no Santuário, criança.
Então... Estaria tão próxima a minha partida? Por Atena... Meus pensamentos imediatamente se voltaram para o futuro guardião da Casa de Escorpião... Continuei a encarar o Mestre com o olhar vazio e distante.
– Bem, meu caro, estive observando e tendo a honra e alegria de presenciar a evolução de seu cosmo durante os anos que se passaram. – sorriu ele – Sua progressão nos treinamentos e nas aulas teóricas tem aumentado mais que satisfatoriamente, como me foi dito por meu irmão, Saga e Aiolos.
Assenti, sentindo minhas mãos suarem de nervosismo e uma cãibra dolorida no abdômen. Mal consegui me sentir honrado com o que o Mestre dizia. Não... Os sentimentos de incapacidade e impotência voltaram a assombrar a minha alma.
– Você sempre teve um poder fascinante, Camus, além de determinação e coragem dignas de um Cavaleiro de Atena. Me lembro bem de quando você era apenas um bebê e congelou uma maçaneta de metal maciço, mesmo sabendo que passaria de seu limite físico. – fez um gesto para que eu me aproximasse – Ficou todo ferido e me preocupou bastante... Tudo isso pelo seu melhor amigo.
Não me lembrava disso... Ele falava do Milo? Me levantei devagar, sentindo minha musculatura da barriga repuxar, e fui em sua direção sob os olhares amigáveis de Saga e Aiolos. Me controlei para não fazer qualquer expressão de dor.
– Aquilo me fez ter ainda mais certeza de que aquele bebê “do contra” – disse, sorrindo, e arrancando risadas bem baixas de Saga e Aiolos – tinha o espírito e dignidade e um futuro Cavaleiro de Atena.
Não consegui fazer o mesmo que eles. Meu raciocínio e senso de humor estavam completamente comprometidos. Eu estava cansado demais, e agora amedrontado e preocupadíssimo... Engoli seco, sentindo meu estômago embrulhar e se contorcer. O Mestre pigarreou:
– Eu e seus companheiros admiramos muito sua inteligência, disciplina e dignidade. – continuou ele, estendendo a mão e segurando carinhosamente a minha – Só ouço elogios a seu respeito. E fui informado por Saga que você já tem bastante controle do seu poder, além de ter presenciado hoje mais cedo seu domínio total sobre o gelo. – bagunçou meus cabelos, parecendo orgulhoso e satisfeito.
O Mestre fez um gesto para que Saga e Aiolos se retirassem. Ambos se entreolharam, andaram até poucos metros de distância, se ajoelharam perante ele e caminharam em direção à saída da Sala. Ouvia-se o som metálico das Armaduras contra o chão de pedra ecoando cada vez mais baixo, até que cessou.
Eu me sentia lisonjeado com aqueles elogios e reconhecimento, mas não consegui sequer esboçar um sorriso para o Mestre. Tentei esconder a tristeza e ansiedade, além de todos os outros sentimentos ruins que assolavam o meu cosmo, escondendo-o o quanto podia.
– Criança de Atena, eu entendo que sua futura e próxima partida o deixe triste e assustado... – me ergueu do chão e me sentou em sua coxa -... Mas é o seu destino como futuro Cavaleiro de Ouro de Aquário, Camus.
É... Nunca adiantou esconder nada do Mestre. Cruzei os braços com força e olhei para baixo, me defendendo instintivamente. Era como se todas aquelas palavras proferidas por ele fossem um ataque cruel e violento ao meu espírito, e me feriam cada vez mais.
– Em breve, garoto, você irá perdê-lo, – estendeu a mão e segurou o Pingente Sagrado em meu pescoço – e se tornará o Cavaleiro de Aquário, guardião da Décima Primeira Casa... O único Cavaleiro de Ouro que controla os átomos sem destruí-los, manipula a água e o frio. Deve fazer jus a isso. Você irá para a Sibéria, na Rússia. – anunciou ele, acariciando minha mão trêmula – Lá, você concluirá seu treinamento e realizará suas primeiras missões.
Não era tão longe quanto eu pensava... Mas o que isso iria adiantar se eu só poderia deixa-la sob ordens do Santuário? Quantos dias, meses, anos eu passaria isolado lá? Quanto tempo sem o...
... Milo.
– Hu-hum... – respondi e assenti, tentando me manter firme.
– Acredita que você, como Cavaleiro de Aquário e com seus poderes, alcançaria todo o seu potencial permanecendo aqui no Santuário? – perguntou, me encarando com uma sobrancelha erguida.
Franzi a testa e tentei pensar sobre sua pergunta. Fechei os olhos e levei uma mão ao rosto, cobrindo-o.
