Madness

22 O Velório


Notas iniciais
muito itálico nesse capítulo, muito mas não tinha jeito rs

Conforme o combinado, o dia seguinte começou e Saga estava novamente na sala de meditação de Shaka, inspirando e expirando calmamente.

Era incrível como, após cada sessão concluída, a próxima era mais difícil de se concentrar por completo. Talvez Shaka não estivesse mais caprichando em seus chás de gosto duvidoso.

Mas Saga sabia dizer quando estava entrando em transe; era uma sensação bem parecida com o sono. Ele sentia seus olhos cansados e, de repente, se via em um sonho que, na realidade, era uma memória.

– Saga, o que você está vendo?

~

Saga estava sentado em uma das cadeiras pobres do lugar, acompanhando tudo atentamente. Para ele, aquele dia deveria ter sido o pior em toda a sua vida. Ele havia perdido alguém tão importante...

Várias e várias crianças estavam em volta da grande urna fúnebre, curiosas e tristes ao mesmo tempo. Todas observavam o corpo gélido e imóvel daquela pessoa que, um dia, tinha se mostrado tão cheia de vida.

– Mamá! – Uma menina chegou à pequena sala de velório, aos prantos. – Mamá! Não me deixe, Mamá! – Ela foi amparada por uma das mulheres que choravam no local. – Não, eu preciso ficar com a Mamá! Me solte!

A cena era lamentável e Saga não conseguia ficar mais lamentoso, principalmente se vendo do lado de fora. Ele e Kanon, dois meninos tão franzinos e melancólicos, apoiavam-se mutuamente e estavam bem perto do caixão.

– Saga? O que você está vendo? – Subitamente, Shaka estava sentado ao lado do enfermo, com a sua pose característica de falso cego.

– Eu estou no velório da Mamá. Eu não queria ter relembrado nada disso, Shaka...

– Fique calmo, Saga. São apenas lembranças. Diga-me, o que está acontecendo?

– A Mamá morreu do nada... Até hoje eu não sei o que aconteceu... Ela era a minha mãe, Shaka... – Saga sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos e fechou-os rapidamente.

– Saga, concentre-se... Você não voltou para este dia à toa. – Uma das mãos do loiro foi sentida nos ombros do grego. – O que está acontecendo?

– Kanon e eu estamos perto do corpo de Mamá e várias crianças estão chorando...

O pequeno Saga apoiou seus braços no outro gêmeo, como se quisesse um pouco de conforto para aquela situação. Kanon não tirava os olhos de Mamá e, pior... Ele não conseguia parar de fitá-la.

Inesperadamente, um homem de cabelos curtos e rosto perverso entrou naquele repartimento, aproximando-se do caixão. Kanon segurou-se para não perguntar o que aquele estranho estava fazendo tão próximo de sua Mamá.

– Laskarina... – Ele chegou tão perto do rosto inanimado da mulher que era possível sentir o cheiro de morte daquela mulher. – Você morreu mesmo...

Neste momento, uma garotinha decidiu deixar um adeus, encostando-se à madeira singela do ataúde. O homem afastou-se, observando bem os gêmeos que estavam logo atrás.

– Ele olhou pra mim e eu só pude sentir medo. – Saga respirou fundo novamente, talvez para que o seu choro não saísse.

– Fique firme, Saga. Conte-me o que aconteceu depois disso.

– Ele veio para mais perto e abaixou-se, ficando no mesmo nível que a gente. Meu irmão ficou tenso naquela hora, eu não sei explicar o motivo...

– Então vocês são os gêmeos que Laskarina tanto amava. – O sorriso do homem era perturbador. – Ficaram grandes... Só estão parecendo uma vara de tão magros...

– Por um acaso eu te conheço? – Kanon criou a coragem e cuspiu a pergunta. Ele se arrependeu ao ouvir o riso maligno do ser que estava na sua frente.

– Infelizmente, vocês não chegaram a me conhecer. Não que a culpa tenha sido minha... – Ele deu os ombros, piscando rapidamente os olhos rubros e horríveis. Arregalou-os de forma maníaca antes de continuar a conversa. – Qual de vocês dois é o Saga?

Naquele instante, Saga não conseguiu prender mais o seu fôlego e suspirou nervosamente.

– S-Sou eu... – Era difícil encarar os orbes daquele homem.

