Madness
4 A Simulação
Notas iniciais
Saori acordou com um beijo estalado em sua bochecha.
– Minha gatinha! Desculpe por fazer você esperar... Demorei mais que o previsto... – Era Seiya, sentado na cama da patricinha, debruçado em seu rosto.
– Seiya... Que horas são?
– Hum... já está perto da meia-noite... Tem algum compromisso para hoje, linda? – Ele disse, misturando ironia com graciosidade.
Saori estava com sua camisola de grife, seu cabelo perfeitamente penteado, nem parecia que ela havia cochilado algumas horas. Até o perfume ainda estava exalando da moça. Ela se espreguiçou lentamente.
– Como foi com a sua irmã? Conseguiu confortá-la? – A menina perguntou.
– Sim... Ela estava com Jabu quando cheguei. Aparentemente, eles se acertaram... Mas mesmo assim eu fiquei lá, ouvindo os dois. Virei terapeuta de casal e não sabia. – Ele disse, rolando os olhos. – Ele trouxe uma jóia da última coleção da Prada... Acho que isso deixou a minha irmã mais aberta para a conversa.
– Prada? Nossa, que coisa mais... – Parou o que ia dizer. Algumas grifes eram consideradas “lojas do povão” pela Saori. Ela gostava mesmo de comprar no comércio da mais alta sociedade.
– Mais?
– Nada não. Bom, eu já tomei meu banho, caso queira tomar também...
– Não sem antes dar um beijo na minha deusa. – Outro apelido que Saori detestava. Às vezes, ela se perguntava como ainda tinha coragem de ficar com Seiya. Ele era tão... Como ela poderia dizer? Tão cafona. Mas ela gostava de ter a companhia de alguém, principalmente se fosse do sexo masculino. Então, para aquela fase em sua vida, ele estava servindo. Os beijos começaram e Seiya foi encaixando seu corpo em Saori, demonstrando saudades de seus toques. A garota preferiu barrar o rapaz antes que a situação ficasse mais lasciva; o rapaz protestou e decidiu tomar seu banho. Uma coisa que Saori gostava muito em Seiya (talvez a sua melhor qualidade para ela), eram seus músculos. Ele tinha um corpo muitíssimo bem trabalhado, e parte da sua rotina era voltada para isso. Talvez, para Saori, Seiya fosse somente um manequim ambulante e ela jogasse na cara das amigas sempre que podia o fato de ter um rapaz forte ao seu lado. Era o cúmulo da superficialidade.
Ele saiu do banho trajando apenas uma toalha. Saori olhou bem aquele corpo; agora sim estava começando a sentir vontade de alguma coisa. Contanto que ele ficasse quietinho, tudo daria certo. Os beijos voltaram com um pouco mais de vontade e rapidamente ele tirou a toalha, ficando completamente nu. Suas mãos começaram a passear pelas coxas da menina, levantando a sua camisola bem rendada. Saori apertava a nuca do rapaz, enquanto dava mordidas em seu lábio inferior. Sentiu a ereção do rapaz grudada em suas partes íntimas. Velozmente, pediu para que ele procurasse algum tipo de proteção, pois intimamente ela não gostava de duas coisas: a vaga idéia de ficar grávida (estragaria seu corpo friamente calculado para ser magro) e a sensação que ela poderia ter com... O líquido. Saori sentia certo nojo de certas substâncias que saíam de Seiya e, talvez, de todos os rapazes com quem ela se deitou na vida.
– Meu amor, eu tiro antes de...
– Não! – Ela parou os amassos. – Nem pense nisso! A minha tia engravidou assim, sabia?!
– Tudo bem! Que hora para falar sobre isso... – Seiya levantou e rapidamente localizou o seu passe livre na gaveta da escrivaninha. Tratou de colocar o preservativo e voltar para a sua posição inicial.
Os beijos voltaram quase que na mesma intensidade de antes, e Saori começou a sentir a sua cabeça voar livre em seus pensamentos novamente. Lembrou-se do bonitinho do nono andar, seus cabelos longos e azulados caindo suavemente sobre a roupa branca do hospital... Seu olhar fixo no cubo colorido, os dedos passando ligeiramente em cada ângulo do objeto...
A menina sentiu Seiya lamber um de seus seios e um calafrio tomou a sua espinha. Ela fechou os olhos mais uma vez imaginando como seria o toque de Saga... Quantos anos ele deveria ter? Será que já tinha uma namorada? Mas pessoas internadas não devem ter namoradas... Ou será que alguma enfermeira já tinha se relacionado com ele? Ou se ele ainda é virgem? Um homem daqueles não poderia ser mais virgem... Quem sabe ele tivesse saudades de ter momentos íntimos com alguém... Ou não sentisse vontade nenhuma de fazer isso. Como era possível um desconhecido ficar e martelar e não sair de sua cabeça por nada...
