Madness

40 A Regressão


A figura sinistra estava atrás de Saga, afrontando-o de modo sinistro. O sorriso era cínico e pernicioso.

“Você achou mesmo que ia se livrar de mim, seu imbecil?!?”

De repente, a entidade avançou em direção ao grego, alcançando seu pescoço para enforcá-lo. O ex-capitão apertou os punhos que agarraram sua garganta, fitando os olhos demoníacos e vermelhos. O vulto era exatamente como Saga; nem mesmo Kanon seria tão idêntico quanto ele. A única diferença estava na cor acinzentada dos cabelos e nos dentes malignos que ele carregava em seu rosto.

Os dois travaram uma pequena luta, a visão tenebrosa e o homem. Ele jogou o espectro em uma parede, finalmente soltando-se daquela tentativa de estrangulamento. De fora, tudo que podia ser visto era Saga debatendo-se sozinho e tresloucado.

– Pare!!! Você não existe!!!

“Por que você me nega tanto, Saga? Não gosta mais da minha companhia?”

– Pare! – Saga olhou firmemente o fantasma de Grande Mestre, materializado em sua frente. – Me deixe em paz!!!

A súplica arrancou mais gargalhadas horríveis da alucinação.

“Ah... Quanta hipocrisia. Você se esqueceu de tudo que fizemos juntos?”

O antigo interno apertou as mãos nas têmporas, gritando de dor. Uma espécie de pontada brusca e intensa preencheu o seu crânio por completo. A tortura era insuportável.

“Fui eu que te fiz um homem de verdade, seu idiota. Você era apenas um moleque esquelético e medroso. Até pedia a minha ajuda, não se lembra? Agora eu não sirvo mais para você??”

– Pare com essa merda!!! – Saga urrou. – Eu não vou te escutar!! Você não existe!!!

“Eu gostava tanto de você. Mesmo me afastando no hospital, tomando remédios... Eu gostava de você. Mas essa sua insistência em querer ter uma vida normal, você sabe que isso não é pra gente!”

O grego começou a inspirar e expirar profundamente, com os olhos fechados.

– Fique calmo, Saga... Procure manter a calma...

“Hahahaha! Que bosta é essa?! Acha que a babaquice daquele loirinho maricas vai te ajudar com alguma coisa?”

– Foque em sua consciência, Saga. Ele é só mais uma lembrança ruim...

“Isso, foco! Concentre-se nas nossas diversões! Quando a gente espancava os mais fracos... O sangue voando das cabeças! Vamos!”

– Não... – O homem meneava a cabeça, rejeitando aquelas frases. – Não, por favor...

“Você se lembra daquela noite em que quase matamos aquela mulher? Aquela vagabunda? Você gemia e ela gritava... Lembra?”

– Não!!! – Ele gritou novamente, dessa vez com toda a força de sua alma. Partiu para cima da aparição, que ria de desprezo.

– Saga? – A voz trêmula de Saori foi ouvida do outro lado da porta.

“O jantar chegou. Bem na hora!”

Criador e criatura encararam-se e Saga correu para a fechadura, trancando-se rapidamente no banheiro.

– Saori, vai embora! Não fique aqui!!!

“Hunf, claro... É óbvio que você não ia me apresentar a sua namoradinha. Essa não foi a educação que eu te dei, sabe?”

As risadas ecoaram violentamente o pensamento de Saga.

– O que está acontecendo?! – Ela perguntou, aflita.

“Abra a porra da porta, Saga. Eu estou mandando.”

– N-Nada! Não fique aqui, Saori! Não é seguro!!!

– Saga, por favor, me conte o que está acontecendo! – A menina implorou. O mais alto voltou-se para o vulto, que se aproximava lentamente. Os olhos rubros subjugavam o homem, já sem forças para manter-se de pé. Saga parecia um animal acuado e indefeso, grudado na madeira fria do cômodo.

– Não... Por favor, me deixe em paz...

“Eu deixei... Um pouquinho. Deixei você passear na praia, ficar com seu irmão por uns dias, comprar roupas que nem uma mocinha... Deixei você comer essa vadiazinha à vontade...”

– Por favor...

“Eu estava cansado de ficar fora da sua mente, Saga... Num cantinho, escondido... Começou a ficar muito chato, entende? Vamos... Deixe-me entrar...”

– Vai embora... – Saga sussurrou, em meio aos soluços. As lágrimas atravessaram suas bochechas e ele apertou os olhos para não mirar o seu algoz, que chegava ainda mais perto.

– Saga! Fale comigo! – A patricinha permanecia angustiada.

“Vamos... Eu juro que serei delicado com ela... Começarei devagar... Vamos...”

– Saori! Eu preciso de ajuda! Chame os enfermeiros, rápido! – Finalmente, ele cedeu. A dor de cabeça ficou ainda mais forte quando o Grande Mestre apoiou sua testa na do homem, sorrindo em seguida.

“Vamos, Saga... Deixe-me entrar...”

.

