Madness

13 O Amigo


Ao entrar no carro, a japonesa não hesitou em pegar seu celular e ligar para o gabinete budista da Fundação.

– Alô? Eu gostaria de falar com Shaka, por gentileza.

– Ele está ocupado no momento, senhorita. Gostaria de deixar um recado? – Uma voz fina e anasalada, carregada em um sotaque esquisito, respondeu no outro lado da linha.

– Bom, peça para ele alguns minutinhos porque eu preciso tratar um assunto urgente. Aliás, você sabe com quem está falando?

– Não, e acredito que o Senhor Siddhartha não esteja com alguns minutinhos para atender a senhorita no momento. Gostaria de deixar um recado? – A garota arfou furiosamente, virando os olhos para o teto do carro.

– Diga para ele que é a Saori Kido na linha. Eu aguardo. – Outra bufadinha foi ouvida pelo outro lado do telefone.

– Sim, Senhorita Saori. Só um instante, por favor.

“Secretárias estúpidas”, a menina pensou logo depois de revirar os olhos novamente. Uma música new age tocou por alguns momentos, sendo interrompida pela voz calma e grave do guia espiritual.

– Saori?

– Shaka! Quanto tempo! – Ela se esqueceu de toda a inconveniência ao ouvir Shaka, uma sensação de nostalgia tomou a moça totalmente. Durante muito tempo em sua adolescência, Saori visitou Shaka para algumas consultas e recebia vários conselhos do rapaz. Eles não tinham muita diferença de idade, mas com certeza eram bem diferentes em suas almas. Ela estava com 16 anos quando Shaka não devia passar dos 18.

– Sempre com pressa, huh? Como estão as meditações? – Seu sotaque era bem mais leve.

– Ah, Shaka... Você sabe... Eu parei por um tempo, estou muito atarefada com as questões da Fundação...

– Muitas compras, não é mesmo? – Ela fez uma careta de culpa. Shaka sabia exatamente quais eram os problemas de Saori. O silêncio arrancou uma risada do budista. – Tudo bem. Podemos falar sobre isso depois. Diga-me, qual seria o motivo da sua ligação urgente?

– Shaka, eu estive trabalhando bastante e veja só, estou até exercitando a minha caridade com os outros, como você me disse uma vez! – A menina ficou bem agitada. – Eu fiz uma das minhas visitas em um hospital psiquiátrico aqui de Atenas e vi um caso que precisa muito da sua ajuda... É um homem que está internado aqui por uns 10 mil anos e nossa, ele é tão legal! – Ela gesticulava bastante, também. – Ele tem esse problema de dupla personalidade e fica, tipo, super malvado, sei lá... Ele precisa muito do seu auxílio, Shaka!

– Tudo bem, eu vejo o que podemos fazer por ele... Amanhã viajo para a minha casa na Índia, tenho algumas pendências para resolver por lá e...

– Não, Shaka! Ele não pode esperar mais nem um minuto! Ele precisa de você! – O silêncio voltou e, com ele, um suspiro calmo do homem.

– Saori... Você se lembra de quando nós conversamos que as coisas não podem ser sempre do seu jeito?

– Sim, mas... Por favor... Ele precisa muito da sua ajuda mesmo! – A voz manhosa da patricinha era irresistível até mesmo para os homens mais próximos de Deus. Além disso, aquele era um pedido da neta do Senhor Kido.

– Tá, tá bom. Eu vejo se consigo remarcar o meu vôo. Espero mesmo que a situação dele seja tão grave assim.

– E-Eu pago a sua passagem! Eu pago a passagem de ida e de volta, qualquer coisa você vai no meu jatinho! – Ela se exaltou. – Por favor, Shaka... Eu peço para te buscarem por volta das 11h, pode ser? – Mais um suspiro foi ouvido, dessa vez forte e sonoro.

– Ok, Saori. Nos vemos amanhã. Bāya.

A garota soltou um gritinho de felicidade, mal podia acreditar que parte do seu plano já tinha dado certo.

~

No período da tarde, Kanon e um antigo amigo de Saga estavam realizando mais uma visita ao interno.

– Shura! Como está no restaurante, amigo? – Os dois se abraçaram efusivamente. Shura também foi um companheiro de Exército de Saga, mas ele não tinha muita vocação para os treinos e a rotina. Ele ficava mesmo na cozinha do batalhão, preparando refeições e ouvindo músicas de sua terra, a Espanha. O rapaz tinha um cabelo preto arrepiado e uma cara de poucos amigos, mas era uma boa pessoa. Decidiu sair da vida militar depois de receber uma proposta de trabalho em um dos restaurantes do Porto de Pireu como auxiliar de cozinha.

– Vai tudo muito bem, amigo. E você, como está? Kanon me disse que teve uma crise por esses dias... Não foi algo muy grave, foi? – O homem usava várias palavras espanholas, como se nunca tivesse saído de lá.

