Madness
32 A Viagem
Notas iniciais
— Escutem bem... – O médico estava sério e compenetrado em sua fala, apenas para não deixar dúvidas em suas instruções. – Caso ele tenha algum surto, o melhor a se fazer é a imobilização e aplicação do anestésico. Vocês precisam tomar cuidado, ele é fortíssimo e precisa ser ministrado com cautela. O efeito, geralmente, é de alguns minutos.
A equipe contratada por Saori era composta por uma enfermeira e dois técnicos de enfermagem, altos e fortes como dois grandes touros de rodeio. A menina, que permanecia de braços cruzados e rosto ligeiramente emburrado, acompanhava toda a orientação de Doutor Mu. Saga carregava algumas malas e fitava todos com certa curiosidade. Era difícil de se imaginar tão violento, a ponto de precisar de uma escolta como aquelas. O barulho de aviões e avisos eletrônicos sustentava o fundo da conversa.
— Não se preocupem, vocês ficarão bem. – A Diretora Geral também presenciava a cena. Na verdade, ela queria se certificar que o antigo enfermo estava realmente saudável e sem sinais aparentes de loucura. E, quem sabe, ajudar um pouco mais nas explicações do seu companheiro. – Só peço para vocês, por gentileza: não deixem de verificar se Saga está tomando seus remédios corretamente. Viu, Saga?
— Sim. – Ele meneou a cabeça de forma inocente. – Estou com todas as doses aqui.
— Você sabe que não pode esquecer nunca de tomar essas pílulas, certo? É para controlar a esquizofrenia e...
— Tá bom, Doutora! – A patricinha cortou. – Eu farei questão de dar o remédio e não esquecer de nada, sim?! Precisamos correr agora ou perderemos o vôo!
— Tudo bem, tudo bem! Ah, Saga... – A psicóloga abraçou carinhosamente o seu ex-paciente. – Espero que você se divirta. Não deixe de me ligar se alguma coisa acontecer, está me ouvindo? Qualquer coisa!
— Obrigado, Doutora Milla. – O mais alto soltou-se da mulher e abraçou o seu atual psiquiatra. – Eu agradeço vocês pela alforria.
O grupo riu, Saori menos por conta da má vontade em ter três estranhos em sua (fantasiosa) lua-de-mel. Será que ela sempre precisará de uma precaução como essas?
Ela também se despediu do casal de médicos e, delicadamente, entrelaçou os finos dedos na mão de Saga.
— Você está animado? – A garota perguntou, com um largo e fervoroso sorriso.
— Com certeza! – Saga apertou o palmo da japonesa e devolveu a mesma felicidade. O bando dirigiu-se até a área de embarque do aeroporto e começou os preparativos para a decolagem.
~
Kanon mantinha seu corpo totalmente jogado no pequeno sofá de seu apartamento, comendo um pacote de salgadinhos qualquer e sujando todo o abdômen com os farelos alaranjados. Era seu dia de folga e, ao contrário do que todos pensavam, ele preferiu não acompanhar o irmão até o aeroporto. O motivo era muito simples: Kanon estava enfastiado e carregado de ciúmes. Não custava nada Saori deixar Saga na mesma cidade que ele. Aliás, não seria um crime se os dois aliviassem seus ânimos ali ou em qualquer outra parte da Grécia. Contanto que fosse na droga da mesma cidade.
— Merda. – O grego murmurou. Ele estava extremamente irritado com aquela situação. Como se algo não fosse dar certo... – Que seja. Não vou me preocupar com isso.
Kanon tinha o péssimo hábito de praguejar alto quando estava nervoso. E, naquele dia, não era diferente. Ele zapeava os canais da televisão, impaciente com os próprios pensamentos.
De repente, o som da campainha ecoou pelo lugar. Ele lambeu os dedos e levantou-se do estofado, sem se preocupar em vestir algo ou parecer emporcalhado para a sua visita.
A falta de costume em olhar o pequeno visor na porta também contribuiu para a cara de susto em abri-la. Kanon se deparou com uma figura belíssima, trajando um vestido preto e algumas jóias nos membros superiores e no pescoço. Aquele era o retrato perfeito do que ele mais desejava em uma mulher. Era uma verdadeira sereia, como ele mesmo apelidou carinhosamente a loira, anos atrás.
