Madness
39 O Abuso
Notas iniciais
Saga acordou rapidamente, ofegando e suando frio. Ouviu algumas batidas, como se duas peças de madeira estivessem colidindo. Uma das janelas amplas do cômodo abriu-se e o vento matinal enleava por entre as frestas, resultando naquele barulho excêntrico.
O grego limpou algumas gotas de desespero que correram pelo seu rosto e acompanhou as batidas de seu coração desacelerarem, um pouco zonzo pela alienação. Ele havia se esquecido da sensação de ter pesadelos como aquele.
Observou Saori e seu ressono baixo, dormindo tranquilamente, como uma princesa. Era formidável investigar os graciosos detalhes de seu rosto: a forma como as sobrancelhas arqueavam-se delicadamente de encontro ao centro da face; os lábios, finos e convidativos, eram coloridos num tom tênue de vermelho; as mãozinhas, pousadas na lateral da cabeça, estavam juntas e pareciam suportar o peso de uma obra de arte.
Ele ficou mais calmo após aquela contemplação. Um pouco de folga para a sua insanidade.
Saga se levantou para fechar a janela que insistia em causar o ruído e clarear, quase que completamente, o quarto de hóspedes da mansão. Fitou o horizonte da Ilha, fresco e cheio de fulgor. As ondas passeavam exuberantes pelo mar...
Tudo parecia tão cintilante. Por qual motivo ele se sentia tão obscuro por dentro?
O antigo interno trancou o espaço, deixando o Sol do lado de fora. Algumas luzes insistentes permaneceram cortando o objeto amadeirado. As fileiras brilhosas cobriram o pequeno corpo de Saori, que estava nu embaixo do lençol.
Saga sorriu. Olhou as peças de xadrez espalhadas de forma aleatória em cima de uma cômoda. Ele ensinou Saori a jogar. Em meio aos risos e beijos e carícias, ela aprendeu a jogar. A brincadeira exigia um nível avançado de concentração e inteligência, mas ele sabia. Ela não o decepcionaria nunca. Por mais complicada e complexa que fosse a partida, por mais emaranhado e indistinguível fosse o seu adversário, o importante era manter o objetivo. Ele sabia. Ele ensinou Saori a jogar...
Sua mente voltou para o momento em que as peças ficaram monótonas e a patricinha pulou em seu colo, continuando os carinhos. Ela disse que queria dormir com ele naquela noite, em seu quarto temporário, em sua cama emprestada. Que estava cansada de seu mundo. E ele sorriu novamente.
Pelo menos algo ele pôde ensinar para a menina.
O ex-capitão respirou fundo, deixando de lado este temperamento sinistro. Sua consciência encontrava-se em um nível incomum de estranheza, sem motivos... Deitou no leito, ao lado de Saori, e admirou mais minúcias. A garota era incrivelmente bela, digna de pertencer aos grupos da alta sociedade. Nada era desigual em seu corpo. Ela possuía braços finos, os seios eram exatamente como deveriam ser. Suas curvas pareciam dunas brancas e encantadoras; era delicioso se perder nelas. O pescoço...
Saga encarou mais algumas vezes o seu pescoço...
Talvez ele tenha se enganado...
Ela era tão frágil.
O homem ergueu-se do colchão apressadamente, assustado. Não podia manter pensamentos assim. Aquelas idéias não eram normais.
– Foi só um pesadelo, Saga. – Ele sussurrou para si mesmo. Decidiu sair do aposento e preparar algo para o café-da-manhã, mimando a moça como ela mesma havia feito no dia anterior.
~
Saori sentiu uma carícia em seus pés, que estavam virados por conta de sua posição na cama. O ventre, relaxado e colado no colchão, despertou antes quando notou um cheiro aprazível de especiarias. Era algo parecido com café, acompanhado por um aroma amanteigado e toques doces também.
O afago foi subindo pelas panturrilhas, causando cócegas quando chegou à região poplítea. Parte do lençol foi retirada revelando as nádegas e as costas, que foram acarinhadas por um tato leve e determinado. A menina apertou um pouco mais o travesseiro e murmurou. Sorriu quando ouviu a respiração conhecida de Saga em um dos seus ouvidos.
