Mago da Água e do Gelo

13 Sobre falha, orgulho, inconsequência e amor


Notas iniciais
Ufa... Estou de volta, pessoas queridas! :) Sei que demorei, e muito, demais, além da conta, absurdamente! :,( Mas é que a vida está punk mesmo, o tempo está passando rápido demais, e não me sobrava nem um tiquinho dele para escrever uma linha sequer :/ Para completar, meu note ainda deu defeito (mother of Atena). Mas estou de volta com esse capítulo gigantescamente gigante para compensar :) Gostaria de agradecer imensamente os comentários das queridas Lili Kitsune e kamyly. Amei muito, meninas! Boa leitura e que Atena esteja com todos ;)

Abri os olhos com alguma dificuldade e olhei devagar ao redor: pouca luz, teto, paredes de pedra e decorações vistas muito recentemente... Sim... Eu ainda estava no quarto do Mestre e deitado em sua cama. Devo ter adormecido devido a exaustão e fraqueza incontroláveis que me tomaram depois do acontecido no treino com Saga e Aiolos.

Virei para o lado e, ainda meio sonolento, respirei fundo e entrelacei meus braços para abraçá-lo... Mas...

– Mmmm... Hã...?

Mas ele... Havia se deitado comigo no que pareciam ter sido poucos minutos atrás! Eu... Dormi e perdi a noção do tempo. Me lembro da sensação dolorosa de vazio ao não senti-lo mais ali ao meu lado.

… Milo. Onde... Onde ele estava?!

Assustado, mirei os olhos para os lados e o procurei. Ergui rápido meu tronco e olhei mais amplamente ao redor, sentindo algumas pontadas de dor muscular pelo corpo todo que ignorei totalmente.

– M-Milo?... — chamei com a voz fraca, ainda procurando-o pelo quarto – Ah, não...Sim... — tentei pensar enquanto o buscava com os olhos.

Me recordei naquele instante da voz do Mestre dizendo que ele teria dez minutos para voltar ao treino. Meus olhos ardiam e minha visão estava embaçada, o que não me impediu de notar que já havia anoitecido ao olhar pela janela, que retratava as estrelas e a Lua trazendo alguma luz ao mundo envolto pela escuridão. Por Atena... Quantas horas eu tinha dormido??

Levei a mão ao peito e senti meu coração bater acelerado pela amarga sensação de tempo perdido. Suspirei irritado... Mais uma vez o fracasso voltou a assolar minha mente. Ainda não tinha me contentado com o fato de não ter conseguido cumprir completamente meu dever para com Atena. E agora...

… Havia perdido mais alguns minutos ao lado do Milo.

A cada segundo que se passava,o dia de minha partida para a Sibéria se aproximava... E eu não fui forte o suficiente para me manter acordado o pouco tempo em que ele pode estar comigo antes de partir para o treinamento.

“Maldição...”

Não pensem que fiquei louco, sei que ele passou o tempo que pode comigo, mas eu dormi... Aquela não era a hora. Que eu suportasse mais um pouco o cansaço e adormecesse quando ele partisse para o treino! Me irritei ainda mais e senti um desconforto interior quase que incontrolável. Talvez não fosse irritação ou raiva, mas desespero...

Cerrei os punhos e rangi os dentes. Minha vontade era de me punir. Sempre tive e terei muita dificuldade para me perdoar. Para falar a verdade, acho que nunca me perdoei. Somente aprendi a conviver com as falhas que considero ter cometido.

Duas no mesmo dia... Dei um suspiro triste. Normalmente, sou bom em controlar minhas emoções, mas me lembro bem claramente de como foi difícil naqueles momentos. Me sentia culpado e decepcionado comigo mesmo...

“Por que?...”

A temível sensação de não poder voltar no tempo e mudar acontecimentos que poderiam ter sido diferentes. Acredito que muitos de vocês já devem ter passado por um momento mais ou menos parecido.

– Tudo bem, Mu. — disse uma voz conhecida lá de fora – Podemos resolver isso amanhã, está bem? — a voz se aproximava do quarto – Vou ver como Camus está.

Fui desviado daqueles pensamentos quando ouvi tal voz e passos vindos do corredor acompanhados de um cosmo poderoso e inconfundível. A porta de madeira maciça do aposento se abriu devagar.

– Acordado, garoto? — disse a voz baixa do Mestre, que entrou no quarto pisando leve, sem ter certeza do meu estado.

– Estou, Mestre. — respondi, sem conter um sorriso triste. Era impossível não se sentir, no mínimo, bem e acolhido com a presença dele.

O Mestre ergueu o dedo na direção de um lampião que jazia sobre a cômoda e este se acendeu. Me retribuiu o sorriso, andou até a cama e se sentou ao meu lado, levando a mão até minha testa para aferir minha temperatura.

– Normal. — certificou-se ele, retirando-a – Como se sente?

– Ammm... Bem, Mestre. — omiti e fiz que sim com a cabeça – Obrigado.

Eu não iria ocupá-lo com meus problemas, os quais deveria solucionar sozinho. O velho Mestre já detinha afazeres e trabalhava demais para precisar se preocupar comigo. Deveria estar cansado e desejando ter seu merecido descanso em sua cama... Me levantei devagar, me pus de pé e logo encontrei meu calçado.

