Madness
2 O Bonitinho do Nono Andar
Notas iniciais
– Paciente mais antigo? – Saori queria saber mais.
– Sim... Seu nome é Saga, e é um dos casos mais sérios que temos até agora. Porém, ele está respondendo bem ao seu tratamento, com antipsicóticos e psicotrópicos fortes. Inclusive, a sua medicação foi suspensa durante um tempo pela falta de dinheiro do hospital no setor farmacológico. – A Doutora suspirou. Saori agora prestava atenção em tudo que a mais velha dizia. – Foi um inferno. Tivemos que isolá-lo durante várias semanas para que ele não matasse todos do hospital.
– Como assim? Qual é a doença dele?
– Depois de muito estudo, concluímos que ele sofre de um caso atípico de esquizofrenia e transtorno dissociativo de identidade. Seus sintomas são tão sérios que a sua aparência física chega a mudar. Ele sempre foi um grande enigma para nós.
Saori fitou novamente o homem dentro do quarto. Ele parecia ser alto, bem mais alto do que ela podia imaginar. Seu cabelo era comprido, num tom azulado bem forte e meio desajeitado, mas nada que deixasse ele menos belo do que já era. Saori estava extasiada com a beleza daquele homem. Ele parecia estar muito atento ao seu cubo mágico, sentado na beirada da cama limpa. Em sua cabeça ela imaginava como um homem daqueles poderia sofrer de algo tão sério como...
– O que é esse transtorno de sociedade que a Senhora falou? – A Doutora não conteve o riso.
– Chama-se transtorno dissociativo de identidade. É mais conhecido como dupla personalidade, alguns até confundem com o transtorno bipolar. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ele, aparentemente, possui um alter-ego de si mesmo, muitíssimo violento e ambicioso. Quando ele está seguindo bem o tratamento a sua personalidade é, no entanto, muito bondosa e gentil. Parecem dois homens opostos em um só. – Senhora Milla olhava cuidadosamente pelo vidro escurecido. – Ele é uma pessoa muito fácil de conviver, adora conversar e tem uma alma muito tranquila, mas é assombrado por este outro personagem que vive em sua mente. Nós já tentamos de tudo, vários tratamentos, mas ele ainda tem alguns episódios de raiva e loucura de vez em quando. É aí que nós precisamos aumentar a dose diária da medicação.
– A Senhora acredita que ele vá melhorar um dia? – Saori perguntou, preocupada. Não entendia este sentimento com um desconhecido, mas toda aquela beleza derrubou uma parte dos muros individualistas da menina.
– Bem... – A mulher coçou a cabeça – É difícil dizer. Hoje ele já toma a dose máxima de medicamento e ainda sim sofre algumas vezes. O espaço entre cada acontecimento aumentou, mas não cessou como deveria. Se ele melhorar, eu acredito que terá que tomar estes remédios e seguir um tratamento para o resto da vida, para não ter nenhuma recaída.
– Entendi... – Saori sussurrou. Sua mão apertou o colar de grife que a moça carregava no pescoço; seu mordomo já estava se sentindo cansado de tanta baboseira.
– Por qual motivo a Senhorita demonstrou todo esse interesse? – Sorrindo, a Doutora perguntou curiosa.
– Não, não é nada... É uma pena ver alguém tão... tão jovem sofrer tanto deste jeito.
– Bom, temos vários casos parecidos com ele em nosso hospital. Mas só agora a Senhorita me perguntou sobre o histórico de um paciente. Ele aparenta ser jovem, mas já está há bastante tempo neste complexo. Eu me atreveria a dizer que a Senhorita se interessou no caso de Saga por ele ser bonito...
– Não! Jamais. Não, Doutora... não fale assim. – Saori ficou vermelha. Não imaginava que tinha transparecido a sua surpresa para a Diretora. – É que ele parece ser tão saudável e ao mesmo tempo tão recluso em sua própria mente... – Ela olhou novamente o rapaz girar seu cubo mágico várias e várias vezes.
