Madness
7 O Irmão Mais Novo
O dia seguinte chegou e, com ele, a ansiedade de Saori. Ela ignorou as mensagens do seu namorado questionando se ela estava bem e se eles podiam sair; também deixou de ler as frases pervertidas das amigas sobre a possível noite que ela teria com Seiya.
Ela se olhou no espelho e mal podia se reconhecer.
Tomou um banho demorado e vestiu a peça de roupa onerosa. Seguiu o conselho de sua amiga, aplicando um perfume importado e de longa duração em pontos específicos do corpo. Ao invés de usar um coque, ela decidiu manter parte do cabelo preso e o restante cair em seus ombros. Procurou utilizar uma maquiagem leve e um sapato de salto baixo, pois não queria mostrar que estava indo a uma festa. Apesar da personalidade de Saori ser bem pretensiosa, ela sabia se portar em cada situação. Só queria mesmo que esta, em particular, fosse um pouco diferente.
Ela informou o engenheiro da Fundação que já estava de saída. Nesta visita, ela preferiu não ir com o seu mordomo-carrapato. Não queria que alguém da empresa desconfiasse das suas intenções. De forma atípica, Saori definiu que ia chegar no horário certo, não querendo se atrasar de jeito nenhum.
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Os dois foram recebidos prontamente pela Diretora Milla, que reparou nas vestes da moça. Ela estava um pouco mais informal do que o costume e bem mais perfumada. Ela também se surpreendeu ao notar que Saori realmente tinha ido até lá, na hora certa, apenas para conversar com Kanon. Com certeza, ela deveria estar muito interessada em Saga.
Primeiramente, Doutora Milla deixou o engenheiro-chefe do complexo hospitalar juntamente com o funcionário da Fundação Kido, no térreo. Eles tomaram rumo para o segundo prédio, abandonado e em ruínas. As duas seguiram novamente para o elevador, chegando rapidamente ao nono andar. Saori segurava suas mãos na frente do corpo, procurando não tremer muito de inquietude.
Ela viu o homem na frente da grande abertura negra que ficava ao lado da porta de Saga, observando o que acontecia lá dentro. Não tinha como dizer que os dois não eram irmãos, pois Kanon era verdadeiramente idêntico ao outro. Tirando o fato de ele ser um pouco mais bronzeado e ter um tom um pouco mais claro de azul nos cabelos. Kanon vestia uma blusa branca simples grudada no corpo e calça jeans cinzenta. Saori reparou depressa nos músculos torneados do homem, não querendo se perder muito naquela visão.
A Doutora veio cumprimentando Kanon, dando uma olhada rápida no seu antigo interno.
– Kanon, esta é Senhorita Saori, filha do Senhor Mitsumasa Kido, da Fundação Kido. Ela está nos ajudando a sair do buraco financeiro. – Ela riu, nervosamente. Viu que os dois se olharam profundamente.
– É um prazer conhecê-la, Senhorita Kido. – Ele disse, estendendo a mão para Saori. O aperto de mão foi leve, mas rijo o suficiente para causar arrepios na moça. – Fiquei sabendo que a Senhorita se interessou pelo meu irmão, é isso?
– S-Sim, quer dizer, pelo caso dele. A Senhora Milla comentou que ele era um dos pacientes mais antigos e que passou por vários problemas enquanto esteve aqui... Ele parece ser uma pessoa cheia de histórias.
– Ele tem algumas, sim. Por um acaso a Senhorita gostaria de usar uma delas para arrecadar mais dinheiro para a Fundação? – O clima ficou tenso. A Diretora não imaginou que ele começaria com as perguntas irônicas tão cedo. Ela fitou o homem minuciosamente, dando a entender que aquilo não era o combinado entre eles.
– Não, Senhor Kanon. Pelo contrário. – Saori sentiu o ar sobrecarregado e decidiu quebra-lo com um sorriso. – Este interesse é pessoal. Viajei várias partes do mundo e nunca vi um caso como o do seu irmão.
– Aposto que existem pessoas bem piores que ele, Senhorita. – Kanon desabafou. Mas, apesar de tudo, ele viu que a Doutora tinha razão: Saori parecia ser bem gostosinha. Ele retornou ao seu tom normal e educado. – Enfim... Espero que a Senhorita não se decepcione com as histórias dele. E não precisa me chamar de senhor, apenas Kanon está bom.