– Ei, Camus. — me chamou ele.

– Hum... — olhei para o Mestre enquanto amarrava o cadarço.

– Não faça mais nenhuma loucura como a de hoje, está bem? — advertiu ele, me olhando sério e com uma pintinha da testa erguida.

Dei um sorriso de canto e assenti. Algo dentro de mim me dizia que o que ele acabara de pedir era um absurdo. O Mestre riu baixo e balançou a cabeça negativamente.

– Tenho certeza que sim! — disse sarcasticamente e riu mais – Está ótimo. Esse é o espirito de um jovem Cavaleiro. — se inclinou para frente e bagunçou meus cabelos.

Sorri, me sentindo até um pouco orgulhoso. Ao menos o espírito de um Cavaleiro eu tinha, afinal. Fiquei sério, me pus a sua frente e me ajoelhei em respeito.

– Permissão para me retirar, Mestre. — pedi.

Ele cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado, parecendo entristecido.

– Tem certeza, Camus? — preocupou-se ele.

– Sim, Mestre. — me mantive firme.

– Permissão concedida. — disse o Mestre, enfim.

Me ergui e lhe cumprimentei com um aceno de cabeça, o qual me retribuiu com o olhar cansado.

Dei meia-volta e segui pelo longo corredor calçado pelo cumprido tapete vermelho até o o saguão de entrada, onde passei pelo Trono vazio do Mestre. Senti bastante que minhas pernas ainda estavam dormentes e bambas enquanto eu descia as escadas para a Casa de Peixes.

Olhei para o céu enegrecido e estrelado em busca da minha Constelação, até que a encontrei... Nem sei muito bem porque o fiz... Era como se eu precisasse ver a reação dela, que surgiu timidamente por detrás de algumas nebulosas.

“É... Também estou envergonhado.”

Parei de descer automaticamente a escadaria para admirá-la um pouco e inclinei meu tronco para trás, tentando vê-la melhor. Apesar de conter um número considerável de estrelas, estas não são muito brilhantes.

“Poderiam brilhar mais se este guardião fosse mais digno de vocês...”

Sim, sei que se perguntam como estrelas podem esboçar alguma coisa que não previsões astrológicas ou algo assim... Mas este Cavaleiro que vos fala tem uma relação muito próxima e, pode-se dizer, inexplicável com sua Constelação. Acho que isso ocorre (ao menos, deveria ocorrer) com a maioria dos Santos da Deusa.

De repente, ouvi passos metálicos e apressados vindos na minha direção. Aquele cosmo instável e marcante... Só poderia ser o Saga. Mas que droga... Só faltava essa para completar o meu dia. Logo ele veio dar de cara comigo!

Me senti ainda mais culpado... Me lembrei de suas palavras antes de descermos para o treino e como depositou sua confiança em mim, dizendo que sabia que eu não ia decepcioná-lo e pedindo para que eu desse exemplo para meus futuros companheiros.

E que maldito exemplo que eu dei???! Derrota, fracasso... Pra completar, ainda os desobedeci. É... O Mestre estava certo quando pediu que eu não fizesse mais nenhuma loucura... Já fiz muitas durante os anos que se passaram, mas essa foi memorável U.U

Como muitos dizem: a primeira vez a gente nunca esquece. Sem pensamentos a mais, por favor ¬¬

Voltei a descer as escadas, pensando em como não encontrá-lo. Com certeza, eu deveria estar merecendo uma surra. Não tinha como olhar para ele... Me sentia o pior. Tentei ocultar meu cosmo, acelerei o passo e desviei meu caminho para a diagonal, tentando evitar aquele encontro.

– Camus!

Tarde demais. Maldição! Bem, se era inevitável, que assim fosse. Acho que não poderia ficar pior mesmo...

– Hum...? — parei e o olhei, sem encará-lo.

O Cavaleiro de Gêmeos andou até mim e procurou meus olhos. O encarei, enfim, mas... O que recebi dele foi um sorriso aliviado e meus cabelos bagunçados. Saga se manteve alguns degraus abaixo para nivelar nossas alturas e pôs as mãos em meus ombros.

– E ai, ô do Sétimo Sentido? — brincou ele – Se sente melhor?

Amm... Não era um esporro? Bronca? Ou uma lição de moral? O.o

– Aham... — assenti cansado, mas surpreso. Não esperava, nem remotamente, essa recepção dele.

Ele me piscou um olho e me sacudiu, implicante.

– Que desanimação é essa? Não tá pronto pra outra? — ergueu as sobrancelhas várias vezes e sorriu, desafiador.

O que ele disse? Nossa... Era sério?! E-Eu... Teria outra chance? Só podia ser alguma sacanagem... Era bem típico dele.

– Outra...? — murmurei, encarando-o com expectativa e sem entender, mas ao mesmo tempo me preparando para uma zuação.

Ele me olhou sem entender o porque da minha reação. Senti outro cosmo familiar e poderoso se aproximar.

– Olha ele ai!! — disse uma voz animada – Quase matou a gente de susto hoje, hien?!

Aiolos vinha planando escadaria acima. O olhei surpreso, enquanto ele se pôs ao lado de Saga e começou a me dar socos leves, enquanto ria. Sorri levemente e tentei me concentrar em defendê-los.

