Madness
42 O Resgate
Notas iniciais

Era início de madrugada e toda a estrutura do hospital parecia calma e taciturna. A noite estava quente, evento comum percebido pelos habitantes de Atenas.
Saga suportava o seu sexto dia de tratamento.
Na recepção, a médica conversava de vez em quando com uma dupla de enfermeiras: a primeira, mais jovem, fora escalada para aquele turno; a segunda, aparentemente mais velha, estava apenas de passagem, motivada pela solidão de seu próprio andar e pela vontade de bater um papo diferente (algo mais conhecido como fofoca).
– Sabe, Doutora Mikla... – A auxiliar começou um novo diálogo. – Não imaginei que você iria ficar no subsolo hoje. Achei que seu posto era no nono andar.
– Pois é, Acacia... – A morena mexia em seu smartphone, mexendo em um aplicativo qualquer. – Eu era de lá. Mexi meus pauzinhos e, enfim... Consegui descer.
– Ahn... Sei. – A imberbe funcionária levantou-se para guardar uma pasta suspensa numa das grandes gavetas de inox do lugar.
– E então? Você está gostando de trabalhar de madrugada?
– Sim! O plantão da noite é muito mais tranqüilo, sem contar que eu me livrei daquela bruxa da Cassandra.
– Ah, pelos deuses! Nem me fale naquela bruaca! – A técnica baixinha e gorducha apoiava-se na bancada de madeira, acompanhando a conversa. – Só porque é a “enfermeira-chefe”, ela acha que pode mandar e desmandar no Instituto inteiro!
– Bom, eu já tive as minhas discussões com ela. – A psicóloga falou. – Com ela, com a Theodora e mais um monte de enfermeiras daqui...
– Eu posso imaginar o motivo, Doutora. – A nanica piscou de um jeito sacana. – Aposto até que foi o mesmo motivo de ter te puxado aqui para baixo...
– Há-há-há. Isso não é engraçado, Helena. Não tem nada a ver com o irmão dele. – A face de Mikla nem enrubesceu com a mentira descarada. Era óbvio que ela havia implorado pela mudança de andar, apenas para se encontrar com Kanon casualmente. Eles não se falavam desde o ataque de ciúmes da plantonista.
– Tá, eu finjo que acredito.
– É sério! A Doutora Milla e o Doutor Mu me convocaram, ok? Eu acompanho o caso de Saga há muito tempo e sei exatamente tudo sobre ele.
– É uma pena saber que ele voltou, não é mesmo? – A mais nova desconversou, já prevendo que o assunto poderia virar-se contra ela. Acacia lembrou bem quando Kanon, na última conversa, pediu sigilo absoluto sobre aqueles encontros.
– Sim... – Mikla suspirou. – Eu pensei mesmo que ele tinha melhorado. E ainda voltar assim, já numa crise. Isso é péssimo...
– Justo agora que arrumou uma namoradinha. – Helena comentou.
– Namoradinha? Aquela japonesa virou mesmo...?
– Mas é claro! O jeito que ela batia cartão no nono andar! A Theodora me contou tudinho. Ela até pagou viagem numa ilha paradisíaca quando ele foi liberado, no maior estilo lua-de-mel.
– Nossa. Esses dois irmãos... – A médica virava a cadeira de um lado para o outro, sentada em uma das pernas. – Inacreditável. Deve ser algum feitiço deles, sei lá...
– É, deve ser... – Acacia mantinha-se quieta boa parte do tempo.
– Pensando bem, eu não teria a coragem dela. Por mais que ele estivesse aparentemente curado no dia que saiu daqui, não sei não... Eu ficaria desconfiada.
– Você prefere o mais saudável, não é mesmo? – A técnica rechonchuda riu e Mikla mostrou a língua, sorrindo logo em seguida.
– Helena, você não tem nada pra fazer no seu andar não? Existem outros loucos nesse hospital, sabe...
– Já vou, já vou... Só vim fazer um pouco de companhia para as duas donzelas. Eu preciso subir, tenho vários históricos para arrumar... Tem um cara no quarto 98 que está dando trabalho e isso atrasa toda a minha rotina. Ainda bem que aquele doidão dormiu.
– São os ossos do ofício, Helena. Alguns pacientes valem o sacrifício, outros nem tanto. – Os olhos azulados da psicóloga quase se fecharam naquela mirada cheia de malícia, enquanto seu corpo seguiu pelo corredor da recepção, deixando a companheira risonha para trás.