Saori acordou do transe quando sentiu o membro de Seiya dentro de si. Soltou um suspiro alto; não sabia se era de susto ou de indignação. Ela estava totalmente perdida em sua consciência que não esperava a atitude do menino. O ritmo começou a ficar acelerado e a patricinha recordou-se que agora era o momento de fazer algo que ela já era experiente: fingir que estava gostando. Primeiro, ela começou calma. Depois de alguns momentos, a sua respiração ficou mais ofegante e ela soltava palavras desconexas no meio de cada investida, como um “vai, mais, isso, isso mesmo”. Saori tinha o péssimo costume de simular o prazer inexistente, e até ria internamente com isso: sabia que homens eram criaturas fáceis de serem manipuladas, principalmente no sexo. Por isso, ela não ligava muito. Na realidade, ela tinha um compartimento cheio de brinquedinhos em seu closet, caso ela estivesse com vontade. Era só esperar Seiya dormir e se divertir sozinha.
O ritmo foi aumentando e, com isso, o fingimento de Saori. Alguns gritinhos eram desprendidos de vez em quando e na medida certa. O rapaz sentia-se como o melhor homem do mundo, um tremendo garanhão, pois estava fazendo sua gatinha chegar ao orgasmo. Ou ele imaginava que aquilo era um orgasmo. Ele não conseguia mais segurar seu próprio prazer e introduzia apressadamente seu pênis contra o corpo da menina, deixando seu rosto bem próximo ao dela. Mais algumas estocadas e ele já estava no clímax, arrancando mais e mais gemidos agudos de Saori. Seiya estava, literalmente, no topo do mundo.
Os dois começaram a recuperar o fôlego da transa, só que Seiya parecia bem mais cansado que Saori. Ele deu vários beijos pelo pescoço da moça, terminando em seus lábios. A garota chegou até a sussurrar em seu ouvido: “você é perfeito, Seiya”, apenas para dar o toque final. Depois de alguns minutos, ele já estava no lado esquerdo da grande cama de casal, roncando levemente. Saori olhou para a sua camisola e fez uma careta de nojo, pois a roupa estava completamente encharcada de suor. Ela se questionou se não custava, ao menos, ele ter retirado a peça caríssima da moça, além de ter demorado um pouco mais que 5 minutos para chegar ao orgasmo. Ao sentir a preguiça em levantar-se e tomar outro banho demorado, Saori virou para o lado oposto e voltou a sonhar novamente com o homem do quarto 96.
~
A manhã mal tinha começado quando Doutora Milla chegou em seu escritório. Ela recebeu uma mensagem do colega Mu, avisando de mais uma crise de Saga. A Diretora subiu imediatamente para o nono andar, encontrando o doutor estrangeiro no posto de enfermagem, acompanhando as imagens de uma pequena televisão, com as câmeras de monitoramento do seu paciente. Ao mesmo tempo, digitava de forma rápida alguns dados no relatório médico de Saga. Os dois se cumprimentaram e ela perguntou:
– Ele surtou novamente? – O homem assentiu. A Doutora não acreditou muito no que viu nas imagens e, por isso, decidiu ir até o quarto do seu antigo paciente. A cena era lamentável: vários pedaços de material colorido no chão, uma parte do lençol repuxada da cama, Saga estava retido em seu leito por largas faixas de couro, com um acesso em seu braço que liberava um tipo de soro amarelado. Sua respiração estava calma e a expressão era serena. Mas a Doutora sabia que aquilo só foi conquistado depois de alguma luta corporal com o enfermo. Ele não gostava de receber sedativos à força.
Ela voltou para a mesma posição de Mu e não sabia muito bem o que dizer para o psiquiatra.
– Milla, fui informado de que as enfermeiras sedaram Saga com uma pequena porção de anestésico junto ao medicamento atual. – Ele respirou fundo. – A Doutora Mikla fez isso, pois não tinha muita certeza se o sedativo ia fazer efeito na hora. – A médica que Mu se referiu era a Doutora Mikla Papadopoulos, uma das plantonistas do andar.
– Tudo bem... Espero que ele não tenha sofrido muito em sua crise. Elas conseguiram te falar o que aconteceu?