– Ah, o primeiro! Ótimo... – Ele exibiu os dentes amarelados, tal qual um animal faria. – Então você é o Kanon, huh? Linguarudo para a sua idade, não?

– Não que isso seja da sua conta. – Kanon procurou uma bravura que não tinha, tentando afrontar aquela pessoa tão sórdida e macabra. Decidiu voltar as suas vistas para um ponto no chão, segurando-se nas mãos de Saga fortemente. O homem riu de novo, desta vez em sinal de deboche.

– É assim mesmo que eu gosto! – Um soquinho foi dado no ombro de Kanon que, em seguida, fez uma careta brava. – Estou vendo que vocês não são muito de conversa. Tudo bem, eu entendo... Só gostaria de falar umas palavrinhas com vocês.

– E aí ele ficou bem perto da gente e começou a dizer coisas sem sentido nenhum...

– Que coisas, Saga? – Shaka arrumou sua postura, concentrando-se na narrativa do enfermo.

– Falando sobre ser forte... Não deixar ninguém pisar na gente...

– Como assim, Saga?

– Saibam, pirralhos... Vocês estão sozinhos agora. E por uma razão muito simples. – O hálito de fumo e bebida era notável, mesmo naquela distância. – A mãe de vocês não soube se comportar como deveria e Laskarina... Bem, Laskarina sempre foi uma mulher podre mesmo. Nunca teve saúde.

Kanon apertou ainda mais a mão de Saga, numa vontade incontrolável de responder àquele homem. Saga apenas deixou que o irmão descontasse sua raiva em seus dedos magros.

– Enfim... Só quero dizer que, a partir de agora, vocês precisam ser fortes. E quando falo isso, quero dizer em passar por cima de tudo e de todos se for necessário. Não deixem que ninguém pise em vocês, seus babaquinhas. – Ele riu, debochadamente. – Façam o que for preciso para se tornarem pessoas destemidas. Nem que precisem roubar, matar, estuprar... Façam com que o mundo se ajoelhe aos pés de vocês.

Saga, que estava sentado ainda e mantinha o seu olhar fixo naquela cena, não pode deixar de sentir a fúria crescendo em seu peito. Ele deveria ter deixado Kanon responder grosseiramente. Melhor, ele mesmo deveria ter parado com toda aquela situação.

– Saga, procure manter o controle. – Sua mente ficou um pouco mais contida ao ouvir a voz de Shaka do seu lado.

– Vocês dois já não eram bem-vindos mesmo. Já que é assim, porque não arranjar alguma coisa útil pra fazer nessa mísera vida de vocês? – O homem soltou, com raiva. Ele levantou-se, utilizando um tipo de feição muito autoritária, como se os dois meninos fossem seus subordinados. – Só gostaria que vocês tivessem um pouco mais a cara do pai e não tanto a da mãe.

O pequeno Kanon ia levantar o seu dedo mas, rapidamente, foi barrado por Saga. Aquela criatura maligna soltou mais um riso de chacota, voltando-se para o corpo de Laskarina.

– E daí ele falou algo para a Mamá... Eu não ouvi o que ele disse...

– Tente focar a sua mente para este momento, Saga. – Shaka pendeu parte do seu corpo para observar bem os movimentos do enfermo. – Aumente seus sentidos... Procure esquecer todo o resto e concentre-se apenas em sua audição...

Saga acompanhou minuciosamente todos os gestos do homem. Ele sussurrou algo nos ouvidos da defunta, mas era impossível escutar. Por um momento, ele tentou rememorar aquela pequena passagem, com mais calma e atenção.

Era como se a lembrança fosse uma fita e, naquela hora, o botão de repetir tinha sido acionado. O cochicho foi visto novamente...

– Laskarina...

– E então, Saga? – O loiro perguntou, depois de alguns instantes de silêncio.

– Ele... Ele falou o seguinte...

– Laskarina... Espero que você tenha um ótimo encontro com a sua irmã no inferno.

Saga arregalou os olhos. Ele ouvia nitidamente, como se o volume daquele murmúrio estivesse no último. Agora, ele não conseguia mais parar de reprisar a cena.

– Sua irmã... No inferno.

O grego entrou em desespero ao sentir todo o seu corpo entrar em choque. Aquela voz, rude e seca, fez questão de entrar em todo o seu sistema nervoso.

– Encontro... Laskarina...

Era como se ele estivesse asfixiado, as palavras não saíam de sua cabeça...