– Ah, você é uma safada mesmo! – Helena respondeu alto e o tom de voz ecoou pelo ambiente. Ela apertou o botão do elevador e observou a lentidão dos números no painel, bufando de tédio. – Acacia, eu adorei a cor das suas unhas. Depois você me passa o nome do esmalte? Gostei mesmo.
– Claro! – A menina tomou um leve susto com o elogio. – Eu comprei no centro de Atenas!
– Me passa o nome da loja também! – As portas abriram e a mais velha escorregou uma das mãos na abertura, apenas para se certificar que o elevador não fecharia antes de sua entrada. Ela foi barrada pelo tecido macio de uma camisa social preta, que contrastava com a cor azul-berrante dos cabelos do hóspede.
– Boa noite, Helena. Quanto tempo!
– Você! – A enfermeira apontou. – Mas... Não está muito tarde para uma visita, Afrodite?
– Não para a minha visita. – Ele enlaçou um dos braços nos ombros da baixinha, levando-a novamente para a entrada. – Você sabe que eu sou um homem de hábitos noturnos, não sabe?
– Mas já é...
– Shh... – Ele pousou um dos dedos no lábio da mulher. – Silêncio. Estamos num hospital, devemos respeitar os enfermos. – Afrodite retirou uma pistola do bolso, com um silenciador devidamente encaixado na extremidade. Ele embruteceu o rosto quando Helena ameaçou soltar um grito. – Vá para lá, agora.
– P-Por fav...
– Eu estou mandando ir pra trás do balcão! – O antigo paciente sibilou, apontando a arma para elas. – Quero as duas no canto!
Acacia levantou rapidamente as pequeninas mãos, já lacrimando pelo desespero. Apoiou-se na técnica e ambas encolheram-se no chão, próximas ao móvel de inox que carregava vários relatórios médicos.
– Onde está a Mikla? – Ele perguntou, num sussurro.
– E-El... Ela... – Helena tremia. – Ela...
– Acacia? Você pegou aquele vasilhame para... – A morena estagnou. Afrodite direcionou o objeto para a moça, sorrindo com sarcasmo.
– Boa noite, Doutora Mikla. Senti sua falta.
– Afrodite... V-Você... – Mikla teve o mesmo impulso de Acacia e ajustou as mãos na frente do corpo. – Você tá maluco?! Larga essa arma!
– Shh... Não grite. Vá para o canto, agora!
– Afrodite! – Ela tentou argumentar, mas parou quando o silenciador ficou mais próximo de sua cabeça.
Ele fez um sinal positivo para o vulto que espreitava atrás da porta, na escada de emergência. O homem correu para os bancos da recepção e arrastou uma fileira deles para perto do elevador, chamando-o em seguida. Fez a mesma coisa com a segunda fileira, deixando a estrutura na vertical e obstruindo a escada. Quando o elevador chegou, ele empurrou grosseiramente os assentos para dentro. As portas de ferro iam e voltavam com o contato.
– Isso vai nos dar algum tempo. – Ele era da mesma altura de Afrodite, os cabelos curtos e azuis estavam estilizados para cima. Ele vestia uma regata branca e uma calça preta; um dos bolsos exibia outra pistola igualmente mortal e silenciosa. Ele virou-se com a peça apontada para as enfermeiras. – Onde está o Grande Mestre?!
– G... Grande Mestre?! E-Eu... – Mikla começou. – P-Por favor, n-não...
– Onde está o Saga?!? – Afrodite exaltou-se.
– N-Na... Na quinta... Na quinta câmara... P-Por favor, Afrodite...
– Deve estar trancado até os dentes. – O algoz disse para Afrodite. – Cadê a chave?
– O que vocês...
– Cadê a porra da chave, sua vagabunda?!? – Ele vociferou, puxando seus longos cabelos escuros. – Eu estou com pressa!
– Na última sala de contenção, no final do corredor! Por favor, não me mate! – A médica implorava, em meio ao rastro de lágrimas que sujou seu rosto com a maquiagem. – Afrodite, por favor!
– Mikla... – O ex-amante engatilhou a pistola, pronto para atirar em Acacia, que estava chorando desesperadamente. – Colabore com a gente, sim? Antes que os miolos da sua amiguinha explodam na sua cara.
– T-Tá, tá bom! Por favor, eu te dou a chave, mas não me mate, por favor! – Ela foi arrastada de forma grosseira pelo outro invasor e levada pela pequena passagem até a área dos funcionários. Ele jogou a plantonista no piso, novamente com ela em sua mira.