Eu... Era estranho. No fundo, sempre senti como se aqui não fosse o meu lugar, mas lutava contra esse pensamento todas as vezes que vinha à tona, pensando estar blasfemando e rejeitando o Solo Sagrado da Deusa. Afinal, que Cavaleiro de Ouro que se preze prega contra o Santuário?! O local que devemos proteger com nossas vidas e poder... Onde Atena repousará quando encarnar na Terra...
Eu estava perdido, sem saber direito o que pensar. Senti um gosto metálico inundar a minha boca e meu estômago se retorcer bruscamente. Ela... E somente Ela... Poderia me ouvir.
Atena...
“Minha Deusa, eu não... Sequer me sinto confortável com a temperatura da Grécia. Até que eu, durante os meus poucos anos de vida, consegui me adaptar e não mais reclamo ou sento tanto, mas aqui ainda é e sempre será quente demais para mim. Talvez eu esteja sendo ingrato para com o Santuário e Contigo. Nunca, mas em nenhum segundo, eu deixei de adorar-Te e servi-La. Minha vida e alma pertencem a Ti pela eternidade. Perdão... Por favor... Me dê forças... Para suportar...”
Estarei ligado eternamente ao Santuário...
... Pelo meu dever para com Atena...
... Pela minha Constelação, poder, cosmo, Armadura, Casa...
... Pelos meus companheiros...
... Pelo meu discípulo e legado que lhe deixei nos anos que se passaram...
... Milo...
... Milo...
... Milo...
... Milo...
Seu nome ecoava pela minha mente e a última visão que tive dele na Casa de Escorpião era nítida, como se estivesse ali... Eu sei que talvez não alcaçaria todo o potencial do meu cosmo e poder sendo mantido ali, mas por mais que fosse o meu destino e dever, eu não queria partir. Não... E se eu o perdesse? Ou... Nunca mais voltasse a vê-lo?
– Não... – respondi finalmente com voz de choro, sem me conter a tempo.
– Camus, sempre foi impressionante o seu controle sobre as emoções, criança, mas sinto seu cosmo oscilar desesperadamente. – disse o Mestre, procurando meu olhar – Lembre-se que o seu dever para com a Deusa deve ser maior do que qualquer outro propósito.
A cãibra voltou mais forte, e meu coração batia em ritmo de galope. Senti algo úmido e quente tocar os meus lábios e passei a mão rapidamente por ali, sem olhar para aquele líquido, cuja natureza eu tinha certeza. Fechei a mão com força para que o Mestre não visse...
– Seja for... – tentou dizer ele.
– E-Eu sei, M-Mestre... Perdoe a minha f-fraqueza... É que... – o cortei, sem querer e não conseguindo falar coesamente.
– Hum... – murmurou ele, acariciando meus cabelos – Dói muito, não é?
–... É... – concordei, tentando conter o choro e a dor lancinante.
O Mestre me abraçou. Senti seu cosmo calmo e poderoso me envolver, e as lágrimas correram pelo meu rosto. Não consegui controla-las naquele momento. Deu-me um beijo na cabeça e me encarou.
– Criança, o que é seu nesse mundo e nos outros será sempre seu. – seus olhos ficaram mareados e ele deu um sorriso leve – Não se esqueça. Nada pode tirá-lo por completo de onde pertence e do seu destino. Nunca, pela eternidade. – secou minhas lágrimas e me deu um beijo na testa.
O encarei com os olhos cheios de lágrimas. Aquelas palavras me deram um pouco de conforto... Que Atena o ouça, Mestre. O que irá doer demais e me matar aos poucos é algo chamado saudade... A falta de estar perto do Milo, do Mestre, dos meus companheiros e amigos, de onde eu cresci... Tudo isso seria arrancado de mim.
– Ei, senhor gelado... – disse o Mestre, fazendo carinho no meu rosto -... Você é repleto de amor. Muito amor... C-Chega a transbordar p-pelo seu c-cosmo... – levou a mão ao meu peito – Não permita por nada, nem pela morte, que ele o deixe... – chorou sem controle — Por Atena, c-criança, só use seu frio para se proteger e pela D-Deusa... Ou... Ah... – ele não conseguia falar.
Fiquei de joelhos em seu colo e o abracei forte. Eu o adorava demais e sempre será um dos meus maiores, se não o maior, ídolo.
– D-Desculpa, Mestre... O s-senhor está triste por minha causa...
– Me d-dói d-demais, garoto... F-Fazer vocês passarem por i-isso... É-é um c-crime dos mais c-cruéis contra s-seres m-maravilhosos... V-Verdadeiras o-obras dos d-deuses para s-servir A-Atena... E-Eu os criei p-perto de mim p-por minha escolha... M-Me s-sinto como um monstro... Eu os v-vi crescer... P-Para depois tirá-los da i-infância e da v-vida... – me encarou com os olhos injetados e cansados – V-Vocês s-são como meus f-filhos... Eu os a-amo muito.
