Madness

23 O Trauma


Notas iniciais
perdoa a demora, gente amo vcs beijo pra mamãe de todo mundo

– Saga! Bom dia! – A patricinha abriu bem os braços e apertou carinhosamente o enfermo contra o seu corpo. Os seus sentimentos com relação à Saga estavam cada vez mais intensos e não seria arriscado dizer que isto era recíproco. Saga experimentava algo além de simples gratidão...

– Saori... Como passou bem o restante do dia? – Ele olhou com delicadeza o rosto da menina. – Muitos compromissos?

– Ah, não muitos! – Ela disse, entrando no carro de luxo e sendo seguida por Saga. – Mas eu tive uma idéia ontem e acho que você vai gostar!

– Eu? Como assim?

– Eu quero te dar uma coisa, Saga! – Saori ficava muito alegre quando via o seu amor platônico, mas envergonhou-se rapidamente ao ver a feição de Saga muito mais maliciosa que o costume.

– Você não acha que é muito cedo, Saori? Podemos esperar que eu saia do hospital... – Ele riu ao constatar a vermelhidão das bochechas da japonesa, que esbugalhou sua visão com o embaraço. A coitada sentiu as pernas tremerem ao imaginar-se nua, enrolada apenas com um laço, entregando-se de bom grado...

– Não é isso, seu bobo! É um presente!

– Ah, sim! Um presente! – O homem soltou de forma engraçada. – E o que seria?

– Eu não posso te contar, né! É um presente! – Saori fez uma careta piadista, como se estivesse falando o óbvio.

– Mas se você me falou que vai me dar um presente, é porque você queria me contar o que é! Ou eu estou errado? – A moça pousou os finos dedos em seus lábios, sem saber o que responder. Saga continuou observando Saori de um jeito carinhoso.

– Tá, eu quero te falar sim! Mas não agora! – Ambos riram. – Saga, o que você acha de tirar uma selfie comigo? – Os olhinhos japoneses não poderiam brilhar mais naquele momento.

– Selfie? Que negócio é esse?

– É uma foto nossa! Mas, tipo... Sou eu mesma que tiro! – O mais velho não tinha entendido aquela lógica ainda. – Vou te mostrar como se faz!

A menina arrumou seus cabelos para a frente, ajeitou a sua franja e encostou-se no corpo de Saga. Um certo arrepio correu por sua pele, fazendo a patricinha rir de nervoso. Ele apenas acompanhou Saori mexer em seu celular algumas vezes e, surpreendentemente, os dois estavam na tela do pequeno aparelho.

– Pronto? – Ela questionou, com um sorriso. O interno apenas deu de ombros, sorrindo de volta. – Agora, diga xis!

– Agora? – Saga perdeu o momento da primeira foto, tirando de Saori uma gargalhada. A imagem ficou engraçada, com a menina fazendo pose e o homem fora de foco.

– Vou contar até três, Saga! Depois a gente tira uma foto fazendo careta! – O grego percebeu que aquele era um assunto totalmente dominado pela filha do Sr. Kido. Ele decidiu entrar na brincadeira e, por fim, fotografaram algumas vezes.

– Elas ficaram lindas, Saga! – Saori disse, animada. Era uma pena não poder mostrar para as amigas o motivo de sua rotina matinal ter mudado tanto... Elas provavelmente entenderiam.

– Elas ficaram legais mesmo, Saori. Deve ser difícil mexer nisso daí... — Saga foi acompanhando as imagens, de forma inocente. Tudo era muito novo para ele. Perguntaria para Kanon, numa próxima oportunidade, se o irmão conhecia toda essa tecnologia.

– Que nada, Saga! Um dia você terá a mesma oportunidade! – Ela soltou, metendo as mãos na boca logo em seguida. Saori realmente não deveria pensar tão alto perto dos outros. O homem riu gostosamente, entendendo que aquele deveria ser o presente de Saori...

~

– Bom dia, meu loirinho preferido! – Shaka abriu os olhos lentamente, observando a sua antiga cliente entrar em seu escritório de forma bem excitada. A falta de resposta do budista deixou Saori totalmente sem graça, instantaneamente. – Ahn... Então! Chegamos no mesmo horário!

