Madness
41 O Hospital
Notas iniciais

Era impossível manter os joelhos parados, tamanha era a agitação do homem. De vez em quando ele ia de um lado para o outro, devaneando naquele extenso corredor. Era horrível ficar por lá. Notavelmente, aquele seria um lugar para loucos.
Mas Kanon conhecia bem os arrepios causados por esta sensação. Não era a primeira vez em que ele, piamente, passava os seus dias ali. Acompanhando Saga. Rezando, com o mínimo de fé e o máximo de boa vontade existente em sua alma, para que o gêmeo melhorasse e retornasse de suas crises.
Ele observou o elevador abrir-se e, de dentro, uma ansiosa e aflita Saori andar pelas proximidades. Foi difícil, porém ele pediu desculpas pelo comportamento explosivo que teve há algumas semanas. De fato, ninguém poderia imaginar que Saga ficaria doente novamente. Por mais mesquinha e enfadonha que fosse, a menina não seria capaz de desejar mal para o seu irmão mais velho.
Honestamente, Saori mudou por completo a sua personalidade e rotina.
— Como está, Kanon? – Ela perguntou, puxando uma das alças de sua bolsa de volta para o ombro. – Ele está acordado?
— Sim. Sugiro que não fique perto, caso não queira ficar magoada. Ele está falante hoje.
— Certo... – A japonesa fitou um ponto qualquer da recepção. – Sabe, eu sinto falta dele. Mesmo se ele começasse com as grosserias e tudo mais, eu ainda permaneceria ouvindo do lado de fora.
— Bom... É por a sua conta em risco. Eu te avisei.
Saori sorriu de leve para o grego. Eles estavam num certo nível de amizade, ela podia sentir. Os dois passavam a maior parte do tempo juntos, em prol do mesmo objetivo.
— Obrigada por me alertar. Você já comeu alguma coisa? Não quer ir enquanto eu fico aqui?
— Não... Não estou com fome. Eu acho que vou lá fora, respirar um pouco de ar puro.
— Ok! – A garota sentou-se em uma das cadeiras, segurando-se para não espiar o grande portão de ferro que pertencia ao lugar de Saga. Depois de alguns minutos de luta interna, ela decidiu escutar a sua vontade.
Era estranho caminhar por aquela passagem, mesmo sabendo que seu amante era o único a estar ali. A Doutora Milla uma vez contou, apenas por curiosidade, que era raro alguém passar tanto tempo dentro daquelas câmaras. A maioria desfalecia pela inapetência, falta de exercícios e luz. Alguns saíram tão debilitados que acabaram encontrando a morte.
Saori lembrou-se da gravação que viu na sala da Diretora, juntamente com Shaka e Doutor Mu. Saga estava medonho e não era só pela presença do Grande Mestre; ele parecia menos saudável que o costume e muito mais fraco.
Por qual motivo algum médico faria o seu paciente sofrer daquela forma? Por que manter alguém preso ao ponto de quase morrer?
Saori permanecia com essas dúvidas, mas a justificativa era simples. Era difícil obter o controle de uma pessoa desequilibrada emocionalmente. O caso de Saga era ainda pior, pois ele era exageradamente violento e rude em suas crises. Ela mesma lembrava-se de vários episódios vividos nos últimos dias.
A jovem respirou fundo quando encarou o pequenino vão da porta. Sua altura não passava de dois dedos e era reforçado com uma espécie de vidro grosso, bem semelhante ao material utilizado nos quartos do nono andar. Alguns furos minúsculos estavam dispostos em formato de círculo, logo abaixo da abertura, que permitia a passagem da voz. A idéia era apenas acompanhar o interno que residia ali, sem nenhuma proximidade. Se um sujeito foi movido para dentro daquele cômodo, com certeza seria pela periculosidade em manter-se em contato com os outros indivíduos.
— Saga? – Saori sussurrou, nervosa. Ela sabia que ele nunca respondia quando era chamado assim, mas ela sempre tentava. – Grande Mestre?
