Madness
19 O Assassino
Notas iniciais
Saga já estava em seu quinto dia de treinamento espiritual e tudo parecia seguir conforme os planos. Saori deixou de ser um pouco mimada e aceitou, finalmente, que não veria as sessões de Shaka, durasse o tempo que fosse. Todos os dias, a menina ajeitava-se em uma das cadeiras na recepção do escritório e ficava calmamente brincando com um joguinho qualquer em seu celular. De vez em quando ela puxava assunto com um dos enfermeiros da escolta ou, raramente, com a indiana (que ela achava) mesquinha do lugar.
Já havia passado um pouco mais de uma hora de inspiração e expiração quando o budista decidiu tentar mais um passo em seu tratamento.
– Saga...? – Ele esperou o enfermo abrir os olhos. – Eu queria tentar algo novo com você hoje.
– Algo novo? – O paciente disse, depois de beber seu chá. Ele não queria assumir, mas aqueles chás eram muito bons mesmo.
– Sim. Na verdade, eu já sinto que você controla bem a sua personalidade impulsiva e, sendo assim, eu quero avançar com a nossa terapia. Você gostaria de tentar comigo? – Shaka tinha um jeito tão calmo e único de se expressar que era difícil não seguir a mesma linha, por mais nervosa que a pessoa seja. E, com Saga, ele costumava tomar o dobro de cuidado.
– Claro. Eu estou aqui para tentar o que for preciso, Shaka.
– Ótimo. – O loiro levantou-se de sua posição e apoiou-se em uma cômoda, mexendo em um pequeno aparelho de som já desgastado com o tempo. Ele foi até a outra ponta da sala, acendendo mais uns dois ou três incensos de um cheiro tão delicioso quanto os próprios chás que fazia. – Para esse exercício, eu gostaria que você deitasse de costas para o tapete e tentasse relaxar o seu corpo o máximo possível, sim?
– Sim. – Saga fez o que foi pedido, demorando um pouco para descontrair completamente. Ele observou Shaka sentar-se ao seu lado, ajustando suas roupas laranjas e encarando-o logo em seguida.
– Você pode fechar os olhos agora. Nada de ruim vai acontecer com você, eu prometo. – Um sorriso estampou o rosto do indiano.
– Oh, sim. – Saga apertou as pálpebras numa tentativa de não abri-las novamente. Uma música suave invadiu seus ouvidos e suas mãos estavam tentando encontrar uma posição confortável naquele espaço.
– Eu vou utilizar um mantra agora para que nós possamos... – Shaka procurou bem as palavras que ia usar. — Ter um conhecimento maior do seu inconsciente. Não se preocupe, não é hipnose, tudo bem?
Saga mordeu o lábio inferior em sinal de nervosismo. De fato, ele não gostava mesmo de hipnose. Ele assentiu com a cabeça, procurando acalmar o seu corpo e a sua mente.
– Eu quero que você continue inspirando e expirando, da mesma forma que nós fizemos durante todos esses dias. – O loiro respirou fundo, concentrando-se no cântico e em seu objetivo. O que Saga não sabia é que aquilo, em partes, lembrava muito uma hipnose.
Durante alguns minutos, o silêncio imperou a pequena sala. Saga segurou-se para não abrir os olhos e levantar, sair correndo ou qualquer outra coisa. Por um certo tempo, ele desejou que Saori estivesse lá dentro para acompanhá-lo... Morosamente, o enfermo ouviu Shaka citar algumas sílabas de forma arrastada; parecia ser outra voz e não a dele.
A curiosidade quase fez com que o grego realizasse o seu maior desejo naquele momento, mas Saga cerrou mais os olhos e decidiu focar-se em sua respiração. A cena repetiu-se até ele cair completamente em sua própria consciência, já não prestando mais atenção no mantra de Shaka e nem mesmo no mundo em sua volta. Parecia que algo o puxava para dentro de seu próprio cérebro, mas ele permanecia desperto... Seu corpo encontrava-se em um estado letárgico, só que sua mente ainda estava acordada. Ele só não sabia muito bem como controlar tudo aquilo e, pior, não sabia se o que estava acontecendo era bom ou ruim.
De repente, a voz de Shaka foi ouvida no fundo de sua cabeça.