– Claro que sim, Camus. — disse Saga, juntando-se ao Cavaleiro de Sagitário na brincadeira – Amanhã, nos mesmos horário e lugar.

– M-Mas eu... — tentei dizer enquanto me defendia e desviava dos “ataques” dos dois.

– Mas você o que? — perguntou Aiolos, agora também me chutando.

Por Atena... Eles me treinariam mais uma vez! Eu teria outra oportunidade de me provar digno da Deusa! Sim... Dei um sorriso inevitável e aliviado.

– Pensei que não teria outro treino... — confessei, olhei para baixo e desfiz o sorriso.

– Como? — não entendeu Saga.

– Hahahahahahaha! — riu Aiolos, olhando para o guardião da Terceira Casa – Traumatizamos ele, Xerox! Hahaha!

Saga riu e me deu um tapão no ombro. Fiz que não com a cabeça, com um sorriso de canto meio sem jeito. Os dois se entreolharam, ficaram sérios e me olharam com atenção.

– Achei que não me dariam outra chance, já que falhei. — disse eu, e cruzei os braços.

– Como é? — Aiolos franziu a testa e me olhou sem entender.

– Falhou? — Saga fez o mesmo.

– Sim... Falhei em alcançar a velocidade da luz. — expliquei, olhando-os seriamente – Não acreditava que haveria alguma tolerância para aqueles que não cumprem seu dever para com Atena.

Ambos se entreolharam novamente, sempre com ar de cumplicidade, e voltaram e me encarar. Saga sentou-se num degrau e bateu com a mão no chão ao seu lado, pedindo para que eu me juntasse a ele. Fiz o que ele pediu, enquanto Aiolos se manteve de pé a minha frente.

– Camus, não entendo qual é o seu conceito de falha. — disse o Cavaleiro de Sagitário – Mas não é o mesmo que o nosso, nem o do Mestre, muito menos o de Atena.

– É, garoto, eu digo o mesmo. — disse Saga, inclinando o tronco para trás e se apoiando com as mãos no chão sem deixar de me encarar – Você teve um excelente desempenho... Acho que podemos dizer: acima da média.

Isso não poderia ser possível. Eu não atingi o objetivo daquele treino, muito menos fui digno de qualquer mérito. Meus conceitos estão errados? Bem... Sou realista e racional. Só “funciono” assim na grande maioria das vezes. Ainda não li um dicionário inteiro... Mas serão estas as próximas definições que irei buscar em um: falha, fracasso, fraqueza...

Virei a cabeça para o lado, não conseguindo aceitar o que diziam sobre o meu “desempenho”.

– Ei, geladinho, você realmente achou que ia conseguir de primeira atingir a velocidade da luz? — perguntou o Cavaleiro de Gêmeos, agora cruzando os braços e me encarando com uma sobrancelha erguida – Não acha que é muita presunção da sua parte?

Presunção? Não... Eu jamais tive tal sentimento naquela situação. Simplesmente acredito que o mínimo que eu deveria ter feito seria superar todos os limites e o desafio de alcançar a velocidade máxima do Universo naqueles momentos. Nada mais. Era meu dever como futuro Cavaleiro de Atena. E Ela... Ela mesma veio a mim quando cai e desacreditei em tudo, me deu forças para me reerguer e despertou meu cosmo. Como eu poderia negar algo à minha Deusa?

– Eu... É... Achei sim. Não era para ser? — respondi, intrigado – E não foi presunção, Saga. Atena merece que eu dê minha vida por Ela, se preciso. Aquilo foi pouco...

– Acreditou que você, cheirando a leite, chegaria à velocidade da luz de uma só vez sem morrer, Camus? — disse Aiolos, se agachando e me olhando com um sorriso maroto.

Eu não entendi... Sempre me foi dito pelo Mestre, mestre Altar e pelos dois, e enfatizado no treino de hoje: não existe limite para um Cavaleiro. E agora... Eles querem que eu tenha limite? Que a morte seja o limite!

– Mas vocês mesmos me fizeram jurar perante a Deusa que eu atingiria a velocidade da luz por Ela... — disse eu, olhando perdido para ambos – E que não existe limite para nós. — franzi a testa — Hamm... Que eu morresse, então... — respondi e cruzei os braços, orgulhoso.

De novo os dois se entreolharam, sérios. Ergueram as sobrancelhas e suas expressões foram de espanto. Voltaram a me olhar com ar preocupado.

Naquele segundo, fui desconcentrado dos dois por uma terceira cosmo energia que se aproximara... Parecia vir da Casa de Peixes. Aquele cosmo inesquecível... Seria...?

– Então, a sua vida é tão desprezível que merece ser perdida em um treino? — disse Saga me olhando indignado e me desconcentrando daquela sintonia.

– Atena merece que um futuro Santo de Ouro A deixe tão facilmente? — indagou Aiolos.

Prestei bastante atenção no que disseram, fiz que não e me mantive firme.

– Se eu morresse, significaria que sou fraco demais para um Cavaleiro de Ouro. — declarei, alterando um pouco a voz – E nem digno de Atena ou do Santuário...

Os dois me olharam indignados e se entreolharam de novo. Continuei...

– … Então, que viesse um Cavaleiro melhor para Ela que não eu, que morri no primeiro treino...

