Madness

14 A Gravação


Shaka mantinha seus olhos fechados e mentalmente pedia para que aquele assunto fosse realmente inadiável. Ele observou o carro parar em frente ao grande prédio do Instituto de Psicologia e Tratamento Psiquiátrico de Atenas, avistando Saori correr de um jeitinho engraçado e abrindo a porta do automóvel com um grande sorriso no rosto.

– Shaka! Você veio! – Ela abriu os braços calorosamente.

– Namastê, Saori. – O homem juntou as palmas das mãos em um cumprimento característico de suas origens. A menina deixou a formalidade de lado e abraçou o indiano, que ficou sem graça com a atitude. Não estava acostumado com aquele tipo de festa.

– Venha, vamos conhecer a Diretora do hospital! Eu já visitei Saga e comentei que você provavelmente viria hoje, ele está animado em te conhecer! – Ela puxava a mão do loiro para dentro da recepção.

– Saori, primeiramente... Você precisa ter calma. Nós vamos conversar com os médicos dele e depois decidiremos o que fazer...

– Uau! – A moça não parava de olhar para Shaka. – Você está mais alto! Andou pintando o cabelo de loiro? Ele está mais claro! – Ela se lembrou que o fetiche com rapazes de cabelo comprido começou, provavelmente, pelas consultas que fazia com o budista. – E você casou mesmo! Eu não posso acreditar, Shaka! – Ela não conseguia manter os lábios fechados, de tanta felicidade.

– De fato, Saori. Eu mandei meu convite para a sua residência, mas você estava...

– Eu tive que organizar uns eventos na Itália naquela época! Você me perdoa? Eu queria muito ter ido! – Ela dizia, apertando o botão do elevador. Shaka não gostava de ser interrompido daquela forma, mas conhecia Saori muito bem.

– Não tem problema, Saori. E não, eu não pintei o cabelo. – Ele disse, sorrindo com a própria frase.

– Você continua muito chique, Shaka! – A patricinha mexeu na roupa clara e tipicamente indiana do homem. – Vamos, a Doutora já está nos esperando! – O puxão continuou pelo corredor do complexo.

~

Doutora Milla estava completando alguns relatórios em seu computador quando ouviu as batidas na porta do escritório. Já imaginava quem poderia ser, pelo toque fraco que Saori geralmente tinha. Respondeu positivamente para que ela entrasse.

– Senhora Milla! – A menina estava animada. – Shaka, esta é a Doutora Milla Enmusè, Diretora Geral do Instituto e antiga médica do Saga. Doutora, este é o profissional da Fundação que eu te falei, pode chamar de Shaka porque ele prefere assim. – Ela estava bem atropelada nas palavras e atitudes, também.

– Namastê, Doutora Milla. – O mesmo gesto foi feito pelo indiano. A mulher não sabia muito bem como responder. Ela estava tentando entender como um rapaz loiro e de olhos verdes daquele nasceu num lugar como a Índia.

– Namastê para o senhor também, Senhor Shaka. – A psicóloga falou, finalmente. – Por gentileza, vocês queiram se sentar para conversarmos melhor. Só um momento, chamarei o psiquiatra de Saga aqui para participar da reunião. – Ela discou os números em seu telefone, observando a dupla na sua frente. Após desligar e começar um breve resumo do caso de Saga, Mu entrou na sala depois de alguns minutos.

– Com licença, senhores. – Mu estava vestido com o seu habitual jaleco branco, que arrancou um suspiro breve da Diretora.

– Senhor Shaka, este é o Doutor Mu, atual responsável pelo tratamento de Saga.

– É um prazer conhece-lo, Senhor Shaka. Meu professor já comentou muito sobre os seus trabalhos, eu já até li seus livros também.

– Seu professor? – Shaka indagou, curioso.

– Sim. Professor Shion, ele trabalha no Centro de Psiquiatria do Tibet, com um pessoal da faculdade. Ele lidera o Grupo de Pesquisa para Tratamentos Alternativos.

– Ah, claro! Por que não me disseram de você antes? Eu conheço seu professor, sou um admirador dos seus projetos. Inclusive, um dos seus artigos sobre Terapia Cognitiva-Comportamental para Depressão, devo dizer que ficou fantástico. – Saori observava os dois sem entender muita coisa.