– Bom dia, Saori. – Ele sibilou. – Eu fiz o café-da-manhã para acordar a minha dorminhoca.
O casal riu. A garota espremeu os olhos, esticando os músculos do corpo gradativamente.
– Hoje foi a minha vez de dormir até tarde, não é?
– Uhum. – Saga mordeu o pequeno lóbulo da patricinha. – Eu acabei acordando mais cedo com um barulho estranho. A janela do quarto abriu e eu fui fechar... – Ele passou a mão pelo dorso feminino, alcançando sua coxa e arranhando-a levemente. A moça suspirou, agarrando firme o travesseiro mais uma vez.
– Estou com fome. – Ela disse, virando um pouco a face para fitar Saga.
– Eu também. – O grego soltou, num tom de voz mais grave que o costume. Beijou devagar a bochecha da japonesa, depois o pescoço, chegando até a nuca. Levou dois dedos até a boca e passou a junção, umedecida pela saliva, no sexo de Saori. Ela tremeu com o toque inesperado, arfando profundamente.
A maciez da pele e a forma como a menina gingava em sua mão deixou Saga prontamente excitado e a mordida na delicada orelha ficou ainda mais forte, de acordo com o ritmo da masturbação. Ela dobrava as costas e descontava seu prazer no apoio que embalou seu sono, arquejando de um jeito ávido. Aquele era um jeito maravilhoso de começar o dia.
Ele circulava com o indicador a parte mais sensível da garota, encaixando-se e afastando suas pernas, deixando a ereção encostar em seu bumbum levantado. Saga tinha necessidade de sentir Saori, de penetrá-la, de possuí-la animosamente. Ele não queria mais esperar. Não queria ficar naquilo, naquela dissipação de gemidos, naquela perda de tempo e de satisfação própria. Ele queria invadir sua alma.
Saori soltou um suspiro alto quando o antigo interno fez a sua vontade, sem cerimônias. O imprevisto causou certo tipo de dor na mimada e ela não se importou. Ela não precisaria se preocupar. Por enquanto...
Saga estocava seu pênis dentro da menina, com o corpo elevado pela rigidez existente em seus braços. Ele acompanhava o ir e vir de Saori com olhos furiosos; queria que ela gritasse, que chamasse seu nome, que clamasse por mais. O homem não conseguia entender seus reflexos, porém ele não ia parar. Sua mente não permitia.
A jovem enfiou uma mão entre as pernas, continuando a massagem que Saga havia suspendido. O peso do corpo maior extraiu o restante do fôlego de Saori e ela escutou novamente a inspiração descompassada em seu ouvido.
– Geme mais... Eu quero ouvir. – Ele exigiu. Ela buscou mais ar nos pulmões para atendê-lo, mas era difícil. Sua franja foi afastada para cima bruscamente por uma das palmas do grego e ele aproximou ainda mais seus lábios na garota. – Não consegue??
– Sa... Saga...
– Mais. – Ele rugiu. Puxava a cabeça da moça com ferocidade, ainda mais violento em suas investidas. Ela aumentou o volume dos gemidos e dos toques em sua vagina, enlouquecendo rapidamente. – Saori... Você é tão apertada...
A menina fechou os olhos, insistindo em recuperar o oxigênio. Ela não queria fazer nada contrário ao que era solicitado por Saga. Encontrou-se numa situação arriscada e excitante. Ele não parecia ser o mesmo da noite anterior, ou aquele paciente que conheceu no Instituto.
De repente, Saori apavorou-se. Seria possível? Ela não sabia dizer...
– Eu não mandei parar. – O grego grunhiu as palavras. – Mais, Saori.
Ela continuou, obediente.
– Quero que... Todo mundo... Escute você gritar... – Sua voz rouca e entrecortada infiltrou-se no pensamento da menor. – Está gostoso? É gostoso foder com um louco como eu?!
Uma onda de pânico percorreu todos os ossos e veias da patricinha. O que estava acontecendo?