– Camus... — tentaram dizer os dois.

– … E não valia à pena para o Exército Dela...

– Espera, garoto...

– … Então, não acho que eu esteja tão enganado com relação aos meus conceitos de falh...

– Cale-se! — gritaram.

Parei e os olhei, me mantendo na mesma posição.

– Pare com esses pensamentos extremistas! — ralhou Aiolos – Todos nós, Cavaleiros de Atena, somos muito preciosos para Ela, moleque. — me encarou, indignado – Ainda mais nós, Cavaleiros de Ouro, que somos os mais poderosos do Exército da Deusa! Tal como o metal de nossas Armaduras, somos valiosos demais... Tanto que só estamos presentes na Terra a cada centenas de anos! — me pegou pela gola da veste – Entendeu? Ainda pensa que deve esperdiçar seu poder, sua vida... Sua existência em um treino????!! — concluiu, alterado e ofegante.

Minha expressão se resumia em: “?????!!!!!!”, mas assenti. O Cavaleiro de Sagitário me pôs sentado de volta.

Saga suspirou e pareceu tentar se controlar para não perder a paciência. Pôs a mão no meu ombro.

– Tudo bem, Camus... Você está certo e fico muito feliz em ouvir tanta honra e adoração à Ela vindos de você. — disse ele, calmamente – Mas deve fazer valer tudo por Atena somente quando necessário. — suspirou novamente — Você deve ter bom senso... E amor à sua vida. Ela somente deve ser sacrificada por Atena. Lembre-se que ela pertence à Deusa. Do que adiantaria a velocidade da luz para alguém que não estaria mais neste mundo?

Sim... De fato, nada. Nem o mínimo de glória. Olhei para o chão e pensei bem no que ele disse, mas senti sua a mão apertar meu ombro e o olhei. Ele suspirou mais uma vez e me encarou seriamente.

– Devo dizer que sua indisciplina e irresponsabilidade foram deploráveis. — disse friamente.

Abaixei os olhos e corei, confuso. Ao mesmo tempo, senti meu orgulho se despedaçar. Agora vinha a parte do esporro, bronca, lição de moral que eu havia dito...

– Você errou, garoto. Iria desperdiçar tudo que poderia dar à Ela e ao mundo no futuro com uma bobagem deslumbrada e imediatista. — continuou ele – Nos desobedeceu e deu um péssimo exemplo para os outros.

Admito... Fui irresponsável e os desmoralizei perante meus futuros companheiros. Estava cego e deslumbrado com o poder que despertei... Queria orgulhar Atena, Milo, e a todos os que importavam... Me provar capaz de realizar o impossível... Milagres... Para falar a mais pura verdade, eu não pensava que a morte seria meu destino. Ou talvez eu não a desse a devida importância.

De repente, Saga me pegou pela gola, ergueu-me do chão e encostou a testa na minha:

– Se ignorar nossas ordens outra vez, vai virar raspinha de gelo. Entendeu? — disse, me encarando fundo.

Fiz que sim com a cabeça e desviei o olhar. Ao menos, servi de exemplo de que a rebeldia e desrespeito aos mais velhos e experientes não levaria ninguém tão longe. Se não fosse por eles dois, Milo e o Mestre, eu morreria congelado pelo meu próprio cosmo sem chance de escrever minha história...

Saga mudou sua expressão de rude para amena em um segundo:

– Maaaasss... Me orgulhei muito ao presenciá-lo realizando milagres por Atena logo no primeiro treino. — disse ele, bagunçando meus cabelos e me pondo no chão — Superou todas as adversidades, levantou-se com seu cosmo totalmente desperto e alcançou o Sétimo Sentido. De fato, não decepcionou com seu cosmo, poder e amor à Deusa...

Dei um sorriso de canto e assenti. Meu orgulho até que não havia sido tão ferido. Fiquei contente ao saber que lhe tinha dado um motivo para se orgulhar, e que não perdera a confiança em mim. Fiz algo de bom aquela manhã, enfim.

– Bem... Acho que já demos nosso recado. — disse Aiolos, me dando um último pontapé – Amanhã, hien? Te esperamos no Coliseu. Boa noite.

Saga me pôs de pé no chão e bocejou.

– Partiu então, besta! — disse ele – Até amanhã e boa noite.

– Aham... Boa noite. — respondi.

Os dois seguiram para a Sala do Mestre, enquanto eu continuei a descer a escadaria para Peixes com um turbilhão de pensamentos. Tentei ignorá-los um pouco com a expectativa de mais um treino. As falas de Saga e Aiolos passavam e repassavam pela minha mente.

Sim... Os dois estavam certos. Eu... Tenho um tendência bem forte para o extremo. Tento me controlar, juro, mas nem sempre dá certo. É... É uma droga.

Nasci humano... Humanos são bem imperfeitos. Alguns até demais. Tenho que conviver com as falhas que são possíveis para nós... Perdoá-las ainda é uma questão incerta. Rezei em silêncio para Atena enquanto passava pela Décima Segunda Casa vazia... Se eu não consigo alcançar o perdão, Ela consegue.

Quando cheguei à minha Casa, encontrei com uma dona Tália com uma expressão preocupada/zangada/ansiosa na entrada.

