Madness

18 A Tentativa


O dia seguinte teve, basicamente, o mesmo começo: Saga foi escoltado para o escritório de Shaka com a sua pequena auxiliar e admiradora em seu encalço.

Depois de mais um pouco de discussão entre a patricinha e o budista, que não aceitava ninguém observando suas sessões (e parecia que Saori não entendia aquilo), Shaka pediu para que Saga sentasse no chão, como havia sido no dia anterior.

– E então, Saga... – O loiro disse, pousando uma nova xícara de chá na frente do enfermo. – Podemos começar? – Saga fez uma cara feia para o objeto que estava no chão.

– Esse chá aí é o mesmo de ontem, é? – Shaka riu com a pergunta.

– Não se preocupe. Este aqui não te fará apagar como o outro fez. – Ele sorriu delicadamente. Saga pegou a xícara com um pouco de receio, mas achou melhor tentar dessa vez. – Hoje eu quero começar o que deveríamos ter... Enfim, você sabe. A parte de meditação. Quero que se concentre em sua própria respiração, enquanto me acompanha, tudo bem?

– Claro. – Saga engoliu a pequena porção de chá quente e voltou a xícara para a sua posição inicial.

– Você deve primeiro inspirar... – Shaka fez o primeiro gesto. – E depois soltar o ar pela boca. Não é difícil.

O paciente imitou o exercício de respiração, dando algumas tossidas no meio de seu fôlego. Ele era o pior tipo de pessoa para tentar algo que envolvesse paciência. Inspirou mais uma vez, fechando os olhos. Ao soltar o ar, ele abria os olhos involuntariamente.

– Você pode manter os olhos fechados, Saga. Nada de ruim vai acontecer com você, eu prometo. – Shaka tinha a voz tranquila e sustentava o seu olhar de forma branda para Saga. Os dois fizeram o mesmo exercício mais uma, duas, três vezes... Aquilo parecia ser promissor. Só que não ia ser bem assim.

– A gente vai fazer isso durante três horas? – Saga indagou, ainda de olhos fechados.

– Sim.

– Mas eu preciso fazer isso durante três horas...?

– Sim. Concentre-se, Saga. Só assim você ficará preparado para os próximos exercícios. – Shaka permanecia com sua voz serena. Mais alguns segundos de respiração se passaram até a próxima pergunta.

– Minhas costas estão doendo. Como você consegue?

– Saga... Você precisa trabalhar a sua ansiedade para que possamos ter alguma evolução nisso. A dor nas costas passará se você se concentrar em sua respiração. – Agora a voz estava um pouco mais grave que o costume.

– Como você conheceu a Saori?

– O quê?! – Shaka fez uma careta de dúvida. Parecia que Saga não estava prestando atenção em nada do que ele pedia.

– A Saori. Como você conheceu. Vocês são muito diferentes, sabe? Daí eu fiquei me perguntando...

– Saga. – Shaka abriu seus olhos esverdeados, de forma inesperada. Pareciam duas pedras em brasa. Dizia a lenda que, quando Shaka fazia isso, era sempre um sinal de problemas. – Trate de focar sua atenção no exercício que estamos fazendo. Ou você não quer resolver seus problemas?!

– Me desculpe. – Saga não sentiu o olhar de Shaka para si, mas ficou com medo do mesmo jeito. Ele se arrumou mais um pouco naquela posição desconfortável e continuou a inspirar e expirar.

– Nos conhecemos quando ela fez uma passagem pela Índia. – Shaka continuou, surpreendentemente. – Ela visitou vários templos hinduístas da minha cidade e, em uma das dessas visitas, nós nos encontramos. Saori era uma garotinha cheia de dúvidas e incertezas e eu decidi ajudar. – Shaka inspirou fundo para seguir com a narrativa. — Vocês do Ocidente possuem um estilo de vida totalmente pesado, com muita violência e futilidade... Inveja, ignorância, ambição. Saori era uma menina tomada por todas essas emoções. Depois de algumas conversas ela pediu para que eu viesse até a Grécia e ficasse próximo dela, para que ela tivesse conselhos sempre que precisasse. Em troca, ela ajudou todos os meus amigos e a minha família. Tirou as pessoas que eu tanto amo da fome e da pobreza... Eu não teria como negar qualquer pedido dela depois deste ato de caridade.

– Nossa, Shaka... Que história bacana. E agora você aconselha outras pessoas além dela, é isso?

– Na verdade, esse escritório foi idéia dela. Ela acha chique esse tipo de coisa. Ficar aconselhando gente rica e sem nada para fazer... – Shaka meneou a cabeça, desacreditando de suas próprias palavras. — Eu trocaria tudo isso pra voltar para a minha família... Mas como falei, eu não tenho como negar nada para ela. Minha gratidão vai além deste pequeno sacrifício.

– Eu também devo muita coisa para ela, sabe? – Ambos mantinham a conversa de olhos fechados. – Ela conseguiu um emprego para o meu irmão em um restaurante muito conhecido de Atenas. E está me ajudando também...

