Madness

38 O Sonho Ruim


Notas iniciais
gente exagerei no itálico de novo mas juro que é por uma boa causa :3 um grande beijo!

– Eu achei que você me mataria quando soubesse, amigo Kanon. – O espanhol deu uma bela mordida em uma maçã, apoiando-se na parte externa do restaurante. – Pelo jeito, fiz muy bien em hablar com Thetis, huh?

– É, eu quis te socar um pouquinho quando ela me falou. – O gêmeo mais novo fez o mesmo, jogando um de seus pés na parede suja do lugar. Eles estavam próximos de uma grande lixeira, em um beco na parte de trás do chique estabelecimento. – Digamos que... Nós tivemos uma recaída.

– Recaída? Finalmente la dor de cotovelo passou? Acertaram-se como una buena pareja? – Os dois riram com a brincadeira.

– Não seja estúpido, Shura. Não reatamos o namoro. – Kanon enfiou os dedos nos bolsos da calça. – Ela disse que está se separando daquele babaca grã-fino.

– Bueno! Está aí a sua oportunidad, Kanon!

– Não... Eu não quero apressar as coisas. Não quero parecer um desesperado e... – O grego sentiu uma vibração esquisita. Em seguida, o toque de seu celular manifestou-se e ele atendeu.

– Alô?

– Alô... Kanon?

– Saga?!? – Ele poderia não reconhecer o número, mas com certeza reconheceria a voz de seu irmão mais velho. – Você... Calma! Você está vivo?!?

– Claro que estou, Kanon. – Saga gargalhou com a reação alarmada. – Me desculpe por não ter ligado antes. Eu estava...

– Você está me ligando como?! Mas que... – Kanon encarou o visor do aparelho, incrédulo. – Quem te passou meu número?!

– A Saori me passou. Ela me deu um celular, você acredita nisso?

– Ela te... Nossa. Eu não estava esperando uma ligação sua!

– Me perdoe. Você está ocupado? Eu não quero te atrap...

– Não, seu idiota! – Kanon sorriu para o nada, imensamente feliz em escutar Saga. – Diga-me, foi só isso que ela te deu? Vai me dizer que vocês não fizeram nada ainda?!

– Ahn... Então, eu estive ocupado...

– Aguenta aí, eu vou chamar o Shura!

– Kanon, não, por fav...

– Shura! – O espanhol havia se afastado para jogar os restos da maçã na lixeira. Voltou limpando os dedos em sua blusa típica de Sous Chef. – Meu irmão pegou a japonesa!

– Kanon, olha...

– Péra! Vou colocar no viva-voz! – Ele apertou um botão em seu celular e os dois funcionários do restaurante se aproximaram, fitando ansiosamente a tela do smartphone. – Conta tudo, Saga!

– Kanon, isso é meio constrangedor. Eu não posso dar muitos detalhes...

– Saga, meu amigo! – Shura estava exaltado também. – Não nos esconda nada, vale?! E aí, ela é muy caliente?!

– Erm... Oi, Shura! Sabe, eu não posso falar mesmo, ela está aqui perto...

– Fala logo, seu imbecil! – Kanon disse. – Ela fez de tudo? É safadinha? Te chamou de cachorrão e tal?

– Não, babaca! – Saga riu novamente. Suspirou fundo, pois sabia que não ficaria em paz se não contasse ao menos alguma coisa. – O que eu posso dizer pra vocês é que... Foi perfeito. Ela é totalmente diferente do que eu imaginava...

– Ahh! – Kanon virou-se para o amigo. – Você ouviu, Shura? Foi perfeito! Que coisa mais fofa!

– Creo que su hermano está enamorado pela chica!

– Vocês dois deveriam calar a boca. Estão com inveja porque eu chequei o tamanho daqueles peitos pessoalmente.

– São grandes mesmo?? Você chegou a dar alguns tapinhas nela também? Pra mostrar quem é que manda e...

