Madness

20 O Confronto


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=Dk_fy8m-Llw

No próximo dia, Saga estava um pouco mais silencioso que o costume e parecia estar mais triste também. Saori procurou não incomodá-lo com suas conversas mas, no fundo, ela gostaria de saber o motivo daquela melancolia. Os gritos do grego não saíram de sua cabeça e a patricinha ficou se perguntando se as consultas com Shaka fariam algum efeito ou, pior, algum dano para Saga.

O máximo que ela poderia fazer era continuar com todo o processo.

Todos chegaram no escritório, pontualmente. Shaka esperava sempre da mesma forma: sentado e meditando. A cena do dia anterior provocou no budista uma mescla de dúvida com certeza; era difícil de entender até mesmo para ele. Sendo assim, o indiano decidiu continuar com uma abordagem diferente, apenas para excluir os resquícios de incerteza em seu diagnóstico para Saga.

– Eu espero que você tenha tido uma boa noite de sono, Saga. – Shaka começou. Ele derramou o chá quente em duas xícaras, como era o costume.

– Eu tentei, mas não consegui tirar aquelas memórias da minha cabeça. – O grego fitava profundamente a fumacinha que saía do líquido amarelado e doce.

– Saga, eu compreendo que este tipo de regressão seja bem traumática para você. Mas saiba que nós não podemos desistir agora, sim? – O loiro apoiou as mãos em um dos ombros de Saga. – Hoje, continuaremos com os mantras.

– Eu terei de ver tudo aquilo novamente?! – Saga exaltou-se.

– Fique calmo, Saga. Não há nada mais além do necessário para se ver. – Shaka respirou fundo, preparando-se para a entoação de um novo mantra. – Agora, eu gostaria que você apoiasse suas costas no tapete, como fizemos ontem.

– Sabe, Shaka... Eu acho que você está me enganando. Eu ficava exatamente assim nas sessões de hipnose do Doutor Mu. – O paciente deitou-se, esticando os membros inferiores e arranjando uma posição confortável para os superiores. Shaka não conseguiu segurar o riso leve.

– Não há com o que se preocupar, Saga. Você não confia em mim? – A voz aveludada do budista podia acalmar qualquer tipo de coração angustiado. – Antes de começarmos, eu gostaria de te pedir um grande favor.

– Sim?

– Ontem, eu tive um pequeno problema com a sua comunicação inconsciente. Ou seja, você não me narrou os fatos que estava relembrando. – Shaka respirou fundo novamente. – Hoje, eu preciso que você me conte tudo que está vendo, tudo bem?

– E como eu farei isso? – Saga indagou, curioso.

– Apenas finja que eu estou do seu lado e que sou cego. – O loiro fechou os olhos, jogando as palavras despreocupadamente. – Agora, concentre-se.

Saga imitou Shaka, respirando fundo e cerrando os olhos. Alguns minutos de silêncio foram dados até o momento em que o indiano começou a ressoar as sílabas esquisitas.

As sensações de Saga foram bem diferentes das sentidas no dia anterior. Na verdade, ele demorou um pouco mais para aperceber-se fora de seu corpo... Porém a sua mente parecia mais tranquila e focada. Ele voltou para um dia um tanto quanto memorável...

~

– Você está bem, Saga? – O paciente ouvia a voz de Shaka em algum ponto de sua mente. Ele olhou impaciente para todos os lados, procurando o semblante do budista em qualquer canto.

– O que está acontecendo?! – Saga perguntou, nervoso. Ele escutou o barulho de uma porta se abrindo e, repentinamente, observou que estava dentro do seu apartamento... O lugar que era compartilhado por ele e por Kanon.

Saga estava na parte de trás de um pequeno sofá, próximo a uma grande janela. Já era noite e o local foi clareado pelos dedos de Kanon, que acendeu as luzes do primeiro cômodo. Saga fitou o próprio corpo e constatou que estava com o seu uniforme do Exército.

Seu irmão mais novo sentou-se no sofá, jogando o corpo de forma cansada e expirando calmamente. Ele também vestia o seu traje da Marinha e decidiu tratar logo de retirar parte das peças de roupa.

– O que você está vendo? – Shaka apareceu do nada e fez com que o grego pulasse de susto.

– Shaka! Eu estava te ouvindo! Eu fiquei te procurando, mas você não aparecia! – Os olhos do budista permaneceram fechados e ele mantinha uma pose serena.

– Saga... Eu estive do seu lado todo o tempo. Só você que não percebeu. — Um sorriso foi visto na face de Shaka. – Diga-me, o que você está vendo?

– Eu estou vendo meu irmão sentado no sofá. Foi um dia da semana. Ele está cansado porque acabou de sair do expediente na Marinha.

