Madness
24 A Reunião
Notas iniciais
A Diretora Geral saiu lentamente de seu escritório, respirando fundo. Andou até o elevador do piso, recebendo uma mensagem do seu companheiro informando que estava a caminho do nono andar. Ela expeliu o ar nervoso dos pulmões, desejando que aquilo não estivesse acontecendo.
Acompanhou morosamente os números subirem no pequeno painel do elevador; seu pensamento estava longe dali. Um toque baixo fez com que a Doutora voltasse à realidade e ela moveu seus pés até o posto de enfermagem daquele pavimento.
– Acacia, eu preciso da chave do quarto 96, por gentileza.
– Claro, Doutora Milla. – A funcionária foi até a sala no fundo do corredor, voltando com o objeto codificado em mãos.
– Obrigada, Acacia. – Doutora Milla agradeceu, educadamente. Seguiu em direção ao trio que já estava aguardando a sua chegada: Saori, Shaka e Kanon.
Era notável a impaciência do irmão mais novo de Saga e da garotinha que, aparentemente, estava muito mais madura que aquela visitante do hospital há meses atrás. Shaka, em contrapartida, permanecia com o mesmo semblante calmo de sempre.
– Bom dia, senhores. E senhorita. – Saori soltou um risinho ao ouvir a mulher. – Mu disse que está a caminho daqui, só precisa terminar alguns relatórios no primeiro andar. Neste caso, acho melhor nós começarmos, sim?
A psicóloga abriu a porta do quarto de Saga, aguardando a entrada de todos no cômodo.
Saga estava deitado de lado, coberto por uma fina manta. Em sua articulação no braço estavam alguns acessos, ligados diretamente a um soro. Saori não sabia ao certo a quantidade de mangueiras conectadas ao seu pseudo-amor, talvez porque não queria contar...
Ele parecia estar tranquilo, principalmente depois do ocorrido na última sessão com Shaka. Os três sentaram-se em cadeiras próximas ao enfermo e Saori, sendo mais ambiciosa, tomou um lugar na cama de Saga. Fez um carinho em seus cabelos, delicadamente.
– Saga? Saga, acorde... – A japonesa disse, com carinho. O interno foi abrindo os olhos devagar. – Olha quantas pessoas vieram te visitar hoje!
Ele piscou mais algumas vezes, observando cada um dos que estavam ali. De repente, todos se viraram para a porta do quarto; era Doutor Mu pedindo licença para entrar. Ele aproveitou para arranjar um assento ao lado da Diretora do Instituto.
– Eu morri? – O grego perguntou, arrancando uma risada de todos.
– Não, Saga... – A Doutora Milla começou. – Mas nos deu um baita susto. Você ficou dopado durante uns 2 dias. Ontem eu pedi para que eles diminuíssem a dose do calmante.
– O que aconteceu? – Ele tentou levantar o corpo, mas gemeu de dor logo em seguida. Sua cabeça parecia rodar e todo mundo sumiu da sua vista por alguns instantes.
– Calminha aí, Saga! – Saori aproximou-se mais dele, continuando com o afago em seus cabelos. – Você está muito fraco, não precisa se levantar...
– Saga, você teve uma crise nervosa muito intensa na última vez que foi ao consultório do Senhor Shaka. – A Doutora retomou a fala. – Ainda bem que a nossa equipe interveio. Se não fosse isso, nós não saberíamos como você poderia estar hoje.
– Shaka... Me desculpe...
– Não precisa se desculpar, Saga. – O loiro respondeu tranquilamente. – Eu sou o único que te deve um pedido de desculpas, principalmente após fazer você passar por todas aquelas lembranças dolorosas.
– O importante, Saga... – Doutor Mu disse. – É que nós descobrimos muitas coisas com as suas recordações. Você está próximo da sua cura, apesar deste acontecimento. – Os dois doutores sorriram singelamente para o paciente.
– Como assim?