– Shh, espera! – Saga deixou de falar por alguns segundos. – Acho que ela vai sair do banheiro. Nós vamos sair agora de tarde, ela vai me mostrar a Ilha e...

– Mostrar a Ilha? Que porcaria é essa? Vocês deviam passar o dia inteiro no quarto, isso sim!

.

– Quem é, Saga? – A menina sorriu para o homem, ajeitando alguns objetos em sua bolsa.

– Ah, eu liguei para o meu irmão para dar notícias. – O ex-capitão estava aparentemente nervoso com algo. – Você sabe, para ver se está tudo bem...

– Que ótimo! – Ela sentou-se bem ao lado e ele engoliu seco. – Coloque no viva-voz, assim eu posso conversar com ele também!

– Eu acho que ele já vai deslig...

.

– Kanon? – O timbre fino de Saori foi ouvido pelos dois cozinheiros.

– Senhorita Saori! Ora, mas quem diria! Como está a lua-de-mel, muito agitada?! – O mais novo não deixou de aproveitar o momento para usar todo o sarcasmo do mundo.

– Bem, nós estamos nos divertindo muito!

– Eu aposto que sim, Saori... Cara, eu espero mesmo que meu irmão não tenha te dado trabalho, foram dez anos de muita espera e vontade!

– É, hm... Que coisa! Nem imagino que conversa estranha é essa! – Eles não viram, mas Saori mirava o amante com uma feição engraçada de dúvida.

– Ah, como não! Até a sua voz está diferente, mais alegre! Sabe, eu realmente queria que você fizesse primeiro comigo, pra fazer aquela comparação, entende? Mas se preferiu deixar Saga ir antes, eu juro que posso aceitar, até porque...

– Kanon! – Saga interrompeu. – Foi ótimo falar com você! Só que nós precisamos sair, ok?!

– Não, por favor! A gente quer saber mais de vocês!

– É, queremos saber un poco más!

De repente, a porta de acesso ao beco foi aberta com força. Kanon, no susto, segurou o celular na parte de trás do seu corpo. Um homem alto e furioso apontou o dedo para os dois.

– Que negócio é esse de ficar conversando no meio do expediente! Estão fazendo a pausa para a fofoca, suas franguinhas?!?

– Não, senhor! – Os dois amigos soltaram em uníssono.

– Tem um monte de entrada pra preparar e nenhuma guarnição ficou pronta ainda! Aquelas bocas não vão se alimentar sozinhas! Já para o trabalho!

– Sim, senhor!

O homem fechou a porta com a mesma raiva que abriu, adentrando novamente no restaurante.

– Kanon? – Saga ficou chamando o irmão, sem saber se ele teria desligado ou se a ligação estava com problemas.

– Saga, me desculpa, mas eu preciso desligar! Um bom passeio para vocês dois!

– É... Tudo bem! Qualquer coisa me liga! – O grego preparou-se para se despedir, mas um estalo em sua mente o convenceu do contrário. – Ah, Kanon!

– Sim?

– Eu te amo, meu irmão.

Ambos sorriram ao mesmo tempo, unidos pela conexão forte que nutriam.

– Eu também te amo, Saga. Tome seus remédios direitinho! Tchau!

O antigo interno encerrou a ligação, ainda sorridente. Era impossível ficar chateado ou triste com Kanon, por mais que ele tentasse... Saori ainda parecia curiosa com algo.

– Saga, você contou para eles? Que a gente... Fez...

– Eu? N-Não! – O homem balançou rápido a cabeça para os lados, de forma negativa. – Jamais! Meu irmão está supondo as coisas. Você sabe que ele é intrometido! Ele é louco!

– Sei... – A menina riu com o nervosismo de Saga e abraçou carinhosamente o seu príncipe. – Agora vamos aproveitar um pouco mais a nossa “lua-de-mel”, sim?

~

A sensação era estranha, muito estranha. Saga sentia seu corpo totalmente leve e desprendido das percepções terrenas, como se alma vagasse livremente pelo espaço.