– Saga? Você consegue me escutar? – O paciente tentava responder, sem sucesso. Parecia que todos os seus sentidos estavam bloqueados naquele instante. – Saga, eu preciso que você se concentre o máximo possível e tente me contar tudo que está vendo.
De fora, Shaka observou Saga mexer as órbitas por dentro das pálpebras, indicando um movimento intenso dos olhos, mesmo com eles fechados. Uma de suas metas fora alcançada.
Saga sentiu uma dor violenta percorrer o seu dorso, ou deveria ser em sua própria mente; ele não conseguiu distinguir. Um choro, um choro muito forte foi ouvido. O berreiro arrepiou todos os seus pêlos e era como se seu cérebro fosse jogado em um liquidificador.
Era isso, Saga sentiu seu corpo triturar-se com todo aquele barulho.
Shaka viu Saga mover-se um pouco e soltar um gemido. Ele decidiu perguntar novamente se o enfermo estava ouvindo alguma coisa.
– Ele... Ele está chorando... – Saga sussurrou. Ele tremia, como se tivesse uma febre muito alta.
– Quem está chorando, Saga?
– Meu irmão. Ele está chorando muito...
~
Saga viu-se observando todo o episódio, parado perto de um berço compartilhado por duas crianças. Ele permanecia com a sua roupa do manicômio, os pés estavam nus e a sua mão direita segurava um cordão que se estendia até uma pequena chupeta esverdeada. Ele parecia não sentir nada além de agonia...
– Faça esse maldito parar! – O homem dava passos largos de um lado para o outro, cerrando os próprios punhos. A sua feição era satânica: os olhos avermelhados e marcados pela insônia, os cabelos curtos e muito pretos, os grossos dedos prendiam um cigarro, que era consumido compulsivamente. – Eu juro que se ele não parar de chorar, eu jogo esse moleque no chão!
– Não! Não faça isso, não faça! – Desesperada, a mulher acalentou o bebê em seus braços. Ela estava extremamente agitada e lágrimas cortavam o seu delicado rosto. Os cabelos eram azuis, seu físico era esquelético e nada do que ela fazia parecia acalmar o pequenino bebê em seu colo.
O homem segurou com força a nuca da mulher, jogando-a para um canto do quarto. Ela tentou proteger a criança com o seu próprio corpo e procurava se esquivar dos violentos tapas que recebia.
– Não! Ele é seu filho, não faça isso com ele!!!! – Ela gritava em sinal de angústia.
– Eu não quero saber! Livre-se logo dessas pestes, antes que eu mate os dois! – O tirano virou-se para o outro recém-nascido, que começou a choramingar logo em seguida. – Eu odeio esses desgraçados, odeio!
Repentinamente, Saga começou a tossir. Ele agarrava seu próprio pescoço, engasgando com algo invisível. Shaka ajoelhou-se perto do paciente e tentou fazê-lo voltar ou, pelo menos, obter algum tipo de informação daquela memória.
– Saga! Saga, me diga o que você está vendo! – Shaka procurava segurar as mãos de Saga, para que ele não se machucasse.
O homem enforcava o outro bebê, gritando todos os tipos de ofensa. A mulher, alucinada, correu em direção ao seu filho, colocando o outro no berço. Acabou recebendo uma forte cotovelada em seu nariz.
– Eu vou matar esse menino, eu juro que vou! – O homem sentiu as mãos da mulher em um dos seus braços, numa tentativa esforçada de barrar aquela atitude. Havia sangue por todo o seu rosto e ela implorava, incessantemente, para que ele parasse com aquela barbárie.
– Deve ser a chupeta! Eu sei, eles estão sentindo falta da chupeta! – Ela prendia o braço do homem, que a afastou novamente com outro tapa.
– Sempre que eu volto da rua essas crianças estão chorando! Eu não aguento mais!
– E sempre que você volta é assim, bêbado e quebrando a casa inteira! O que há de errado com você?!? – A mulher estava caída e já desnorteada pelos golpes. Neste rápido desabafo, ela recebeu um chute em seu abdômen.
O homem respirou fundo, passando as mãos em seu próprio rosto e escorregando até os cabelos. Ele voltou para outro cômodo daquele lar destruído, caçando um novo maço de cigarros.
A mulher tentava se manter de pé, o sangue escorria por uma de suas narinas. Ela caminhou até o berço com dificuldade, para acalmar os dois meninos que não paravam de chorar.