– Mas vejam só! Isso é coisa que se faça??! — ralhou ela, enquanto eu a encarava com minha expressão de costume – Os meninos me disseram que você quase morreu, mestre!

Dei um sorriso de canto. Essa velhinha era demais! Me dava cada esporro...

– Ai, minha Atena! — pronto, começou a chorar e me abraçou forte – Mestre, mestre... Não faça uma coisa dessas com a Tália!

– Eu estou bem, dona Tália. — disse eu, penteando com a mão seus cabelos longos e grisalhos – A Deusa esteve comigo.

Ela me encarou com os olhos encharcados.

– Ai, sim... Eu orei muito para que Ela colocasse a mão sobre essa sua cabecinha de vento gelado! — me deu um beijo no rosto e sorriu aliviada – Quer jantar, querido mestre?

Acho que ela não entendeu que Atena realmente esteve comigo, mas tudo bem. Hehehe... Fome? Sim! Não comi nada o dia todo.

– Quero sim. — respondi – Mas vou tomar banho antes.

– Tudo bem. — disse ela, virando-se para a cozinha – Vou preparar o jantar enquanto se banha, mestre.

Fui para o meu quarto e fechei a porta, comecei a tirar a roupa e jogá-la por todos os cantos, ainda pensando em tudo o que havia acontecido. Só parei quando percebi que o armário e a cama estavam arrumados, bem ao contrário do que de manhã quando acordei. Dona Tália passou por aqui.

Agora que eu estava pelado, me lembrei que havia acordado daquele jeito com o quarto em caos sem explicação. E o Milo do meu lado com a mão no... Bem, ele não tem jeito mesmo. Sem mais comentários. U.U

Falando nele: será que dava tempo de eu passar na Casa de Escorpião depois do jantar? Melhor: vou tomar banho e chamá-lo para comer aqui. Sim... Ahh... Ou não! Eu ainda tenho que preparar a surpresa de aniversário atrasado dele. Hehehe...

Me apressei e fui tomar banho. Talvez eu chegasse a alguma conclusão daqueles fatos anormais da bagunça no quarto.

“Por que aquela confusão toda...?”

Entrei debaixo do chuveiro, me encostei na parede e puxei meu cabelo para frente do ombro, deixando a água bater nas minhas costas. Me espreguicei, sentindo meus músculos de todo o corpo repuxarem, ainda doloridos.

De repente, olhei para o chão e para a poça que se formava ali... Acho que depois de tudo que aconteceu hoje, eu quis brincar um pouco. Pequenos normais devem brincar o dia inteiro e divertem-se bastante. Não é o que ocorria conosco, mas ainda éramos crianças... De seis anos.

Me ajoelhei e escrevi “OI” na poça. Normalmente, não seria legível... Nada ficaria registado ali. Mas comigo... Só as moléculas se manterem estáticas onde toquei ;) Nada que o mínimo de cosmo resolva com relação à água. Lá estava o meu “OI”. Dei um sorriso e pensei no que iria escrever na próxima v...

– Hã?!

Franzi a testa e não entendi. Virei a cabeça para o lado com muitos “???” sobre ela quando o “OI” se desfez. Mas... Eu não tinha feito nada que o destruísse. Arregalei os olhos e me levantei quando palavras surgiram na água aleatoriamente.

OI. DESCULPE O QUARTO SEM ORDEM. DORMIU BEM?

O que?! Mas... Por Atena! Meu coração acelerou e todos os pelos do meu corpo se eriçaram. Quem escreveu aquelas palavras que não eu? E... Mesmo que existam outros Cavaleiros ou inimigos que controlem a água, eles não estariam ali na Casa de Aquário... Estariam???

Procurei com os olhos e cosmo por alguém... Mas não. Eu estava sozinho.

É UM BOM COSMO.

Mas que diabos?!

DEVERIA TREINAR MAIS EM CONTATO COM ÁGUA.

Ah, é?... Hã... Não!

ESTÁ COM MEDO?

Se esse ser ou sei lá que está falando me deixasse pensar, pelo menos.

UM CAVALEIRO DE ATENA NADA TEME.

Suspirei, abaixei e respondi.

“NÃO ESTOU COM MEDO. QUEM É VOCÊ?”

ÓTIMO. NUNCA TENHA.

“VOCÊ BAGUNÇOU O MEU QUARTO?”

SIM. JÁ ME DESCULPEI.

“MAS QUEM É VOCÊ?!”

É MUITO DESORGANIZADO. NÃO ENCONTREI SEU PIJAMA.

“... EU NÃO SOU...”

VOCÊ NÃO IA SENTIR FRIO, ENTÃO TE DEIXEI SEM.

“QUEM É...”

AFINAL, DORMIU BEM?

“DORMI. MAS...”

EXCELENTE. BOM TREINO AMANHÃ.

Me irritei e dei um chute na poça.

MAIS RESPEITO, CRIANÇA!

– Mestre! Está na mesa! — chamou dona Tália enquanto batia na porta.

– Tá! Já vou! — respondi sem tirar os olhos da água, que voltara a ser límpida e corrente.

O que era aquilo que falou comigo? Como era possível?

Terminei o banho e me enxuguei do meu modo. Bem mais rápido, nada de toalhas molhadas esquecidas em cima da cama e consequentes broncas de dona Tália.