– Não se preocupe. Você não é a primeira.
– Como assim?
– Algumas enfermeiras disputam a tapas os horários de entrega de medicação do Saga... – A Doutora riu novamente ao ver os olhos da menina arregalarem. – Sabe como apelidaram o coitado? “Bonitinho do nono andar”. – As gargalhadas começaram quando Saori fechou a cara, totalmente emburrada. – Venha, Senhorita... Gostaria de te mostrar o terraço, para finalizar a sua visita...
~
Elas caminharam para o final do corredor, onde os três conseguiam ver toda a parte de trás do hospital. Saori deu uma boa olhada para baixo, acompanhando cada um dos pacientes em seu banho de sol. Começou a imaginar Saga andando por entre os outros, com sua roupa branca e seus cabelos azuis... Aquele perfil masculino deixou a sua mente voar um pouco. Voltou quando a Doutora estava terminando de detalhar como seria importante receber a ajuda financeira da Fundação Kido.
– A Senhora precisa de quanto?
– Bom, eu ainda não fiz nenhum orçamento, gostaria de saber primeiramente se a Senhorita teria condições de nos ajudar...
– Para quando? E quanto a Senhora precisa? Informarei meu avô hoje mesmo.
A Diretora não conseguia acreditar. E ela ainda nem havia usado metade de seus argumentos com a garota.
– Então isto é um “sim”?
– Com certeza. Muitos pacientes aqui precisam de sua ajuda. E se este complexo falir, não haverá nenhum lugar que possa recolhê-los com tantos cuidados e com tanto amor quanto este hospital. Diga-me, Doutora Milla, quando podemos começar as reformas?
– Encaminharei um e-mail com o orçamento e os planejamentos para a Senhorita.
– Ótimo! – Saori juntou as mãozinhas no ar, em comemoração. – Estarei esperando estes relatórios. Não seja humilde, Doutora, inclua no orçamento tudo que for necessário. – A patricinha estendeu a mão para fechar o negócio com a Diretora Milla.
A mulher ainda não conseguia acreditar. E sabia que, no fim, aquela visita no terraço foi inútil. Bem que ela poderia ter começado o tour pelo nono andar, assim pouparia todo aquele tempo.
Ao voltar pelo mesmo corredor, Saori parou novamente na janela escurecida do quarto 96. Saga já tinha enfileirado o cubo nas cores correspondentes, e segurava o objeto fitando um ponto qualquer no meio da parede. Subitamente, ele virou o rosto encarando o vidro negro e Saori sentiu seu coração pular pela boca. Ele estava encarando a menina. Os olhares foram diretamente de encontro. Mas como era possível, se ele não sabia que as duas estavam do lado de fora?
– Vejo que ele já terminou o cubo, mais uma vez. Deve ter finalizado umas três vezes enquanto estávamos conversando no terraço. – A Doutora Milla apoiou sua mão no ombro da garota, procurando acalmar a sua expressão. – E não se preocupe, ele sempre faz isso. Mas não sabe que tem alguém aqui fora... acho que está ansioso para o horário de visita.
– Alguém da sua família vem visita-lo, Doutora?
– Sim. Na verdade, é a única pessoa que eu conheço da família dele. Seu nome é Kanon, e ele é o irmão gêmeo de Saga. Ele vem todos os dias, religiosamente. – A Diretora deu mais uma olhada no paciente, que voltou a mexer em seu cubo mágico, deixando as cores aleatórias. Agradecia em pensamento a ajuda do rapaz, mesmo ele não sabendo nem da existência da Senhorita Saori.
– Bom... eu preciso pegar o avião agora para o Japão, espero que consiga ajudar a Senhora no que for preciso.
– Eu não tenho palavras para explicar o quanto a sua ajuda será bem-vinda, Senhorita Saori. Mande minhas lembranças para o seu avô e os meus sinceros agradecimentos. Acompanharei vocês até a saída do hospital.