– Me perdoem, meus amores... – Ela fazia um carinho trêmulo nos cabelinhos azuis de ambos. – A mamãe ama tanto vocês...
Saga mantinha seus olhos arregalados e, em choque, ele não sabia o que fazer. A mulher foi em direção ao local onde ele estava e ele sentiu o cordão ser puxado de sua mão direita. Ela encaixou a chupeta nos pequenos lábios de uma das crianças, afagando os rostinhos tão parecidos com o dela.
– A mamãe ama tanto vocês...
Shaka analisava cada movimento de Saga, ao mesmo tempo em que tentava conectar as frases aleatórias que ele soltava de vez em quando.
– Saga, você precisa me contar o que está vendo. Faça uma força, por favor... – Ele dizia, ficando o mais próximo possível do enfermo. Inesperadamente, Saga soltou um grito.
– Não! – Ele apertava as próprias mãos e seu corpo começou a se debater. – Não! Ele vai matá-la!!!! – Sua voz era um misto de aflição e desespero. – Não!!!
– Saga, volte! Olhe pra mim, volte agora!
~
Na recepção, Saori tomou um susto ao ouvir os gritos de Saga dentro do escritório. Ela levantou-se rapidamente, encarando os enfermeiros. Eles estavam tão alertas quanto a menina.
– Vocês ouviram isso? – Ela perguntou para a equipe, que assentiu positivamente. – Olhe, eu acho melhor a gente entrar e ver o que está acontecendo... – A patricinha perguntou para a indiana, que lixava calmamente suas unhas.
– Não se preocupe, Senhorita Saori. Isso é normal nas consultas com o Senhor Siddhartha. Só não interrompa, por gentileza. – Ela deu um assoprinho nos próprios dedos.
A garota voltou a sentar em uma das cadeiras, ainda prestando atenção nos barulhos da sala de Shaka. Naquele momento, ela rezava para que nada estivesse acontecendo de errado com Saga ou, melhor, que ele não estivesse se transformando em um assassino de primeira.
~
A mulher estava totalmente apoiada no berço de seus filhos que não pode perceber a caminhada mortífera do homem em sua direção. Os bebês começaram a chorar novamente, talvez aquilo devesse ser um aviso.
Saga não conseguia fazer nada; apenas olhar. Uma dor excruciante penetrou sua cabeça, fazendo-o ajoelhar-se no chão.
O terrível homem observou calmamente a sua mulher e as suas crias, uma mistura horrenda de sangue e lágrimas preenchia o vão entre as duas crianças. Em um surto, ele avançou para a mulher com um grande pedaço de madeira, atingindo-a diretamente no crânio.
Mais sangue voou pelo quarto, pintando as cômodas do lugar e as paredes. Ele continuou espancando-a, mesmo sabendo que ela não estava mais viva. Seu gracioso rosto foi desfigurado pelas pancadas monstruosas que recebeu... Pela pessoa que mais amava.
Saga apertou suas mãos contra a cabeça, numa tentativa de parar a dilacerante dor em suas têmporas. Ele encarou bem aqueles olhos homicidas, desejando que nunca tivesse presenciado tal cena.
O homem jogou a peça de madeira em um lado do quarto, arrancando sua camiseta suja pelo líquido avermelhado da mulher.
– Eu espero que você queime no inferno, sua vagabunda. – Ele preconizou. Virou-se para a saída da casa, deixando dois bebês chorando amarguradamente.
– Não! – Saga não parou de segurar sua própria cabeça, meneando-a de forma negativa. O choro desesperado tomou conta do grego, que continuava tremendo pelo horror revivido.
– Saga... O que aconteceu? – Shaka virou o enfermo para si, recebendo um abraço apertado do mesmo.
– Ele... Ele matou minha mãe... – Suspiros exasperados eram dados por Saga, que não abriu os olhos por nem um segundo.
– Quem matou sua mãe?
– Meu pai... Meu pai matou a minha mãe... – O loiro sentiu seu corpo quase ser esmagado pelos braços de Saga; ele não fazia nada além de chorar copiosamente. Shaka procurou tranquilizar Saga, mas aquela foi uma tarefa que durou o restante da manhã e parte da tarde. O budista poderia estar enganado, mas inverter o tratamento de mais intenso para mais calmo não era necessário com Saga. O chá e o mantra eram provas disso.
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