Magia Negra
12 Dia dos Namorados
Notas iniciais
Algumas semanas depois...
Depois de tanto tempo de convivência, eu e Kamome, minha colega de quarto acabamos ficando bem próximas. Ok, nem tanto, mas já estamos melhores do que no começo.
– E agora? – falei olhando meu reflexo no espelho do quarto estava experimentando o terceiro ou quarto vestido, e o atual era longo e roxo-púrpura, que Kamome emprestou-me – como ficou?
– Bem melhor que antes. Tem certeza de que não quer algo mais sombrio? – ela estava observando sentada na cama, usando um vestido mais curto que o meu e totalmente preto; parte das pernas estava exposta e grande parte coberta por um par de botas da mesma cor.
– Hã... Não, está ótimo assim. Obrigada – ela me fitou com os olhos cinzentos delineados – nós devemos ser as únicas garotas sem par na festa de dia dos namorados.
– Não seja boba. Já viu a quantidade de barangas que tem nesta escola? – a morena disse se levantando – por favor, coloca pelo menos isso? – ela estendeu um par de brincos de caveira, sorridente, e eu aceitei.
*
O salão estava cheio, e o lado de fora, o campo aberto, mais ainda. Tinha mais gente do que toda a Ala Bruxa do colégio, logo eu presumi que estivessem ali todos os alunos, incluindo os não-bruxos.
– É melhor nos dispersarmos por aqui – Kamome gritou em meio à música alta – como diz o ditado, o dia é dos namorados e a noite é dos solteiros!
Ela sumiu na multidão enquanto eu fiquei parada sem saber o que fazer. Encaminhei-me até o bar e depois de levar alguns empurrões e empurrar alguém, bebi dois ou três ponches (era só o que tinha já que todo mundo era menor de idade) e fui até o lado de fora. Estava um pouco frio e em meio às poucas pessoas que vi uma eu não esperava encontrar. Vestindo um curto e decotado vestidinho lilás, Shirley Kent. Mais bonita do que nunca.
Só que ela não está sozinha; está de braços dados a um garoto alto, de blazer bem elegante, com um corte de cabelo maneiro. É gatinho, mas eu tenho certeza de que já o vi antes.
Precisei dar uns passos a frente pra poder vê-los com mais clareza. Estava sem óculos, mas era ele, pro meu espanto. Ricardo. O que ele estava fazendo com a Shirley?
– O que foi que você fez? — Nossos olhares se cruzaram por um momento e eu abri o diálogo – está completamente diferente.
– Não gostou do novo visual do nosso amigo? Fui eu que escolhi a roupa, e o cabelo. Sugeri que ele usasse lentes de contato também. – a loira disse com o braço apoiado nele.
– O que você tem a ver com isso? Você sabia que ele é meu amigo. – falei direcionando meu olhar pra ela.
– O Ricardo é meu amigo também. Moramos há uns dois quarteirões, caso não saiba.
– Você nem conhece ele! Não sabe nada sobre ele!
– Sei o bastante pra ver que ele precisava de uma aparência melhor.
– Ricardo, olha pra mim. Este não é você. – falei com calma, mas não obtive resposta. Ele nem sequer olhou pra mim.
– No fundo você sabe que ele está bem mais bonito assim. – a Kent virou as costas e saiu, continuando seu tour pela escola como se ele fosse um troféu que ela quisesse exibir.
Então era isso que ele queria dizer com “dar um tempo”? Eu sei que esse não era ele, que era só a Shirley mais uma vez dando uma de obcecada em tirar o namorado dos outros e ela podia usar seus poderes de bruxa pra ajudar com isso. Pensei que ele pudesse se defender com o lance de elfo.
– Su, você não vai acreditar! Estão vendendo vodka no bar! Mesmo com o barman negando, alguns alunos conseguiram, deve ter sido lábia ou uma gostosona... – Kamome surgiu do meu lado, e enquanto ela falava sem parar eu escutei sem prestar atenção, com o pensamento longe que foi me levando de novo àquela cena que eu tinha acabado de ver e sem perceber já estava chorando, e ela notou.