Ela varreu o lugar rapidamente, em desvantagem pelo péssimo ângulo que era proporcionado. De repente, um par de olhos atirou-se na lacuna, assustando a patricinha.
— Saori! Eu estava com saudades!— O timbre arranhado e profundo causava pânico em qualquer um que ouvisse. – Você veio brincar comigo?
— Não. – Ela disse de um jeito firme. – Só queria checar se você foi embora.
— Ah, por quê?!— O cinismo também era marcante, mesmo sendo abafado por aqueles orifícios. – Você não me quer mais aqui? Eu achei que estava te agradando!
— Nunca, Grande Mestre. Eu quero que você deixe Saga em paz.
O mais alto soltou gargalhadas grotescas.
— Se entrasse aqui, eu juro que te faria mudar de idéia...— A entidade respirava de modo ruidoso e ofegante, como se estivesse pronto para matar alguém. – Eu estava lá, sabe? Vi tudo o que você fez com ele... O jeito que ele te fodeu... De frente, de lado, de costas...— Mais algumas risadas foram dadas.
— É, eu não deveria ter vindo aqui mesmo. – A menina desabafou, mais para ela do que para o ex-capitão.
— Não, não vai embora! Eu estou me sentindo sozinho. Por que você não me faz companhia aqui dentro? Assim eu posso aproveitar um pouco da sua presença... Ficar com a putinha deliciosa que você é...
Saori apoiou o corpo na lateral da entrada, sentindo a garganta arder pelo choro. Ela estava morrendo de raiva, mas sabia que não devia. Aquele não era Saga falando, ela era ciente disso.
— Hey, será que você consegue pedir para algum idiota me trazer comida? Eu estou com muita fome.
— Eu espero que você morra dessa maneira, Grande Mestre. – Ela cuspiu, tomando rumo para a recepção hospitalar e deixando a criatura berrar todo o tipo de ofensa atrás de si.
~
Os dedos percorreram o volante do automóvel enquanto o homem assoviava uma melodia qualquer. Ele acompanhou a saída do irmão mais novo de Saga para o estacionamento aberto do Instituto.
— Ugh! Esses bichinhos estão me atormentando! Deve ser o calor da Grécia, só pode! – O carona abanava as palmas para o vazio, no intuito de afastar os mosquitinhos. – Nunca passou pela sua cabeça dar uma limpada nesse carro, também?
— Cale a boca, Afrodite. – O motorista bufou. – Cuide do seu carro, no dia que conseguir comprar um.
— Nossa, mas que grosseria! – Ele alisou as madeixas pintadas de azul claríssimo. – Achei que você aceitaria algumas brincadeirinhas, bambino. Diga-me... Nós vamos ficar aqui a tarde inteira?
— Vamos ficar o tempo que for necessário.
— Pelos deuses, desde quando ele voltou você permanece na mesma rotina de antes! Fica aqui olhando, olhando... Será que a gente não podia ir mais rápido?!
— Afrodite... – Os olhos em formato de safira apontaram tenebrosamente para o amigo. – A pressa é inimiga da perfeição. Vamos agir quando for a hora.
O antigo colega de Saga respirou fundo, mirando Kanon ir de um lado para o outro na área externa. Voltou-se para as próprias unhas, como ele costumava fazer quando estava entediado.
— Bem, se é assim... Você pode me levar para casa, ao menos? Tenho um encontro mais tarde.
— Encontro? – O homem perguntou, carregado com escárnio. – Quem é o cara, dessa vez?
— Não é um cara, seu imbecil. É uma mulher. – Afrodite tornou a encarar a fachada do hospital. – Kanon não é o único que sai com enfermeiras de manicômio, sabia?
— Ótimo, garanhão. Se é assim, eu posso te levar para casa. Será uma decepção a menos com você.
O condutor riu da feição de nojo que foi dirigida para ele. Ligou o carro e arrancou na partida, correndo para não perder muito tempo de observação no hospício.