– Saga, suas memórias e a sua vida fizeram com que você se refugiasse em uma personalidade que não é sua. Você, inconscientemente, utiliza desta outra pessoa para descontar as suas frustrações. – Shaka explicava o seu ponto de vista. – Durante todas as nossas sessões, em nenhum momento o tal Grande Mestre chegou a aparecer. Talvez porque ele não exista de verdade. Porque ele não divide a sua mente com você, Saga.
– Mas... Por qual motivo eu me descontrolei da última vez? – O enfermo indagou.
– Algo de muito ruim aconteceu na noite em que você encontrou aquele General e, pelo o que eu entendi, ele te disse uma coisa que iniciou toda a sua revolta interna. Por este motivo, quando você se lembrou disso, um ataque tomou conta e você praticamente surtou. – Shaka respondeu. — Você não consegue recordar o que foi que ele te disse, Saga?
– Não... Eu tentei, mas parece que fiz questão de esquecer, Shaka.
– Eu perguntei para o seu irmão... – Shaka voltou-se para Kanon. – E ele também não sabe o que é.
– Você não consegue fazer uma força? – O gêmeo mais novo perguntou. – É importante para a gente, Saga...
O paciente encolheu-se um pouco na cama, apertando os olhos com força. Ele não queria ser incomodado com aquilo. Recebeu mais alguns cafunés de Saori, que não conseguia esconder a sua cara de preocupação.
Externamente, a Diretora parecia estar vencida.
– Saga, eu gostaria que você soubesse que nós não desistiremos deste tratamento, pelo menos não ainda. – Mu falou, depois de pensar um pouco. A médica observou seu companheiro falar de forma determinada. – Já é um avanço sabermos que, provavelmente, essa outra personalidade não seja tão nociva quanto nós imaginávamos. A partir disso, já temos um rumo a tomar.
– Eu me comprometo a continuar as meditações com você, Saga. O que estiver ao meu alcance será feito, com certeza. – Shaka soltou, da forma mais serena possível.
– Talvez se nós tentássemos outra abordagem... – A Doutora Milla disse, mais para si do que para ser ouvida pelos outros.
Saori permanecia mimando Saga, quando um estalo foi dado em sua mente.
– E se ele saísse um pouco do hospital? – A menina perguntou. Todos olharam subitamente para a patricinha, que não tirava seus olhos do interno.
– O quê?! Quer que ele vá pra onde, andar no parque e tomar sorvete?! – Kanon não media as palavras quando estava nervoso.
– Não é isso, Kanon... Eu estive pensando... Saga não conhece outra rotina a não ser a deste lugar e, recentemente, uma viagem curta daqui para o escritório de Shaka. Será que ele não está tão estressado a ponto de não conseguir se desprender totalmente de seu problema? Será que ele não precisa de um descanso? – Finalmente, aquela cabecinha cheia de fios roxos estava começando a funcionar direito.
– Ótimo, e ele iria para onde? – Kanon cruzou os braços, encarando a japonesa.
– Eu tenho uma casa de férias na Ilha Creta, em Heraclião. È bem perto da praia... Eu pago toda a viagem, sem problemas. – Ela mirou o ex-marinheiro de volta.
– Antes de mais nada, nós precisamos aguardar Saga se recuperar desta crise... – A Doutora se colocou no meio do fogo cruzado.
– Bacana! E no meu apartamento ele não pode ficar? Só porque você chegou agora e tem dinheiro, ele não pode passar um tempo comigo?! Já são mais de 10 anos sem a companhia do meu irmão, Saori. – O irmão de Saga quase sussurrou as últimas palavras, tão triste quanto o seu olhar poderia ser.
– Vamos esperar a reabilitação dele. – Shaka usou a voz com mais intensidade. – Não adianta ficar discutindo o seu futuro neste momento. Vocês nem sabem qual é a real vontade de Saga. Ficam puxando cada um para um lado, como se ele fosse um boneco de pano.
– Pelos deuses! Agora contrataram um vendedor de incenso pra me dar ordens também! – Kanon jogou os braços para o lado, com raiva. – Já bastava a mimada da Fundação meter o dedo nos assuntos que não são dela!