– Bom, pelo o que eu conheço de Saori, ela não faria nada sem ter um motivo ou uma intenção por trás. Eu ainda não descobri por qual razão ela me ajudou, mas... Quem sabe você não descobre a sua? – O loiro sorriu, mas Saga não pode ver seu sorriso. Ele voltou a se concentrar em sua respiração novamente. Foi estranho, mas ele não sentiu mais nenhuma dor nas costas pelo restante das horas...

~

No período da tarde, era possível ver Kanon e mais um amigo do lado de fora do hospital, aguardando a chegada do horário de visitas. Os dois subiram até o nono andar e entraram na sala reservada para Saga, cumprimentando o enfermo logo em seguida.

– Camus! – Saga abraçou o antigo colega de Exército. – Quanto tempo! Como estão as aulas na faculdade? Fiquei sabendo que você foi homenageado e tudo...

– Sim, Saga. Eu fiz alguns trabalhos acadêmicos e ganhei um prêmio na Universidade... – Camus sentou-se em uma das poltronas do lugar. Ele era francês e ostentava um grande cabelo verde-água, com um par de sobrancelhas excêntrico e um grande sorriso na face. O trio ficou durante um tempo conversando sobre os assuntos docentes de Camus. – E você, meu amigo? Você está fazendo um tratamento fora daqui, é isso?

– Exatamente! Estou recebendo ajuda da Saori, que é neta do dono da Fundação Kido... Você conhece a Fundação, Camus?

– Se conheço... – O francês revirou os olhos. – São os maiores mafiosos que eu já vi. Capitalistas gananciosos. E Kanon já me falou dessa sua nova amiga, Saga... – Camus recebeu um olhar malicioso do irmão mais novo de Kanon, já era de se imaginar o que ele havia falado.

– Ela é uma pessoa muito legal... Não me parece mafiosa. – Saga confessou, apoiando seus dedos sobre o queixo. – Mas enfim, e seu amigo rockeiro? Shura me disse que ele está viajando pela Europa, é isso?

– Sim. Ele, a banda e a sua namorada. Acredito que ele esteja de volta dentro de algumas semanas.

– Falando em namorada... Como está a sua, Camus? – Saga perguntou, curioso.

– Hein?! – O professor era bem tímido nesses assuntos e se Kanon era um total mulherengo e galanteador por natureza, Camus era exatamente o oposto. Não costumava ter muitos relacionamentos e era extremamente dedicado ao seu trabalho. A não ser...

– Aquela sua aluna! Uma loira, devia ser da Sibéria... Ou vocês não eram namorados?

– Ah! – Camus coçou a cabeça, em sinal de nervosismo. – Ela... Eu... Nós éramos... – Os olhos procuravam algo invisível no canto da sala.

– Vocês só se pegavam? – Kanon tentou completar a frase do amigo.

– Não! Quer dizer, não se fala assim de mulheres, Kanon! – Sua voz saiu em um tom reprovativo.

– Ah, me desculpe senhor não-falo-assim-de-mulheres-mas-saio-comendo-alunas! – Kanon era bem sarcástico quando queria ser, ainda mais afinando a voz de um jeito cômico. Saga não conseguia parar de rir com a cena.

– Nós não éramos namorados. Só ficamos algumas vezes. – Camus disse, finalmente. – E ela foi a única aluna com quem tive um relacionamento íntimo, tudo bem? Não saio por aí fazendo esse tipo de coisa. – Ele fez um gesto de nojo com a mão.

– Claro! Ela foi a única, junto com as outras 80 mil que você passou a mão naquela faculdade! Relacionamento íntimo... Desde quando você virou uma mocinha pra falar assim?! – Kanon realmente não media palavras ao falar com seus amigos.

– E desde quando você virou esse machão pra me tratar desse jeito?! – Camus rebateu.

– A contar do primeiro dia que eu coloquei os pés neste hospital, não tem uma mulher que não tenha sentado no meu... – A porta do quarto de Saga foi aberta abruptamente. Uma enfermeira veio avisar que o horário de visitas já estava no fim. Era uma moça ruiva muito bonita, que não economizou o sorriso ao ver o irmão de Saga no cômodo.

– Pois é, Camus... – Saga quebrou o silêncio que se instaurou depois que a menina fechou a porta. – Meu irmão decidiu virar o garanhão do hospital.

– Vai me dizer que essa enfermeira é uma das suas amantes?

– Sim. – Kanon falou, orgulhoso de si. – Posso te apontar cada uma delas, se quiser.

– Não é necessário, Kanon. – Camus deu umas batidinhas no ombro do colega. – Aproveite sua DST, no dia que tiver uma. – Ele olhou para Saga e os dois riram em cumplicidade, ignorando a feição zangada de Kanon. Saga sempre achou Camus um homem admirável em suas atitudes. Os dois se despediram de forma afetuosa; a amizade entre eles sempre foi muito especial.