– Su? Você ta bem? O que houve?
– Lembra do Ricardo? – respondi.
– Aquele seu amigo da foto?
– Eu o vi na festa... Com a Shirley! – terminei a frase com um gemido choroso ridículo e sem dar-me conta já estava caindo em lágrimas no ombro da morena – você tinha que ver... Ele nem olhou pra mim, nem falou comigo!
– Hã... Isso é péssimo... – ela começou em voz baixa – olha, parece que voltamos à questão do bar, afinal nada melhor do que álcool pra curar um coração partido. Vamos!
Fui puxada pra dentro do salão, que estava movimentado e barulhento. Chegando ao bar, sentei em frente ao balcão com Kamome ao lado.
– Hein, você tem um lenço pra minha amiga? – o atendente me alcançou e eu limpei meu rosto, que era provável estar borrado de rímel.
– Ela levou um fora. Triste não? – ela continuou, e o cara a observou com uma expressão desconfiada – a melhor coisa pra sarar isso seria um pouco de... Vodka.
– Eu não sei do que você está falando. – ele passou um pano pelo balcão sério.
– Você por acaso sabe quem é ela? Sunori Kimonno, cara. Isso mesmo, uma Kimonno.
– Não brinca! Aquele de quem estão todos falando? – ele fez uma cara de entusiasmo que logo se desmanchou – e quem se importa? Vai ter que fazer melhor que isso. – ele retomou a limpar o balcão.
Olhei de relance para minha amiga com uma expressão derrotada, quando um rapaz alto apareceu no bar:
– Ei, cara! Soube que está trabalhando com umas coisas mais fortes essa noite – ele insinuou em voz grave com ênfase na palavra “fortes”.
– Pode esquecer, ele está fazendo jogo duro. – falei, me virando para o mesmo.
– Hum, aposto que cê não iria gostar se essa história fosse parar na diretoria do colégio. – ele se dirigiu ao barman em tom de malandragem.
– Eu iria negar até a morte. Além disso, vocês não teriam como provar.
– Isso tudo é porque sou negro não é, seu racista!
– Olha aqui, o que você é afinal? Um centauro inútil? Um elfo? – interrogou Kamome – duvido que desvie um feitiço poderoso de uma bruxa.
– Ou melhor, duas. – me impus.
– E a força de um bárbaro – completou o rapaz.
– Está bem, chega. Vocês venceram. – ele buscou três copos e os serviu.
– Conseguimos! – o moço gritou em meio às conversas da multidão em nossa volta, todos riram vitoriosos e bebemos o drinque.
– Eca! – exclamou a morena depois de tomar a vodka – isso aqui é pior que uísque.
– Eu precisaria de bem mais que isso pra curar minha mágoa – falei fitando meu copo.
– Mas que foi divertido foi – o rapaz disse, ainda sorridente.
– Qual seu nome? – perguntei.
– Gary. Gary Tablo. – ele estendeu a mão e eu a apertei, o observando. Ele é bonito, a pele morena e o cabelo escuro e com o mesmo penteado novo de Ricardo, o que me fazia lembrar ele novamente.
– Você disse que está magoada. O que houve?
– Eu... Já volto! – Kamome falou em voz alta, me encarando e piscando pra mim antes de se ausentar. Eu sei o que ela estava pensando. Que estava apenas de vela ali. Que Gary estava prestes a me paquerar, mas eu não queria substituir Ricardo assim tão rápido mesmo que não tenha rolado nada entre nós e que provavelmente nem iria rolar.
– Posso ir ao toalete primeiro? Prometo que conto quando voltar. – sorri deixando o bar, sem esperar por resposta, e dei bolo nele indo até o lado de fora da festa. Ele realmente me fez sorrir quando eu estava triste, mas não quero avançar mais que isso.
A área ao ar livre estava do mesmo jeito que antes, pessoas, o gramado, o frio da noite. Mas um par de olhos brilhantes em meio ao escuro me chamou a atenção. Minha gata morfelina, Alergia. O que estava fazendo fora do quarto?
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