Fui até o armário, vesti uma cueca e o pijama.

“Nem estava tão difícil de achar...”.

Ah... Mas o que eu estava pensando?! Quem era aquele ser para julgar a minha desorganização? U.U O que importa é que eu me acho, não?

Fui até a sala de jantar e me sentei à mesa enquanto ela servia a refeição. Quando terminou, fez menção de se retirar. Sempre fazia... Não aprendia... Eu sempre gostei que ela me fizesse companhia.

– Dona Tália, jante comigo. — disse eu, chamando-a para a mesa – A senhora sabe que eu gosto que fique.

– Mas, mestre... — tentou dizer ela. Ia falar que não era certo criados e Cavaleiros comerem juntos, que cada um tinha seu lugar e função, blá blá blá...

– Tá, eu sei. — cortei sua fala – Mas a senhora é diferente.

Ela sorriu e assentiu, desistindo de argumentar. Se sentou de frente para mim, nos servimos, comemos e conversamos. Eu adorava a Dona Tália... Se eu pudesse voltar no tempo hoje, teria passado mais umas boas horas batendo papo com ela... Depois do jantar, me despedi dela e voltei para o quarto, escovei os dentes e sentei na cama.

Eu estava sem sono nenhum, afinal, dormi o dia todo. Não parava de pensar nos escritos na água. Era muito estranho... Por Atena. Não seria possível que alguém que não estivesse por ali realizasse tais feitos, a não ser que tivesse um cosmo extremamente poderoso.

Esperem um pouco...! A... Estátua! Não sei se foi um delírio ou sonho, mas...

Me levantei num pulo e corri até o saguão de entrada da minha Casa, indo na direção da estátua de Ganímedes que eu acreditava ter interagido comigo noite passada. Não sei como ela escreveria na água, mas tenho certeza que adormeci em sua mão! Parei de frente para ela e olhei para cima.

– Ammm... Oi? — murmurei, sem jeito.

Nada. Cutuquei seu imenso pé.

– Ei, sou eu. — falei.

Nenhuma reação. Não desisti, dei um pulo e fui parar no ombro da estátua.

– Poxa... — suspirei e abri os braços em protesto – Por que me ignora?

Um cosmo se aproximou rapidamente da minha Casa. Oh, não... Esse cosmo... Por Atena! Não tive como me esconder ou fingir. Tanta concentração em descobrir a origem daqueles fatos anormais na Casa de Aquário me impediram de sentir tal cosmo rápido o suficiente para não parecer um retardado.

– Porque ele é uma estátua... — disse uma voz acompanhada de passos... Aquela voz que, naquele momento, não poderia estar presente.

Congelei quase que literalmente. Ele não poderia ter visto isso. Imaginem algo constrangedor e multipliquem por infinito. Olhei para baixo e lá estava o futuro Cavaleiro de Escorpião me encarando irritada e profundamente.

– Não sabia que conversava com pedra, Camus. — disse ele, seco e ferino.

Eu não conseguia falar ou me mexer. Estava sem nenhuma reação. O pior é que eu não fazia ideia da razão dele estar bravo.

– É... É que... — tentei dizer.

– É o que?! — alterou-se ele, cerrando os punhos.

Franzi a testa, agora sem entender. O fato de eu conversar com um ser teoricamente inanimado deveria deixá-lo preocupado, mas não em estado de nervos. Estou errado?

Ele escalou a estátua em velocidade sobrenatural e parou na minha frente. Permaneci na mesma posição, mas encarando-o e totalmente desentendido. Ficamos nos olhando uns minutos, até que ele finalmente resolveu quebrar o silêncio.

– Quer dizer... — disse ele, sem firmeza alguma — … Que v-você não s-se importa com a-a sua v-vida?

Mas o que ele estava dizendo?! Como...? Ah, não... Por Atena...! Aquele cosmo que eu havia sentido por poucos segundos lá em cima durante a conversa com Saga e Aiolos era realmente dele...

– Eu ouvi tudo! Tudo que disse pra aqueles dois! — se alterou, abrindo os braços em protesto, já com os olhos mareados – Por que?! E eu?!

Percebi naquele momento o quanto ouvir aquelas palavras que proferi aos dois deveria ter sido doloroso, torturante, vil... Senti algumas pontadas de dor no abdômen, como se minhas vísceras se emaranhassem, e o jantar subiu estômago acima e desceu... Novamente, me senti cruel e maligno. Eu... Não podia... Eu o magoara de novo. Não era possível que estivesse acontecendo!

– Hien??! Fala! — gritou ele, desesperado por uma reação minha – Acabe comigo de uma vez!

Malditas sejam aquelas palavras ditas sem pensar, movidas pelo orgulho cego e pela ânsia de demonstrar valor e dignidade à Deusa... Mas... A morte... A possibilidade de perder a vida não tinha importância naquele momento. Foi algo que fugiu do meu controle... Um erro que não teria conserto se Saga e Aiolos não tivessem interferido.

– M-Milo... — tentei dizer – Eu... Nunca... — me levantei e andei em sua direção – Deixei de pensar em você.

– Deixou sim! Você ia se matar lá embaixo! Jogar tudo fora por um treino! — alterou-se ainda mais – E eu pensando que tinha perdido o controle por acidente... Como sou idiota!

