Madness
12 O Jogo
O despertador tocou uma musiquinha pop barulhenta, parecia o inferno saindo daquele pequeno celular. Saori apertou os olhos em sinal de dor e susto. Sua cabeça estalava como uma britadeira e a tontura era notável, mesmo com o seu corpo deitado na grande cama fofinha. Ela levou suas mãos até o aparelho, tentando desligar aquele som maldito; sua tentativa foi inútil. A visão embaçada e o padecimento de sua ressaca não deixaram os dedos acertarem o botão vermelho logo de primeira. Numa segunda tentativa, ela finalmente conseguiu acordar, em choque com os números na tela.
Já estava na hora de acordar e, melhor ainda, eram quase 10h da manhã. O horário combinado com Doutora Milla para a visita exclusiva de Saori.
A menina saltou do leito e começou uma corrida contra o tempo para tentar se embelezar e ficar mais apresentável para Saga. Ela ouviu alguns murmurinhos abafados pelo travesseiro, mas não deu muita importância. Um corpo pelado e forte apalpava a cama à procura da donzela que tinha passado a noite bêbada com ele, mas nada de achar alguém por ali.
– Saori? – Ele disse, finalmente. Sua voz estava embargada pelo sono e seus olhos foram coçados, num esforço para manter sua cabeça mais alerta. – Saori! Você está indo pra qual lugar com essa pressa toda?!
– Eu tenho um compromisso importante agora pela manhã, Seiya! Já estou atrasada, tenho que sair logo!
– E esse compromisso fica aonde? Você vai ver o Papa?!
– Não! – A pequena bufou. – Mas é importante do mesmo jeito, tá legal? Eu tenho mais uns assuntos para resolver na Instituição Psiquiátrica e eles dependem da minha aprovação para continuarem. – Ela fitou o rapaz nu em sua cama. – A gente não fez nada ontem, fez...?
O menino deu de ombros. Estava bêbado demais para se lembrar de alguma coisa.
– De verdade, se a gente fez alguma coisa eu espero mesmo que você tenha se protegido! – Ela apontou o dedinho indicador na direção do namorado. Fez mais uma corrida para o banheiro, terminando de se arrumar e lotar o corpo com o melhor perfume que tinha. – Já te falei que não tenho vontade nenhuma de cuidar de criança agora e meu avô me mataria se isso acontecesse!
– Não, hey! Não fizemos nada não, ok? Não se preocupe porque o seu corpinho vai ficar do jeito que sempre foi! – Seiya disse, com certa raiva na voz. Já estava colocando sua cueca e encarava a garota, que finalizava os retoques em sua maquiagem. – Eu nunca te vi se arrumar tão rápido, Saori. Esse compromisso deve ser mesmo indispensável.
– Olha, Seiya... Me desculpa. Eu não quis falar de um jeito rude com você. Obrigada por me levar na festa do Hyoga, sim? – Ela deu um selinho nos lábios do garoto. – Eu juro que, assim que sair de lá, eu te ligo e nós marcamos alguma coisa para mais tarde. Tá bom? – Ela soltou aquele sorriso. Aquele mesmo sorriso que derrete o coração de todos os homens e faz com que seus desejos sejam atendidos. O sorriso de Saori ficaria famoso um dia, imortalizado e enquadrado ao lado de Monalisa.
– Tá, tudo bem... – Seiya agarrou a menina pela cintura e também esboçou felicidade nos lábios. – Eu te espero. Mas fique com esse celular perto, pode ser? Eu não quero mandar um monte de mensagem que nem um idiota e depois descobrir que você estava sem bateria e bem longe dele.
– Não se preocupe, ele ficará bem pertinho de mim. Me desculpa de novo, meu amor. – Outro selinho de despedida foi dado e ela disparou para o grande carro da família Kido. Não fez questão de esperar seu mordomo preferido e deu sinal para que o motorista fosse até o hospital.
