Madness
43 A Cena do Crime
Notas iniciais
– Você ficou louco?!? – Afrodite soltou, entre os dentes. – Não era pra matar ninguém agora, seu imbecil!
– Só assim pra essa putinha calar a boca! – Ele voltou-se para Helena, puxando a técnica pelos cabelos e encarando o seu rosto em choque. – Se não me ajudar, vai ter o mesmo destino!
– N-Não, não! Me d-deixe ir, p-por f-favor... – A dor aguda de um tapa expandiu-se na bochecha esquerda e ela acordou do transe, observando o assassino apontar para o início do corredor de salas. Helena engatinhou até o corpo de Acacia, levantando logo após para não esbarrar na poça de sangue fresco. Os olhos da auxiliar já estavam apagados pela agonia e desgraça da morte.
Máscara continuou ameaçando a enfermeira, acompanhando o seu caminhar vacilante até a porta aberta. Afrodite preferiu permanecer no começo da passagem, alerta para qualquer movimento que poderia transformar-se em um estorvo no plano de ambos.
– Hel... Helena... – Mikla sussurrou para a colega, abalada pelo barulho que ouviu. – A...
– Não mandei ninguém conversar! – O homem urrou. – Rápido, tire esse negócio dele.
– E-Eu, eu... Eu não p-posso fazer assim. Preciso de... Preciso de bandagens e... – Ela estremeceu quando viu o grego engolir a própria saliva, mexendo a cabeça minimamente. – E um p-par de lu-luvas. Pra não co-correr o risco d-de infecção.
– Puxa logo essa merda! Ele aguenta, vamos!
– O... – Helena ajoelhou e se aproximou mais do ex-capitão, respirando fundo. – O AVC atinge u-uma veia importante do corpo e... S-Se... A gente só puxar, ele po-pode perder muito sangue e morrer.
– Afrodite! – O italiano chamou. – Pegue um chumaço de algodão, algum esparadrapo e umas luvas, agora!!!
– Pff... Virei tua empregada?! – Ele arrumou a camisa e andou até o primeiro consultório, atrás da recepção. Caçou os itens pedidos e voltou para o corredor, antes fazendo uma feição de nojo para a pequena defunta estirada no chão.
– Que velocidade, huh? – Máscara da Morte puxou grosseiramente tudo da mão de Afrodite e jogou ao lado da técnica. – Vá, faça a sua mágica.
Helena distendia as luvas pelos punhos, torturando-se por ter que fazer algo tão complicado com pouquíssimo profissionalismo. Aquele não era um procedimento normal, apenas puxar e pronto. Nada daquilo era normal. Todos eram maníacos e um deles estava prestes a alvejar-lhe a carne caso ela não fosse rápida o suficiente.
A mulher retirou a camisa de força do enfermo por completo, expondo todo o acesso medicamentoso. Inspirou e expirou mais algumas vezes, tentando afugentar o seu desespero.
– Me desculpe. Isso vai doer um pouco. – Ela sussurrou, extraindo o cateter logo em seguida; o Grande Mestre grunhiu com a atitude. Colocou uma porção de algodão na abertura e pressionou a faixa de esparadrapo para estancar o líquido avermelhado que quis transvazar do corpo de Saga. Ele tentou mais uma vez se levantar, em vão.
– Máscara! – Afrodite pareceu aflito. A estrutura de bancos começou a se movimentar de forma ligeira, como se alguém quisesse sair pela escada de emergência. – Acho melhor a gente ir embora!
– Vamos, capitão. – O tirano jogou um dos braços do grego em seu ombro, auxiliando-o na caminhada. – Temos água no carro.
– N-Não! Espere! – Mikla jogou-se na frente da dupla e levou um empurrão abrutalhado para que saísse do lugar. – Você não pode levar Saga! Ele... Ele está passando por tratamentos! Não tem capacidade mental para...
– Cala a porra da boca, puttana! Eu sei bem do que ele é capaz! – Máscara começou a andar morosamente e o ex-combatente procurava forças para manter-se de pé. – Quanto tempo ele vai ficar assim?!
– N-Não sei... – A morena continuou. – Sei lá, uns três dias! Usamos calmantes fortíssimos durante todo esse tempo, ontem mesmo ele recebeu mais uma dose!
