Notas iniciais
Bom, isso acabou demorando mais do que deveria. Mas aí está. Curioso(a) pra saber o que a mãe de Su faz?

Encontrei-me com Ricardo em seu apartamento como combinado, onde deixei a Alergia e seguimos para o supermercado de Satterfort Town, onde eu comprei ração pra gato.

– Está pronta? – ele disse colocando o saco no porta-malas do carro.

– Quando você quiser – sentei do carona e ele deu a partida, passando por uma parte da cidade que eu ainda não conhecia, mas que me pareceu bem luxuosa. Paramos na frente de uma mansão com um extenso jardim florido.

– Quem mora ali? – perguntei.

– A família Kent, você deve conhecer.

– Ah, claro, eu estudo com as duas irmãs.

Então elas moram aqui. Com certeza a vida delas foi bem limitada.

– O lugar é do outro lado da rua – Ricardo apontou para um estabelecimento igualmente sofisticado, com dois guardas altos parados na frente. – Tem certeza que quer agora?

Era estranho, tínhamos vindo pra eu descobrir o (outro) segredo que minha mãe guardava. Não estava exatamente preparada, porém não podia simplesmente desistir. – Vamos agora – falei removendo o cinto de segurança.

– Senha? – questionou a voz grave do guarda.

– Meia lua – pronunciou Ricardo.

– E o que vieram fazer?

– Eu trouxe uma garota pro chefe – ele passou o braço em mim e tocou meu ombro – ele vai gostar – nunca tinha ouvido meu amigo falar deste jeito, e estava me incomodando.

– Estão liberados – passamos pelo portão e subimos um lance de escadas até outra porta, quando perguntei:

– Ricardo, o que está acontecendo?

– Espere e verá. Só... Relaxe. – ele me olhou nos olhos por debaixo de seus óculos.

Passamos pela porta, e o lugar em que estávamos me chocou um pouco: era uma piscina grande, e cheia de gente, mas basicamente homens em roupas de banho se divertindo muito, todos acompanhados de jovens garotinhas com biquínis fio-dental. Algumas mulheres eram mais velhas, e entre elas uma morena com um cabelo comprido e de shortinho, apesar de estar produzida e com muito aplique, a reconheci. Stefani, minha mãe. Sem perceber segurei na mão de Ricardo e pressionei muito forte.

Logo nossos olhares nos encontraram e ela largou a taça de drink que segurava e deixou seu “cliente” pra se dirigir a mim.

– Sunori? O que está fazendo aqui?

– O que eu estou fazendo aqui? O que você está fazendo aqui! Então este é o seu trabalho, ser uma... Puta? — demorei um pouco pra responder.

– Olha aqui, isso não é o que você está pensando. Eu nunca me deitei com nenhum deles, só pra deixar claro. Meu trabalho é só como acompanhante e dançarina.

Sem querer, Ricardo soltou um pigarreio, contestando-a.

– Você, fique fora disso. Sabem como é ser mãe solteira e encontrar um emprego decente nesta cidade? Essa foi a única maneira que encontrei de te sustentar e te criar, filha.

– Com certeza deve ter uma mais decente. – a insultei já com lágrima nos olhos.

– Tudo bem – ela suspirou – agora você sabe, e não posso pedir que aceite mas foi com este trabalho que te dei um teto, comida e roupas. E vou continuar dando até que você seja maior de idade.

– Pode ter certeza que eu nunca mais vou querer nada vindo de você – dei as costas pra minha mãe sendo seguida por Ricardo. Ouvi-a gritar meu nome algumas vezes, mas consegui dar o fora de lá sem ter de vê-la de novo, provavelmente o cliente fez com que ela ficasse.

Caí em lágrimas nos braços de meu amigo do lado de fora daquele lugar, sem saber que decisão tomar a partir de agora. Logo um automóvel de última linha parou na mesma calçada em que estávamos, descendo um senhor vestido de um jeito descontraído, mas elegante. Em meio aos soluços, percebi um dos seguranças, o maior e careca chegar nele e falar:

– Chefe, aquele cara disse que tem uma garota para o senhor. – o mesmo já estava apontando para nós. Parei o choro na mesma hora olhando para Ricardo que sussurrou bem baixo “droga” e se pôs na minha frente.

– Foi um engano. Ela não está bem hoje e precisamos ir embora. Quem sabe em outra hora. – ele disse sendo observado pelo velho por debaixo de seu Ray Ban e pelos seus comparsas.

– Não está se sentindo bem, querida? Tenho certeza de que vai ficar melhor lá dentro. – argumentou o homem, definitivamente não iria ceder. De fininho fui recuando, sem perceber que o outro guarda estava me cercando, e acabei colidindo com ele.

– Vai a algum lugar boneca?

Agora chega. Querem brincar com boneca, então vão ver. Concentrei toda a minha energia, fazendo todas as lágrimas espalhadas pelo meu rosto formarem uma grande bolha e a fiz envolver a cabeça do guarda-costas e roubar todo o seu oxigênio. O sujeito se debatia no chão enquanto fazia caras de desespero e tentava em vão arrancar com as mãos a grande bolha d’água enquanto eu sorria o olhando.

– Su, ele vai morrer assim! – Ricardo gritou do meu lado, tocando em meu braço e logo soltando de súbito; era o braço da marca e ela estava queimando. Ele gritou de espanto.

O chefe não hesitou e sacou uma pistola de sua bermuda, mas antes de podermos nos defender ela voou da mão dele sem aviso e foi parar longe.

– Nem pense nisso! – mamãe estava descendo as escadas que levavam ao portão do local de salto alto – o que está acontecendo aqui?

– Stefani, fique de fora disso!

– Ela é minha filha, seu imbecil, saia de perto dela! – ela estava sendo seguida pelo cliente dela, um senhor gordinho nada agradável e sem camisa que não parava de se clamar – volte aqui, meu amorzinho.

O outro segurança a agarrou pelo braço, e confesso que isso me atingiu, porém ela logo agiu, fazendo um círculo brilhante e colorido aparecer debaixo dos pés dele e derrubá-lo no chão e enquanto símbolos estranhos e ofuscantes surgiam dentro do círculo, o solo ia sugando o cara pra dentro dele até ele desaparecer aos berros como se estivesse na areia movediça. Quando ele finalmente sumiu o círculo se apagou e os símbolos se foram.

– O quê...?! – o chefe exclamou.

– Se não quiser que o mesmo aconteça com você é melhor dar o fora daqui, Hestor.

– Vamos, Alejandro — mandou o velho, e eu liberei a respiração de seu capacho, já com a face vermelha.

– Su! – exclamou Stefani, se aproximando.

– Você fez de novo, mãe. Machucou pessoas pra conseguir o que queria.

– Eu... Só estava tentando te proteger, sinto muito.

– Venha – segurei a mão de Ricardo já me retirando do local, mas ele se soltou de mim me encarando de um jeito não muito amigável – o que foi?

– Você não é mais a mesma. Era o que eu temia, que quando entrasse naquela escola de riquinhos mimados virasse como eles. E olha o que você fez, quase matou aquele homem e ainda este sinal no seu braço, eu não sei o que é, mas com certeza não é bom. – ele se afastou de mim enquanto falava.

– Por favor, não vá!

– Eu acho que temos que nos distanciar agora. Eu preciso de um tempo.

Não, pensei, eu te amo.

Notas finais
Como eu confirmei, não irei abandonar a história mesmo depois de grandes demoras, ainda chegarei no final.