~
Saori permanecia chorosa quando Kanon voltou para o andar subterrâneo do primeiro prédio. Pequenas gotas caíam e deixavam o tecido de seu vestido mais escuro, como se a própria tristeza estivesse encarnada nos pingos.
— Você foi falar com ele, não é mesmo? – O ex-marinheiro perguntou. A menina agitou a cabeça positiva e silenciosamente. Ele bufou. – Eu te disse que não era uma idéia bacana.
— K-Kanon... – Ela soluçava. – Como você consegue?
— O quê?
— N-Não... Não sentir ódio... Não ficar com raiva dele.
— Eu me acostumei, sabe? – Kanon levantou os ombros, de forma ligeira. – Você não tem noção das coisas que ele já me falou. De como eu era o culpado de tudo... Que eu era um estorvo na vida dele. Que eu era uma simples cópia e devia agir como tal. Mas... – Ele levou uma das palmas até as mãos da garota. – Eu sei que não devo ficar com raiva, pois não é ele. Entende? Não é meu irmão ali.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Por qual motivo eu acharia o contrário? – Ele rebateu, sereno. – Saori... Você conheceu Saga. Participou de vários momentos íntimos com ele. Acha mesmo que meu irmão seria capaz de falar ou fazer algo de mau para alguém?
A japonesa responderia se não fosse a aproximação de Doutor Mu, que intercedeu a dupla com um sorriso tristonho.
— Boa tarde Kanon, Saori. – O tibetano apoiou seus dedos no bolso do jaleco branco. – Espero que não tenham ficado por aqui o dia inteiro... É cansativo demais.
— Eu não tenho outro lugar para ir, Doutor Mu. – Kanon disse. A patricinha limpou o resquício de lágrimas que se acumulou nos orbes. – Diga-me, temos alguma novidade para Saga?
— Na realidade, sim. Nós temos. – O psiquiatra sentou-se na cadeira, ao lado da mimada. – Antes, será que eu poderia esclarecer algumas dúvidas, Senhorita Saori?
— Claro. – Ela fungou, resgatando-se um pouco da melancolia.
— Tem certeza que, em nenhum momento de sua viagem com Saga, ele não agiu estranhamente? Qualquer coisa que ele não costuma fazer?
Era incrível como ambos, Doutor Mu e Doutora Milla, sempre insistiam nessas mesmas questões. Ela já havia dito que tudo estava conforme a normalidade. Ela não queria falar para ninguém o que passou com Saga.
— Não, Doutor. Eu expliquei para a Diretora que nada aconteceu.
— É que... Não sei... Na maioria das vezes, ele não teve as suas crises assim, de um modo tão rápido. Saga costuma dar alguns indícios...
— Ok. – Saori respirou fundo, vencida. – Teve uma vez.
— Como assim? – Agora, Kanon havia entrado em estado de alerta.
— Teve uma vez, no primeiro dia em que ficamos juntos. Eu perdi o sono e fiquei me remexendo na cama, levantando bem cedo. Tive a idéia de preparar o café da manhã para nós. – Ela sorriu com pequeninos lábios infantis ao lembrar-se da cena. Estava nostálgica e emocionada ao mesmo tempo. – Quando voltei para o quarto, ele estava se rebatendo na cama. Suando frio. Murmurando algumas palavras sem sentido...
— E o que mais? – Mu incentivou.
— Foi só isso. Eu encostei nele e ele acordou assustado, perguntando se eu estava bem. Disse que teve um sonho esquisito.
— Ele te contou como foi esse sonho?
— Não. – A jovem meneou para os lados a cabeça, fervorosamente. – Não teve mais nada.
— Certeza? – Kanon indagou. – Ele não te machucou?
— Não, Kanon... – Os olhos puxados voltaram a ficar marejados e deprimidos. – Por favor...
— Saori, isso é importante. Tem certeza que ele não te fez nada? Talvez... Quando vocês estavam...
— Não! – A mesma sensação sufocante daquela manhã voltou com força em sua mente. – Por favor, eu não sei de mais nada...
