Madness
1 A Visita
Notas iniciais
Saori estava em mais uma viagem para a Grécia. Mais uma entediante viagem para representar a empresa de seu avô, Mitsumasa Kido.
A Fundação Kido era um grande aglomerado de instituições e áreas de atuação dentro de vários setores do mercado. Varejo, Atacado, Tecnologia, Administração e até mesmo Moda. Só que um deles era o menos visado e, talvez, o mais lucrativo de todos: as Instituições de Caridade.
Ninguém sabia, mas o grande Vovô Kido era um senhor sabido e entendia que a burguesia mundial gostava de se sentir útil ao mundo. Pessoas ricas eram engraçadas: não gostavam de conviver com pessoas mais pobres diretamente, mas mesmo assim se sentiam na “obrigação de ajudar”. Quando um simples senhor aborda uma patricinha, ele logo é escorraçado pelos seguranças da mimada. Mas se uma Instituição resolve promover um grande evento em prol de tal causa, todos caem matando. Com suas roupas de grife e seus carros caríssimos. E a sua hipocrisia estampada na cara.
E era assim que Saori Kido, a patricinha da Fundação, vivia. Ela era a garotinha do vovô, a menina dos olhos da Fundação, a porta-voz dos fracos e oprimidos (e auxiliados pelas Instituições de Caridade, só por dó). Ela viajava para várias partes do mundo apenas para visitar locais que necessitavam de ajuda, como orfanatos e hospitais públicos. Algumas casas de repouso, escolas, centros de apoio, caso eles fossem lucrativos também. A visita era de extrema importância para quem a recebia, pois ali seria definido se a grande Fundação Kido tiraria alguma miséria do bolso dos ricos para ajudar os pobres.
Este era o trabalho da Senhorita Saori. Nada mais e nada menos.
Tudo para ela era entediante, tirando as férias constantes com as amigas e as compras em shoppings de cada cidade que visitava. A menina estava no auge dos seus 21 anos, seus cabelos lilases belíssimos e bem cuidados pelos melhores cabeleireiros do mundo, suas medidas abaixo do recomendado pelos nutricionistas (porque era mais bonito), a maquiagem muito bem feita e aplicada. Seu celular e suas roupas eram as melhores, como também era o seu transporte. E seu mordomo: um homem ranzinza e careca chamado Tokumaru Tatsumi. Ele era um grande lutador e sabia muito bem defender a sua donzela. Tanto com palavras como tapas.
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O avião já estava decolando e a Senhorita Saori soltou mais uma bufada, como se estivesse chegando ao pior lugar do mundo. Mas ela já conhecia bem a Grécia. Era lá que aconteciam as melhores baladas do mundo, no coração de Atenas. E foi lá também que ela conheceu seu namorado (se é que ela poderia chamar de namorado), que se chamava Seiya. Era um rapaz forte e igualmente mesquinho, porém a sua família possuía menor poder aquisitivo. Ela se lembrava muito bem de quando conheceu seu namorado...
Ele estava numa turma de 5 rapazes, numa boate conhecida na capital da Grécia. O primeiro que ela se interessou foi um garoto chamado Shiryu. Ele era alto, possuía o cabelo comprido (Saori tinha certo fetiche por rapazes com o cabelo comprido) e muito liso, um corpo marcado pela musculação e um sorriso encantador. Porém ele já era noivo de uma menina chinesa chamada Shunrei, e estava fechado para qualquer negócio. Saori rapidamente desprezou a garota com os olhos e decidiu encarar o próximo pretendente. Viu um rapaz loiro e de olhos bem claros, também aparentava ser musculoso, mas nada muito exagerado. Ele tinha uma voz naturalmente arrastada pelo sotaque siberiano e se chamava Hyoga. Mas também não estava prestando muita atenção para a patricinha japonesa, já que conversava animadamente com uma moça chamada Eiri, igualmente loira e graciosa. Pouco tempo depois elas se tornariam amigas de balada. Depois encarou os irmãos, tão opostos como o Sol e a Lua: Ikki e Shun. Ikki era ligeiramente grosseiro em suas palavras e gostava de beber. Flertava aleatoriamente com as meninas do bar sem se importar se sua namorada, uma menina chamada Esmeralda, estava gostando. Shun já era bem mais educado e se vestia muito bem, característica que chamou a atenção de Saori. Mas ele também estava acompanhado por sua namorada, uma loira alta e de corpo bem definido, seus olhos eram bem delicados. Seu nome era June e elas também seriam amigas, depois de algum tempo e mais algumas bebidas.