A médica soltou um suspiro de alívio, como se tivesse evitado a explosão de uma bomba ao cortar o fio vermelho. Decidiu deixar os dois sozinhos.
– Bom, vocês já estão apresentados e, caso precisem de algo, é só ir até o meu escritório. – Ela olhou novamente Kanon, como quem dizia “cuidado com o que vai fazer, rapaz” e foi embora. Ele contemplou levemente o rosto da moça.
– Diga-me, Saori... Por qual motivo a Senhorita gostou tanto do meu irmão?
– Bom... É difícil explicar. – Ela mirava o paciente que estava concentrado em seu grande quebra-cabeça. – Eu imagino como é difícil ficar aqui, preso por tanto tempo, tentando se encontrar. Como é complicado conviver com outra pessoa em sua própria mente... – Ela não parava de olhar. Kanon aproveitou para observar um pouco os seios da moça, sonhando em como eles seriam por debaixo daquele pano.
– Realmente, é muito difícil. Ele sempre fica me falando dos planos que faz quando sair daqui, que quer muito se livrar logo dos seus sintomas... Mas, com ele, tudo vira um mistério. Esses dias ele teve outra crise, depois de muito tempo sem demonstrar nada. Nem eu consigo entender meu irmão, às vezes. – Agora os dois olhavam Saga. Com a mesma profundidade.
– E então, Kanon, você vem visita-lo todos os dias?
– Sim. Eu fiquei durante muito tempo sem ver meu irmão e, agora, não quero perder uma oportunidade. Ele é a única família que eu tenho.
– E a sua mãe? Seu pai?
– Nós somos órfãos. – Ele olhou novamente para a garota, desta vez de forma séria. Ela baixou um pouco o rosto, em sinal de respeito.
– Você deixou de ver seu irmão por quanto tempo?
– De quando ele veio para cá, foram 6 anos. No próximo mês ele completa 11 anos de internação. – Saori não pode deixar de abrir a boca, espantada. – Você não sabia que ele estava aqui todo esse tempo?
– Não... Eu nunca consegui conversar muito com a Doutora, ela é sempre cheia de tarefas. E você ficou esse tempo longe, por quê? – Kanon olhou de forma sisuda. – Quer dizer, se quiser me contar, é claro...
– É uma longa história.
– Bem... Eu estou aqui pelas histórias, não é mesmo? – Ela sorriu novamente. Aquele sorriso poderia encantar qualquer ditador ou tirano. O homem suspirou e tomou fôlego para começar a narrar todos os acontecimentos.
– Quando completamos 18 anos, Saga e eu conseguimos fazer parte das Forças Armadas aqui da Grécia. Eu entrei na Marinha e ele entrou no Exército. Depois de mais ou menos um ano e meio, eu comecei a fazer algumas... Como posso dizer? Algumas coisas ilícitas para conseguir mais dinheiro, porque eu queria muito sair daqui. Eu não queria ficar mais na Marinha e nem na Grécia... E chamei Saga para participar comigo. No começo, ele foi muito categórico em dizer que não queria saber de nada... Aquele dia foi engraçado. – Kanon olhou novamente para o irmão, que já estava na metade do jogo mental. – Eu deveria ter seguido os conselhos dele. Ele não queria estragar a sua carreira militar por dinheiro. O sonho dele sempre foi se tornar Marechal ou, no mínimo, General. Eu acabei arruinando esse sonho, ou melhor, os nossos sonhos. – Ele voltou a fitar a menina, que prestava atenção em todas as palavras. – Em 3 anos, ele conseguiu se transformar em Capitão. Ele sempre foi um homem muito correto no que fazia e era considerado um dos mais fortes do batalhão, era o melhor com as armas e nos treinos de luta corporal. O máximo que eu consegui naquela época for ser Cabo. E por isso eu gostava de fazer coisas fora da lei, eu me sentia bem com aquilo, sei lá.
– O que você fazia? – Ela estava presa naquelas memórias.