– É, meu professor gosta muito de dissertar sobre o TCC. Eu queria tentar algo parecido com Saga, mas tenho medo dos resultados de uma tentativa.

– Bom, acredito que seu professor conhece os meus métodos de abordagem e o senhor também. – Shaka voltou-se para a Diretora. – Eu não costumo utilizar nada farmacológico em meus tratamentos, a não ser o que a pessoa já utiliza. Constatei que, no caso do seu paciente, ele já está tomando alguns remédios fortes para a esquizofrenia e os psicotrópicos, correto?

– Sim, Senhor Shaka. Mas seria interessante se nós conseguíssemos diminuir essa quantidade de remédios. Caso queira, eu posso te levar até o nono andar para examinar melhor o nosso interno. Atualmente, ele responde normalmente às suas capacidades mentais.

– Eu adoraria. – O loiro disse, fazendo Saori comemorar por dentro. Tudo estava indo conforme os planos que ela desenhou em sua cabeça.

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Os quatro foram em direção ao elevador do andar, Mu e Shaka conversando sobre outros assuntos relacionados à psiquiatria. Doutora Milla acompanhava calmamente os dois homens, sem interromper o diálogo. Saori estava mais perdida que um analfabeto em uma palestra sobre física quântica.

Chegando ao nono andar, Mu continuou explicando um pouco mais sobre as condições de Saga. A patricinha grudou seus olhos na janela escura que separava seu amor platônico de sua presença. Saga estava desfrutando do seu almoço enquanto colocava algumas cartas em montes separados em sua cama. O baralho foi um presente de Mu para o interno, antes das sessões de hipnose começarem de vez. A menina sentiu o homem loiro analisar o cômodo com a mesma curiosidade que ela.

– Qual é o tipo de hipnose utiliza, Senhor Mu?

– A clássica. A Hipnose Ericksoniana é um assunto mais abordado pelo meu Professor. Acredito que não tenho competência total para utilizá-la com Saga.

– E o senhor me disse que ele está aqui há quase 11 anos, é isso? – Shaka fitou Mu com a feição um pouco desconfiada.

– Sim. Ele chegou aqui um pouco antes de completar 23 anos.

– Isso é inadmissível. – Shaka protestou. – Com todo esse tempo, o máximo que conseguiram foi aumentar a dose dos medicamentos?!

– Senhor Shaka, eu acredito que fizemos muito mais que só aumentar a medicação de Saga. – A Diretora decidiu interceptar. – As suas crises estão com o tempo de intervalo bem maior e ele parou com algumas de suas alucinações, como enxergar um rosto diferente ao olhar uma pessoa. Ele quase matou um dos nossos pacientes quando estava no sexto andar, sabia?

– Isso é desumano. – O indiano continuou. – Não é à toa que ele está enlouquecendo dentro deste lugar. Ele não pode sair daqui, pode?

– Senhor Shaka, é extremamente desaconselhável que Saga saia deste hospital, principalmente sem as devidas medidas de segurança. – Mu continuou com as palavras da Doutora Milla, ligeiramente apoiando uma de suas mãos nas costas da mulher.

– Bem, eu não posso fazer nada com ele aqui. Eu só consigo fazer o meu trabalho de forma eficaz dentro do meu estúdio. A energia de um hospital é muito densa e está totalmente contra o que eu preciso, ainda mais para um paciente como Saga.

– Nós temos uma gravação de Saga e a sua outra personalidade. – A Senhora Milla interrompeu novamente, dessa vez tentando tirar a idéia maluca de Shaka da cabeça. Ela virou-se para Saori, com um sorriso pequeno. – Lembra-se dela, Senhorita Saori? Podemos assistir hoje. É de uns 5 anos atrás e não deixa de ser atual. Assim vocês conseguirão perceber o tamanho do risco que tomaremos, caso Saga saia daqui.

Os representantes da Fundação toparam a proposta, fazendo com que o quarteto retornasse ao escritório da Doutora Milla. Ela ligou para algumas pessoas, solicitando a liberação do vídeo em sua intranet e, obviamente, pedindo mais café para ela e os presentes. Depois de mais alguns momentos de silêncio constrangedor e batidas no teclado, a Diretora virou a tela do seu computador para Shaka e Saori. O play foi dado no vídeo e a japonesa engoliu a saliva inexistente em sua boca.