– Me dá logo essa chave.
– D-Deve... Deve estar aqui, em algum lugar... – Seus dedos tremiam entre as alças das gavetas, enquanto a mente carcomia-se pelo esquecimento trazido pelo pânico. – D-Deus... Onde está...
– Qual parte do “eu estou com pressa” você não entendeu, sua vadia?!
– Aqui! – Ela agarrou um conjunto de três chaves codificadas. – A-Aqui! Não me machuque, por favor!
O maníaco puxou novamente o braço da doutora, seguindo para as entradas no outro corredor do pavimento. O corpo encontrou-se com o chão mais uma vez.
– Abra a porta.
– P-Por favor... É perigoso entrar...
– Eu não te perguntei nada! – Ele golpeou o crânio de Mikla com a coronha da arma. – Abre essa merda logo!
– Não!!! Não!!! – Pancadas seguidas arrancaram uma boa porção de sangue da mulher e os gritos ficaram mais intensos. – Eu abro a porta!!! Pare!!!
Ela apressou-se em localizar as fechaduras, empurrando o grande ferrolho que cercava Saga em sua jaula hospitalar. Sentiu o cano mortífero nas costas, empurrando-a para dentro.
O homem aproximou-se devagar naquele cenário. Os orbes brilharam intensamente ao fitarem o interno apoiado em um dos ângulos da câmara, respirando do mesmo jeito ruidoso de sempre. Saga estava muito mais magro e horrendo, as pálpebras permaneceram cerradas pela quantidade de medicação em seu organismo. Alguns fios cinzentos despontavam na cabeleira azul, que parecia ser muito mais brilhante em outros momentos.
– Grande Mestre? – O malfeitor indagou. A visão avermelhada foi se apresentando devagar, num esforço incomum para alguém que queria apenas abrir os olhos. Ao encarar o responsável pela pergunta, a entidade só teve forças para desenhar um sorriso no canto dos lábios.
– Máscara da Morte. Saudades da época que usávamos apelidos, huh?
– Sim. – Ele disse, rindo como uma criança. – Cara, você está péssimo. O que estão fazendo com você aqui dentro, tentando te matar?!
– É o que parece.
– Bom, se é assim, então chegamos para te resgatar numa boa hora. Temos uma missão para terminar, não é mesmo?
– Eu preciso... — O Grande Mestre sussurrou. — De água...
– Hey. – Máscara dirigiu-se para a médica encolhida no canto oposto do recinto. – Tira essa merda. Agora.
Ele indicou a bolsa de soro conectada aos cateteres que transportavam anestésicos para o corpo de Saga.
– O quê?! N-Não, não me diga...
– Cacete, como você fala! Mas que merda que o Afrodite fez em trepar com você, haja paciência!!! Venha até aqui e tire essa bosta dele!
– Eu não sei tirar! – Mikla confessou num bramido. – Por favor, p-por favor, n-não me mate!
O agressor respirou fundo, esfregando o indicador e o polegar na própria testa.
– Quem sabe?
– A Ac... Acacia. Ela sabe. A Helena sabe também. E-Eu fiz pouco estágio, n-não mexi muito com i-isso, e...
A mulher sentiu as pernas desaparecerem quando Máscara da Morte caminhou em sua direção, para depois sair bufando do compartimento acolchoado. Ela prendeu a respiração e os gritos. O grego parecia querer levantar de sua posição, mas ainda era dificultoso pela camisa de força e quantidade abundante de calmante que corria em seu sistema circulatório.
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– Afrodite, traz essas duas pra cá.
– Ele está acordado? O que aconteceu? – O colega perguntou, com o par de enfermeiras no alvo de sua pistola.
– Tá, tá tudo bem, va bene? Ele só está dopado até a bunda. Qual de vocês é a Acacia?
– Não, por favor! Não me machuquem! — A jovem começou a chorar ainda mais, gritando e implorando para os carrascos um pouco de misericórdia.
– Pare de berrar! Qual é o problema de vocês?!? – O italiano apanhou a menina pelo braço, quase que da mesma maneira como fez com Mikla. Ela curvava todo o seu peso para baixo, tentando alucinadamente se soltar. Os protestos altos continuaram até a beirada da recepção.
– Não!!!! Me solta!!!
– Sua desgraçada! – Máscara da Morte estrilou. Atingiu as têmporas da auxiliar com um tiro, abatendo-a em segundos. O sangue jorrou das narinas e os outros orifícios da face, espalhando-se na superfície branca e fria do andar.
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