Por Atena... O Mestre só poderia estar destinado aos confins dos Elíseos. O encarei, conseguindo sentir toda a dor que transparecia em seu cosmo. Nos criara com dedicação e amor... Ele já devia ter passado por tanto sofrimento em sua longuíssima vida, e estava ali: por inteiro, vivo, fiel incondicionalmente à Deusa por seus quase três séculos de vida...
Me senti egoísta, imaturo e mimado... Como eu podia dar tanta importância à minha dor, que na verdade, era por antecipação, frente a ele: o Mestre. Enxuguei a última lágrima que corria pelo meu rosto.
Ele nos contava tantas histórias, tantos fatos, tantos ocorridos... Batalhas, treinamentos incansáveis, seus companheiros e a imensa falta que alguns deles lhe faziam, tantas perdas... Tantas separações forçadas em prol do dever, afinal, nossas vidas pertencem a Ela.
– Também estou cumprindo meu destino e dever para com Atena, criança. – disse ele depois de um suspiro longo e pondo as mãos nos meus ombros – Cada um de nós os segue por meios distintos, mas sempre por Ela e pelo mundo.
Assenti, conseguindo dar um sorriso, mesmo que triste, pela primeira vez. Meu sofrimento não me deixou nem por um segundo, mas eu consegui, depois de ouvir tais dizeres do adorado Mestre, suportá-lo com maior força e compreensão.
“Obrigado Atena, obrigado Mestre...”.
Me deu um sorriso triste de canto e um abraço, que retribui com toda a admiração e eterno agradecimento que tenho por ele. Depois, desci de seu colo, andei até alguns metros de distância do trono e me ajoelhei em respeito e honra sem deixar de encará-lo.
– Camus, procure Aiolos e Saga amanhã antes do horário do treino. – ordenou ele, me encarando com seriedade – Volte aqui ao entardecer. Permissão concedida para se retirar.
Assenti, me levantei e o reverenciei. Ele assentiu com um gesto de cabeça. Me virei e andei em direção à saída.
Uma hora atrás, ir até a Sala do Mestre era considerado por mim e pelos outros como uma penitência e sinal de bronca, as escadarias eram gigantescas e cansativas e as nossas Casas eram bizarramente diferentes uma da outra. Esses foram as primeiras perspectivas e pensamentos infantis que eu sentia se esvaírem nitidamente.
Enquanto eu caminhava sobre o tapete vermelho, notava que Sala do Mestre não me parecia mais tão imensa e assustadora...
... Quando comecei a descer para Peixes, as escadarias das Doze Casas não eram mais tão extensas...
Quando passei pela Décima Segunda Casa vazia e olhei para a minha lá de cima, as Casas não eram tão diferentes assim.
Parei na entrada da Casa de Peixes e apreciei a vista ali de cima. O Relógio de Fogo, apagado naquela época... As Casas seguintes e as escadarias... O Coliseu... O pátio... O bosque... Até o Cemitério dos Cavaleiros ao longe... E as colinas.
O Santuário é um lugar perfeito. O berço de todos os Cavaleiros de Atena, que dizem ter sido arquitetado pela própria Deusa para que Ela pudesse conviver conosco e lutar ao nosso lado pela Terra quando alguma ameaça surgisse. Devo ter ficado uns vinte minutos ou mais ali admirando o Solo Sagrado de Atena no lugar do Afrodite... Hehehehe. Vou contar essa para ele depois (se eu lembrar, o que é difícil... ¬¬).
Não sei se com todos nós ocorreu um amadurecimento tão rápido... O que mais me recordo é de pisar na primeira pedra do chão da Casa de Aquário e olhá-la por inteiro com total atenção e interesse. Caminhei por seu interior com calma e devagar, passando a mão pela parede de pedra e admirando-a do teto ao chão. Não é porque é a minha Casa, mas é tão bonita... As paredes possuem um tom arroxeado que se pende para o azul escuro ao se aproximar do teto e do chão, que possuem tal cor.
É uma das menores das Doze, principalmente por ser redonda. Mas, modéstia à parte, tem uma das decorações mais marcantes, a maior biblioteca, uma piscina gigantesca de profundidade infinita e uma rasa do mesmo tamanho. Ah... Perdão, esqueci-me de mencionar que a temperatura máxima aqui dentro era de 11 graus antes que eu me tornasse Cavaleiro. O incrível é que o frio desta Casa não era mantido por mim naquela época (nem seria possível, já que eu ainda não detinha tanto poder)... É uma prova concreta de que o cosmo dos Cavaleiros de Aquário que me antecederam se mantém vivo eternamente.
Foi naquela noite em que eu percebi com clareza: tudo ali sempre foi perfeitamente arquitetado para o guardião que vos fala, porém a minha mentalidade de criança não enxergava toda aquela perfeição antes. Somente via a minha Casa e as outras, e todo o Santuário, como lugares ordinários em que eu vivia e passava todos os dias.
Por Atena e todos os deuses... Tudo aquilo era digno de adoração.
Parei em meio ao saguão de entrada e olhei admirado para todos os lados. Avistei uma das grandes estátuas que representam Ganímedes. Existem onze por toda a Casa, quatro delas no saguão de entrada. Eu nunca as havia contemplado com a atenção que merecem. São de mármore puro, que resiste aos milênios desde Eras Mitológicas. Algumas estavam danificadas, com partes quebradas ou rachadas, porém aquela à minha frente se encontrava totalmente preservada e deve ter uns 5 metros de altura.
Me aproximei dela e levei a mão até próximo de seu tornozelo, tocando o que seria a túnica que vestia. Não sei ao certo porque o fiz. Olhei rapidamente para cima ao ouvir um ruído de pedra em atrito...
... A estátua se moveu e olhou para mim... Por incrível que pareça, não senti nenhum temor, apesar de ficar espantado e estático. Ela ergueu as sobrancelhas e esboçou um sorriso leve e tenro quando viu quem a tocava. Dei um passo para trás e devo tê-la olhado boquiaberto enquanto se ajoelhava para me ver mais de perto. Inclinou a cabeça para frente e deve ter ficado menos de um metro de distância de mim.
Me olhou dos pés à cabeça e estendeu a mão em direção ao meu pescoço. A acompanhei com o olhar enquanto ela segurava com seu grande dedo indicador o meu Pingente Sagrado, lhe lançava um olhar orgulhoso e sorria mais abertamente. Esfreguei os olhos com as mãos, não acreditando que aquilo poderia estar acontecendo.
Isso nada adiantou. Abri os olhos e lá estava ela, deixando o Pingente e, em seguida, levando o mesmo dedo à minha cabeça e... Me fez carinho delicadamente, parecendo saber que me machucaria se não tomasse cuidado... Mas o que?! Eu estava enlouquecendo! Por que uma estátua estaria me fazendo cafuné?!! Pior: COMO uma ESTÁTUA estaria se mexendo?????!!
Agora eu estava assustado, e até irritado comigo mesmo. Aquilo só podia ser um sonho ou sei lá! Franzi a testa e dei alguns passos para trás. Ela recolheu a mão e me olhou, parecendo preocupada.
– Para! Você não pode se mexer! – falei alto, alterado – Estátuas não se mexem! – cerrei os punhos e senti minha mão suja de sangue, agora seco.
Ela deu um sorriso de canto e balançou a cabeça, voltando a me olhar em seguida e a me fazer carinho na cabeça com o dedo.
– E-Eu fiquei l-louco? – perguntei com a voz trêmula e cansada, olhando assustado para a estátua que havia ignorado totalmente o meu protesto contra aquela situação bizarra.
Ela fez que não com a cabeça.
– Mas como?...
Ela levou o dedo à frente da boca, me pedindo silêncio, e voltou a me acarinhar.
–...
Aquela última resistência tinha sido o último suspiro da minha tenacidade. Desisti de resistir e lutar contra qualquer coisa. Estava tão cansado... Uma exaustão acumulada por tudo o que havia acontecido no passar do dia. Aquele carinho estava muito bom e reconfortante. Era diferente de todos os que eu já havia recebido, e eu precisava tanto... Cedi e me aproximei mais da estátua, me encostando em sua coxa. Relaxei e me espreguicei...
A minha exaustão física e mental chegou ao ápice. As lágrimas correram pelo meu rosto, sem mais nenhuma barreira de racionalidade ou autocontrole para detê-las... Haviam surgido dos meus olhos instantaneamente e sem controle... Um grito da minha alma implorando por alívio. Comecei a chorar desesperadamente. Um choro que estava contido há tempo demais para uma criança.
... Milo. MIIILOOOOOOOOOOOOOOO!
Acredito que foi a primeira vez que eu chorei com intensidade. Gemia alto, soluçava, choramingava e passava as mãos e os braços pelos olhos, que os encharcavam... Me senti ser pego carinhosamente e abri os olhos, sendo encarado pelos da estátua, que me lançava um olhar cheio de compaixão e carinho. Eu estava sentado em sua mão, e acho que a vi repousar o jarro que carregava no outro braço no chão.
Com a outra mão agora livre, me fez mais carinho nos cabelos e no rosto. Senti me balançar tranquilamente com a mão que me carregava... Minha visão ficou cada vez mais turva, até que tudo escureceu...
“Isso... Durma... Durma bem, filho.”.
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