— Tudo bem, tudo bem. – O médico acariciou toda a extensão das costas estressadas de Saori. – Eu já entendi. Bom, pelo menos temos uma pista.
— Não é muita coisa... Eu sei. Mas ele não me contou nada. Eu juro.
— Não se preocupe, Senhorita. Sua informação já vale muito. – Mu levantou-se da cadeira, fitando o gêmeo e a namorada de Saga. – Eu desci até aqui porque... Preciso comunicar vocês da decisão que tomei com a Diretora Milla. Nós vamos entrar de vez no processo antigo de inanição com ele. Cortaremos todos os alimentos sólidos novamente.
— O quê...? – Kanon levantou-se e Doutor Mu já estava preparado para começar um novo embate. – Por quê?!
— Kanon, você sabe como é difícil lidar com o seu irmão em cada ataque. Essa é a única maneira de controlar um pouco a sua fúria e vontade de matar todo mundo. Quem sabe nós encontramos mais respostas...
— Mas... – O grego apertou os punhos, fitando vagamente o meio dos assentos enfileirados. – Ele... Quase morreu da última vez, Doutor.
— Nós sabemos disso. – O tibetano recostou a mão no ombro do mais alto. – É muito arriscado, mas saiba que eu acompanharei Saga durante todo o tempo e nós não deixaremos seu irmão sem a dieta necessária. Colocaremos um acesso para o soro. Eu apenas espero que ele fique quieto o suficiente para não retirar a medicação.
Saori desesperou-se ainda mais. Imaginou Saga definhando lentamente, preso pelas amarras da camisa de força.
Não era justo com ele. Também não parecia ser justo com ela.
— Espero que vocês tomem a decisão certa dessa vez.
— Não há outra alternativa aceitável neste momento, Kanon. – Mu inspirou e expirou para retomar o restante da fala. – Eu vou pedir para que os enfermeiros possam sedá-lo agora.
A menina acompanhou o psiquiatra dirigir-se à bancada da recepção e preencher vários relatórios, aproveitando para solicitar uma equipe de funcionários em seu encalço. Quatro técnicos, altos e fortíssimos, andaram pelo corredor para alcançar o último portão.
Kanon e Saori ficaram mais afastados, por segurança. Eles ouviram Mu dar algumas instruções para os homens.
— Quando sentirem que ele está desacordado, façam o procedimento normal de limpeza. Depois levem o interno até o nono andar, ele ficará por lá hoje. Marcamos um Acesso Venoso Central* lá em cima.
O grupo começou a perceber os rugidos e barulhos dentro da câmara. Um dos enfermeiros preparou a seringa grossa e recheada por um líquido branco.
— Não tenham medo. Ele já deve estar meio enfraquecido pela falta de comida. Tomem cuidado para que ele não morda nenhum de vocês.
A porta foi destrancada e Saori escondeu o rosto no peitoral de Kanon, assustada. Era penoso escutar os xingos e gritos de Saga misturados com as súplicas de soltura.
Os minutos de tortura passaram lentos. Como mágica, aquela besta furiosa e assassina parou. Doutor Mu entrou no cômodo almofadado e expeliu toda a tensão acumulada naquele breve momento.
— Vocês querem entrar? – Ele perguntou, elevando o tom de voz para o fundo do corredor. Saori encarou Kanon e ele murchou os lábios, sem saber muito como agir. Não estava totalmente seguro se ela deveria presenciar a cena ou se era realmente necessário passar por tudo aquilo.
— Vamos. – O mais alto sussurrou. Ele só verificaria o resultado se Saori fizesse o primeiro teste.
O par se aproximou da cela e parecia que o coração da japonesa pularia pela boca a qualquer momento. Ela viu Saga deitado no chão e correu para ele, segurando-o em seus braços como uma criança. A face do enfermo estava mais obscura; as olheiras marcavam a parte abaixo das pálpebras fechadas... Ele parecia estar dormindo tranquilamente.
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