– Deixe eles saberem, Saori... Que eu estou te comendo. Mais alto...
– Sag... – A fala foi severamente cessada pela mão do grego em sua boca.
– Shhh... Não é assim que eu quero.
As lamúrias da menina continuaram abafadas mas, agora, ela gemia com todo o esforço possível. Estava completamente desorientada. O que era aquilo?
– Desse jeito... Eu terei que te calar... De outra forma. – A mesma mão que segurava sua respiração começou, de forma sinistra, a interrompê-la. Com o nariz e a boca tampados por completo, ela sentiu o desespero misturar-se com a aproximação do orgasmo. Procurou, inutilmente, afastar Saga para ter um pouco de fôlego; a tentativa só aumentou o ritmo do homem dentro de si. Ela começou a perder a voz, diminuindo aos poucos os seus gemidos.
– Ah, Saori... Goze comigo... Goze...
Seus sentidos voltaram com força quando os espasmos do clímax invadiram o corpo, tal qual Saga fazia com seu membro. As pernas tremeram, mas ela não conseguia diferenciar se aquilo era medo ou excitação. Tudo começou a se mover em câmera lenta quando a visão branqueou-se e o timbre grave e rouquenho de Saga foi se afastando...
Subitamente, Saori viu-se livre para respirar de novo. Puxou com intensidade o ar para dentro dos pulmões, engasgando com o ato. Ele estocou mais algumas vezes, mordendo o lábio para não soltar novas rugidas. Os braços envolveram a moça de um jeito carinhoso enquanto terminava de lançar grandes quantidades de sêmen em sua cavidade dolorida.
– Saori... – Saga sussurrou. Preencheu o pescoço e os ombros da jovem com beijos, agarrando firme o pequeno torso feminino. Ela inspirou e expirou mais algumas vezes. Acabou pendendo para o lado com enlace do mais alto, que caiu exausto na cama. Ele não queria largar Saori por nada.
Depois de alguns minutos, ela virou e apertou, com a mesma força, o corpo de Saga. Totalmente perdida. Um pouco machucada por tudo ter sido daquela forma. Indecisa com os sentimentos...
Ela estava segura com o homem que a abraçava naquele instante. Mas seria ele um homem confiável durante todo o tempo?
O casal não trocou frases, apenas alguns carinhos. Ambos estavam muito compenetrados em suas mentes para qualquer tipo de conversa. Ficaram assim até o sono levar as preocupações para longe...
~
– Eu vou terminar de me arrumar para irmos, tudo bem? – A mimada disse, sorridente. Saori decidiu não se preocupar com o tratamento recebido por seu amante naquela manhã. Talvez essa fosse a maneira dele de fazer as coisas. Talvez, no início, ele estivesse apenas se segurando.
Talvez.
– Claro. Só falta eu escovar os dentes e já estou pronto! – O ex-capitão respondeu, igualmente feliz. Ficou na dúvida se devia pedir desculpa ou fingir que nada aconteceu e, quando a menina acordou, ele optou por ficar com a segunda alternativa.
– Você vai gostar do parque, eu tenho certeza! Depois a gente pode almoçar e, sei lá, decidimos o resto depois!
Saga riu com a euforia da moça. Arrependeu-se um pouco por não ter se desculpado com ela.
– Com certeza. Já passo no seu quarto, ok?
Ela acenou positivamente, tomando rumo para seu cômodo em seguida. O mais velho foi ao banheiro e começou a aprontar-se, ainda divagando sobre as próprias atitudes.
Ele ainda se sentia estranho. Incomodado com algo. Não estava totalmente triste, mas não conseguia ficar totalmente alegre também. Era esquisito.
Saga limpou a pequena porção de espuma formada em seus lábios, apoiado na pia. Levantou-se para encarar o espelho e, rapidamente, seu coração quis pular para fora do corpo.
O barulho da escova de dentes caindo no mármore não foi ouvido. Na realidade, tudo se tornou silencioso e sombrio. Um segundo e o terror abocanhou totalmente a sua consciência.
“Olá, Saga... Feliz em me ver?”
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