O que restava era o famoso Seiya, conhecido pelas garotas como “eu pego, mas não me apego”. Para Saori aquilo era conversinha de moleque, mas no meio da tal conversinha e das bebidas os dois acabaram por ficar juntos. E sustentam um relacionamento (conturbado) de quase 6 meses.
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Saori pegou seu celular para avisar ao grupo de amigos que estava na cidade e ansiosa para encontra-los depois da visita que tinha programado para aquele dia. Seu destino era o Instituto de Psicologia e Tratamento Psiquiátrico de Atenas, um hospital sustentado pelo poder público e, pelas análises, passando por uma crise financeira séria. Eles precisavam de ajuda para os suprimentos básicos, como comida e remédios; além da energia que era racionada em alguns setores. Os boatos eram de que o Diretor Geral do Instituto havia desviado uma parte da verba para o próprio bolso e, até o momento, ninguém sabia o que tinha acontecido com o dinheiro. Ele foi substituído temporariamente até a conclusão das investigações.
A Senhorita chegou juntamente com o seu mordomo na entrada no grande complexo hospitalar, atrasando pontualmente meia-hora. Saori gostava de fazer os outros esperarem por ela, pois acreditava ser chique chegar um pouco mais tarde que o combinado.
A Doutora Milla Enmusè, atual Diretora do Instituto, recebeu os japoneses com um largo sorriso em seu rosto. Era uma mulher com grande força de vontade, de aparência bondosa e justa. Também não parecia ser muito velha, mas todos a chamavam respeitosamente de Senhora ou Doutora. Ela queria consertar os erros deixados pelo mandato anterior. Nem que, para isso, ela tivesse que recorrer ao Senhor Kido e à Fundação.
– Senhorita Saori Kido! Senhor Tatsumi! É um grande prazer recebe-los em meu local de trabalho!
– Obrigada, Senhora Milla. Eu agradeço a sua paciência e disposição em nos receber. – Saori sabia exatamente o que falar para todos e o falso entusiasmo que exigia tal frase.
– Podemos começar com o tour pelo hospital?
– Contanto que seja breve, eu adoraria conhecer seu hospital. – Saori falou, já diminuindo seu entusiasmo. Na verdade, ela não gostava de visitar hospitais. Pessoas doentes, tossindo e espirrando, tão próximas de sua pessoa, era algo asqueroso para a menina. E este era o primeiro hospital psiquiátrico que ela visitava. Ou seja, só daria louco naquele lugar. Pessoas correndo e gritando por todos os lados como zumbis, homens presos por coleiras de couro e mulheres descabeladas, esta era a cena que passava pela cabeça de Saori. Seus pêlos da nuca começaram a arrepiar quando a garota se deparou com a recepção do primeiro prédio. A Senhora Milla educadamente explicava que as estruturas precisavam de uma reforma séria, e que alguns setores estavam desativados, por ficarem seriamente comprometidos pela falta de manutenção. A recepcionista cumprimentou os visitantes de forma singela e tranquila, nem parecia que trabalhava em lugar para malucos.
Os três entraram no elevador e a Doutora Milla apertou o botão do primeiro andar. Lá, como ela explicava, era o setor da terceira idade, e abrigava vários idosos e idosas com problemas degenerativos, como o Mal de Alzheimer. Saori sentiu-se triste ao ver aqueles velhinhos, alguns sentados observando uma televisão pequena no meio de um dos setores do andar, outros brincando inocentemente qualquer jogo de cartas, mais outros sentados conversando entre si... A menina não soube explicar bem o porquê, mas aquela visão lembrava muito o seu avô. O Senhor Kido era a única família que Saori conhecia e ela mal podia imaginar como seria se ele tivesse algum problema de saúde. Mas, como o velho tinha muito dinheiro, qualquer tratamento poderia ser feito para manter a sua sanidade em dia. Saori acreditava que o dinheiro podia comprar tudo, até mesmo a saúde; só não sabia que o dinheiro não comprava uma única certeza na vida, e esta era a morte. A patricinha imaginava seu avô imortal e sempre ativo, e era confortável se manter assim.