– Sim. – Doutor Mu virou-se para a Diretora. – Eles ouviram o sinal de emergência do quarto e quando estavam próximos ouviram Saga gritar e pedir socorro. Ele queria muito sair de lá. Depois disso, ele começou a quebrar todos os cubos mágicos na parede, como se estivesse vendo alguém ali. Eu me recordo que, na visita, ele comentou comigo que estava ouvindo o Grande Mestre falar com ele de vez em quando. E que ele chamava Saga para o lado de fora.
– Eu me lembro bem quando Saga tentou fugir da última vez... Não foi uma situação muito agradável de se ver. – Doutora Milla sentiu o corpo todo estremecer quando rememorou as cenas. Depois de algum tempo de tratamento no complexo, Saga teve um dos piores (se não o pior) ataque de loucura de todos os pacientes daquele hospital. Depois de uma crise de ansiedade, Saga quebrou o vidro reforçado do quarto, conseguindo fugir pelo corredor. Seus olhos estavam marcados por um vermelho intenso, quase sanguíneo. Uma parte dos cabelos começou a desbotar em uma cor acinzentada, algo inédito na vida profissional da Doutora. Ele nocauteou 4 homens no caminho e quase matou 2 enfermeiras, também usando a violência. Depois de chegar às escadas de emergência, ele conseguiu descer até o térreo, enfrentando alguns seguranças armados. Um deles conseguiu atirar na direção de Saga, mas errou o alvo. Saga conseguiu quebrar os braços do homem e levar a arma consigo até a rua, onde foi barrado por 3 equipes de bombeiros e algumas viaturas de polícia. Um dos policiais, desta vez, conseguiu acertar o fugitivo na perna e ele fatalmente caiu no chão, largando a arma. Mesmo ferido, Saga foi para cima dos policiais e só parou com uma injeção atirada de longe por um dos enfermeiros-chefe do Instituto. Como se ele fosse um leão furioso que escapou do zoológico.
A partir daí, a história começou a ficar mais sinistra: durante o isolamento, Saga conseguiu destruir 7 camisas de força e parte do acolchoado do pequeno quarto. Recuperou-se completamente do ferimento à bala. Também machucou mais alguns funcionários. Não digeria os comprimidos da maneira que deveria, ou melhor, ele cuspia na cara de quem tentasse dar alguma medicação. Em determinado momento, a Doutora Milla tomou uma atitude brusca e, ao mesmo tempo, muito difícil para ela mesma: começou a diminuir a dieta de Saga. Na verdade, ela restringiu os alimentos do interno a ponto de quase deixa-lo morrer de fome e sede. Foi um movimento arriscado, mas que deu certo. Ele perdeu uma porção considerável de peso e força e, por incrível que pareça, começou a conversar com os médicos. Foi aí que ele se apresentou como “Grande Mestre” e disse que, um dia, ia matar todos aqueles que se colocassem no seu caminho. Porque ele não deveria estar ali... ele deveria estar conquistando o mundo.
Talvez pelo fato da sua profissão antiga ser tão paranoica e cheia de lavagens cerebrais... A Senhora Milla ainda não sabe explicar o começo de tudo aquilo. A primeira recordação, a primeira situação em que o Grande Mestre se manifestou... O primeiro trauma. Isso era uma das peças no grande quebra-cabeça que dormia ali, tranquilamente, atado apertadamente em sua cama.
Depois que Saga se recuperou desta fase, Doutora Milla decidiu se afastar por um tempo. Ela retornou para o hospital quando recebeu o convite para administrar o Instituto todo ou, em outras palavras, tirar aquele lugar da lama. Ela trocou um grande problema por outro. Às vezes, ela se perguntava de onde tirava forças para continuar com aquela rotina extasiante.
– Mu, assim que ele acordar, peça para alguém me chamar no meu escritório. Gostaria de conversar com ele depois deste último ataque.
– Com certeza, Milla. Vou esperar ele despertar do sedativo e te aviso. Aliás, você acha que devemos retirar o banho de sol por alguns dias, como foi da última vez? – A Doutora ficou pensativa.
– Não... Não vamos fazer isso. Seguiremos a rotina dele como estava. Não quero confina-lo ainda mais, ele já está sofrendo muito dentro daquele quarto. Além disso, eu confio nele. Não acredito que ele queira fugir novamente. – A mulher virou-se para o elevador. – Mu, tem café na minha sala, caso queira descansar um pouco.
Os dois sorriram em sintonia. Eram parceiros de trabalho e, mais do que isso, compartilhavam da mesma vontade em ajudar o paciente a sair daquela situação. Duas cabeças pensavam melhor do que uma, quando o enigma era alguém como Saga.
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