E o espaço não era tão consolador assim. Dessemelhante de tudo já vivido pelo grego.

Saga viu-se trajando uma espécie de terno escuro, uma camisa branca e uma gravata... Azul-marinho. O cheiro reportava-se a algo parecido com grama, terra molhada, flores...

Ele estava completamente perdido.

Percorreu a visão por toda a área e deparou-se com um grupo familiar, mais à frente. Caminhou entre ladrilhos brancos que formavam uma trilha no meio da relva. Assustado, aflito, desorientado. Queria uma explicação para estar num local como aquele.

Ao se aproximar das pessoas, Saga paralisou. Todos pareciam apreciar um pequeno retângulo de mármore no chão. Um choro podia ser ouvido. Não, não apenas um...

– Por que isso aconteceu com ele?

– Não sabemos. Nós nunca vamos descobrir...

A mulher encontrava-se apoiada num abraço carinhoso de seu companheiro, enxugando suas lágrimas. Era esquisito ver o homem sem os seus costumeiros óculos.

– Mu, eu queria tanto que ele melhorasse... Eu pedi tanto, procurei todos os tratamentos...

– Eu sei disso, Milla. – O doutor beijou a testa franzida da mais baixa. – Fizemos o que estava ao nosso alcance...

Saga não sabia o quê dizer. Estava chocado. Ver seus dois médicos e amigos naquela situação era melancólico.

– O que aconteceu, Doutora? – O ex-capitão disse. – Por favor, não chore...

Sua frase saiu e o esforço pareceu em vão. O casal não ouviu nada do que ele falou. Os dois permaneceram fitando o solo, pesarosamente.

Do seu lado direito, outro par apresentou-se. A menina tinha um dos punhos firmes em seu peito, na tentativa de puxar a dor para fora. O loiro apoiou sua mão no ombro da moça e trouxe seu corpo para mais perto. Saga nunca tinha visto uma feição tão sombria e depressiva no rosto de ambos.

– Mantenha-se forte, Saori. Não foi sua culpa.

A garota convulsionou em soluços e lágrimas, desesperada. Ela nunca conseguiria superar um momento como aquele.

– Shaka... – O budista abraçou a japonesa, tentando acalmar seus ânimos. Era difícil, pois ele mesmo não conseguia se sentir calmo. Seus olhos não paravam de mirar o objeto de pedra.

– Saori, olhe pra mim, eu estou aqui! – Saga falou, exaltado. – Saori, não chore! Não tem motivo pra chorar, eu estou do seu lado!

Era inútil. Saori permanecia chorando angustiadamente, quase sem forças para manter o fôlego.

– Shaka, por favor, me acorde! – Ele tentou sacudir o corpo do indiano. – Shaka, me ajude, eu preciso acordar!

– Saga... – O homem alertou-se quando escutou o sussurro moldar seu nome. Olhou para frente e não conseguiu se sentir mais triste com a cena. – Meu irmão...

– Kanon, olhe para mim! – O gêmeo mais novo estava ajoelhado no gramado, pousando algumas flores em cima da textura marmorizada. Seus olhos, preenchidos por água e pelo luto, encontravam-se totalmente apagados pelo desconsolo.

– Meu irmão... – Kanon passou os dedos pelo nome entalhado na superfície fria, contornando as letras de forma lenta. – Saga. Me perdoe.

– Kanon, por tudo que é mais sagrado, eu estou aqui! Eu não morri! Eu... – Saga sentou-se próximo ao parente, derrotado. Fitou novamente as roupas, as próprias palmas... — Eu... Eu morri?

– Exatamente.

Saga virou-se rapidamente para a voz.

– O que você está fazendo aqui?!? Vá embora! – Saga gritou para o vazio. – Você não existe mais!

A risada grotesca entrou por todo o seu sistema nervoso e ele tremeu. Os pêlos arrepiaram-se com força. O grego procurou, em seu íntimo, o desejo de levantar e correr dali.