~
Aquela manhã estava ótima para um passeio, uma caminhada pelos corredores de cimento que desenhavam o jardim da Instituição, ou até mesmo uma paradinha em um banco qualquer, observando o sol e as árvores do lugar. Mas Saga não estava com muita vontade de fazer tudo aquilo. Ele tinha saudades, e estava matando tudo naquele jogo de xadrez.
– Cheque! – Ele disse, depois de movimentar um cavalo para uma fileira abaixo do rei. – Vamos, velho Dohko! Quero ver sair dessa!
– Ora, meu jovem Saga... – Um dos bispos do idoso trocou de lugar com o cavalo branco. – Eu já te falei que não dá pra ganhar o jogo todo usando somente os seus cavalos! – O homem riu de forma rouquenha. Dohko era um dos internos do primeiro andar e costumava jogar com Saga, geralmente quando os horários dos dois pisos eram conciliados. O mais jovem gostava muito de prosear com Dohko, talvez porque o velho entendia bastante de várias coisas, e compreendia algumas aflições de Saga.
– Eu sempre me esqueço desse bispo, Dohko. – Ele analisou mais um pouco as suas peças, a maioria já estava na posse do ancião. – Mas confesse que estou melhor que as últimas vezes que jogamos, não é? – Ele arrastou uma das torres para mais perto do bispo espertalhão.
– Sim, Saga... Você me surpreende toda vez que jogamos. – Dessa vez, a torre foi comida por um dos cavalos de Dohko. O velho tinha grandes olhos verdes, quase saltados do rosto. Ostentava um bigode logo abaixo do nariz e a barba branca quase encobria seu sorriso largo. Seus cabelos já não existiam com a mesma fartura da juventude e, por isso, ele gostava de usar um chapéu trançado e meio desgastado pelo tempo. Ele era tão expressivo em seu olhar que nem parecia ter vindo da China. – Aliás, você andou sumido por um tempo... Teve mais uma de suas crises?
– Sim. – Saga disse, sem tirar os olhos das peças do tabuleiro. – Foi recente, até. Eu achei que ia ficar mais tempo sem banho de sol. – Ele decidiu arriscar com o seu bispo, comendo um peão negro. – E o seu filho, veio fazer alguma visita?
– Não, Saga. – Os dedos enrugados do idoso movimentaram o bispo novamente, de forma ligeira. – Eu comecei a acreditar que ele só me deixou aqui pra se livrar de mim. – Saga encarou seu amigo. Esse era um dos motivos (se não o maior) de ter começado a conversar com Dohko. O homem foi internado pelo seu filho há, pelo menos, uns 2 anos. Ele nunca veio fazer uma única visita. Os olhos do chinês começaram a marejar e o ex-combatente colocou uma de suas mãos no ombro do colega de hospital.
– Não se preocupe, velho amigo. Talvez ele esteja ocupado demais, quem sabe! – O sorriso amarelo de Saga não ajudou muito. – Pelo menos você está se recuperando bem das suas crises de choro, está melhorando da depressão...
– Quem me dera que isso estivesse acontecendo, Saga... – Os dois se olharam. – Mas eu não procuro pensar nisso, entende? – A expressão de Dohko ficou mais amena. Lembrou-se de sua internação acontecer depois de algumas tentativas de suicídio. – Diga-me, Saga... Você já ouviu os boatos? Da reforma no hospital?
– Sim! E eles são verdadeiros! – Um peão branco foi movimentado. – A Doutora Milla conseguiu uma ajuda da Fundação Kido e eles vão tirar o Instituto do vermelho. Eles vão reativar a biblioteca, Dohko! Eu até conheci a neta do dono da Fundação! Ela veio me visitar, você acredita?! – Saga movimentava o corpo para frente e para trás, como se fosse uma criança.
– Eu acredito sim, Saga. – O idoso riu. – Eu aposto que a mocinha gostou de conhecer você, não? – Ele aproveitou para zombar um pouco também.