~

Aquela já devia ser a terceira ou quarta vez que os dois se encontravam, mas nunca naquele estado de euforia. A Diretora Geral do Instituto abriu com rapidez a porta do seu apartamento, sendo acompanhada por um beijo cheio de luxúria do seu colega de trabalho. Mu não poupou os carinhos pelo corpo da mulher, começando pelas costas e descendo até o seu bumbum. Doutora Milla trancou a porta de sua casa e jogou, de forma destrambelhada, a sua bolsa com todos os seus pertences em uma poltrona da sala. Era difícil pensar direito quando se tinha um homem mordiscando sua parte mais sensível do pescoço, tantas peças de roupa atrapalhando e arrepios no seu corpo já excitado, tamanha era a vontade de ter um pouco do psiquiatra para si.

A Doutora soltava algumas risadinhas leves ao mesmo tempo que era levada para o seu quarto pelo tibetano, que era ligeiro em suas ações. Mu nem sabia em qual direção estava o cômodo, mas ele queria chegar até lá de qualquer jeito. Já era noite e todo o apartamento estava escuro, dificultando um pouco a passagem do casal para o seu grande objetivo... A Doutora fez um barulhinho singular para afugentar seu gato preto, que ficou na ponta do grande corredor observando toda a cena. Depois de mais alguns beijos e passadas de mão bem obscenas, Milla abriu a porta do quarto com um grande sorriso no rosto.

Não demorou muito até que os corpos caíssem na grande cama azul clara da Doutora, que não devia ser de casal, porém era grande o suficiente para que os dois ficassem ali confortavelmente. Mu não tirava os lábios da mulher, aumentando cada vez mais a intensidade dos beijos. Uma escrivaninha com algumas fotos e bibelôs estava próxima da cabeceira da cama, alguns diplomas e certificados enfeitavam a parede alva do lugar... Estes eram detalhes que Mu não percebia e não fez questão nenhuma de perceber, devido a posição de sua boca em um dos mamilos da mulher. Parte da camisa social de Milla estava aberta e ele não parava de acariciá-la, deixando-a em um nível bem próximo da loucura.

A Diretora decidiu arrancar a camiseta do homem e, sem demora, jogou a peça no chão de seu quarto, voltando para os beijos logo em seguida. Mu decidiu imitar o ato, retirando a peça íntima da mulher e dando novas lambidas em seu seio. Uma de suas mãos escorregou para a parte de dentro da calça de Milla, arrancando um suspiro alto da mulher com o toque. Ele estava totalmente encaixado entre as pernas da moça, aproveitando as movimentações involuntárias de Milla contra os seus dedos. De repente, um som agudo pode ser ouvido pelos dois.

– Mu... – A Doutora decidiu intervir. – Mu... Meu telefone está tocando... – Ela respirava alto e sabia que estava perdendo o controle a cada segundo.

– Deixe tocar, Milla... Esquece esse telefone... – Ele disse, voltando a beijar a Diretora com vontade. Ela afastou-se do beijo rapidamente.

– Eu não posso, Mu... Pode ser alguém do hospital... Eu atendo e volto, é rápido... – O homem encarou a sua parceira, um tanto quanto incrédulo. Mu deu passagem para que Milla corresse até a sua sala, onde o aparelho não parou de tocar por nenhum momento. Ela voltou para o cômodo, respondendo a pessoa do outro lado da linha (a sua falta de vontade era notável).

– Sim... Meu celular? Deve ter acabado a bateria... Sim... É mesmo? – Ela disse, cobrindo parte de seus seios com uma das mãos e sentando-se na cama, ao lado de Mu. Ele escondeu sua ereção com uma porção do lençol da cama de Milla depois de ver o gatinho preto encarando tudo na porta do quarto, com muita curiosidade. – Mas ele já foi para a UTI? Certo... – O olhar da Doutora não podia ser mais triste. – Tudo bem. Eu já estou a caminho daí.

Ela desligou o aparelho e respirou fundo, jogando o objeto em sua cama.

– O que aconteceu? – Mu perguntou, sem tirar os olhos do felino.

– Um paciente do oitavo andar tentou se enforcar com os lençóis do quarto... – Ela massageava o próprio cenho, com os olhos fechados. A outra mão permanecia em seu corpo parcialmente nu. – Ele foi encaminhado para a UTI do hospital público de Atenas, a sua família já foi avisada... Eu terei que ir também para acompanhar o caso.

– Jura? – O tibetano disse, fazendo um biquinho de leve. – Eu te levo até lá, então.

– Não precisa, Mu...

– Claro que precisa, Milla. Eu te levo até lá e depois vou para a minha casa. – Ele depositou um beijo carinhoso na testa da Diretora, que soltou um sorriso singelo. – Quem mandou gostar da Diretora Geral de um lugar para malucos?!

– E bota maluco nisso... – Ambos riram, de forma um tanto quanto pesarosa. A Doutora não deixou de pensar que só conseguiria ter algo com Mu, provavelmente, no seu período de férias. Ou nem no período de férias. Quem sabe ela teria mais sorte um outro dia...