– Eu vi. – O indiano respirou fundo, levantando-se da mesma forma ligeira. – Pode entrar, Saga. Deite-se na mesma posição de sempre. – Ele começou a despejar o chá nas costumeiras xícaras de porcelana, enquanto Saori não sabia aonde enfiar a cara. Ela sussurrou um “boa sorte” para Saga, saindo rapidamente do cômodo.

Sendo sincero, ele também não estava muito à vontade com o mau humor de Shaka. Resolveu fazer exatamente como o mais novo mandou, sem questionar.

– Eu odeio quando ela me chama assim. – Shaka assentou-se ao lado de Saga, bebendo um pouco de chá. – Ela chega tão agitada que me desconcentra, às vezes.

– Acho que ela está feliz porque o tratamento está acabando. – O grego falou, quase num murmúrio.

– De fato. – Shaka sorriu, finalmente. – Este é um motivo de grande felicidade. Como está se sentindo, Saga?

– Muito bem. Também estou contente pela minha melhora.

– Ótimo. Hoje, eu quero tentar algo um pouco diferente, tudo bem?

– Diferente...? – Saga questionou, nervosamente.

– Sim. Não se preocupe, não é nada além do que você já está acostumado. – O budista confortou Saga, colocando uma de suas mãos no ombro do enfermo. – Agora, feche os olhos e concentre-se, tudo bem?

Saga meneou positivamente, inspirando e expirando de forma profunda.

Tudo parecia ser diferente naquela sessão: a música, o cheiro do incenso, as sílabas pronunciadas por Shaka...

Depois de alguns instantes, lá estava ele dentro de sua própria consciência. Tão rapidamente quanto as batidas de seu coração.

~

Saga viu-se em um dos corredores do Quartel, caminhando lentamente para uma das salas. Já era tarde da noite e a única iluminação existente eram as lâmpadas amareladas do local. Incomumente, ele não estava do lado de fora de seu corpo, observando tudo. Ele revivia a cena exatamente como ela ocorreu.

Deu três toques na porta escura, entrando após a autorização do seu superior. Ele prestou continência ao homem que estava à sua frente, sentado em uma grande poltrona de couro.

– Capitão Saga... Como vai, filho? – General Aioros tinha uma voz grave e portava-se de acordo com a sua posição no Exército. Era um homem imponente, de cabelos pretos e trajes alinhadamente perfeitos. Saga tinha mais do que admiração pelo Oficial... Ele também tinha medo.

– Estou bem, Senhor. – O subordinado engoliu seco. Saga sabia por qual razão foi chamado para aquela conversa.

– Muito bem. – O General levantou-se da cadeira acolchoada, dando passos curtos em direção à frente de sua mesa. – Capitão, acredito que você tenha conhecimento sobre o motivo de estar aqui hoje, não é mesmo?

– Sim, Senhor. – Saga fitava profundamente os olhos de Aioros, mesmo sentindo-se desconfortável com aquela situação. Ouviu uma voz familiar, bem próximo do seu ouvido esquerdo.

– Continue, Saga...

– Ele não parava de me encarar, Shaka. Eu tinha muito medo dele, de verdade.

– Entendo, Saga. Por favor, continue narrando tudo o que está vendo.

– Ele me chamou lá porque, naquele mesmo dia, eu comandei uma bateria de soldados para um treinamento em situações de guerra. E não saiu nada como o planejado...

– Sabe, Capitão... – O General começou a percorrer o gabinete, de um lado para o outro. – Você sempre foi um dos melhores deste Quartel. Você sabe que eu tenho uma grande consideração pelo seu trabalho e a forma como você leva o seu posto a sério. Ou não sabe? – A última frase saiu um pouco mais intensa que o costume.

– Sei sim, Senhor. – Saga engrossou também a sua voz, para não transparecer a sua inquietação. – Sobre o que aconteceu hoje de tarde, eu gostaria de...