~

Saga estava extremamente pálido e esquelético, com os cabelos parcialmente grisalhos e os olhos vermelhos e fundos. Era como se ele estivesse uns 30 anos mais velho e muito doente. A sua respiração estava descompassada e barulhenta, era desconfortável de ouvir. Ele estava sentado e com o corpo totalmente preso pela camisa de força.

A câmera estava posicionada bem na sua frente e a Doutora Milla explicou que ele ficou sozinho na sala, sendo examinado e entrevistado pelos doutores no lado de fora. Alguns microfones foram colocados para que os dois lados pudessem ser ouvidos na gravação. Uma equipe de segurança acompanhou todo o evento.

– Saga, você está me ouvindo? – A voz da Diretora não havia mudado durante esse tempo todo. Ele acenou positivamente com a cabeça, de forma assustadora.

– Saga, me diga... O que você está sentindo nesse momento?

Saori engoliu seco novamente. O homem encarou algo na sua frente, como se alguém estivesse atrás da câmera. A visão era horripilante.

– Estou com fome. – Ele disse, friamente.

– Eu sei, Saga. Peço desculpas por isso. – De fato, ela sentia mesmo. — Além disso, você está sentindo o quê?

– Pare com as perguntas estúpidas. Eu estou com fome.

– Por qual motivo as perguntas são estúpidas, Saga?

– Meu nome não é Saga. – Shaka acompanhava as cenas no monitor calmamente.

– Qual é o seu nome, então? – Ele riu, gerando um misto de pavor com incômodo.

– Meu nome não tem importância, Doutora. Apenas minhas ações.

– O que você pretende fazer?

– Sair daqui, antes de qualquer coisa. – Os olhos vermelhos eram grotescos e, ao mesmo tempo, amedrontadores. – Depois eu quero terminar um assunto que deixei pendente lá fora.

– Qual assunto?

– Algo que não é da sua importância, Doutora.

– Diga-me o que pretende fazer, Saga.

– Eu já disse que meu nome não é Saga, sua vadia burra!!! – Ele gritou, assustando Saori e deixando a Doutora Milla triste ao reviver aquele dia novamente.

– Me fale qual é o seu nome!

– Você pode me chamar de Grande Mestre. – O sorriso maluco abriu-se de forma animalesca. – Eu gosto de fazer justiça com as próprias mãos, Doutora... Eu ajudo os outros com o que eles precisam. Eu mereço um pouco mais de reconhecimento pelos meus atos, a senhora não acha?

– Você se acha tão especial assim, mas nunca vi nada além de violência em suas atitudes.

– Peça o que quiser para mim e eu farei, Doutora Milla. Eu sou um salvador, alguém que deveria ser eleito para um posto maior, com mais responsabilidades. Saga não seria a pessoa que é hoje sem a minha presença.

– Eu acho mesmo é que você deveria deixar Saga em paz, Grande Mestre.

– Eu não vou. Não antes de terminar o que vim fazer. – Ele se movimentou um pouco na cadeira, sem tirar os olhos no ponto fixo atrás dos espectadores. – Vocês médicos são tão estúpidos... De quê adianta me entupir de remédios quando eu posso ir e voltar sempre que quero?

– Você sabe muito bem que isso não é verdade. – A voz da Doutora estava trêmula de raiva.

– Ah, é mesmo? Pergunte para Saga, então... Eu tenho o consentimento dele para tudo que faço. – Seus olhos não piscavam por nenhum momento. – Ele tem medo de mim e a senhora tem noção disso.

– Você não bota medo em ninguém, Grande Mestre. Eu farei de tudo pra te afastar da mente de Saga.

– Não boto medo em ninguém? Perfeito... Vamos ver quanto tempo demora pra vocês entrarem em desespero. – Ao finalizar frase, o homem fez algo inesperado. Ele começou a forçar seu corpo contra a camisa de força, conseguindo rasgar parte dela e liberar um dos seus braços. Tudo foi muito rápido... Ele pegou a cadeira que estava sentado e jogou em direção ao local atrás do aparelho de gravação, derrubando o mesmo no chão. Um barulho bem parecido com uma sirene e passos rápidos foram ouvidos. O vídeo foi interrompido de forma brusca, com a tela do monitor totalmente preta e a cara de Saori visivelmente aterrorizada.