Kanon apoiou seu rosto nas mãos, apreensivo. Ele suspirava várias vezes, pensativo em suas próprias dúvidas.

– Como eu falo pra ele? Como eu vou contar? E se ele não quiser... Ah, que se dane. Eu vou contar. Eu preciso contar...

Saga aproximou-se do gêmeo, observando como os dois eram parecidos. Sua atenção voltou-se para a porta do apartamento e, dali, saia um mais novo e inexperiente Saga.

– Eu me lembro muito bem dessa noite. – O enfermo continuou; ainda em transe, mas muito atento. – Eu também estava muito cansado por conta do meu dia no Exército.

– E o que aconteceu? – Shaka continuou ao lado do grego, tomando o seu chá e reparando em uma estátua qualquer do seu escritório.

– Nós discutimos...

– Kanon! – O mais velho sentou-se ao lado do irmão, que permaneceu em silêncio. – Você está quietinho demais... Levou mais um fora da Thetis? – Saga acabou por rir sozinho.

– Não... Mas eu preciso falar com você. É um assunto sério. – Os dois se olharam. Saga sabia que era difícil obter aquela feição de Kanon.

– O que há de errado?

– Você se lembra daquele italiano falastrão e o Afrodite, o babaca que vive se enfeitando? Os dois são do seu batalhão. – Kanon encarava o irmão, preocupado.

– Sim. Eu não gosto de nenhum dos dois, você sabe disso. Por que?

– Hoje eu falei com eles. Nós vamos montar um esquema pra conseguir dinheiro e...

– Eu lembro que me levantei na hora e comecei a brigar muito com o meu irmão. Eu não queria que ele fizesse nada daquilo. Aqueles dois não eram gente boa. Eu sabia...

– Como foi a discussão de vocês? – Shaka observava o enfermo mexer o corpo de vez em quando.

– Isso é ilegal! O que você fumou hoje?! Você acha que vai fazer isso e se safar numa boa! – Saga berrava as frases, gesticulando incansavelmente.

– Eles já me disseram que não tem problema nenhum! Que já está tudo montado! Várias pessoas de lá conseguem dinheiro fácil assim, Saga!

– Você está louco?! Qual é o seu problema?!? Depois de tanto tempo e trabalho para conseguirmos entrar nas Forças Armadas... Isso mesmo, Forças Armadas!!! Você acha que todos lá são idiotas?!? – Saga afrontou o seu irmão violentamente, empurrando-o para um lado da sala.

– Já chega! – Kanon livrou-se das mãos de Saga, quase com a mesma fúria. – Eu não te aguento mais! Eu não aguento mais você, nem as pessoas daqui, nem as Forças Armadas, nem ninguém! – Os dois se encaravam como gatos se estranham ao ver seu reflexo no espelho.

– Ah, ótimo. – Saga falou com deboche. – Agora eu vejo quem você realmente é. Tão egoísta e centrado nos seus objetivos, nem parece ser meu irmão de verdade. – Seu olhar não podia ser mais rancoroso do que aquele.

– Isso é besteira! Você é como eu, Saga! Igualzinho! – Kanon começou a dar tapas no próprio rosto. – Não é à toa que você nasceu com essa mesma cara de babaca que eu tenho!!!

– Depois disso, eu fiquei tão nervoso que dei um soco na cara dele.

Shaka examinava os pequenos movimentos que Saga fazia ao longo de sua narrativa. Ele sentiu-se aliviado em ver que a sua segunda tentativa de regressão estava dando certo.

– O que você sentiu, Saga?

– Eu senti tanta dor naquele momento, parecia que tinha batido em mim mesmo...

Kanon levantou-se do chão, após recuperar-se daquele baque agressivo. Ele limpou um pouco de sangue que caiu de suas narinas, rindo logo em seguida.

– Não está vendo, Saga? Você é tão descontrolado e egoísta quanto eu. Nós somos exatamente a mesma coisa...

– Cale a boca! – Saga socou o irmão novamente, desta vez no estômago. Kanon apoiou seus joelhos no chão, gemendo de dor. – Você não sabe do que está falando! Pare de inventar mentiras!

– Diga-me, Saga... – Kanon disse, ainda apertando suas mãos contra o próprio abdômen e procurando recuperar seu fôlego. – Por qual motivo nós não devemos agir assim? – Os dois se encararam novamente. – Você é um homem influente e sabe disso. Diga-me... O que nós temos a perder?

– Não temos nada, Kanon... Porém, eu não posso deixar que você destrua o pouco que conseguimos. – Saga fitou seu irmão de forma prepotente.