– Ótimo. Afrodite... Acabe logo com isso. Eu vou na frente.
O amigo assentiu, sorrindo sarcasticamente para as duas funcionárias que ficaram dentro da cela. Helena só conseguiu escutar o grito de horror enquanto pequenos pedaços de cérebro voaram na parede acolchoada, cromatizados pelo vermelho intenso do seu sangue.
– Não!!!! Não!!! – A psicóloga urrava de desespero. – Não, Afrodite... Por favor...
– Ah, Mikla... – Ele preparou bem a mira antes de atirar. O cano do objeto encostou na testa da plantonista e ela chorava, possuída pelo descontrole. – Eu colocarei rosas no seu túmulo, não se preocupe.
– Não... Por favor...
– Você foi uma boa médica... Mas é cheia de frescuras.
Aquelas foram as últimas palavras ressoadas em seus ouvidos vivos.
~
– Atenção, todos da Base. Atenção, todos da Base. Temos um caso na Unidade 483. Todas as viaturas, dirijam-se ao lado Oeste da Unidade 483. Alpha, Lima, Delta está a caminho. Atenção, todos da Base...
Um dos carros policiais estacionava na entrada do hospital, fazendo companhia aos outros três que já estavam ali. O começo daquele dia parecia promissor. O relógio orgulhava-se reluzente nas 5 horas e 45 minutos da manhã.
– Deve ser uma chacina. Não temos ainda a motivação do assassino. A contagem está, até o momento, em 7 corpos. – Um dos guardas preenchia uma planilha, enquanto passava as informações pelo rádio do automóvel.
– Temos testemunhas?
– Positivo. O chefe está chegando?
– Dentro de 10 minutos. A Diretora já está aí?
– Sim... Em estado de choque. Mandarei novas coordenadas em alguns instantes. – O homem entrou novamente no térreo, aproximando-se do casal de médicos.
– E então? – Mu perguntou.
– Ele vai chegar daqui a pouco. Enquanto isso, buscarei novas pistas.
– Ok... – Ele acalentou os braços trêmulos da Doutora Milla, que parecia estática e perdida em seus próprios pensamentos. – Milla?
– O... Oi...?
– Por favor, não me assuste. Não fique assim.
– Mu... Você viu os corpos? Todos eles...
– Shh... Acalme-se. Nós vamos descobrir o que aconteceu!
– Eles foram... Mortos... É tudo culpa minha...
– Não! – O tibetano trouxe o rosto da psicóloga para cima, encarando-a severamente. – Não fale assim! Nós não sabíamos que ele ia fugir!
– Mu... – As lágrimas começaram a descer em excesso e com fúria. A mulher não conseguia acreditar na cena que viu: Acacia, Mikla, Helena, as duas recepcionistas do térreo, um médico e um vigilante foram mortos naquela madrugada. Nunca, em toda a história do Instituto de Psicologia e Tratamento Psiquiátrico de Atenas, algo tão terrível aconteceu.
O par ficou ali, sentado nas cadeiras do recinto. Vários policiais iam de um lado para o outro; recolhendo evidências, fotografando áreas, passando e repassando relatórios na tentativa de juntar todas as peças daquele quebra-cabeça. A única certeza que todos tinham é que Saga, o bonitinho do nono andar, era o principal suspeito daquele massacre.
O médico foi interrompido de sua atitude consoladora por outro agente da Polícia, que anunciava a chegada do delegado. Um homem absurdamente alto e forte, dono de uma cabeleira escura e sobrancelhas grudadas no centro da testa, apertou firme a mão de Mu. Ele sentiu os carpos e metacarpos comprimirem-se de dor com aquela saudação.
– Bom dia. Você é...?
– Doutor Mu. Sou um dos psiquiatras daqui. E você...
– Aldebaran. – Ele não ligou muito para aquele primeiro contato, já rastreando o olhar com o cenário em sua frente. – Diga-me, essa história de que alguém fugiu é verdade?
– Bom, eu acho que sim...
– Acha que sim? – O delegado perguntou, a voz era sólida e grave. – Nós não estamos com tempo para achar coisas, Doutor.
– S-Sim, é que um dos nossos pacientes não está na sala de contenção.
– Entendi. A responsável pelo lugar já chegou?