Mas era impossível. Era impossível correr.

– Você não vai fugir. De novo, não...

– O que você quer?!? – Saga bradou mais uma vez e, de repente, o Grande Mestre estava encarando-o diretamente no espírito. Ele vestia o habitual uniforme branco de manicômio. Seu sorriso sarcástico e seus olhos vermelhos pareciam mais vivos do que nunca.

– Você sabe o que eu quero. Uma vida pela outra. Quero o pescoço daquele maldito entre meus dedos. Quero o sangue daquele desgraçado lavando meu corpo. Saga...

– Você não vai conseguir. Nunca. Eu tive ajuda e me livrei de você. Isso é só um pesadelo. – O antigo interno não deixou de pregar seus orbes de volta para a criatura. Ele poderia não ter chances de correr, mas carregava a coragem necessária para enfrentar seu maior inimigo.

– Você acredita mesmo que eu não existo mais? Acha que algumas meditações e incensos podem me tirar daí? – O ser sombrio apontou o indicador para a cabeça de Saga. – Eu não vou sair.

– Vá se foder! – Saga cuspiu as palavras. – Você não existe! Suma e me deixe em paz!

O vulto levantou e gargalhou novamente, mais tenebroso que o costume.

– Te deixarei em paz quando completar o meu objetivo, Saga. Já disse: uma vida pela outra.

O Grande Mestre virou seu corpo rumo ao grupo, que ainda se lamentava na pequena lápide. Saga apertou os olhos, tentando se concentrar em algo que parasse aquele sonho ruim. Encarou-o novamente quando ouviu mais risadas sinistras ecoarem em sua mente.

– Até lá, eu continuarei me divertindo.

Num segundo de rapidez, toda a cena mudou. O ex-combatente aterrorizou-se. Shaka, Saori, Mu, Milla e Kanon; todos estavam mortos e terrivelmente espancados no piso escuro de um corredor extenso. Havia sangue espalhado e as faces de pânico ficaram fixadas em cada um.

Saga urrou, totalmente alucinado. Ele não conseguia mais agüentar tanta tortura. Precisava acordar o mais rápido possível.

– Esse aqui... – O monstro ajoelhou-se ao lado de um corpo e puxou os fios loiros para cima, revelando a face flagelada de Shaka. – Meio arrogante, você não acha? Você se lembra do que nós fazíamos com as pessoas arrogantes, Saga?

– Não!!! Você não existe! Pare com isso!!!

– Nós dávamos uma lição... Não era? – A aparição começou a bater furiosamente o rosto do budista no solo, levantando mais sangue e desfigurando-o por completo.

– Não faça isso!! Pare! – Saga segurou forte as têmporas, desesperado em retirar aquela dor em sua consciência. Tentou focar algo que pudesse trazê-lo de volta à sanidade, ou alguma forma de despertar.

– Só de pensar em como você era bom, Saga. Um homem corajoso. A gente trabalhava em dupla, você se lembra?

– Volte, Saga. Acorde. Acorde! – O grego bateu na própria lateral da face, porém sem nenhuma sensação aparente. O Grande Mestre voltou a rir de um jeito perverso, caminhando em direção ao pequenino corpo de Saori.

– Essa aqui merece atenção especial. Não descartaria uma dessas, nem mesmo se estivesse morta. – Ele começou a puxar a calça de seu traje para baixo, sorrindo cinicamente para a vítima. – Até que você não fez feio, Saga. Você acha que ela vai gostar de mim?

– Cala a boca! – O homem gritou mais uma vez e sentiu um tipo esquisito de estrondo atrás de si. Olhou para o fundo da passagem e acompanhou um clarão enorme ir de encontro com o cenário, cegando-o por alguns instantes.

– Você não vai fugir...

Saga procurou abrir os olhos, mas a luz havia consumido toda a sua visão.

– Até logo, Saga...