– Deixe-me terminar de falar, Capitão. – O olhar endurecido de Aioros fez Saga calar-se na mesma hora. Ele não aparentava ser muito mais velho mas, com certeza, era o mais respeitado dentre todos os Superiores daquele Quartel. – Eu confiei em você. Eu estava mais do que preparado para te anunciar como Major desta unidade. Como eu vou explicar para os meus companheiros a sua atitude de hoje, Capitão?

Saga não sabia se aquele era o momento de responder à pergunta do General e, sendo assim, soltou um pouco do seu fôlego pelas narinas.

– Você sabe a catástrofe que você causou, Saga? – Agora, Aioros estava mais perto do rosto do interno. – Você colocou na mão de um soldado uma granada e o imbecil me resolve jogar aquela droga na direção dos outros! Aonde você estava com a cabeça ao fazer isso?!

– General, eu não fui o respons...

– Pare! – O Oficial gritou, interrompendo a fala de Saga. – Pare de arranjar desculpas para o seu comportamento! Você não foi o responsável em dar aquela granada para o soldado, mas é o responsável por um esquadrão inteiro!!!

– Eu não tenho como acompanhar todos ao mesmo tempo, Senhor. – Saga disse, finalmente.

– Esta é a sua obrigação como superior daqueles malditos praças, Capitão. Você foi e responderá como o único agente desta situação. – O General respirou fundo, virando-se de costas. – Eu nunca imaginei que algo deste tipo aconteceria com você... Dois cabos estão em estado grave na UTI do hospital militar, um recruta provavelmente perderá uma das pernas, outros cinco se safaram, por sorte... Sem contar o restante do grupo, que está traumatizado. Poderia ter sido muito pior se alguém tivesse morrido. E se alguém morresse, Saga?

– Eu não me perdoaria nunca, Senhor. – Saga estava verdadeiramente triste por todo aquele desastre. – Eu não conseguiria viver direito se algo deste tipo acontecesse.

– Então continue vivendo, Capitão. Mas saiba que a vida de vários homens mudaram inteiramente por sua causa. – Aioros apontava o dedo incisivamente para Saga, que não conseguiu relaxar o corpo por nenhum segundo. – Só de pensar que eu acreditei fielmente na sua capacidade, Saga... Te apadrinhei pelo amor que elas sentiam por você e pelo seu irmão...

– C-Como assim?! – O mais novo assustou-se com aquela fala.

– Não é à toa que... – Aioros falou, mas ele não conseguia ouvir.

– Senhor... O que você quer dizer com isso?!

Naquele momento, parecia que toda a audição de Saga havia sumido por completo. Os lábios do General mexiam-se, mas era impossível ouvir as palavras.

– Saga? – Shaka perguntou após alguns instantes de silêncio e o rosto do enfermo mudar completamente.

– Eu não consigo ouvir, Shaka... Eu não quero ouvir...

– Saga, você precisa se focar nisso. É importante para a sua cura nós sabermos o que ele falou. – Shaka afastou as xícaras do corpo do paciente, aproximando-se rapidamente. – Faça como da outra vez, Saga...

– Ele não devia ter falado aquilo. – A voz de Saga mudou completamente, tornando-se muito mais grave e rude. – Ele não devia...

– Saga! Respire fundo e concentre-se! – O budista assustou-se ao ver sua mão ser empurrada pelo grego, que respirava furiosamente.

– Ele não devia ter falado aquilo...

Saga sentiu um nó em sua garganta e os olhos marejarem após a sentença do General Aioros. Era como se um tiro fosse dado em seu crânio, uma facada em seu peito, algo parecido com a loucura...

O homem não sabia o que fazer depois daquilo. Após um tempo encarando o seu superior impetuosamente, ele pediu permissão para se retirar da sala.

– Permissão concedida, Capitão. – Aioros sentou-se novamente em sua poltrona larga, observando Saga prestar novamente a continência e sair com os pés firmes no chão de madeira.

Naquele instante, Saga correu para uma das escadas do complexo militar, enxugando as lágrimas que caíam de seus olhos de forma violenta. Ele subiu até o topo de uma das torres internas de vigilância; sabia que ninguém costumava ficar por ali.

