Madness

15 A Desculpa


– Grande Mestre? – O indiano começou, depois de alguns instantes de ausência de som pelos indivíduos no escritório. – Que nome mais ridículo. Doutora Milla, me dê apenas 10 dias. Em 10 dias eu tenho essa situação sobre meu controle e, a partir daí, eu começo com o que for necessário para tirar essas alucinações da cabeça de Saga.

– Você tem certeza, Senhor Shaka? – Mu estava incrédulo. Começou a sentir um pouco de arrogância do budista.

– Sim. Mas, como falei anteriormente, não farei nada com ele aqui dentro. Vocês não precisam se preocupar, eu não tenho medo de aparições como essa.

A Diretora suspirou profundamente, sendo vencida pelos poucos argumentos de Shaka. Internamente, ela sentia que esta nova terapia poderia dar certo. Aquele seria o último recurso da mulher.

– Tudo bem. – Ela soltou. Mu voltou-se para a colega de trabalho, esbugalhando os olhos. – Faça o que for preciso em seu estúdio. Só não me responsabilizo por qualquer acidente que aconteça em seu retiro espiritual, Senhor Shaka.

– Não se incomode com isso, Doutora Milla. – Ele sorriu delicadamente. – Eu acredito que poderei contribuir positivamente para a cura de Saga. Farei uma viagem para a minha terra natal e, na volta, retomamos com os próximos passos. – Tanto Shaka quanto Saori levantaram-se de suas poltronas e despediram-se dos médicos, saindo da sala logo em seguida. A Diretora Geral não deixou de fazer seus comentários com o parceiro de trabalho e, recentemente, parceiro para outras coisas também.

– Mu, você acha mesmo que esse homem é indiano? Ele é branco e loiro, pelos deuses! – O homem riu, aproveitando a porta fechada para aproximar-se da mulher.

– Bom, eu já li várias coisas dele e realmente é impressionante o nível de conhecimento que ele tem. – Ele roubou um beijo da médica. – Mas acho que a gente devia arrumar uma equipe de seguranças pra ficar do lado de fora, só por precaução. – Agora os dois riam. Ela continuou os carinhos no tibetano.

– Já passou bastante do meu horário de almoço, Mu... Você não gostaria de ir comigo hoje?

– Claro, Milla. Eu almoçaria duas vezes se fosse preciso. – Os sorrisos apaixonados estavam estampados no rosto de ambos. Demorou mas, finalmente, os dois estavam começando a entrar nos eixos.

~

Saori ficou quieta durante todo o tempo, inusitadamente. Shaka pode perceber as suas aflições enquanto estavam saindo do prédio e decidiu indagar a mais nova.

– Saori, tudo bem com você? Parece que ficou com uma energia mais pesada quando estávamos lá dentro...

– Não é nada, Shaka. Eu só fiquei impressionada com as cenas que vi de Saga, só isso.

– Bem... Você confia em mim? – A garota soltou um riso de concordância.

– Mas é óbvio, Siddhartha. Não chamaria você se não confiasse no seu trabalho.

– Ótimo. Nós vamos tirar o seu amigo dessa, Saori. – Ele disse, entrando no carro. A patricinha ficou apenas observando o seu ídolo budista e sua pose serena. – Você não vai entrar?

– Não, Shaka. Tenho mais algumas coisas pra fazer por aqui. – Ela deu um beijo estalado no rosto do homem, que ficou sem graça novamente. – Obrigada por me ajudar. Mande um beijo para a sua esposa quando chegar na Índia!

– Mandarei. E Saori, me faça um grande favor... Vá comer alguma coisa, você está mais magra que o costume. – Ele disse, antes de fechar a porta e despedir-se da antiga cliente.

Saori voltou para o seu carro, respirando longamente. Ela ficou pensando nas palavras recentes de Shaka... Saori não via mais Saga como um amigo. Ela não queria que ele fosse somente um amigo. Queria mais...

Olhou para o celular, o horário oficial de visitas já estava próximo. Ela tinha mais uma missão para cumprir. Era só ter paciência e aguardar mais um pouco.