– Os fortes devem ter aquilo que querem, Saga. Seria um pecado usar o meu poder para ter o que eu quero?

Aquele momento parecia ter sido o pior de toda aquela briga. Saga não via mais Kanon do mesmo jeito, não conseguia acreditar em suas palavras...

– Faça qualquer coisa de errado, Kanon... – O mais velho virou-se para a entrada de seu quarto. – E eu juro que te coloco na prisão com as minhas próprias mãos.

Saga ficou em silêncio durante um certo tempo, fazendo com que Shaka entrasse num estado de alerta, caso um novo surto ocorresse.

– Saga?

– Depois disso eu recolhi minhas coisas e fui embora. – O grego disse, finalmente. – Eu só fui ver meu irmão depois de muito tempo.

– Entendo. – O budista inspirou e expirou rápido. – Bom, Saga... Eu não acho saudável abusar das más lembranças em um único dia. Nós podemos continuar amanhã, caso queira.

Saga permaneceu quieto, como se a cena estivesse se repetindo várias e várias vezes em sua mente. Aos poucos, o paciente acordou de seu transe e assentiu com a idéia de parar com as recordações ruins e tirar o restante das horas para a meditação.

~

Não tão distante dali e quase no mesmo horário, Kanon acordou ao lado de uma de suas amantes mais antigas.

– Bom dia, meu chef preferido! – Mikla agarrou-se no corpo do irmão mais novo de Saga, acariciando seu rosto no peitoral do homem. – Dormiu bem?

– Sim, dormi sim. – Ele disse, bocejando e se espreguiçando morosamente. – E você, minha médica preferida?

– Melhor impossível! – A psicóloga soltou. – E ainda vai melhorar, porque sei que você vai tirar o dia inteiro da sua folga pra ficar aqui comigo...

– N-Não! – Kanon despertou rapidamente de sua preguiça. – Quer dizer, eu preciso ver Saga mais tarde e tenho outros assuntos pra resolver também!

– Ah, não! – A morena encaixou-se em cima do homem, revelando seus corpo totalmente nu. – Você me prometeu que ia deixar um dia só pra mim, Kanon!

– Eu prometi, eh? – A mulher cruzou os braços, em sinal de raiva. – Claro que eu prometi! Mas não falei que ia ser hoje, falei?!

– Ah, Kanon... – Ela debruçou-se em Kanon, dando alguns beijos em seu pescoço. – Você sempre faz isso comigo... – Seus lábios alcançaram a parte mais sensível das orelhas do ex-marinheiro. – Vem até a minha casa, faz o que quer de mim e depois vai embora...

– Mikla, entenda... – Ele respirou fundo e procurou se controlar. – Eu não posso ficar muito tempo hoje, me desculpe. Nós podemos combinar pra uma próxima folga, o que acha?

– Poxa vida... – A mulher fez um biquinho, com seu rosto bem próximo ao de Kanon. – Eu batalhei tanto pra conseguir folgar no mesmo dia que você...

– Sim, mas veja bem... Eu não conseguiria ficar o tempo todo aqui de qualquer maneira! Eu tenho um irmão internado num hospício, você não se lembra? – As mãos do grego passeavam pelas costas nuas da funcionária do Instituto.

– Ah, você pode deixar de ir um dia... É só um dia! E outra, ele está recebendo muitas visitas ultimamente!

– Como assim? – O gêmeo estranhou a forma de falar da médica. Ela sentou-se novamente no colo de Kanon, evitando encará-lo. – Mikla, você se transformou nos meus olhos e ouvidos e eu sei que posso deixar meu irmão sob os seus cuidados... Tem alguma coisa que eu não sei ainda?

– Claro que não! – A voz feminina soou mais estridente que o costume. – Quer dizer, tem aquela japonesinha que aparece todos os dias lá, e... — Mikla pensou um pouco. – Os amiguinhos de Saga também! Ah, você sabe, Kanon!

Kanon sentou-se na cama, fitando bem os olhos claros da moça. Era um tipo muito específico de olhar, o desconfiado. Ela conhecia bem aquela expressão e sabia que não iria muito longe.

– Tá! – Ela bufou, cruzando os braços. Kanon mal ligou para os seios desnudos que quase pularam em seu rosto. – O Afrodite passou lá de noite, para visitar Saga. Não faz muito tempo.

Naquele momento, Mikla desejou enfiar-se em um buraco na cama e sumir da frente de Kanon. Ela praguejou para si mentalmente que não deveria, em hipótese nenhuma, pensar alto perto do irmão mais novo de Saga. Ainda mais quando o assunto era o antigo colega de Exército...

Notas finais
nossa, mikla mas vc é uma anta msm hein