Entretanto, o ex-marinheiro não estava nem um pouco feliz em vê-la na sua frente.
— Uau. – Ela começou. – Se eu soubesse que os anos te fariam tão bem assim, eu voltaria antes para te ver.
— O que você veio fazer aqui?! – O grego zangou-se. – Como você descobriu onde eu moro?!
— Quantas perguntas, Kanon! Havia me esquecido de que você era nervoso desse jeito. – Ela olhou para os lados do corredor e voltou-se para o seu antigo namorado. – Sério mesmo que você não vai me deixar entrar?
— O que você quer?
— Kanon... Eu vim até aqui para te pedir desculpas. Vim para me explicar e deixar claro tudo o que aconteceu. – Os olhos azuis cintilavam de piedade. – Por favor... Nós podemos conversar?
— Tanto faz, Thetis. – Ele se virou para dentro da sala, sem cerimônias ou respeito. A socialite fechou delicadamente a porta do apartamento e respirou fundo algumas vezes. Obviamente, o diálogo ia ser mais difícil do que ela imaginava. – Agora que você já está aqui dentro, poderia me explicar o motivo de tão deleitosa visita?
— Ah, Kanon... – Thetis riu. – Você não mudou nada mesmo. Esse seu sarcasmo sempre foi um charme, sabia? – O homem respondeu com uma bufada. – Bem, acho melhor começar a explicação. Antes... Será que você não poderia nos servir algo? Um café, talvez...
— Você continua folgada. – Kanon sentou-se espalhado no sofá novamente, procurando deixar o mais claro possível o seu incômodo com aquela passada. Ele cruzou os braços e encarou a mulher. – Vamos, diga logo o que você quer.
— Então... – Thetis pigarreou e não esperou um convite para sentar-se também. Ela preferiu manter uma certa distância, ajeitando-se em uma das duas poltronas que compunham aquele jogo confortável no cômodo. A visão do peitoral nu de Kanon estava igualmente confortável de se olhar, mas ela decidiu não perder muito o seu foco. – Há alguns dias, eu estive com minhas amigas no restaurante Strofi e fiquei bem... Espantada em te ver trabalhando lá. Você estava na cozinha tão concentrado em seus afazeres e eu só pude te ver de relance... Mas sabia que era você.
— Assustada por me ver num trabalho digno? – Kanon cuspiu as palavras.
— Não, não é isso. Eu fiquei admirada porque você não mudou nada e, ao mesmo tempo, está tão diferente. É difícil de elucidar. Enfim... Você sabe que eu sou muito curiosa e daí eu resolvi conversar um pouco com aquele seu amigo espanhol... Shura é o nome dele, certo?
— Sim. E ele te falou que eu morava aqui. – Kanon esfregou as mãos pelo rosto, bravo com aquela confissão. – Aquele filho de uma...
— Calma! Ele não fez nada! Quer dizer, eu meio que fiquei enchendo ele com perguntas. Fui bem chata mesmo! Até porque ele não queria me falar nada sobre você. Sabia que você estava magoado comigo e não queria me ver nem pintada de ouro... – Thetis arrumou-se um pouco mais à frente na cadeira, inconscientemente querendo um pouco mais de atenção. – Kanon, eu fiz isso porque te devo um esclarecimento. Preciso te contar o motivo de ter fugido...
— Você não me deve nada, Thetis. – Ele também aproximou mais seu corpo para aquele espaço frio que dividia os dois. – Pra ser muito sincero, eu já esqueci. Te esqueci e tudo que tivemos, todas as babaquices que eu fiz por você e, agora, eu não preciso que me esclareça coisa nenhuma. Estou vivendo muitíssimo bem, fique ciente disso.
— Eu sei... – A loira soltou um riso travesso. – Shura me contou que você se diverte com várias namoradinhas por aí...
— Claro, várias! A Grécia inteira! – Kanon gesticulava freneticamente. – Não paro com uma só! E você quer saber o motivo?! Porque ao menos uma delas pode me dar o carinho que você nunca me deu!!
— Eu entendo a sua fúria, Kanon. Eu não esperaria outra atitude vinda de você. Seria estranho se fosse diferente. Eu só gostaria que você me compreendesse...
— Então, fale logo! Eu não tenho o dia inteiro!
