Madness
33 A Praia
Notas iniciais
Saga não conseguia fechar os lábios, tamanha era a sua admiração. Ele olhava para cada detalhe da simplória casa de férias da Família Kido. Tudo ali exalava riqueza; a estrutura era toda de madeira trabalhada e tijolos queimados, com algumas partes em vidro reforçado e paisagens em sua jardinagem, no início e final do plano. Lá eles poderiam usar uma piscina, mas ela não era tão necessária. Na disputa entre o melhor ambiente, a magnífica praia da Ilha ganhava em disparada.
– Você gostou? – A patricinha estava tão admirada quanto Saga, porém o motivo não era a sua habitual mansão. A face do homem brilhava como uma estrela. – Nós temos essa casa de férias, outra na Ilha Rodes e mais duas no Japão, fora a mansão da minha família em Atenas e a Sede da Fundação, em Tóquio.
– Ela é gigante, Saori! Ninguém vive por aqui?!
– Não. Quer dizer, eu venho de vez em quando sim, mas só para passar as férias mesmo. Por isso ela tem esse nome! – A menina brincou.
– Poxa... É um pecado deixar vazio um lugar tão bonito. Por que você não vira madrinha de outros enfermos lá do hospital e coloca eles aqui? Aposto que ninguém reclamaria! – Ambos riram com a chacota. Saori mostrou a língua de forma travessa e puxou Saga para dentro do casarão.
– Eu quero te mostrar cada cantinho daqui! Ah... – Ela havia se esquecido completamente da equipe contratada para o auxílio de Saga, que estava um pouco atrás da dupla. Seu rostinho ressequiu em desgosto. – Antes eu vou acomodá-los no quarto de hóspedes, tudo bem?
– Sem problemas. – O ex-capitão ficou na sala, fitando toda a decoração opulenta e cheia de requintes do lugar. O jogo de sofá era de couro escuro, todas as mesas lapidadas em vidro, pequeninas estátuas de deuses gregos em mármore... Um enorme quadro do Sr. Mitsumasa Kido pousava próximo ao primeiro acesso da parte externa. Um senhor sisudo, de grande barba branca e terno, encarava ponderadamente Saga em toda a sua imponência.
– Esse é o meu avô, Saga! – A voz estridente de Saori ecoou pela sala e, sem demora, ela se aproximou do grego. – Ele tem vários auto-retratos aqui.
– Hm... Isso é meio narcisista, você não acha?
– Meio o quê...? – A garota ainda não estava naquele mesmo nível, mesmo com todo o esforço dedicado nos últimos tempos. – Ah, esquece! Vem, eu vou te levar para o seu quarto!
A dupla caminhou por toda a extensão do corredor e Saga continuou observando tudo. Saori servia de guia em alguns momentos, principalmente quando os dois se deparavam com alguma foto de família ou de negócios.
– E esse aqui... – Ela entrou antes no cômodo e escancarou os braços para toda a mobília. – É aonde você vai dormir! Claro que, se você se sentir sozinho, meu quarto estará à sua disposição também...
– Eu achei que essa era a idéia, Saori. – Saga pilheriou e Saori riu, envergonhada. Ela nunca se acostumaria com as indiretas do antigo interno. – Estou vendo que essa cama é muito grande para dormir sozinho... O que é isso?
Saga apontou para uma pequena caixa embrulhada em papel prateado, em cima do leito.
– Esse é o seu presente. É uma lembrancinha, na verdade... Juro que foi de coração.
– Presente? – Ele agitou a caixeta perto de seu ouvido, tentando decifrar alguma coisa.
– Sim! Você vai poder tirar várias fotos da viagem, se comunicar comigo... – Saori acompanhava Saga abrir o embrulho animadamente. — E com o seu irmão também... Vai poder ligar para o Doutor Mu e a Doutora Milla... Enfim, ele é multiuso. Espero que goste!
– É um celular? – Ele indagou antes de abrir o presente completamente. Fez uma cara de felicidade quando constatou que era, de fato, um celular.