Eu não estava mentindo... Todos sabem disso. Eu pensei nele o tempo inteiro daquele treinamento... Não... Durante toda a minha vida, sem nenhuma interrupção. Abaixei os olhos, me sentindo ainda pior. Tentei falar, mas ele me impediu...

– Por... Que?! — disse ele, quase sem voz devido ao choro.

E me olhou, com a tristeza e desespero estampados em todas as partes de seu ser. Seus olhos azuis injetados e cheios de lágrimas. Não, por favor... Não aguento... Por Atena!

Dei mais uns passos a frente e o abracei enquanto ele chorava alto e sem controle.

– Desculpe... — sussurrei em seu ouvido, sentindo minhas próprias lágrimas molharem seus cabelos – Desculpa... Por favor... Não suporto te ver assim...

Ele chorou mais e retribuiu o abraço com a respiração entrecortada, apoiando a cabeça no meu ombro. Fiz menção de sentar e ele me acompanhou, e nos encostamos na cabeça da estátua.

– Atena e você me trouxeram de volta... E mereciam que eu desse o meu melhor... — continuei, acariciando seus cabelos e costas – Eu errei... Fui inconsequente... Tolo... E orgulhoso... Mas jamais deixei de pensar em você...

Ele me encarou e eu sequei suas lágrimas.

– Milo, eu acreditei... Que não valia mais a pena continuar vivo... Pelo fracasso no treino... Mas, eu te ouvi... Me chamar... Quando desmaiei nos braços do Mestre... Você tirou me tirou a dor quase insuportável... — continuei, olhando-o profundamente – Eu teria sido levado desse mundo... Teria me rendido à morte... Não havia razão... Se não fosse por você...

O futuro Cavaleiro de Escorpião continuou a me encarar com a alma. Aproximou seu rosto e encostou sua testa na minha.

– Você é tudo pra mim... Não sei se tem noção da dimensão disso... — disse ele, ainda chorando – Mas é tudo mesmo... — acariciou meus cabelos – Tudo...

– Eu tenho sim... Sinto o mesmo por você... Nunca se esqueça disso. — sussurrei.

– Não... Faz... Mais... Isso... — se descontrolou e chorou mais – E... Não... Esconde mais nada... De mim...!

Assenti levemente e lhe fiz carinho no rosto. Milo voltou a me abraçar e deitou a cabeça no meu peito, enquanto eu lhe fazia cafuné e lhe acalmava. Ficamos assim muito tempo... Eu adorava aquele momento em cada segundo que se passava. Meu coração batia acelerado e aliviado com a presença dele.

Não sei se compreendem, mas com o passar dos anos, cheguei a conclusão de que o amor jamais se divide. Se isso ocorrer, não se trata do sentimento em questão, ou talvez esteja contaminado por um ruim. As pessoas devem pensar bastante quando dizem amar algo ou alguém. O amor se multiplica, gera frutos e consequências boas.

Foram nesses minutos em que eu compreendi totalmente: não há limite para um Cavaleiro. Nenhum. Ainda mais para mim que, além da Deusa, tenho o Milo... Ele me faz ter a total ausência de limitações. Não que o que sinto por ele supere o que sinto por Atena... Ambos os sentimentos se completam, e sempre me fizeram melhor a cada dia.

– Camus...? — chamou baixinho.

– Hum?

– Por que você tava falando com a estátua? — perguntou ele, me olhando curioso.

Ergui as sobrancelhas e dei um sorriso sem jeito. Parecia insano, mas...

– Caramba! Isso é muito doido... — disse ele, após a minha explicação longa.

– É, eu sei... — concordei.

– Será que você tava alucinando?

– Sei lá, mas que parecia muito real... Parecia. — respondi, me espreguiçando – Mas deixa pra lá...

– Ahmmm... Será que as estátuas da minha Casa fazem isso também? — supôs ele, com ar pensativo.

Dei um sorriso de canto e disse:

– Tenta... Junte-se a mim na insanidade. — lhe pisquei um olho.

– Hehehehe! Vou tentar. — riu, com os olhos ainda avermelhados e bocejou – Ahhhhh...

– Como foi o treino hoje? — perguntei.

– O mesmo de sempre, mas o pessoal não parava de comentar de você, que arrasou no treino, zoei o Simba* e o Ferdinando** pela gelada que deu neles... — sorriu e me abraçou – Fiquei orgulhoso...

Retribui o sorriso e fiz que não com a cabeça, sendo modesto. Fiquei muito feliz de ter lhe dado motivo para se orgulhar, apesar de não ter demonstrado.

– Amanhã tem mais pra você, né? — perguntou, acariciando meus cabelos com o rosto.

– Aham. — respondi enquanto enrolava uma mecha de seus cabelos com o dedo.

Ele parou e me encarou preocupado.

– Tá tudo bem... — falei calmamente, beijando sua mão.

Ele sorriu levemente e corou.

– Eu queria... — disse ele com a voz manhosa — … Dormir com você.

Ahh... Infelizmente, não era permitido que passássemos a noite fora de nossas Casas. Eu também queria muito passar todo o tempo possível com ele. Mas... Eu tinha uma ideia.