— Escute... – A loira mordeu os lábios. — Eu só me casei com Julian porque a minha família inteira dependia disso, Kanon. Você sabia que lá na Vila era tudo muito pobre, que eles estavam morrendo de fome e sede...
— Eu estava fazendo de tudo para te ajudar! – Kanon levantou-se, com raiva. – Eu passei 6 anos na prisão porque fui atrás de solução para o seu problema. Para o nosso problema!
— E arranjou a pior forma possível, Kanon! Roubar os outros e se enfiar em máfias não é a melhor alternativa para conseguir dinheiro, você sabe disso!
— Se casar com um homem rico também não é, Thetis. – A mulher sentiu uma pontada no peito. No fim, aquela era a verdade para ambos. Kanon errou grosseiramente. Porém, analisando friamente toda a situação, ela também não estava certa. A socialite procurou acalmar o compasso de seu coração para continuar com o diálogo.
— Kanon... Eu errei em fazer isso, eu sei. Na época, aquela foi a melhor saída para todos.
— Não. Aquela foi a melhor saída para você. Você mal se importou em deixar esse idiota de lado, que se humilhou e implorou até para tentar conhecer a sua família. Você sentia vergonha de mim e isso eu nunca vou aceitar!
— Não era vergonha, Kanon... Era medo do que eles poderiam pensar...
— Isso é a mesma coisa que vergonha, Thetis. Bote essa sua cabecinha loira para funcionar e seja sincera com você.
— Kanon... – Ela havia se esquecido de como era doloroso discutir com o gêmeo de Saga. A garganta começou a queimar pelo choro preso e pelo remorso... – Saiba que, ao contrário de você, eu nunca te esqueci. Durante os anos, eu sempre imaginei como você e seu irmão poderiam estar... Eu nunca me esqueci do que tivemos e como eu fui estúpida em jogar tudo fora. Me perdoe.
O ex-marinheiro permanecia com a sua cara fechada mas, por dentro, ele estava arrasado. Ela parecia conhecer o seu ponto fraco e estava utilizando-o naquele momento. Kanon odiava ver a loira com os olhos tristonhos...
— Eu te perdôo. Agora, o melhor a se fazer é continuar seguindo a vida, Thetis.
— Seguir a vida... – A mulher deu de ombros. – Não sei se conseguirei fazer isso. Eu e Julian estamos nos divorciando...
— Maravilha! Daí você vem pra casa do seu ex-namoradinho, já sabe que ele é um idiota mesmo e aproveita para matar as saudades! Claro, esse é o seu jeito de fazer as coisas!
— Não, Kanon... Não é isso mesmo. Eu não queria que você entendesse dessa forma. Não vim aqui para afogar as mágoas com alguém do meu passado. Só queria te pedir desculpas pela minha atitude egoísta e infantil... E mais nada. – Nitidamente ofendida, Thetis levantou-se da poltrona e ajustou um pouco mais o seu vestido no corpo. Ela enxugou, orgulhosamente, algumas lágrimas que caíram de seus belos orbes azulados. – Eu acho que é só isso. Obrigada pela sua atenção, Kanon.
Ela andou em direção à porta e saiu, tão vulnerável quanto a sua entrada. Kanon apenas observou toda a cena, sem saber muito o que fazer. Talvez a sua aspereza tenha ido longe demais.
— Ah, que droga! – Ele bateu os punhos na lateral das ancas, maldizendo para si logo em seguida. – Sua anta!
Kanon correu pelo mesmo trajeto da loira e fitou-a acompanhando os números do elevador descerem de acordo com o avanço dos andares.
— Thetis, espere!
— Sim? – Ela mexia com o pingente de seu colar de um lado para o outro; um dos braços agarrando delicadamente o próprio corpo.
— Tá, olha... – O Sous Chef olhava para um canto qualquer do corredor, como uma criança emburrada. – Eu acho que tenho... Uma garrafa de licor de pêssego lá dentro. Você ainda toma licor?
— É o meu preferido, você sabe. – Ela sorriu de uma forma graciosa.
— Eu sei... Q-Quer dizer, não que eu tenha pego a garrafa por sua causa ou porque ela me lembrava você, nada disso.
Thetis riu com a falta de graça e falsa indiferença do homem. Foi uma batalha difícil, ela deveria reconhecer. Ainda assim, Kanon seria o mesmo rapaz apaixonado que ela sempre conheceu...
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