– É do mesmo modelo que o meu, Saga! Eu até comprei uma capinha azul-marinho para combinar com a minha rosa! – A menina agitou o seu próprio aparelho, enquanto o homem não parava de rir. Saori parecia uma criança, às vezes. Não que isso a deixasse menos bonita do que ela já era. Ele abraçou carinhosamente a japonesa.
– Obrigado, Saori... Não precisava, de verdade. Eu não tenho muitos contatos, você sabe disso.
– Mas vai começar a ter, com certeza! Agora, vamos tirar uma foto!
Aquela seria a primeira de muitas imagens registradas no smartphone. Posteriormente se transformariam em lembranças de um tempo agradabilíssimo para ambos...
~
–... E aí ele saiu do hospital. Agora está viajando com essa menina, que saiu de sei-lá-qual-buraco-japonês e já tomou meu irmão pra ela. – Kanon virou o último gole de licor ao terminar a frase. Thetis estava apoiada em seus braços no encosto do sofá, com os pés descalços e aconchegantes no estofado. Ela se sentia um pouco zonza pelo efeito da bebida, mas não fora de si.
– Eu acho que você está com ciúmes do seu irmão, Kanon. Deixe ele curtir um pouco a vida!
– Não estou com ciúmes! Sei lá, eu tenho a sensação que algo ruim pode acontecer... Fiquei muito tempo acompanhando a sua rotina e só Deus sabe como ele ficava quando se transformava nesse tal de Grande Mestre... Ninguém imagina como ele sofreu, Thetis. Não quero ver isso de novo...
– Escute. Olhe aqui para mim. – A loira se acomodou e fitou os olhos azulados e escuros de Kanon, que contrastavam com o seu tom claríssimo. – Pense que essa será a oportunidade perfeita para ele encontrar alguém bacana na vida dele e, sei lá, começar a ser feliz! Vocês nunca tiveram essa chance, Kanon. Ele merece e você também.
– O que você quer dizer com isso? – O grego murmurou. Os corpos estavam próximos o suficiente para sentirem o calor daquele espaço. O vácuo insosso de outrora já não existia mais.
– Que vocês dois precisam encontrar uma pessoa boa. Porque são dignos de uma vida cheia de plenitude.
– Mesmo com todos os erros que carregamos...?
– Kanon, é natural errar. Somos seres humanos. – Thetis pousou gentilmente sua mão no rosto do ex-namorado. – Você é um cara legal. Só tem esse jeitinho sincero demais e falar e, às vezes, pesa no sarcasmo... – Ambos riram, bem próximos um do outro. – Mas isso não te faz uma pessoa maldosa. Você precisa aprender a perdoar os outros e, mais do que isso, perdoar você mesmo.
Provavelmente ela se arrependeria depois e, quem sabe, Kanon também. O par sabia que, desde o primeiro momento daquela visita, o resultado seria aquele... A reconciliação. A loira fechou os olhos e apenas deixou os lábios se tocarem, pois era inevitável. Ela já conhecia o homem bem demais para saber disso.
As línguas eram carentes e procuravam se acariciar sem pressa. As mãos de Kanon percorreram pelos braços delicados de Thetis; que falta lhe fez aquela sensação. A mulher lembrou-se de todo o passado e admitiu internamente que somente Kanon poderia causar sentimentos tão profundos como os que ela experimentava com seus beijos. De repente, ela resolveu parar.
– Não, Kanon... Não podemos...
– Por quê?! – Ele alisou os fios claros da socialite. – Por favor, fique aqui...
– Eu não posso, Kanon... Lembra que eu não vim aqui para matar as saudades?
– Não, eu não quis falar desse jeito... – Kanon soltou um riso baixo e sem graça. – Eu estava nervoso... Me perdoe! Por favor, não vá embora...
– Isso não é certo, você sabe...
– E o que é certo entre a gente, Thetis? – Ele afagou as bochechas da loira. Os olhares se envolviam como se o tempo tivesse parado. – Eu te imploro, não vá embora... Eu senti a sua falta...