~

O irmão mais novo de Saga chegou apressadamente no Instituto, não demorando para subir ao nono andar. A japonesa acompanhava tudo com seus olhinhos minuciosos, parecendo uma espiã investigando seu alvo. Depois de uma hora e alguns minutos, ela viu Kanon sair novamente do hospital com a mesma rapidez que entrou.

– Sebastos, siga aquele homem para mim, por gentileza.

– Sim, Senhorita Saori. – O motorista ligou o carro e começou a dirigir, dando um pouco de espaço para não levantar suspeitas. Ele já sabia qual era o plano de sua patroa e queria segui-lo à risca.

Kanon virou algumas ruas e parou em um ponto de ônibus, esperando durante um tempo. Um grande coletivo estacionou e ele entrou, sem imaginar que Saori estava atrás dele. A viagem durou uns 40 minutos e a menina ficou pensando em como seria chato fazer esse trajeto todos os dias, ida e volta. Kanon realmente tinha muita devoção pelo seu irmão mais velho.

Eles chegaram no Porto de Pireu, passando por algumas vielas e edifícios simples. Tudo parecia ser muito carente e humilde e as ruas eram bem diferentes de Atenas. Saori pode acompanhar um pouco da rotina de Kanon, vendo o homem cumprimentar pessoas do bairro e subir em uma recepção pequenina, com algumas varandas igualmente humildes de um prédio velho.

– Pode parar aqui, Sebastos. – A garota abriu a porta do veículo. – Não sei quanto tempo vou demorar. Eu te ligo assim que terminar aqui, está bem? Fique com um pouco de dinheiro para comer algo. – O motorista estranhou a atitude da moça.

– Eu ficarei por aqui caso precise de algo, Senhorita Saori. – Ela agradeceu. Subiu rapidamente pela mesma recepção, que não tinha ninguém. Ela não sabia qual apartamento pertencia à Kanon e, por isso, passou vexame duas vezes até ser atendida na terceira porta.

Kanon fez uma cara de surpresa ao ver a japonesa ali.

– Boa tarde, Kanon! – Ela disse, tentando parecer o mais natural possível. – Desculpe o incômodo. Nós poderíamos conversar um pouquinho?

– Boa tarde, Senhorita Saori. Qual seria o motivo de tão maravilhosa visita? – Ele estava sem camiseta e segurava alguns utensílios de cozinha. O cheiro lá dentro parecia muito bom. Ela tentou não encarar muito o peitoral do homem, mas não teve jeito. – Aliás, como descobriu onde eu moro?!

– Eu queria pedir desculpas desde já. Primeiramente, por ter te seguido até aqui. Segundo, por ter solicitado um novo horário de visitas para a Diretora Milla. É por isso que estou aqui, querendo conversar com você.

– Você me seguiu até aqui? – Ele perguntou. – Por que não me ofereceu uma carona? Eu economizaria o dinheiro do ônibus! – Ela riu com o comentário do ex-marinheiro. Kanon deu passagem para a garota entrar, sem antes dar uma boa checada no decote da moça.

– Eu não sabia qual seria a sua reação, então decidi arriscar. Saga comentou comigo hoje que você não gostou de saber sobre o meu novo horário de visitas. Eu fiz isso para não te atrapalhar e nem atrapalhar os amigos de Saga. Me desculpe.

– Bom, você chegou numa boa hora. Estou preparando o meu almoço. Fique à vontade, Saori. – Ele disse, virando-se para a cozinha. A menina começou a analisar o apartamento de Kanon, surpreendida pela boa decoração e limpeza do lugar. Ela imaginava um lar totalmente bagunçado, por se tratar de um homem solteiro. Na estante, dois porta-retratos se destacaram aos olhos de Saori.

– Eu fiquei com medo de te interromper com alguma visita, sabia? – Ela disse, num tom de voz um pouco mais alto.

– Você com certeza me interromperia se viesse mais tarde, Saori. – Ainda bem que ele não estava na sala com a garota, porque veria o rosto dela ficar todo vermelho. – Nada que não possa ser adiado. Diga-me, você costuma tomar vinho?

– S-Sim! Eu tomo vinho, sim. – Ela levantou-se, tomada pela curiosidade nas fotos da estante. