Notas iniciais
Bom dia pessoal! :) Tudo bem? Fiquei enrolada essas semanas com o mestrado e dei uma sumida, mas volto hoje com capítulo novo. Gostaria de agradecer imensamente ao comentário da querida Lili Kitsune! Amei! É sempre bom ter retorno e prestígio do meu trabalho ;) Aqui vamos nós...

Estava escuro... Muito escuro...

Tentei abrir os olhos, mas era impossível. Minhas pálpebras não me obedeciam... Para falar a verdade, nenhuma parte do meu corpo o fazia... Ao menos eu conseguia respirar, eu acho. Não, não... Nem isso. Porém, a dor havia passado.

Era estranho demais. Não sentia a superfície do chão que eu havia me chocado há poucos segundos atrás me tocar. A sensação que eu tinha era que meu corpo inerte flutuava no espaço sem rumo algum. Senti-me agoniado de início por não sentir o ar preencher os pulmões, depois desisti. Não valia à pena... Era desnecessário.

Bem, se eu não respirava, então...

Eu teria sido levado desse mundo? Aquela seria a realidade após a morte? Não... Não poderia ser verdade. Flutuar em meio ao nada sem destino?! Sempre nos haviam dito que seríamos recebidos às margens do Rio Aqueronte* pelo Barqueiro. Nesse momento, cheguei a começar a me desesperar por não ter nenhuma moeda para pagar-lhe a travessia. Sorte que o bom senso não me deixou por completo.

Mas eu ainda sentia... Podia ouvir meu coração bater lentamente, parecendo buscar forças para continuar. Tentei falar, mas minha boca sequer se entreabriu.

“Eu... Eu... Morri?...” (minha voz, mesmo em pensamento, ecoava por aquele espaço).

Mas não havia Rio, nem Caronte, nem margem, nem... Nada.

O que estava acontecendo comigo?! Tentei desesperadamente me mover de novo, mas sem sucesso. Tudo estava envolto em trevas. Até quando? Perdi a noção de tempo e espaço... Sabe-se lá há quanto tempo eu estava ali, deitado de bruços e vagando no que parecia ser uma dimensão paralela.

Dimensão... Teria sido o Saga? Mas por quê?! O que eu fiz?! Eu tentei! Eu corri com aquele peso até meu corpo inteiro falir e perder a consciência!...

...Estava sendo castigado?...

Sim... Eu merecia. Afinal, fui um fraco. Nem sequer teria mais uma chance. Eu, sendo um fracote, iria afetar negativamente o Exército da Deusa. A fraqueza deve ser eliminada sem piedade sempre. Se ela estava em mim, que fossemos para o Cocyto juntos. Sim... Minha racionalidade é extrema ao ponto de eu não ter nenhum apego à minha própria vida quando se trata de um erro imperdoável. Se a minha ausência eliminaria fraqueza do mundo, que fosse assim.

Milo... Meus amigos e companheiros... O Santuário... A Terra... Atena...

Nenhum deles merecia que alguém fraco como eu lutasse aos seus lados. Alguém esse que nem superara o primeiro treino... Deveria lhes dar a oportunidade de receber outro enviado digno daquele Pingente Sagrado que jazia em meu pescoço... Daquela Casa e Armadura divinas... Eu deveria morrer.

“Perdão... Milo... Pessoal... Mestre... Minha Deusa...”.

Meu coração desacelerou ainda mais, parecendo ouvir meus pensamentos. Batia sem vontade, prestes a desistir nos próximos instantes.

“Eu... Pensava que podia Te proteger. Que ia honrar-Te, lutar por Ti, pelo amor... Pela justiça... Pela paz... Pelo mundo... Mas... Não... Consigo... Eu... Falhei... Não... Te mereço... Que os deuses possam ofertar-Te um Cavaleiro mais forte e digno...”

Uma lágrima correu pelo meu rosto e senti o que pareciam ser as últimas batidas em meu peito.

Tum-Tum... Tum.................................................................................................

– CAAAAMUUUSSSSS! (ecoando ao longe)

“Camus...”

............................................................Tum...Tum-Tum... Tum-Tum... Tum-Tum... Tum-Tum...

Minha força voltou. A senti preencher meu corpo aos poucos... Abri os olhos e ofeguei. Pus-me de joelhos e olhei para minhas mãos. Depois, me olhei por inteiro e percebi que não estava no meu corpo físico... Era etéreo... Minha pele era circundada por uma aura celeste clara. Para comprovar, transpassei minha mão pelo braço, como um fantasma. Olhei para mim mesmo mais de perto e notei que estava meio transparente. Arregalei os olhos... E-Eu estava realmente morto... Só poderia ser uma alma penada vagando por uma parte escura do Inferno de Hades.

Mas... Eu tinha ouvido meu nome... Quem me chamava em meio aquele nada? Tinha alguém ali? Uma das vozes parecia a do...

“Milo?”

“Camus...”

Não era ele... Mas tinha certeza que o havia escutado antes. Essa era... Parecia a voz de uma mulher jovem. Ao longe, eu sentia um cosmo gentil e imenso se aproximar e me envolver. De quem seria? Me levantei e procurei em volta naquele escuro.

“Camus...”

“...”

De repente, encontrei uma luz... Uma luz dourada... Que vinha em minha direção e me cegava com sua intensidade. Levei uma mão à frente dos olhos e os fechei.

“Me desculpe, pequeno...”

“Q-Quem é...?...”.

Olhei para a luz com os olhos entreabertos.

“Minha criança, você Me foi dada com tanto carinho e honra... Perdão por toda a dor que sente... Perdão por todos os sacrifícios...”.

O cosmo me envolveu por completo. Era imenso, poderoso, puro... Sua criança...? Fui-lhe dado...? E-Espere... N-Não poderia ser... Seria m-mesmo...

“A-Atena?”

“Camus...”

E-Era... Ela. Só poderia s-ser. Aquele cosmo... Aquela voz doce e calma... Como me foi dito pelo Mestre uma vez. Tremi de emoção e olhei diretamente para a luz com um sorriso de adoração. Ela teria vindo buscar a minha alma? Mesmo depois do quanto a devia ter decepcionado? Caí de joelhos e repousei as mãos sobre eles.

“É... A... S-Senhorita mesmo...”.

“Meu futuro Cavaleiro, você foi muito corajoso e leal...”.

Abaixei a cabeça e desfiz o sorriso... As lágrimas correram pelo meu rosto e se perderam no nada. Como Ela poderia dizer aquilo de um fracassado...?

“Não... Minha Deusa... Não fui. Não o suficiente por Você.”

“As dificuldades e dor irão acompanha-lo e testá-lo em sua jornada, Camus. Irão tentar-te a desacreditar e a desistir.”

“E-Eu...”

“Mas Eu e todos aqueles que o amam nunca desistiremos e deixaremos de acreditar em ti... Nunca, Camus. Seu valor é inestimável, Cavaleiro... Para todos nós!”

I-Isso... Era...

#Flashbacks#________________________________________________________

Várias lembranças preciosas...

Mestre...

“V-Vocês s-são como meus f-filhos... Eu os a-amo muito.”

Saga...

“Sei que não vai nos decepcionar, mas só pra reforçar, dê exemplo, tá?”

Aiolos...

“Existe limite para nós?!”

Mu...

“Vai, Camus!”

Deba...

“Esse é o meu garoooto!”

Aiolia...

“Picolé instantâneo! Uhhull! Muito bom, filhote de iceberg!”

Shaka...

“Quase o bastante para me superar.”

Milo...

“V-Você... Foi p-perfeito... O-Obrigado...”.

“Boa sorte. Vou sentar na primeira fila pra te ver.”

“Isso! Você conseguiu, Camus!”

#Fim dos Flashbacks#_______________________________________________

Eles falavam comigo... Estavam ali em alma, e acreditavam em mim. Como eu pude pensar em desistir?! Eu posso ter errado... Nasci humano e cheio de defeitos, mas não iria deixar de lutar por Ela! Tudo de mais importante na minha existência nunca me deixaria! Isso era o que sempre importou!

“Pelo amor, paz, justiça, pelo mundo, por nós... Futuro Cavaleiro de Aquário, não desista. Eu jamais deixarei de lutar ao seu lado. Proteja a Terra, Camus.”

Por Ela, Milo, meus amigos e o Mestre... Pela humanidade, pela Terra... Eu lutarei até o fim!

“S-Sim... Eu Lhe honrarei, minha Deusa.”

Cerrei os punhos e voltei a olhar para a luz. Me arrepiei e ofeguei ao encarar aqueles olhos dourados que transbordavam tal cosmo energia repleta de amor. Ela me deu um sorriso leve e gentil.

“A-Atena...”

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– Me soltaaaaaaaaaaaaaa! – gritou Milo com voz de choro e desesperado ao tentar livrar-se das mãos de Saga, que o havia pegado no colo antes que corresse para a arena.

– Calma, garoto. – disse o Cavaleiro de Gêmeos – Sossega.

– Mas, Saga, vocês não vão socorrê-lo? – questionou Mu, preocupado.

– Ele está só desmaiado mesmo? – perguntou Aiolia, enquanto andava ansioso de um lado para outro.

– É, Saga, pô... – comentou Aldebaran — ... Ele tá caído ali cheirando poeira há um tempão...

– Foram só 5 minutos... Deixamos bem claro que vocês só deveriam assistir. – ralhou o guardião da Terceira Casa – Se estão com medinho, vão embora.

Ele olhou para Aiolos, que se mantinha no centro da arena com o Cabo atado à cintura e se protegia do sol que nascia com uma das asas da Armadura de Sagitário sobre a cabeça e lhe fez um gesto de “E ai?”.

O guardião da Nona Casa lhe retribuiu o olhar.

“Tá na mesma.”

– Pára, Milo! – resmungou Saga, prendendo ainda mais o menino entre seus braços – Que saco!

– CAAAAAAMUUUUUSS! — a voz do futuro Cavaleiro de Escorpião ecoou pelo Coliseu.

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Milo... Eu... O ouvi ao longe... Por ele, meus amigos, pelo mundo, por Atena!!

“Levante-se, Camus de Aquário.”

E a luz superou todas aquelas travas. A força que eu tanto precisava e não sabia de onde viria... Estava ali. Levei a mão ao peito e fechei os olhos.

Tudo se iluminou.

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“BRILHE, MEU COSMO!! ELEVE-SE AO MÁXIMO!!!”

Abri meus olhos, que queimavam devido à energia que percorria minhas células com magnitude nunca alcançada. Fixei meus olhos à frente e vi o chão de areia da arena, onde meu corpo jazia caído pesadamente. Movi meus braços e os apoiei no solo, forçando meu tronco para trás para me levantar.

– Por Atena! Vejam! – espantou-se Shaka.

– Sabia que ele ia levantar! – animou-se Mu.

Uma aura dourada circundava o meu corpo e reluzia como o Sol... Meus olhos se tornaram azuis e brilhavam, representando a cosmo energia que envolvia minha alma e corpo. Dor? Não... Nenhuma. Peso? Leves até demais aqueles aparatos. Meu cosmo, agora mais do que nunca, se tornara um com meu corpo e alma. Eu não sentia mais nenhuma dor enquanto ele transpassava todo o meu ser.

Pelo contrário... Sentia o meu poder fluir livre, movido pela motivação e força para seguir em frente. Naquele momento, eu realmente entendi e senti... Não existe... Nenhum limite para um Cavaleiro de Atena.

Na minha visão, tudo estava em câmera lenta. E eu ouvia os sons ecoarem em altura e lentidão descomunais. Eu enxergava o mundo com cores azul-arroxeadas. Olhei para o pessoal.

– Eeeeeeeeeeeeeeeeee! – ouvi a vibração de todos que estavam presentes. Mu, Aldebaran e Aiolia pulavam... Eu os via de maneira lenta e enxergava cada traço de seus movimentos, pois conseguia perceber cada espectro que seus corpos deixavam no espaço.

– Car@#$&! Olha a aura imensa dele! – comemorou Saga.

– Moleque bom! – me elogiou Aiolos.

– Camus! – chamou a voz chorosa de Milo.

Olhei em sua direção enquanto me levantava devagar, tentando manter o controle do meu cosmo e corpo. Era bem difícil, mas eu estava tão compenetrado que consegui com alguma facilidade. Saga o pôs sentado num degrau da arquibancada. O encarei.

“E-Eu pensei q-que... V-Você e-estava...”.

Sorri de canto e fiz levemente que não com a cabeça. Não... Não era a minha hora de partir desse mundo. Eu não pude deixar que fosse... Não depois que Atena veio a mim... E ao ouvir o chamado dele.

“Você... Conseguiu! S-Seu c-cosmo... Está brilhando m-muito... Uau! S-Seus olhos...”.

Uma lágrima correu por seu rosto e ele sorriu.

“Por Atena... Pelo mundo... Por você.”

“... Por... mim?...”

Sorri e lhe pisquei um olho. Sim... Por você.

Lembrei-me naquele instante que deveria completar o treino. Olhei para Aiolos, que me sorriu orgulhoso e me fez um sinal de “Pronto?”.

Assenti firmemente e olhei para frente, decidido... Aquela tarefa que antes parecia penosa e difícil ficou... Tão fácil. Comecei a correr novamente. Senti o ar bater no meu rosto e esvoaçar meus cabelos, meus pés mal tocavam o chão... Eu me movia com tal leveza que parecia totalmente impossível há minutos atrás. Aquele peso todo não era nada. Devo ter dado mais de 100 voltas em menos de 1 minuto.

– Calma! – gritou Saga, parecendo preocupado – Calma, Camus! Devagar!

Por quê? Eu estava calmo, como sempre. E me sentia melhor do que nunca. Devagar? Ué? Não me desafiaram a atingir a velocidade da luz? Jurei pela Deusa... E é o que irei fazer.

“Por Atena... Milo... Pessoal... Terra...”. Eu repetia em pensamento, fixado em correr... Correr... Mais... Mais... Não existe... Limite...

Me tornei incansável, e até inconsequente. Não parava por nada. Nem uma ordem do Mestre me faria fazê-lo. Meu cosmo impedia meu corpo de ceder à dor e exaustão. Aquele sentimento de liberdade e poder pleno me faziam sentir vivo.

– Calma, por#@!! – ralhou Saga.

O ignorei. Que droga...! Depois que eu passei por tudo aquilo, quer que eu vá devagar?! Não enche...! E o que ele queria dizer com “calma”?! Já disse que estou calmo. Estou quase sempre... 99,9% das vezes calmo.

– Ele tá rápido demais, Cupido! – desesperou-se o Cavaleiro de Gêmeos – Não tem controle!

Que rápido nada! Ainda falta muito para 300.000 km/h! Elevei ainda mais meu cosmo e acelerei. Mesmo com toda a velocidade em que eu me movia, conseguia enxergar tudo à minha volta como se eu caminhasse lentamente. Aquilo... Só poderia ser...

– Camus, pare! – gritou Aiolos – Pare já!

Não! Eu vou cumprir o que disse! É meu dever... Alcançar a velocidade da luz! Ela confiou em mim... Deu-me mais uma chance! Por Atena!

– Pare! – gritou o Cavaleiro de Sagitário, meio desesperado – É uma ordem!

Não existe limite... Para... Um Cavaleiro... Se quiserem me impedir, que seja à força. Perdão, Aiolos e Saga. Eu sempre os respeitei muito. Mas era a minha chance... Não poderia desperdiça-la. Nunca os desobedeci... Essa foi a primeira e última vez, juro.

– S-Seu rebelde! – ralhou Aiolos com a voz trêmula de nervosismo – O que há com você?! Eu mandei parar!!

“Me... Obrigue.” Concentrei ainda mais meu cosmo, que se elevou perigosa e anormalmente e acelerei mais.

– M-Maldição! – praguejou ele, indignado.

Ele alçou voo e veio em minha direção na velocidade da luz, porém, devido à minha visão e audição anormais, o vi se aproximar de mim lentamente.

– Droga! – Saga saiu da arquibancada e também foi me pegar. Na minha visão, era como se ele estivesse andando.

Tentei desviar dos dois, mas não tinha como. Eram muito mais velozes, sem sombra de dúvida. Eles me pegaram... Saga pelos braços e Aiolos pelos pés.

– Camus! – ralharam os dois.

– Seu petulante! – Saga me agarrou pelo tronco, enquanto eu me debatia e me forçava contra seus braços.

– Vamos leva-lo ao Mestre! – disse Aiolos, muito preocupado.

Eles não pareciam irritados comigo, mas extremamente inseguros... Por quê?! Tive muita raiva por ter sido interrompido... Eu estava conseguindo! Estava cumprindo meu dever e treinamento! Elevaria meu cosmo custasse o que fosse para honrar minha promessa para com Atena!

Que me levem ao Mestre! Não fiz nada de errado! Malditos sejam! Perdi o controle do ódio e indignação, assim como o do meu cosmo, que se elevava mais e mais...

– AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!! – gritei, enquanto sentia a temperatura do meu corpo diminuir rapidamente.

A aura dourada que me circundava crescia e brilhava cada vez mais... E meus olhos se tornaram inteiramente azuis.

– Seu maluco! Freezer! – gritou Deba, me zuando – Resolveu dar uma de Deba e Aiolia?! Nunca será! Hahahaha!

– É mesmo, iceberg! – zuou Aiolia – Tá muito nervosinho!

“É... Mesmo...?”

Desgraçados... Vocês... Vão ver... O freezer... E o iceberg...

Olhei para os dois. Visão das moléculas H2O ao redor de ambos... Zoom: átomos de vapor de água em torno de suas pernas.

“Parem.” Ordenei.

– Mas... O que...?! – gritou Aiolia, sem entender.

– Anh?! Ahhhhhhhhhhhhhhh!!! – desesperou-se Deba.

Os membros inferiores de ambos foram envoltos por uma grossa camada de gelo em 1 segundo.

– Está fora de controle! – Saga me virou de frente para si e me abraçou com força – Ele jamais agiria assim!

– Vamos ao Mestre! Depressa! – disse Aiolos, já correndo em direção ao pátio e derretendo o gelo com seu cosmo quando passou pelos dois, que batiam os dentes, me olhavam apavorados e sem reação.

Eu mantinha meu olhar fixo para frente e rangi os dentes... Já sem sã consciência.

– Vocês... Estragaram... Tudo... – murmurei com raiva – Atena... Confiou... Em mim...

“Camus!”

Eu ouvia ao longe... Aquela voz... Era do Milo.

“Camus! Está me ouvido?! Você está bem?!”

Não consegui responder. Comecei a tremer e a bater os dentes sem controle. A hipotermia que eu sofria era grave... Demais. Senti o suor gelado percorrer a minha pele por inteiro.

“Camus... Fala comigo!”

Não... Consigo... Perdão... Milo.

Saga e Aiolos me levaram à Sala do Mestre na velocidade da luz. Fechei os olhos e me encolhi nos braços do Cavaleiro de Gêmeos enquanto tinha um ataque de frio e quase escapava de seu colo de tanto tremer.

– Resista, garoto, resista... Por Atena e por nós. – ele sussurrava no meu ouvido enquanto me abraçava mais forte.

– Mestre! Mestre! – chamou Aiolos, desesperado.

Não sabia ao certo onde estávamos... Minha respiração ofegante e entrecortada ecoava pelo lugar.

– O que acontece?! – era a voz do Mestre – Por Atena! Esse cosmo é dele?!!

– S-Sim... – respondeu o Cavaleiro de Sagitário.

Saga assentiu e o olhou, preocupado.

– Ele está muito gelado, Mestre!

– Minha Deusa! – o Mestre se aproximou e me tomou dos braços do Cavaleiro de Gêmeos – Camus?!

Sem resposta. Eu não conseguia falar ou pensar naquele estado. O Mestre se sentou e encostou seu rosto no meu, segurando minha mão.

“Ei, senhor gelado. Consegue me ouvir?”

Silêncio.

“Sei que sim... Por favor, criança, faça seu cosmo parar de se elevar.”

Ofeguei e me encolhi mais. Senti alguém retirar o colete e as botas do Cabo do meu corpo, além de todas as minhas roupas.

“Faça-o parar, Camus... Ou ele irá matá-lo.”

Enxugaram-me e me envolveram em mantos. Senti três pares de braços me envolverem.

“Pare-o... Pare-o... Por Atena...”.

O Mestre me abraçava forte... O senti elevar seu cosmo poderoso para me aquecer, lutando contra o meu próprio, que iria me congelar. Saga e Aiolos também o faziam.

“Camus...!”

Me senti ser abraçado por mais alguém, que se deitou em cima de mim e beijou meu rosto. Recuperei o mínimo de consciência por mais esse calor que recebi...

“E-Eu tô aqui... Tô aqui com você... O Mestre, Saga e Aiolos também...”.

“M-Milo...”

De algum modo... Sua voz e toque me trouxeram de volta. Usei o que restava da minha força.

“CESSE, MEU COSMO!”

A cosmo energia foi deixando de arrebentar e percorrer as minhas células aos poucos... Senti muitos filetes de sangue morno correrem pelo meu rosto. E tremi pela última vez quando o calor dos cosmos deles superou o frio do meu, que se extinguiu.

– Graças à Atena! – disse o Mestre, acariciando meus cabelos.

– Nos desculpe, Mestre... – murmurou Saga, enquanto me soltava ao mesmo tempo em que Aiolos -... Nós o forçamos muito...

– Não, não... – disse o Mestre – Vocês foram bem, garotos. Não se culpem.

– M-Mas... Ele quase se matou lá embaixo... – entristeceu-se Aiolos -... Elevou seu cosmo sem limites... Não nos obedeceu... Atacou Aiolia e Aldebaran...

– Isso também lhes serve de lição. Afinal, ele é o primeiro que permito que treinem sozinhos. – disse o Mestre — Possuir um cosmo poderoso recém-desperto e motivação ao extremo pode ser perigoso para aquele que não sabe controla-lo. – ele riu – Atacou aquelas duas pestes?

– Sim... – respondeu o Cavaleiro de Sagitário.

– Hahaha! Congelou suas pernas só com o olhar! – riu Saga – Precisava ver a cara deles, Mestre!

– Hahahahaha! Isso demonstra o quanto Camus perdeu totalmente a noção de seus atos... – riu o Mestre, acariciando meu rosto – Esse aqui é paciente demais para revidar qualquer besteira. Haha!

– Concordo, Mestre. – disse Aiolos, intrigado – E acho que... Ele despertou o Sétimo Sentido.

– O Sétimo Sentido? – espantou-se o Mestre – Bem, acredito que é muito cedo para tal...

– Mestre, perdão, mas eu também acho que ele o fez. – acrescentou Saga – Afinal, tentou desviar de nós quando fomos a sua direção para detê-lo. Conseguia nos enxergar, mesmo que utilizássemos a velocidade da luz...

– É... Só não fugiu por falta de agilidade. – disse o Cavaleiro de Sagitário.

– Hum... – intrigou-se o Mestre – Isso é interessante, garotos. Certamente, ele teve uma razão muito forte para chegar tão longe apenas no primeiro dia de treino. Que Atena o guarde...

Milo continuava a me abraçar. Eu não conseguia me mover... Meu corpo latejava fortemente e meu coração batia acelerado. Com meu cosmo elevado, havia a ausência de dor e cansaço e eu forcei meu corpo demais naqueles momentos. Agora, conhecia as consequências do que, na verdade, foi irresponsabilidade minha. Mas... Eu queria tanto... Honrar... Atena...

Era uma dor quase insuportável... Mas eu não conseguia me perdoar por não ter alcançado meu objetivo e cumprido meu dever e palavra para com a Deusa. Gemi e uma lágrima de dor molhou a mão do Mestre, que me repousou sobre o que devia ser uma cama.

– Permissão para se retirarem, Saga e Aiolos. – disse o Mestre – Prossigam com o treino diário comum com os meninos, sim?

– Sim, Mestre. – disseram em uníssono. Ouvi seus passos metálicos deixarem o aposento.

Milo voltou a me abraçar e o senti se deitar ao meu lado.

“Você vai ficar bem, tá? Eu e o Mestre vamos cuidar de você...”.

“O-Obrigado...Milo...”

“Ssshhh...” me deu um beijo na testa “Tenta dormir...”.

– Milo, você deve descer para o treinamento. – disse o Mestre – Não os faça esperar.

– M-Mestre, p-perdão. – disse ele, com a voz trêmula – M-Mas eu posso ficar só mais um pouco?

– Hum... – o Mestre suspirou – Tudo bem. Mas só um pouco, sim?

– Muito obrigado, Mestre. – agradeceu Milo.

– Beba isso, criança. – disse o Mestre, enquanto me sentava e levava à minha boca um copo – Te fará sentir melhor.

Eu estava sem controle do meu corpo devido à dor e à dormência. Não consegui beber ou engolir direito aquele remédio. Me engasguei e tossi... Mais dor...

– Calma... – o Mestre me secou e deitou de volta – Hum... Pelo jeito, não conseguirei medicá-lo aqui... É mais prudente leva-lo ao hospital e interna-lo.

Hospital? Oh, não... Isso... Não... Milo...

– N-Não, Mestre... – disse ele, com a voz trêmula – E-Eu cuido dele.

– Milo... – tentou dizer o Mestre -... Esse não é o seu dever, garoto.

– P-Por favor, Mestre... – pediu com voz de choro.

– Entenda, criança... Camus está com muita dor. – explicou – Não é justo deixa-lo sem cuidados médicos no estado em que se encontra.

– Nãoooo... – chorou – E-Ele v-vai e-embo-ra l-logo... N-Não, M-Mestreeee... – me abraçou mais forte e encostou o rosto no meu peito – N-Não t-tira ele de mim...

O Mestre suspirou e aproximou seu rosto do meu.

– Tudo bem para você? – sussurrou no meu ouvido.

“Sim... Mestre...”.

– Certo. – disse ele, se afastando – Irei para a Sala do Trono receber alguns Cavaleiros. Já sabe onde me encontrar caso necessário, Milo. Você tem dez minutos para voltar ao treino. Que Atena os guarde.

– Q-Que s-seja. – assentiu o futuro Cavaleiro de Escorpião.

Ouvi os passos do Mestre deixarem o lugar.

Milo continuou a me abraçar, e acariciou meus cabelos.

“Aonde dói?”.

“T-Tudo...”.

“Humm... Olha... Não sei se vai dar certo. Mas posso tentar...”.

O senti me soltar.

“T-Tentar... O que?”

“Isso!”

De repente, senti uma pressão acima do umbigo que pareceu me dilacerar por inteiro.

– AAAAAAAAAAHHHHHHHHHRRRRRGHHHHH! – gritei e arqueei o tronco de dor.

“Doeu muito? Desculpe...”.

Se doeu? Ahhh, só um pouquinho (irônico ¬¬).

“O... Que... F-Foi... Isso...?”.

“E-Eu... Andei estudando um pouco e tentei atingir um ponto que cessasse a sua dor...”.

Andou estudando...? Isso mesmo que eu ouvi?

“Amm... Passou?”.

“N-Não...”.

“Será que eu errei? Vou tentar de nov...”.

“Não! Não precisa, Milo...”.

Nem pensar! O.o

“Tá bem...”.

Suspirei e tremi de fraqueza. O senti acariciar meu rosto com o seu.

“Tem certeza que não quer que eu tente mais uma v...?”

“Ahn-ahn... Não.”

“M-Mas...”

Com dificuldade, abri os olhos, que ardiam muito e deviam estar injetados, e o encarei.

“Só preciso de você. Nada mais.”

Ele sorriu lindamente e me deu um beijo na mão. Consegui mexer o braço e levei a mão ao seu rosto. A dor, mesmo que muito lentamente, parecia me deixar.

“Ei, doutor... Sua técnica deu certo.”

Ele se espantou e sorriu ainda mais.

“Caraca! Sério?! Tipo, sabe aquele livro que mestre Altar mandou ler sobre os pontos vitais? Achei muito maneiro e li rapidão! Essa técnica é sobre um ponto de origem de dor e bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla...”

Sorri e levei o dedo à frente de sua boca.

“Hehehe... Você já leu umas três vezes né?”

Pisquei-lhe um olho. Ele havia me surpreendido, realmente. Suspirei...

“O que adianta excesso de teoria?... Eu não o faria tão bem. Obrigado.”.

Ele fechou os olhos e sorriu, orgulhoso de si mesmo. Depois voltou a me encarar e acariciou meu rosto.

“Você ouviu o que eles disseram?! Você pode ter alcançado o Sétimo Sentido! Isso é muito... Nossa...!”

Dei-lhe um sorriso leve.

“F-Foi incrível... Você é sempre... Fantástico...”.

Fiz que não com a cabeça e beijei sua mão.

“Você quem é incrível... Vê? Estou me mexendo e com menos dor. Só você mesmo...”.

Seus olhos ficaram mareados e seu cosmo emanou tristeza, mas ele tentou se recompor. Secou os olhos com a mão e brincou...

“Como é sentir frio, senhor gelado?”.

Sorri de canto e ri baixo.

“É... Diferente. Me senti normal por uns momentos.”.

– Hahahahahaha! – ele riu alto.

“Normal? Você nunca chegará perto nem de disfarçar isso! Se alguém normal um dia te ver com esses olhos de monstro, vai sair correndo no mínimo! Parece até um vampiro! Agora tá pior ainda.”.

Dei-lhe um sorriso maroto.

“Ah, ok... Vou usar lentes de contato para não matar ninguém de susto.”

Sorriu e aproximou seu rosto do meu.

“Tô brincando. Eu... Adooro eles...”.

Suspirei e corei enquanto Milo voltava a me abraçar. Virei meu corpo devagar para o lado para ficar de frente para ele.

“São... Só meus... Para não assustarem ninguém, é que o seu lugar é... Aqui no Santuário... Comigo...”.

Também o abracei, e ele se aninhou o mais perto que pode de mim, repousando o rosto no meu peito. Ele não se conteve mais e chorou baixinho. Meu coração bateu dolorosamente ... Dei-lhe beijos pela cabeça e lhe acariciei a nuca. Suas lágrimas quentes molharam minha pele. As enxuguei carinhosamente e o encarei com os olhos injetados e mareados.

“Estou sempre contigo.”

Levei a mão ao seu peito e ele ofegou.

“Aqui.”

Nosso destino e dever como Cavaleiros de Atena seguiram traços distintos, mas por mais que o Santuário, a morte, ou os deuses intervenham...

... De algum modo... Seja possível ou impossível... Eu sempre estarei ao seu lado.

Notas finais
*Rio Aqueronte - O rio mitológico Aqueronte localiza-se no Épiro, região do noroeste da Grécia. O nome rio pode ser traduzido como "rio do infortúnio" e acreditava-se que fosse um afluente do rio Styx, este localizado no mundo dos mortos. Nele se encontra Caronte, o barqueiro que leva as almas recém-chegadas ao outro lado do rio, às portas do Hades, onde o Cérbero os aguarda.