– Fica, então... — falei, lhe dando um sorriso de cumplicidade.

Ele me olhou surpreso... Hehehehe. Logo eu, o certinho, querendo quebrar regras?

– Mas... — ele tentou dizer.

– Ahhh... Não vai amarelar agora que me deixou com vontade, vai? — disse eu, lhe fazendo carinho na nuca.

Seu rosto se iluminou e ele sorriu.

– Não... — e me olhou animado. Seu cosmo transbordava felicidade.

– Então vamos... — cochichei em seu ouvido — … Antes que dona Tália veja a gente.

– Tá. — ele sussurrou, animado.

Descemos devagar da estátua, rindo baixo com ar de crianças fazendo arte escondido e andamos na ponta do pé até o meu quarto. Fechamos a porta devagar e trancamos. Fui até o armário, peguei um pijama meu e lhe joguei para que vestisse.

– Meeestreee! — chamou dona Tália lá de fora, provocando risos em nós dois – Deixa a Tália arrumar a cama para ti.

Respirei fundo, enquanto Milo tampava a boca com as mãos para não explodir em risadas.

– Não precisa, dona Tália! — falei, tentando parecer sério – Já arrumei.

– Ah, então, tudo bem. — disse ela – Boa noite.

– Boa noite. — respondi, com a voz quase tremula de riso, enquanto Milo a imitava ao lado da porta.

Ouvimos seus passos se afastarem e rimos da situação. Peguei um lampião que estava aceso e o trouxe para o criado mudo ao lado da cama.

– Ah, é. — falei – Você precisa disso aqui... — andei até o armário novamente, peguei um cobertor e o trouxe para a cama.

– Hu-hum. — concordou ele, pulando na cama e ficando de joelhos – Vem logo.

Terminei de forrar a coberta e me deitei, enquanto ele me abraçava. Ficamos juntos, trocando carinho (sem pensamentos obscenos, por favor ¬¬) e conversando pelo cosmo umas horas. Se o Milo ficou no mesmo estado de hoje de manhã de novo? Sim.

– Caamuus...

Exatamente como mais cedo, lá estava ele corado, ofegante, olhar pedinte e me puxando para mais perto guiado pelo instinto. Como eu já disse: ele não tem jeito. Ou melhor, e modéstia à parte, eu sou o jeito. Eramos crianças... Ele não sabia o que estava acontecendo, e eu, o poço de inocência. Naquela situação e época, não tinha como resolver de maneira adulta.

– Shhhhh... — levei o dedo a sua boca corada.

Continuei a lhe fazer carinho nos cabelos e, devagar, deitei sua cabeça em meu peito e repousei meu queixo sobre ela, passando a acariciar sua nuca. Com o passar dos minutos, senti seu corpo começar a relaxar e sua respiração desacelerar. Ele me olhou com os olhos cansados e deu um sorriso.

“Você sabe o meu botão de liga-desliga...”

Assenti, lhe dei um sorriso leve e um beijo na testa.

– Huummm... — suspirou, antes de adormecer.

Depois que ele caiu no sono, ainda fiquei um tempo lhe fazendo carinho. Queria muito que fosse assim sempre, mas seriamos severamente punidos ao amanhecer quando a Casa de Escorpião fosse notada vazia durante a noite. Não poderíamos passar a noite juntos... Mas só aquelas horas valeram toda a pena pelo risco.

Olhei para o relógio: 22 horas. Eu teria que por minha ideia em pratica. O peguei no colo devagar e me levantei da cama. Abri a porta, andei silenciosamente até o saguão de entrada e iniciei a descida para Capricórnio, andando mais rápido, mas com todo cuidado para não acordá-lo. Passei pela Décima Casa e segui para a Nona, que eu tinha certeza de estava vazia, já que Aiolos não havia passado pela minha.

Chegando na Casa de Escorpião, encontrei com Daros, filho de dona Tália e criado da Oitava Casa, à espera na saída.

– Olá, Camus, boa noite. O mestre me disse muito sobre seus méritos de hoje. — disse ele, olhando para Milo adormecido em meus braços – Está melhor das lesões, futuro Cavaleiro?

– Boa noite. Estou, Daros. — respondi, acenando com a cabeça.

– Bem... Acho melhor você mesmo colocá-lo na cama, não? — sorriu ele, me dando passagem.

Assenti e andei pelos aposentos da Casa até seu quarto, onde a cama já estava arrumada. Me pus de joelhos sobre ela e o deitei, cobrindo-o em seguida. Peguei seus braços com cuidado e os tirei carinhosamente do contato com meu corpo. Ele se mexeu um pouco e fez uma expressão perturbada... Me deitei um pouco ao seu lado e lhe fiz cafuné, até que voltasse ao sono tranquilo.

Quando ele mais parecia um anjo, era hora de deixá-lo... Relutei bastante para sair dali... Enfim, dei-lhe um beijo na testa, dei meia-volta, fechei a porta, cumprimentei Daros ao sair e segui meu caminho para a Casa de Aquário.

Tinha um presente de aniversário para fazer...

Notas finais
*Simba - protagonista de "O Rei Leão", da Walt Disney. **Ferdinando - protagonista da obra "Ferdinando, o touro", de Munro Leaf. Bom meio e final de semana a todos S2