Madness

9 O Encontro


Notas iniciais
Já de antemão: próximo capítulo tem hentai. HEHEHEHE

Ela não conseguia acreditar. A menina agarrava os próprios dedos, em sinal de nervosismo. Quando foi a última vez que ela se sentiu assim? Ela não sabia explicar... Talvez em sua formatura no colégio, ou quando deu seu primeiro beijo... Não. Nunca. Ela nunca tinha se sentido tão nervosa como naquele momento.

Ela viu o irmão de Saga chama-la para dentro do quarto e parte de seu corpo decidiu entrar em pane. Foi exatamente isso que ela experimentou: uma inquietação subir dos pés e ir até a sua cabeça. Seus membros inferiores foram lentos até o cômodo e ela pode encarar Saga pela primeira vez, sem nenhum tipo de vidro atrapalhando a sua visão.

Ele chegava a ser ainda mais belo sem aquela janela escurecida na frente.

O homem ainda estava sentado em sua cama e aprofundou seus olhos azuis nas grandes orbes esverdeadas da moça. Realmente, aquela garota tinha uma beleza incontestável. Os dois ficaram assim por alguns momentos, um tentando ler a mente do outro no olhar. Um sorriso genuíno formou-se no rosto do homem.

Kanon não estava entendendo nada, ele literalmente boiava naquele mar de sensações. Era como se os dois se conhecessem, mas um nunca tinha visto o outro na vida. Ele pigarreou um pouco, tentando quebrar o silêncio que, para ele, estava ficando incômodo.

– Saga, está é a moça que queria te visitar, a Senhorita Saori Kido.

– Seja bem-vinda ao meu quarto, Senhorita Saori. – A feição sincera do homem permanecia lá. A voz de Saga saiu mais grossa do que Saori poderia imaginar em sua cabeça; o cheiro de álcool e o quarto extremamente branco estavam deixando a garota um pouco tonta. Talvez fosse o nível de adrenalina em seu organismo no momento. Ela tentou se acalmar, sorrindo para Saga pela primeira vez.

– Obrigada por me receber, Senhor Saga. Devo dizer que fiquei curiosa com o seu caso. – Ela apertava uma das mãos contra a outra inconscientemente, ainda mais depois de reparar o interno analisando-a inteira.

– A Senhorita não gostaria de se sentar? Juro que não precisa pagar nada. – Ela finalmente soltou-se um pouco, rindo da frase. Saori tomou cuidado para não pisar na imagem quase completa da obra do pintor norueguês Edvard Munch, conhecida como “O Grito” – ela conseguiu se lembrar de uma das aulas de artes que teve no colégio caríssimo que estudava – e apoiou-se na poltrona ao lado de Kanon. Ela agradeceu mentalmente por não estar com os seus saltos altos costumeiros, pois não se perdoaria caso desmontasse o quebra-cabeça de Saga. Ela voltou a sua atenção para o paciente, que continuou a falar. – Eu gostaria de agradecer a Senhorita pela ajuda financeira que está nos dando, de verdade. Eu sinto muita falta daquela biblioteca.

– Eu estou mais do que feliz em ajudar, Senhor Saga. É uma pena não ter visto a situação do Instituto antes... Mas espero que, agora, eu consiga reverter as ações do tempo. – Ela não conseguia parar de olhar para o homem.

– Ah, não... Não deveria ter feito nada antes... Eu tive o desprazer de conhecer o Diretor antigo e o cara era um crápula! Enfiava toda a verba do hospital em seus bolsos! Só faltou levar as fronhas e os lençóis dos quartos para conseguir mais dinheiro... – Saori pode perceber as palavras da Doutora Milla, ele realmente era uma pessoa muito fácil de conversar. – Diga-me, Senhorita... O que gostaria de saber? Eu conheço muita coisa do hospital, poderia te falar sem nenhum problema... E não precisa me chamar de senhor, ou eu já estou parecendo velho demais?

A resposta correta de Saori seria “não, você está parecendo jovem e bonito até que demais, isso sim”. Mas ela guardou a réplica para si.

– Não, Saga... E também não precisa ser formal comigo, eu não estou aqui pela Fundação. Na verdade, eu estive conversando com a Doutora Milla e com seu irmão sobre você e não pude deixar de ficar curiosa... Como é conviver tanto tempo dentro deste hospital?

– Bom... Eu não sei muito bem por onde começar. Pra ser sincero, quem costuma ter essa preocupação comigo é o meu psiquiatra. – Ele riu do próprio desabafo. A menina parecia ter uma expressão neutra e, ao mesmo tempo, interessada. – Eu acho que já me acostumei. Estou me preparando pra ficar aqui para sempre. Inclusive, falei com Kanon uma vez sobre ele parar de me visitar, mas ele insiste.

– Obviamente, Saga! Nunca vi pedido mais idiota que este! – Ele falou, quase levantando de sua cadeira.

– Você não acredita que poderá se curar, Saga? – Ela ficou um pouco preocupada com a confissão do enfermo. Ele foi pego de supetão pela moça.

– De verdade? Eu não sei. Alguém já te disse o que eu tenho, Saori?

– Sim. Transtorno de alguma coisa muito séria e esquizofrenia. – Os dois irmãos riram da forma espontânea de falar da patricinha.

– Chama-se transtorno dissociativo de identidade, mas você não precisa entender dos termos técnicos. Eu sou louco, basicamente. – Ele disse, movimentando as mãos para o lado. – Tomo vários remédios, tenho problemas para dormir, não posso ficar muito nervoso e, como se não bastasse, ouço uma voz assassina na minha cabeça, pedindo pra matar todo mundo. Eu sou biruta e, honestamente, não sei dizer se vou melhorar de vez. – Ele parecia alertar Saori, pelo tom de sua voz.

– Sabe, Saga... Eu conheço um homem, ele é da Fundação, e ajuda muita gente com umas coisas budistas que ele faz de vez em quando, tipo umas meditações, entende? Você poderia conversar com ele, caso queira. Ele já me ajudou muito também.

– Posso saber qual é o tipo de problema que uma menina como você tem na vida, Saori? – Dessa vez, Kanon decidiu perguntar. Não conseguia imaginar a garotinha deitada em um divã, reclamando por qualquer motivo. Parece que Saga teve a mesma dúvida.

– Ah, eu já sofri muito na minha adolescência. Quer dizer, eu tinha problemas com comida às vezes... Mas nada que não tenha mudado hoje. De verdade, Saga... Ele poderá te auxiliar.

– Ele faz hipnose também? Porque amanhã começo a ter novas sessões de hipnose e, juro pra você, eu não gosto nada de hipnose... E outra, eu não sei se meu médico vai deixar.

– Eu posso conversar com a Doutora Milla! – A voz de Saori saiu um pouco estridente. – Vamos, você pode tentar algo fora do hospital, quem sabe isso não te ajuda? – Ela estava animada, como se houvesse descoberto uma possível cura para um câncer.

– Tudo bem, eu vou pensar nisso... – O mais velho observou a menina novamente. Ela estava com um vestido azul bem bonito e seu cheiro era evidente, mesmo naquela distância. O odor era totalmente diferente de tudo que ele já sentiu dentro daquele quarto. – Você disse que tinha problemas com comida, é isso? Como se fosse anoréxica?

– N-Não... Jamais. Quer dizer, eu acho que estava começando a ficar com isso. Mas não vim aqui para falar de mim, e sim de você! – Ela realmente ficou entusiasmada de uma hora para outra. – Kanon me disse que você era do Exército, é verdade?

– Sim... Puxa, se eu soubesse que você viria me entrevistar hoje, até oferecia um cafezinho. Mas não estou em casa... – Ele gargalhou, mas a menina sentiu que estava incomodando. Kanon não parava de mexer em seu celular, parecia que estava trocando mensagens.