– Sim, mas já passou. Estou tomando mais remédios para dormir. E ganhei até um quebra-cabeça!

– Além disso, ele ganhou um petisquinho japonês pra fazer visita de vez em quando. Ou todos os dias. Não é, Saga? – Kanon disse, zangado. – Acha que eu já não sei? Que a sua namoradinha da Fundação conseguiu um horário extra com você?!

– Petisco... Como assim, Saga? Está enamorado, eh?

– Não, Shura... Kanon, não é bem assim. Ela quer me ajudar com um cara da Fundação que faz uns tratamentos psiquiátricos também, ela pediu para a Doutora antes de vir pra cá nesses horários.

– E a Doutora deixou?!? – Kanon levantou da cadeira. – Eu nunca vou entender esse hospital! Eu sou seu irmão e nunca tive isso, Saga!

– Kanon, fique calmo, está bem? Não é motivo pra tanto drama. Você já tem bastante privilégio dentro desse lugar e você sabe disso. – Saga falou, encarando o irmão. — Shura, me diga, como está Camus? Ainda trabalhando na faculdade?

– Si, si. Ele foi homenageado pelos colegas como o melhor professor no ano passado. Inclusive, ele deixou um abrazo e falou que virá logo fazer uma visita. – Shura prestava atenção no quebra-cabeça finalizado de Saga.

– E aquele amigo doidão dele, o rockeiro? Eles ainda se falam?

– Si, mas Milo está viajando pela Europa Central em turnê com a bandinha dele. Levou su compañera também.

– Deve ser legal viajar pelo resto da Europa... – Saga manifestou.

– Quem sabe a sua ninfetinha não te leva pra viajar, Saga? – Kanon continuou irônico. – Shura, você precisa conhecer a neta do Senhor Kido. Ela é caidinha pelo meu irmão. – O espanhol olhou ardilosamente para o paciente.

– Então nem preso você consegue ficar livre, eh?

– Não, Shura... Meu irmão gosta de inventar as coisas, você sabe. Ela é uma boa pessoa e está disposta a ajudar a Instituição financeiramente. – Os gêmeos se olhavam com raiva.

– Shura, imagine só... – Kanon separou seus cabelos e jogou os fios para frente, imitando uma voz feminina bem afetada. – “Kanon, seu irmão é tão legal, tão bondoso, tão bacana... Eu adoraria dar pra ele, Kanon!” – Ele se movimentava pelo quarto, fazendo o máximo de escárnio que podia. – “Eu vou arranjar um horário com a Diretora, assim ele pode me comer sem que ninguém veja! Meu maior desejo é dar uma dentro de um hospício!” – Ele estava, literalmente, avacalhando tudo. – “Saga, você é tão lindo, você bem que poderia tirar a minha virgindade e...”

– Ela é virgem?! – Shura perguntou, chocado.

– Deve ser de algum buraco. – Kanon continuou. – Porque ela tem cara de ser nojenta pra várias coisas. – O mais novo se virou para o irmão. – Ela é nojenta, Saga?

– Pare com a brincadeira, Kanon. Isso não tem graça nenhuma. – Ele disse, se arrumando na própria cama. – E eu sei bem por qual motivo você mantém essa pose de machão pra todo mundo. Você age assim só porque tomou um fora da...

– Eu não tomei fora nenhum! – Kanon interrompeu com animosidade. – Não ouse falar no nome daquela mulher!

– Creo que ainda está com seu corazón muy machucado, amigo Kanon...

– Não comece você também! – Ele apontava o dedo para o aprendiz de cozinheiro.

– Kanon, não tem problema nenhum reconhecer que levou um fora de alguém que gostava, é simples... – Saga dizia com seus olhos cerrados, como se estivesse em meditação.

– Eu juro por Deus que se você não estivesse nesse quarto, eu te comeria na porrada agora! – Agora o dedo estava na cara de Saga.

– Amigo, não precisa ficar assim! – Shura interviu. – Eu acho que a Thetis não fez aquilo com você de propósito e...

– Eu não vou ficar mais perto de vocês!!! Eu pedi pra não falar o nome dela!!! – Kanon gritou. Thetis era uma moradora da vila próxima ao Porto de Pireu e, durante algum tempo, teve o coração do marinheiro em suas mãos. Ele era extremamente apaixonado e fazia muitas coisas por ela; dava presentes caros, levava para passeios, era fiel, chegou a pedir para conhecer a família da moça... Mas nada disso foi o suficiente. Ela casou-se com o filho de um magnata do mercado pesqueiro depois de saber que Kanon cumpria pena na prisão em Atenas. Thetis nunca mais quis saber dele e, até hoje, o irmão mais novo de Saga sofria com a dor de cotovelo.

– Cuidado, Kanon... Eu posso chamar os enfermeiros daqui e eles são bem fortes, vai por mim.