– O-Ok! – A garota prendeu as unhas em seu vestido, agoniada com aquela súplica. Apressou-se para a saída, à procura da equipe de enfermagem. Sua cabeça girava em preocupações e anseios; perguntando internamente por qual motivo Saga havia mudado tanto. Tudo estava tão perfeito e, do nada...

Ligeiramente, a japonesa encontrou os dois técnicos e a enfermeira, berrando por auxílio. Os homens correram em direção ao quarto de Saga, enquanto a mulher foi em busca de uma grande maleta feita de inox, com várias seringas e pequeninos tubos de vidro.

– Senhorita Saori, vou pedir para que se afaste... – Ela disse, enquanto cobria suas mãos com um par de luvas de látex. – Pode ser perigoso.

– Por favor, ajudem ele... E-Ele não parecia bem... Estava gritando... – Saori implorou.

– Senhor Saga? – Um dos contratados perguntou, batendo algumas vezes na entrada do banheiro. – Senhor Saga, o senhor está bem?

– Acho melhor arrombarmos a porta. – O outro manifestou. — Antes, vamos preparar uma dose daquele anestésico que o psiquiatra nos disse. Não sabemos como ele está aí dentro.

– Não, por favor! Não machuquem ele! Ele não é malvado!

– Senhorita... – A enfermeira apoiou uma de suas mãos no ombro aflito da moça e tentou levá-la até a parte de fora do cômodo. – Nós precisamos seguir estas instruções, ok? Para a segurança de todos, inclusive a dele.

– Não! – A patricinha retirou, grosseiramente, o toque que oferecia ajuda. Ela já chorava, em desespero. – Não vou sair daqui! Vocês não vão machucar Saga!

– Senhor...? – O técnico chamou, mais uma vez. O silêncio do outro lado não parecia ser positivo.

– É isso, nós precisamos entrar. – A dupla posicionou-se na frente do banheiro e um deles chutou violentamente a fechadura. Saori pousou as mãos em sua boca, segurando os gemidos de consternação.

Na invasão, todos ficaram surpresos com aquela cena.

O ex-combatente estava sentado no chão, de costas e com o corpo curvado para frente. A respiração era calma. Ele não deu nenhum sinal de loucura ou fúria.

– Senhor Saga? – Um dos funcionários indagou.

– Ora, ora... – Lentamente, o grego virou o rosto para fitar o grupo. Os olhos pareciam irritados, preenchidos por um vermelho macabro. O sorriso estava ali, funesto e aterrorizante. – Vieram me receber para começarmos a festa?

Tudo aconteceu muito rápido. A jovem só conseguiu acompanhar a corrida maligna do mais velho em sua direção, tentando atingi-la cruelmente. Como um monstro... Um predador encontrando a sua caça.

Aquele não era mais o Saga.

A visão ficou turva e, de súbito, ela sentiu o corpo cair. O mundo girou diante de seus olhos.

.

“Eu vou sobreviver?”

Este foi o último pensamento que atravessou a delicada mente de Saori.

~

A Doutora apertou impacientemente o botão do elevador, esquecendo-se de que ele não se moveria mais rápido com aquela atitude. Bufou algumas vezes e decidiu, por fim, chegar ao térreo pelas escadas de emergência.

Seu objetivo era o subsolo. O único andar que ela não queria mostrar para a Senhorita Saori em sua primeira visita. Na verdade, ela não gostaria de mostrar aquele piso para absolutamente ninguém. Ela mesma não gostava de ir para lá. Porém, neste momento, era necessário.

Toda a situação saiu do controle. Seus ouvidos não acreditaram quando acolheram a notícia.

Os pés velozes alcançaram Doutor Mu, que estava apoiado em vários papéis na bancada de recepção do pavimento.

– Ele está bem?! – Ela perguntou, agitada. – Por favor, me fale que está tudo bem...

– Acalme-se, Milla. – O tibetano acariciou a lateral dos braços da Diretora. – Ele está sedado. Numa análise rápida, verifiquei que ele não se feriu. Está tudo bem, ok?

– Mu... – A voz embargada da psicóloga pôde ser ouvida. – Ele precisa ficar aqui? Isso é realmente necessário?

O homem balançou a cabeça, indicando um “sim” silencioso.

– Mas...

– Milla, você sabe que esta fase é perigosa. Precisamos estudar a sua mudança com mais cautela. Eu já... Pedi para que colocassem a camisa nele. Teremos maior controle quando ele acordar.

A dirigente do hospício encarou bem o fundo de um grande corredor. Várias portas, invioláveis por enormes fechaduras de ferro puro, estadeavam ali. Eram cinco entradas no total. Cinco jaulas acolchoadas por material branco; as celas que recebiam os mais desequilibrados emocionalmente.

A última porta, geralmente, era a de Saga.

– Ela... Já chegou? – Doutora Milla voltou-se para o seu amante.

– Sim. – Mu apontou para o lado oposto da recepção. Saori secava algumas lágrimas que insistiam em cair no tecido que cobria suas coxas. Ela estava sentada numa das cadeiras e apoiava, uma vez ou outra, suas mãos no peito. A médica sentou-se ao lado da menina, tentando acalmar um pouco a sua tristeza.