– Não!!! – Saga gritou, debatendo-se de forma exasperada. – Shaka, me ajude!

– Saga, fique calmo! Você precisa ficar calmo para voltar à sua consciência! – O indiano procurou segurar o corpo de Saga, quase que do mesmo jeito como na última crise. – Saga, preste atenção em mim!

– A Mamá... Shaka! – O interno puxava o seu fôlego com toda a força possível, sentindo todos os seus músculos em choque. Era como se ele convulsionasse internamente.

O grego foi parando de se contorcer aos poucos ao ouvir Shaka ressoar outro mantra irreconhecível. Ele amparou o enfermo e, quando Saga já estava lúcido, ele ofereceu uma nova xícara de chá.

– Shaka, o que... – O paciente do hospital psiquiátrico respirou fundo. – O que aconteceu?

– Você estava perdendo o controle da situação, Saga. Procure manter a serenidade agora. – O budista tomou uns goles do líquido calmante. – Bem, esta memória foi bem esclarecedora...

– Shaka, foi isso mesmo o que eu ouvi? – Saga não conseguiu beber o chá ainda.

– Eu acredito que sim... Enfim, a Mamá... Ela era mais que uma simples dirigente de orfanato. – Shaka fechou os olhos, tranquilamente. – Ela era a sua tia, Saga.

~

O japonês estava realmente animado com aquela conversa toda, respondendo rapidamente às mensagens de sua ex-namorada.

“ah, seiya... vc bem q poderia me mandar mais fotos como aquela, ñ é vdd? rsrs”

“shina... vc eh uma safadinha mesmo! eu posso mandar mais se vc quiser, mas sempre na msm condiçao...”

“e qual eh essa condiçao, meu lindo?”

Seiya soltou um risinho esperto. Seus dedos eram ágeis quando ele queria.

“vc sabe... se vc me mandar fotos suas primeiro...”

Depois de alguns segundos, a imagem de um cabelo verde caído pelas costas de uma mulher foi vista na tela do celular. Ao abrir o arquivo, Seiya não conseguiu ficar mais feliz...

“parece que sua bunda cresceu, shina. vc andou malhando? :)”

“kkkkkkkkkkk sim, seu bobao! soh me perdendo pra dar valor ao que tinha, neh??

“shina... eu nunca me esqueci de vc...”

O rapaz abaixou as calças e registrou, em seu aparelho, parte de seu pênis rígido.

“e pra ele? vc jah deu valor tbm? Kkkkkkkkkkkkkkk”

“kkkkkkkkk que delicia, seiya... eu estou com saudades da sua voz tbm... me manda alguma coisa...”

“tipo oq?”

“tipo... shina, como eu queria te comer agora... por favor, seiya...”

O menino não hesitou em soltar a língua e repetir a frase solicitada pela rockeira.

“aaah seiya, vc nao existe! Kkkkkkkkkk manda assim agora... shina, vc eh tao gostosa, vamos voltar aos velhos tempos...”

Novamente, Seiya decidiu engrossar a voz e falar sozinho com o seu celular.

“isso, seu gostoso! Kkkkkk agora, diga assim... eu sou um garanhão e vou te fazer ver estrelas!”

“hahaha shina... vc ñ acha q isso eh um pouco demais??? rsrsrsrs”

“por favor, seiya lindo! eu te recompenso com outra foto minha...”

– Que seja. – O playboy bufou de forma engraçada, não acreditando no que iria fazer. Usou o seu tom mais grave e sexy e gravou os dizeres, encaminhando para a ex-namorada logo em seguida. Não demorou muito e uma foto dos belos seios de Shina foi visto no aplicativo de mensagens.

“sua gostosa... acho q seus peitos cresceram tbm kkkkk q vontade de te chupar inteirinha...”

“a gente podia se encontrar, neh seiya? sem ngm saber de nada... imagina como seria delicioso...”

“vc qr me encontrar q dia? Invento uma desculpa pra saori e te vejo...”

Seiya ficou aguardando a resposta, mas percebeu que a menina estava off-line. Mais uma vez, ela deixou o coitado escrevendo sozinho. Ou talvez o Milo tenha percebido algo... O japonês não soube dizer. Esperaria ansiosamente a resposta de sua ex-namorada, já que aquela seria uma ótima idéia para ambos. Ou talvez não...

Notas finais
SHININHA SHININHA VC É MUITO DANADINHA SHININHA