– Não precisa, querido irmão. Eu posso ir embora daqui sozinho. Vamos, Shura. – Ele disse, pegando grosseiramente a jaqueta de couro falso que estava encostada na poltrona do cômodo. – Espero que aproveite bem seus horários com a japonesinha peituda, Saga. Não se esqueça que fui eu que arranjei ela pra você. – Kanon bateu a porta do quarto com força e o interno ouviu o trinco ser fechado com fúria.

Saga respirou fundo; não gostava de brigar com o irmão, ainda mais por motivos fúteis. Mas Kanon tinha uma personalidade explosiva e não gostava de ser contrariado e, por isso, era inevitável fugir dessas situações.

~

Já era final de tarde quando Saori e Seiya foram visitar a tia do menino em sua mansão no bairro Plaka, conhecido pelos seus edifícios custosos e cheios de glamour. A arquitetura do lugar era complexa e antiga mas, ao mesmo tempo, com um toque moderno e elegante. Saori adorava a tia de Seiya, talvez por ser a única da família que ostentava ter mais dinheiro que o restante e, sendo assim, chegando ao mesmo patamar que a família Kido.

– Tia Marin! – Seiya abraçou calorosamente a parente, que atendeu a porta da mansão com felicidade. Marin era uma mulher legitimamente grega, tinha os cabelos ondulados ruivos e brilhantes; seu rosto era bem jovem para a sua idade. Ela mantinha o seu corpo esguio e conservado com muitos exercícios e tratamentos de luxo, já que tinha poder aquisitivo para tal façanha. Logo atrás estava o seu marido, um homem alto e de feição tranquila chamado Aioria. Ele tinha cabelos castanhos claros e seu corpo era igualmente bem cuidado. Os dois se conheceram há uns 15 anos e sempre contavam as histórias de namoro, como não hesitaram em se casar depois de pouco tempo apaixonados. Marin sempre foi uma mulher muito chique e Saori adorava aquilo.

– Meu anjinho, Seiya! Como você está forte! – Ela disse, apalpando o braço do mais novo. – Saori! Vejo que você continua linda. Perdeu alguns quilos, foi? – Esse era outro motivo para Saori amar a tia de Seiya; ela sempre elogiava o corpo magricelo da patricinha.

– Obrigada, tia Marin. Você também está maravilhosa! As aulas de Pilates estão te fazendo muito bem!

– Ah, menina... Nem me fale nessas aulas! São tão difíceis! Estou fazendo no mesmo estúdio que a Madonna usa quando vem para a Grécia, mas não tive a sorte de encontra-la ainda. Venham, meus amores... Eu vou trazer um café para vocês, sim?

– Obrigado, tia Marin! Tio Aioria, como vão as competições de golfe?

– Elas estão ótimas, Seiya. Já te convidei para participar de um treino comigo. Por que não combinamos um final de semana dos meninos e deixamos as madames em alguma loja por aí? – Os dois riram.

– Seria ótimo, tio Aioria. – O rapaz respondeu. A ruiva voltou, colocando o bule de café na mesa com mais algumas guloseimas. Seiya não vacilou e foi aproveitando todos os quitutes.

– Então, Saori... – Marin continuou. – Quando vocês vão acertar o casamento? – A menina deu uma engasgada com a pergunta.

– Bom, tia Marin... Não temos certeza se é a hora para pensar em casamento. Não é, Seiya?

– Tia, eu tenho certeza que é ela. Ela é a minha prometida, a mulher dos meus sonhos. – A japonesa esbugalhou os olhos, acompanhando Seiya com a boca toda cheia de farelos. – Mas eu acho que ela não está com vontade de casar comigo.

– Bem, eu vejo que nem aliança de compromisso vocês têm ainda. – Aioria comentou.

– É que nós não tivemos tempo ainda de providenciar uma... Eu estou bem abarrotada com a Fundação e as visitas que preciso fazer, sem contar os eventos que organizo e etc. – A menina se esquivou.

– Isso mesmo, tio! Ela não tem tempo pra nada mesmo! – Seiya disse, limpando a boca cheia com as mãos. Ele era um poço de graça e sofisticação. – Mas vira e mexe ela sai com as amiguinhas pro shopping, fica comprando roupa, tirando foto no celular e nada de ficar comigo!

– Ora, Seiya... Deixe de ser possessivo! – A grega tomou as dores. – Você precisa dar espaço para a sua namorada ter saudades e gostar mais de você! Nem todos tem a mesma convicção que eu e seu tio Aioria tivemos na juventude...

– Exato, Seiya. Deixe de ser possessivo! – A garota repetiu. Todos começaram a gargalhar e continuaram a conversa, entusiasmados. Menos Seiya. Ele estava pensando em algumas palavras que o seu tio disse, desenhando uma idéia em sua mente pseudo-genial.