– Sim. É minha namorada. – Mu parecia meio acanhado com a forma de falar do mais alto. – Ela está em choque com toda a situação e...
– Deixe-me falar com ela.
O médico engoliu seco e dirigiu-se ao grupo de assentos onde Milla estava.
– Bom dia. – Aldebaran esticou o braço para um novo cumprimento, dessa vez mais fraco. — Meu nome é Aldebaran e eu sou o chefe da Unidade 483, delegado de Polícia e dirigente do caso.
– B-Bom... Bom dia. — Ela parecia inconsolável. A visão ainda estava fixa em um ponto qualquer de sua mente. – Desculpe-me o transtorno. Não imaginei que algo assim poderia acontecer.
– Bem... Nós nunca imaginamos. Será que eu poderia dar uma olhada no local onde o seu paciente estava, Doutor Mu?
– Claro. – Ambos desceram para o subsolo e Aldebaran alarmou-se. Logo de cara, um dos corpos permanecia na posição de sua morte. Aquele deveria ser o segurança escalado para o período, por conta do uniforme típico de vigia.
Mais à frente, Acacia já estava incolor e dura. O pequeno rosto, eternamente gravado na feição de aniquilamento, continha algumas fileiras escorridas para o lago de sangue envelhecido nos azulejos.
– Por todos os santos... O que aconteceu aqui? – O comandante perguntou, incrédulo.
– Nós... Nós não sabemos.
– Mas que... – Aldebaran deu alguns passos, analisando as cápsulas ejetadas no piso. As marcas de solas, provavelmente sapatos, chamaram a sua atenção. Ele adentrou a última câmara do corredor, mirando Helena e Mikla.
A primeira estava jogada no fundo, próxima à bolsa de soro conectada em um tubo que derramou todo o conteúdo no chão acolchoado. O orifício de entrada do projétil era pequeno, mas o estrago na parte posterior de sua cabeça era horrível de se ver. A segunda, no canto esquerdo da câmara, permaneceu sentada. Os olhos moribundos estavam cravados na parede oposta da sala. Como se Mikla encarasse, para sempre, o autor de seu homicídio.
– Que tipo de maluco faria algo assim?! – Aldebaran sussurrou para si.
– Então, é... Saga tinha um problema de esquizofrenia bem sério e...
– Não... Está bem claro que seu paciente não fez nada disso. Olhe... – Aldebaran voltou-se para a entrada. – Não há sinais de arrombamento na porta. E, mesmo se ele tivesse feito isso, só sendo um super-homem ou algo do tipo para conseguir. Observe bem... – O mais alto apontou para a mão gélida e finada de Mikla. – São chaves. A vítima foi coagida a abrir.
– Eu não tinha reparado nisso...
– Outra coisa... – Seus olhos escuros pareciam brilhar pela descoberta. – Seu paciente não usava sapatos aqui dentro, ou usava?
– Não... Geralmente, ele ficava descalço.
– Pois é, agora algumas coisas se encaixam... Veja, não foi só uma pessoa. Duas, pelo menos. As balas... – O delegado aproximou-se do corpo de Helena, fitando os invólucros no solo. – São dois calibres diferentes. Um calibre na recepção, outro calibre aqui.
– Uau, isso... isso é... – Mu ficou realmente extasiado com a ligeireza do homem. — Impressionante.
– Impressionante é alguém entrar no hospital, fazer este estardalhaço e ir embora tranquilamente, Doutor Mu. Pode parecer loucura minha, mas eu acredito que um dos seqüestradores era conhecido daqui.
– Você acha?
– Sim. Vocês possuem um sistema de monitoramento, certo?
– É, nós temos, mas eu me lembro que muitos aparelhos não funcionavam pela verba escassa do hospital. Milla estava arrumando alguns andares quando nós recebemos uma parte da ajuda da Fundação Kido...
– Será que nós conseguimos as gravações? – Mu, sem sombra de dúvidas, não negaria qualquer pedido feito pelo agente. Aquele mistério havia se transformado em um manto vermelho e sacolejado para os lados e, como um touro, Aldebaran estava pronto para acertá-lo.
– Sim, com certeza. Pedirei para que ela providencie as imagens e... – O tibetano foi interrompido por um estrondo na porta da escada de emergência e alguns gritos.
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