– Já chega! – A Diretora enervou-se, alterando a sua voz. – Ele não sai daqui enquanto não melhorar. Eu fui a responsável por boa parte do tratamento dele e, mesmo recebendo outra função dentro deste Instituto, ele ainda é meu paciente. – Os lábios de Mu juntaram-se em um pequeno sorriso, pois era meio que excitante ver a sua colega e amante naquele estado. Doutora Milla raramente se estressava com qualquer assunto.
– Bom... – Kanon respirou fundo. – Eu só espero que vocês continuem me informando sobre as suas decisões, até porque ele ainda é meu irmão. – Além de não medir palavras, ele sabia exatamente como ser irônico.
Um ressono bem baixo chamou a atenção de todos, que estavam concentrados naquela discussão. Ao se voltarem para Saga, era notável que o efeito do calmante ainda permanecia em seu corpo.
– Acho melhor nós deixarmos ele dormir mais um pouco. – Shaka disse. – Nossas discussões só trarão uma energia mais densa para a sua mente conturbada.
Os outros visitantes concordaram com a declaração. De fato, de nada adiantaria debater se o motivo das preocupações não estava nem próximo de ficar bem. Todos levantaram e andaram até a saída; Saori mais receosa que o restante do grupo.
– Muito obrigada pela visita de vocês. Sei que não chegamos muito longe hoje, mas espero ter mais reuniões para esclarecer o destino de Saga. Não tomaremos nenhuma decisão que não seja unânime. – A médica falou, trancando a porta do quarto e dirigindo-se, especificamente na última parte, para Kanon. – Se me dão licença, eu preciso voltar para os meus afazeres. – Ela e Mu se despediram, seguindo em direção ao elevador do andar.
– Creio que devemos voltar para a nossa rotina também, Saori. – O budista soltou. Saori estava de braços cruzados, fitando Saga intensamente por entre o vidro escurecido.
– Sim, vamos embora. – Ela se dirigiu para Kanon, que se encontrava igualmente tenso pela situação. – Kanon... Me desculpe. Eu não quis ser rude com você...
– Não tem problema, Saori. – Ele disse, um pouco sem graça. – Eu não quis falar daquele jeito com você também. É que eu tenho medo pelo meu irmão... Ele é a única pessoa que eu tenho... – A patricinha não agüentou e abraçou amorosamente o gêmeo mais novo, demorando certo tempo naquele enlace. Ela apreciou o rosto de Kanon, fazendo um carinho em suas bochechas.
– Pra onde você vai agora?
– Voltarei para o restaurante. Tenho que preparar tudo para o período da noite...
A menina entrelaçou seu membro superior delicado em Kanon, dando uma risadinha marota.
– Venha conosco! Eu te dou uma carona até lá... Assim eu posso me redimir da última carona que não te dei!
Ambos riram. Kanon sentia a sua garganta arder de tanto segurar o choro e a vontade de não sair de perto do seu irmão nunca. Mas, no final das contas, era bom ter Saori por perto. Os dois estavam, praticamente, que na mesma situação. Eles não queriam o pior para Saga...
~
– Que situação complicada. – Doutora Milla falou, expelindo o fôlego em seguida. Ela sentiu seu corpo pesar na grande poltrona de couro da Diretoria.
Mu ajeitou seus óculos como sempre fazia; geralmente ele repetia mais a ação quando estava nervoso com algo. Sentou-se na outra ponta da mesa, que estava cheia de papéis e relatórios médicos.
– Pois é, Milla... Eu não esperava por isso também. Quem sabe a idéia de Saori não seja uma boa saída para a recuperação de Saga...
– Mu... – A psicóloga levantou-se, apoiando seu quadril na madeira e encarando seriamente o seu colega de trabalho. – Você tem certeza que ele conseguirá reagir? Acha mesmo que alguém como Saga pode ser curado?
Sua respiração estava mais descompassada pela inquietação que gerava o assunto. Mu pousou seus olhos sobre os de Milla, parando para pensar em como ela era linda. Ela mal sabia que Mu ficou interessado na médica desde o seu primeiro dia no Instituto Psiquiátrico. Ela também mal sabia quantos dias ele passara sonhando acordado, imaginando como seria uma noite entre eles...