A próxima parada foi o segundo andar, a Ala Infantil. Saori surpreendeu-se ao saber que crianças e adolescentes também poderiam sofrer de transtornos psicológicos. Quem sabe ela não fosse uma séria candidata, já que seu problema era egoísmo e cinismo em excesso. Mas, para ela, ter uma personalidade assim era hype e necessária para o seu posto de princesa da Fundação. Sem contar que uma celebridade só pode ser internada em uma clínica de reabilitação de drogas, e não num manicômio. Manicômios eram um tanto quanto “démodés”.
O terceiro andar era o começo do “andar dos loucos normais”, disse a Doutora Milla entre risadas. Este piso acolhia todos os casos recebidos pelo Instituto de Psicologia, ou seja, eles recebiam todas as pessoas que seguiam tratamentos mais extremos, exigindo uma internação. O setor começava no terceiro e ia até o oitavo andar e todos eram separados por tipos de doença e fase no tratamento. Eles não passaram por todos os pisos porque a Senhora Milla acreditava ser desnecessário. Na verdade, a Doutora gostaria de levar a menina para o terraço e estava torcendo para que a visão ali fosse a mais marcante para a garota: uma olhada por cima de todo o terreno do hospital, os pacientes tomando o seu banho de sol, uma vasta área a ser explorada e que foi cruelmente interditada pela tal falta de verba... Aumentar a área de passeio dos internos sempre foi um sonho para a mulher, desde o seu primeiro dia como Diretora. Ela estava apostando todas as fichas naquele terraço.
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Ao pararem no nono andar, Saori sentiu que estava entrando em um lugar totalmente diferente. As paredes eram branquíssimas e cada porta carregava, em seu lado esquerdo, uma grande janela de vidro, porém este era coberto por uma camada grossa de material preto. Doutora Milla ia explicando, de forma devagar, que este andar tratava dos casos mais antigos e mais sérios do Instituto. A janela era protegida para que os visitantes pudessem ver seus entes queridos, mas que os internos não pudessem ter a mesma visão. Saori engoliu seco. Já imaginou como gritaria “socorro” para Tatsumi caso algum retardado saísse por aquela porta. A Diretora, como boa psicóloga, entendeu os sinais corporais de Saori e pediu para que a menina se acalmasse, pois todos aqueles casos estavam sob total controle e nenhum deles poderia machuca-la.
– Imagine só, Senhorita Saori... – A Doutora disse, sorrindo calmamente – Até agora a senhorita não foi abordada por nenhum louco ou demente, estou certa?
– Sim... perdoe-me a indiscrição. É que este lugar parece carregar um ar mais denso... – De fato, Saori estava impressionada com a viagem até agora. Nenhuma mulher descabelada, nenhum homem gritando. Nem parecia ser um manicômio, afinal. Mas aquele andar era de arrepiar todos os pêlos do corpo.
Senhora Milla foi andando lentamente pelo corredor, contando um pouco mais sobre a história do hospital. Como aquele complexo era importante, pois carregava a vitória de vários pacientes já curados. Como alguns ainda precisavam de sua ajuda. Como a ajuda financeira extra era tão importante... Saori escutava sem se importar muito, pois já sabia que não ia ajudar em nada aquela mulher. Ela estava indignada, como podia um lugar de loucos não ter nenhum louco dentro? Aquele lugar não precisava de ajuda.
Seu olhar passava morosamente por entre os quartos quando um deles chamou a sua atenção.
Saori parou. E não conseguia mais parar de olhar.
Ela fitava um homem mexer em um cubo mágico de forma cautelosa.
– Quem é este homem?? – A menina perguntou, um pouco espantada.
– Este... Bom, este é um dos nossos pacientes mais antigos...
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