– Não é bem assim, Dohko... – Ele viu a sua última torre ser comida. – Ela é bem legal, na verdade. Não acho que queira algo comigo, sério.
O velho riu mais alto, estudando o próximo gesto de Saga no jogo. Ele tinha uma grande consideração pelo paciente do nono andar, até mesmo uma proteção paternal. Decidiu ajeitar seu chapéu em sua cabeça calva e brincar mais um pouco.
– Sabe, Saga... Já te contei como conheci minha falecida esposa, não?
– Claro. Umas mil vezes. – Os dois riram. Dohko não ligava para as brincadeiras do jovem. Deslocou sua rainha uma última vez na tábula de madeira.
– Cheque-mate. Saga, se não vale como experiência, eu vou te falar como eu e minha amada nos apaixonamos. Certo dia, eu estava em Jiujiang, treinando para ser um mestre em kung-fu. Lembro-me que estava aguardando alguns companheiros de luta e...
Saga recolhia as peças do jogo, com meio sorriso em sua face e uma paciência que só ele tinha com o velho Dohko. Ouvia com calma toda a narrativa, já bem conhecida.
Depois de mais alguns intermináveis minutos de enredo, as enfermeiras chamaram os internos para os seus devidos andares. Os dois amigos se despediram, combinando as próximas jogatinas de xadrez.
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Enquanto isso, Saori acompanhava com os olhos o seu príncipe (des)encantado. A cabeleira azul ficava ainda mais forte com o sol, as roupas estavam mais alvas do que nunca. Um suspiro era dado de tempos em tempos e o corpo da menina estava totalmente debruçado na varanda do último andar. Ela viu Saga jogando algo em um tabuleiro, poderia ser xadrez. Ela queria muito aprender a jogar xadrez. Talvez pedisse para o interno que a ensinasse um dia.
Ao mesmo tempo, a patricinha começou a refletir em como sua vida estava diferente depois da visita no hospital. Ou melhor, que ela estava diferente. De repente, a sua vida de selfies e compras já não era mais tão interessante... Algo acontecia em sua cabecinha e ela não sabia explicar muito bem o que era. Talvez fosse o “efeito Saga” ou algo do tipo. Será que as enfermeiras sentiam isso também?
Por um momento, a garota imaginou como seria se Saga não fosse curado. Se tivesse que passar o resto da vida ali, preso em um quarto de manicômio, indo e voltando de sua sanidade várias vezes. Ela fechou os olhos, fantasiando com um futuro não tão bom. Ela poderia tentar falar com Siddhartha e, finalmente, arranjar uma solução para o homem. Faria isso hoje mesmo, depois de pedir a devida autorização para a Doutora Milla. Esses tratamentos alternativos sempre estavam por dentro da moda de várias celebridades.
Um estalo foi dado em seu corpo quando viu Saga levantar-se e seguir para dentro do complexo, acompanhado por uma enfermeira e um segurança tão alto e forte quanto ele. Suas mãos passaram nervosamente pelo vestido rosa e justo, tentando dar um ar mais arrumado à sua presença (o que já era impossível). Mais alguns minutos e os dois já estavam juntos no quarto 96, conversando animadamente.
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Saori ficou feliz em ver que a Diretora aceitou as suas propostas com relação aos novos tratamentos para Saga, pois já estava pronta para um segundo round com a Senhora Milla. Ela sentiu a mulher um pouco mais aérea e até sorridente demais, seu foco parecia estar em algum canto da lua. A única condição para a nova terapia seria apresentar este “médico” da Fundação para Mu, que era o atual responsável por Saga e estava mais no comando de tudo do que ela mesma – palavras da própria psicóloga. Era incrível como seus olhos brilhavam mais que o costume ao citar as duas letrinhas tão incomuns para um nome decente... Alguém parecia estar mais apaixonada que Saori naquele escritório.
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