O tibetano decidiu afastar tais pensamentos para não perder o foco na pergunta.
– Eu acredito que ele está próximo de conseguir, Milla. Seria uma década de trabalho perdido se ele não conseguisse.
– Ah... – A mulher segurou-se em seus próprios braços. – Você não faz idéia em como eu estou nervosa com toda essa situação! Eu acreditei que ele ia melhorar! Eu pensei que esse Grande Mestre nunca ia aparecer novamente! – O homem elevou-se da cadeira, abraçando a Doutora com ternura.
– Milla, pense que, desta vez, o Grande Mestre não chegou a aparecer. Ele apenas teve um surto. Isso já não é algo para se comemorar? – Suas mãos passavam pelas costas de Milla, em toda a sua extensão. O cheiro do seu perfume feminino estava tão agradável; era difícil não sorrir para o olfato. – Veja bem, nós podemos esperar que ele melhore, que fique mais estável psicologicamente e, depois disso, damos o tempo que ele precisa do hospital. Não vai ser perigoso. Nós não estávamos preparados para o pior quando Shaka veio até aqui exigindo que as consultas fossem em seu escritório? E Saga reagiu muito bem!
– Reagiu empurrando e enlouquecendo, é... Que reação mais tranqüila. Mu! Eu não posso deixar que alguém corra o risco novamente! Eu não posso deixar Saga solto por aí! E se a equipe não estivesse por lá? Como os dois acabariam?!
– Shh, Milla... Você não confia em mim? Pior, você não confia no seu próprio paciente?
Essas duas questões fizeram com que Doutora Milla interrompesse sua linha de pensamento.
– Eu não sei, Mu... Eu me sinto tão perdida...
– Milla... – O psiquiatra afastou-se um pouco, fitando intensamente o pequeno rosto assustado de sua amante. – Uma das coisas que aprendi com o meu Professor, lá no Tibet, é que a revolução só acontecesse quando a situação chega ao seu extremo. As pessoas só tomam a devida coragem para a mudança quando estão bem próximas do fundo do poço. No nosso caso, nós já tentamos de tudo para ajudar Saga... Agora, diga-me: o que nós temos a perder? O que nos resta como opção? O que pode acontecer de tão ruim caso ele fique alguns dias de alta?
– Eu tenho medo que alguém se machuque seriamente, Mu... Ou que o próprio Saga se machuque... – O mais alto encostou delicadamente uma de duas mãos no queixo de Milla, fazendo com que os dois se encarassem por um tempo.
– Milla, a gente só vai saber se tentar. Você não acha mais justo com ele? Eu enlouqueceria só de pensar em passar um terço da minha vida internado...
– Você tem razão. Ele precisa desse tempo. – Ela apoiou sua cabeça no peitoral do médico, aproximando os dois corpos para um outro abraço. – Eu só tenho medo de tomar a decisão errada... Se algo prejudicial acontecer, eu serei a única responsável...
– Nós seremos. – A Diretora olhou rapidamente para Mu, que sorriu em cumplicidade. – Não se preocupe, eu não sairei do seu lado por nada...
– Obrigada, Mu. – A mulher sorriu de volta. – Realmente, as meninas estavam certas quando me falavam sobre você...
– As meninas?! Como assim?! – Mu afastou-se de novo, com a sua melhor feição incrédula. Doutora Milla não conseguiu segurar a gargalhada.
– Nada não! – Um beijinho carinhoso foi trocado. – De vez em quando algumas residentes me falavam sobre você e, enfim... Elas estavam corretas!
– Como é que é?! Alguma menina já falou de mim?! Conte-me tudo, Senhora Milla! – O tibetano disse ao mesmo tempo em que apontava de forma cômica para a mulher.
– Venha, vamos almoçar. Quem sabe eu te conto alguma coisa, mas não tudo! Isso é assunto entre mulheres! — Ambos riram gostosamente com a confissão. De fato, Mu era um homem muito especial...
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