– Desculpe, eu não queria te causar nenhum transtorno...

– Ah, pare com isso! Não é todo o dia que vem alguém da Fundação me conhecer! – O entusiasmado agora era Saga. – Eu era do Exército sim, foi lá que meus problemas começaram... – Ele começou a tecer a sua biografia para Saori. Alguns detalhes já eram do conhecimento da moça, mas era importante saber da história pela perspectiva do dono. Além do mais, ela estava se perdendo na voz e no semblante perfeito de Saga... Um suspiro foi dado internamente. Ela ficou pensando como seria ficar sozinha com ele numa noite, bebendo um pouco e ouvindo as suas memórias... Ou como ele ficaria lindo numa camiseta normal e uma calça jeans, e não aquele uniforme alabastrino... Ou até mesmo sem roupas... Será que ele podia beber? Ela faria esta pergunta em outro momento. Esta e tantas outras.

A conversa fluiu bem, até melhor que o esperado, pensou Kanon. Ele estava mais preocupado com a pequena bomba que teria que resolver do lado de fora do quarto. Todos pararam quando ouviram uma das enfermeiras – já conhecida pelo irmão mais novo de Saga – entrar no quarto avisando que o horário de visita teria terminado.

– Você vai voltar, Saori? Ou te assustei com a minha conversa?

– Claro que sim, Saga. – A menina deu pulinhos em sua cabeça com o pedido do homem. Ver Saga todos os dias era uma das maiores vontades de Saori no momento. Ela também queria pesquisar mais sobre a doença do interno e como ela poderia ajudar em sua recuperação. Os dois se despediram com um aperto de mão que causou um choque elétrico pelo corpo da menina. Ela não lavaria aquela mão tão cedo, pode apostar.

Kanon também aproveitou para se despedir de Saga, mas parecia que ele tinha a sua cabeça em outro lugar. Quando os dois visitantes saíram do dormitório, a enfermeira fechou a porta e virou-se para o mais alto:

– Kanon, nós podemos conversar em particular? É um assunto sério.

– É sobre Saga, moça?! – Saori precipitou-se, arrancando um olhar fulminante de Kanon.

– Não, Saori. Não é sobre Saga. Theodora, eu vou me despedir da Senhorita Saori e depois podemos conversar, sim? – Ele colocou a sua mão nas costas da neta do Senhor Kido e acompanhou sua ida até o elevador. Kanon pediu desculpas por não levar a menina até o seu carro, mas que gostou de sua visita e disse que ela poderia ver Saga sempre que quisesse. O que, para Saori, teria que ser todos os dias. Ao invés de apertar o térreo, Saori decidiu ir até o escritório de Doutora Milla. Ela queria fazer um pedido para a mulher antes de ir embora.

Kanon esperou a porta do elevador se fechar e voltou a sua atenção para a técnica de enfermagem loira e de corpo escultural que estava próxima da saída de emergência do piso.

– E então, minha linda... Qual foi a tragédia para você me chamar desesperada no telefone? – Ele sentiu um estalo ligeiro em sua bochecha, não causando muita dor. Mas ele ficou espantado. Havia acabado de levar um tapa, situação corriqueira para ele, mas não estava esperando levar uma bofetada de Theodora. Olhou para os lados tentando ver se mais alguém tinha visto aquela cena.

– Você, Kanon, é um cafajeste! Eu nunca deveria ter me relacionado com você! – Ela dizia, em meio aos dentes cerrados de raiva. – Você é um canalha da pior espécie!

– Calma aí, Dora... O que eu fiz dessa vez? – Sua mão ainda estava cobrindo a parte atingida de seu rosto.

Kanon pensou naquele momento que ficar com várias mulheres ao mesmo tempo não parecia mesmo ser uma boa idéia.

Notas finais
EITA KANON KCT HEIN FILHO