– Senhorita Saori... Está se sentindo melhor?

– Doutora! – A japonesa abraçou fortemente a psicóloga, aos prantos. – Ajude Saga a sair daqui! Eu imploro!

– Senhorita, por favor, não fique assim... – Ela apertou o corpo frágil e tenso da garota. – Eu preciso que a senhorita fique mais calma, sim?

– E-Eu... Eu não consigo... Estava t-tudo... Tão bem...

– Respire fundo, Senhorita Saori. Venha, vamos entrar em uma das salas do posto de enfermagem.

Ambas trespassaram a recepção e a Doutora Milla aproveitou para pegar um copo d’água, no intuito de sossegar os ânimos de Saori.

– Por favor, eu preciso que me conte tudo o que viu. Só assim teremos pistas do quê aconteceu.

– S-Sim... – A jovem limpou um pouco o rosto, ingerindo a água e o excesso de saliva causado pelo choro. – E-Eu... Eu ouvi Saga gritando dentro do banheiro do quarto e perguntei se estava tudo bem. Ele... Ele pediu pra que eu... Pra que eu chamasse ajuda.

– Certo. – A médica estava atenta ao relato de Saori.

– Eu... Eu chamei a equipe que vocês me orientaram a contratar e, quando nós voltamos para o quarto, ele não respondia mais. E daí... – Os soluços atrapalhavam a narrativa da patricinha, que cerrou mais os olhos e respirou fundo. – Os técnicos arrombaram a porta do banheiro e ele...

Era excruciante lembrar-se de toda a cena.

– E ele...?

– Eu só consegui ver Saga correndo pra cima de mim, os dois enfermeiros segurando seus braços... Foi aí que eu desmaiei.

– Entendo... – A Diretora pensou um pouco. – Além disso, houve algum outro episódio anormal? Alguma coisa que ele fez de diferente? Ele chegou a te machucar em algum momento?

Saori passou a ponta dos dedos pelo pescoço, lembrando-se da última vez em que ela e Saga fizeram amor. Bom, em sua cabecinha aquilo ainda poderia ser considerado amor ou afeto... Ela engoliu seco. Rememorou a manhã em que encontrou o grego rebatendo-se na cama, assustado com os próprios sonhos. Ele havia dito que não era nada demais.

– N-Não... Ele estava bem.

– Tem certeza disso?

– Sim! – A menina exaltou-se. – Desculpe, eu estou um pouco aérea. Não comi nada depois que saí do pronto-socorro que os enfermeiros me levaram. Vim direto para o Instituto.

– Senhorita Saori, eu recomendo que a senhorita vá se alimentar e descansar, tudo bem? Eu conheço bem como funciona a rotina daqui pra frente, pelo menos espero que Saga não demore tanto tempo para se recuperar. Você poderá visitá-lo a hora que quiser e...

– Eu não quero saber! Você vai me deixar entrar lá agora! – A fala da psicóloga foi interrompida pelos berros proferidos por uma voz já conhecida. – Não toque em mim! Eu quero falar com ela!

– O-O quê está acontecendo?! – Saori sentiu um arrepio horrendo rasgar a sua coluna. A porta da saleta foi rudemente aberta pelo furioso e desesperado irmão mais novo de Saga.

– Vocês viram o que fizeram?!! As duas estão felizes?!? – Kanon apontou o indicador para elas, gritando cada palavra. – Estão contentes agora?!?!

– Kanon, por favor, você precisa se acalmar...

– Como?! Me diz?! Ah, eu vou ficar tranqüilo pra cacete!!!

– Kanon, não há motivo para gritar desse jeito... – Mu tentou apoiar uma de suas palmas no braço do gêmeo, mas foi afastado de forma rápida.

– Não toque em mim! E pare de falar desse jeito comigo!!

– Por favor, Kanon... – A Diretora interceptou. – Não é nossa culpa. Saga teve mais uma crise e nós não imaginávamos que isso ia acontecer.

– Mas a responsabilidade é sua de acompanhar meu irmão, Doutora. Ninguém devia ter deixado outra pessoa se meter no caso dele. Ninguém devia ter deixado uma menina qualquer entrar aqui e fazer o que bem entendesse!

– Pare! – A discussão havia começado. Saori voltou a chorar copiosamente depois daquela confissão. – Eu quero que Saga se recupere tanto quanto você! Você não pode julgar as minhas tentativas!

– Eu posso e vou!!! – Os urros ficaram mais violentos e animalescos. — Se algo de ruim acontecer com ele, eu juro que enlouqueço também! Assim infernizo a sua vida pra sempre!!

O homem saiu do pequeno consultório de modo impetuoso, esbarrando nos funcionários que estavam prontos para agir com calmantes ou, se fosse necessária, alguma força imobilizadora.

– Não se preocupe, Saori... – A médica acalentou a patricinha, que engasgava com as próprias lamúrias. – Vai dar tudo certo...

Notas finais
saguinha :'(