– Várias coisas... Usava meu cargo na Marinha para me aproveitar dos outros... E fora do meu horário também... Agredia pessoas, extorquia todo o tipo de gente, participava de esquemas ilegais com armas, tinha conexões com o mercado negro... E eu fui burro porque, ao invés de usar o que ganhava pra cair fora da Grécia, eu permaneci aqui, queimando o dinheiro como se fosse lenha. E logo depois que Saga conseguiu ser Capitão, eu meio que convenci ele a ir pro meu lado. Foi nessa época que ele começou a surtar. No fim, nós viramos uma pequena máfia. Mas ele era esperto, pelo menos... Quando alguém precisava tomar uma surra ou morrer, ele não fazia com as próprias mãos. Mandava alguém fazer por ele. – Saori não conseguia ficar mais chocada.
Mas... Eles eram tão lindos! Um homem daqueles não podia ser tão malvado assim... Aquela cabecinha estava começando a entrar em pane com tanta informação. Kanon decidiu tranquilizar a moça.
– Ele só fazia isso porque tinha esse tal de Grande Mestre controlando tudo. Ele gostava de se chamar assim. Uma vez eu dei tanta risada da forma como ele falava que ele quase me matou. Sério. Eu apanhei como um mendigo velho. Se eu soubesse que ele era esquizofrênico e maluco, nunca teria metido meu irmão numa bagunça dessas.
– Mas, Kanon... Se vocês fizeram tudo isso, não deveriam ser presos??? – Ela não conseguia entender.
– Sim. E eu fui. Fiquei 6 anos na prisão militar. Só saí por conta da condicional, tive um bom comportamento enquanto estava lá. Sem contar que a minha advogada me ajudou muito, porque a gente se ajudava... Se é que você me entende. – Ele deu uma piscadinha devassa. – Eu saquei, depois de algum tempo, que aquilo tudo estava muito errado. Eu tinha ferrado meu irmão da pior forma possível. Antes que você me pergunte: Saga só veio pra cá porque constataram que ele tinha um problema mental muito sério e, sendo assim, o Exército decidiu perdoá-lo de alguns crimes. Como ele era um dos melhores, o próprio General Aioros disse que, se ele se tratasse e melhorasse da sua enfermidade, ele poderia sair numa boa. Mas não voltaria para o Exército nunca. E eu também não meti os pés na Marinha novamente. Estou trabalhando no pesqueiro que fica no Porto de Pireu.
– E como vocês foram descobertos?
– Bom, teve um dia que Saga ficou tão demente que foi até a casa desse General e quase matou ele estrangulado. Só parou porque a mulher dele deu um tiro certeiro nas costas do meu irmão, nunca imaginei que as esposas sabiam atirar também. – Ele devaneou. – Enfim, ele conseguiu se recuperar bem do tiro... Como eu disse, ele sempre foi muito forte. O General ficou alucinado com Saga e ele passou um tempinho na prisão do Exército, antes de ser examinado pelos médicos de lá e ser transferido para este hospital. Ele concluiu que tudo aquilo que Saga fez não era, de fato, culpa dele. Ou foi pura sorte do meu irmão ser perdoado assim, não sei dizer.
– Nossa, Kanon... É uma pena saber que vocês passaram por tudo isso...
– Eu não consigo tirar da cabeça que ele só está aqui por minha culpa. – A sua voz ficou pesada e ele sentiu um grande nó se formar na garganta. Ele não queria chorar na frente da menina. – Se eu não tivesse sido tão egocêntrico, tão estúpido... Nós estaríamos bem agora. – Saori colocou a sua mãozinha no ombro do homem. Quase da mesma forma que a Doutora Milla fez no dia anterior.
– Kanon... Imagina se ele descobrisse a sua enfermidade em outro tempo, poderia ser pior para ele... Ou se ele matasse alguém com as próprias mãos! Como seria se recuperar de sua doença numa cadeia comum? Ele não conseguiria... – O rapaz concordou, em partes. Sua tristeza foi embora depois de ver uma das enfermeiras passar pelos dois. Saori deixou a dó de lado por um momento.
– Enfim, Senhorita Saori... Eu vou entrar e avisar meu irmão que você está aqui, tudo bem? Assim a Senhorita finalmente conseguirá falar mais com ele... – Os dois sorriram em harmonia.
– Não precisa me chamar de senhorita. Apenas Saori e está bom. – Ela repetiu a frase de Kanon, arrancando uma gargalhada dele. O homem se dirigiu até o posto de enfermagem para pedir permissão a uma das enfermeiras, já que o quarto 96 era trancado por uma fechadura codificada. A chave, geralmente, ficava com a enfermeira-chefe.
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