– Não, não será necessário. – Saori queria ficar sozinha em seus próprios pensamentos. – Assim que receber o aval do meu avô, voltarei para cá e finalizaremos os detalhes das reformas e o encaminhamento da verba. Muito obrigada pela sua paciência conosco, Senhora Milla.
Saori virou-se delicadamente, sem antes dar uma última olhada para o interno de cabelo azulado. Espalhou seu aroma de perfume caro pela passagem, chegando até ao elevador. Ficou o caminho todo quieta, imersa em sua mente. Tatsumi atreveu-se a soltar algumas palavras, como “que lugar mais bizarro” e “a Senhorita acha que o Senhor Kido vai aprovar a liberação de verba para este covil?” e coisas do tipo. Mas a menina não estava ligando muito para as frases do mordomo carrancudo. Estava aérea demais imaginando como seria conversar com aquele homem tão atraente...
~
Ao chegar no avião, a menina pediu uma dose de Martini e seus pés voltaram ao chão quando ouviu seu celular tocando: “I got a pocket, got a pocketful of sunshine... I got a love and I know that it's all mine, oh... oh oh oh...”
Saori amava esta música.
– Alô? Seiya?
– Boa tarde, minha gatinha. – Saori odiava quando era chamada de gatinha, mas também não reclamava. – Está em Atenas ainda?
– Ah... Esqueci de te avisar. Tenho que correr de volta para o Japão, preciso de uma autorização de liberação de verba urgente do meu avô. Não poderei ficar por aqui. Já estou no avião...
– Não tem problema! Estou voltando para o Japão também. Preciso visitar minha irmã, ela teve uma crise de choro novamente. Parece que brigou com o namorado...
Saori fez uma careta. Primeiro porque não estava com muita vontade de encontrar Seiya. E segundo porque se lembrou da cunhada, uma pobre coitada que chorava por qualquer coisa. Seu nome era Seika e tinha um problema sério quando era contrariada em seus pedidos; era tão mimada quanto Saori. A patricinha também lembrou que Seika estava num relacionamento desassossegado de quase 2 anos, um noivado que mais parecia um martírio. Eles iam e voltavam sem parar. O nome do rapaz era Jabu e ele devia ser tão prepotente quanto Seiya, mas até se esforçava para realizar os desejos da moça. Na verdade, Saori acreditava que ela ainda gostava do ex-namorado, um rapaz de estilo punk rock de nome Milo. Ele fugiu com a ex-namorada de Seiya, uma menina tão mal encarada e obscura quanto ele, chamada Shina. Ela tinha um cabelo verde, usava saias de vinil e um piercing no nariz (roupas tão antigas e fora de moda quanto andar para frente, de acordo com Saori). Os dois eram iguais, gostavam de ouvir as mesmas gritarias que chamavam de música e pareciam se divertir juntos. A situação toda era até cômica: o ex da irmã sumir com a ex do irmão. Era um verdadeiro caso de família. De fato, Milo era um pedaço de mau caminho, até Saori se interessou por ele. Mas agora que eles desapareceram como fumaça, ela não via mais importância. Estava gastando seu tempo com Seiya e, de vez em quando, até que valia a pena.
– Tudo bem, meu amor... – Ela forçou um carinho na voz. – Nos encontramos em casa, sim?
– Ótimo! Já estou pegando meu jatinho. Um beijo nessa sua boca gostosa! – E os dois desligaram. Saori deu uma risadinha, pois recordou que o jatinho da família Kido era bem mais elegante e espaçoso que aquela lataria que o Seiya usava.
A menina ligou seu notebook e começou a digitar um e-mail para o seu avô, que estava em uma viagem de negócios na Itália. Fez questão de colocar em caixa alta no título do e-mail: “LIBERAÇÃO DE VERBA – URGENTE”. Assim seu querido vovô poderia dar mais atenção ao seu relatório e deixar de lado as outras coisas menos importantes, até porque nada seria mais interessante do que ajudar um belo rapaz com cara de modelo de roupas masculinas perdido em seus próprios pensamentos e pesadelos...
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