– Eu também senti saudades. – Desta vez, ela acariciava os cabelos do ex-marinheiro. – Você não imagina o quanto...
– Venha... – Kanon apertou e beijou delicadamente a mão da loira, levantando-se em seguida. – Vou te mostrar meu quarto.
– Não! – Thetis riu, lembrando-se da primeira cantada que ouviu do grego. – Não vou cair nessa conversa de novo!
– Ah, vai sim! – Ele puxou-a para os seus braços. – Eu comprei uns travesseiros bacanas e quero ver se você gosta...
– Você não muda nem a frase, seu tarado! – Uns tapinhas de brincadeira foram dados e as gargalhadas continuaram soando pelo corredor, sendo interrompidos apenas pelo som dos pequenos beijos distribuídos. O casal não perdeu tempo em tomar rumo para o cômodo do anfitrião. Efetivamente, era difícil fugir do costume.
Ainda mais quando o costume era um homem como Kanon.
~
Saga parecia estar em outro mundo, sustentando seu campo de visão para o horizonte da praia. Já estava perto do anoitecer e a paisagem não poderia ser mais bonita: um mesclado entre amarelo e vermelho pintava todo o céu e caía em um mar escuro e denso, que estava tão calmo quanto a sua própria alma. Sim, ele poderia se descrever ali... Um combinado de cores quentes e, ao mesmo tempo, tão imperturbáveis. O mundo entraria em um colapso, as nações irromperiam as guerras, a Natureza engoliria a superfície do planeta; tudo isso poderia acontecer. Mas nada, absolutamente nada, o retiraria daquela paz interior.
– O que você está pensando?
Saga respirou profundamente e soltou o ar dos pulmões como Shaka havia lhe ensinado um dia. Os ombros subiram e desceram rapidamente.
– Em nada. Acredita nisso?
– Como é possível não pensar em nada? – Saori colocou-se na mesma posição do mais alto, fitando misteriosamente o pôr-do-sol.
– Não sei dizer. Acho que... Só acontece.
– Entendi... – Aquela conversa estava ficando filosófica demais para a patricinha. – Olha, eu não queria te atrapalhar, mas eu não tenho muito o que conversar com os enfermeiros ali.
– Saori... – Saga riu e passou uma das mãos pela cintura da menina. – Você precisa ser mais humilde, sabia?
– Eu sou humilde! – Ela sentiu-se prazerosamente paparicada com aquele ato. – A idéia foi sua de trazer eles para cá! Por mim, eles poderiam ficar no quarto!
– Sim, eu sei disso. No entanto, não seria bacana da nossa parte deixá-los desconfortáveis desse jeito. Eles já devem estar apenas por estarem aqui, imaginando que estão nos atrapalhando. — A garota grunhiu de um jeito engraçado.
– Bom... Eles terão que arranjar algo bacana para fazer, de qualquer forma. Não vamos ficar na casa todo o tempo...
– Como assim?
– Acho melhor a gente voltar... Porque eu marquei um jantar em um restaurante perto daqui...
Saori encaixou alguns fios de cabelo atrás da orelha e sorriu timidamente. Saga fez uma careta de susto, arrancando gargalhadas da japonesa.
– Achei que eu era o homem da relação!
– Você é, mas... Ah... Eu queria que você se sentisse especial, e sei lá, quando percebi já tinha reservado uma mesa. Não fique mal-acostumado!
– Não ficarei. Preciso colocar o meu terno e a minha gravata? – Ele brincou.
– Hm... – A moça fez um gesto pensativo, aproveitando para gracejar também. – Não precisa caprichar muito. Apenas vá... De você.
– Obrigado pelas instruções! Não quero fazer feio. Se você puder ir de você também, será perfeito! – Os dois riram e retornaram para o casarão, acompanhados pela (inconveniente) equipe de enfermagem.
Surpreendentemente, Saori estava fora de todos os seus limites e hábitos; ela nunca se incomodaria em fazer alguém se sentir especial.
Ainda mais quando o alguém era um homem como Saga.
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