O subordinado sentiu o peso em suas costas e caiu sentado no chão, chorando desgraçadamente. Apertou em suas mãos o quepe esverdeado, desejando rasgar a peça do seu uniforme com toda a força que tinha.

– Ele não devia ter falado isso... – Saga sussurrou, em meio aos soluços. – Ele não devia...

– Saga, tudo bem... Fique calmo! Respire fundo e preste atenção no mantra, você precisa voltar... – Shaka tentava encostar suas mãos no corpo do homem, que segurava sua cabeça, gemendo e chorando ao mesmo tempo. Ele se esquivava das tentativas do indiano.

– Ele vai pagar por isso! Ele vai pagar! – Saga fechou os punhos e esmurrou o tapete colorido de Shaka, que se arrependeu amargamente em tentar algo novo, justamente na fase final do tratamento.

Saga secou as lágrimas de suas bochechas e levantou. Seus olhos estavam rubros pelo choro farto e pela raiva que sentia. Desceu as escadas do posto de guarda, seguindo em direção ao banheiro masculino. Recolheu suas roupas velozmente em sua mochila camuflada, ignorando totalmente as frases e gestos de respeito que foram dados pelos seus companheiros militares. Saga só queria sair dali, e o mais rápido possível.

Shaka começou a entoar outro mantra, numa investida de fazer com que Saga ficasse mais calmo.

– Cale a boca! Cale a boca! – Saga gritou. Ele mantinha os olhos fechados e não conseguia parar de chorar.

O loiro procurou manter-se focado nas sílabas, mas parou quando viu Saga erguendo seu corpo.

– Ele vai pagar por isso...

Saga disparou até a saída do Quartel, tomando outra direção e não a da sua casa alugada, perto dali.

Ele não precisou pegar nenhum transporte público e nem tinha cabeça para isso. Saga estava furioso e sabia que só tinha uma pessoa no mundo que pudesse ajuda-lo naquela hora. Decorridos vários minutos de caminhada intensa, o homem chegou numa pequena recepção, tão pobre como o bairro que acolhia o simples prédio.

Saga não ligou para as objeções da mulher na entrada do lugar, apenas subiu para o apartamento e bateu agressivamente na porta.

Alguns segundos se passaram e a sua ansiedade fez com que ele golpeasse a madeira novamente. De repente, um homem sonolento e vestido apenas com uma bermuda larga atendeu ao chamado.

– Saga? – Kanon estava surpreso com aquela visita tardia. – O que você está fazendo aqui?

– Eu quero te ajudar nos esquemas pra conseguir dinheiro, Kanon. Eu vim aqui pra isso...

O irmão mais novo de Saga não conteve o sorriso de vitória. Afastou-se e fez um gesto para que o gêmeo entrasse.

– Seja bem-vindo, Capitão.

– Saga, controle-se! – Shaka barrava o corpo do interno, que tentava se levantar a qualquer custo. Era necessária uma força incomum para segurar alguém como Saga.

– Saia da minha frente! Eu quero que ele pague pelo o que ele me fez! – Os pulsos fechados do grego empurraram Shaka, que voltou a bloquear os movimentos de Saga. O indiano ouviu a equipe do hospital na parte de fora, agradecendo aos deuses no mesmo momento. A vozinha de Saori estava temerosa do outro lado da saleta.

– Shaka? O que está acontecendo?! Podemos entrar?!

– Sim! Estou precisando de ajuda! – Saga voltou a impulsionar seus membros contra Shaka, que apartou as mãos do ex-comandante e deu passagem para que os enfermeiros pudessem imobilizá-lo no chão.

– Me soltem! – O enfermo berrou. Saori estava chocada com toda a cena, acompanhando os funcionários do Instituto administrarem uma dosagem de calmante diretamente no braço de Saga, que gritou novamente.

– O que aconteceu, Shaka?! Você se machucou?!? – A patricinha correu para o lado do loiro, que estava ofegante e sem reação alguma.

– Não, Saori... Eu só acho que peguei pesado novamente. – Ele respirou fundo, observando Saga acalmar-se aos poucos. O efeito da medicação estava começando a funcionar. – Eu creio que seja melhor parar com essas lembranças, ele já passou mais do que o necessário...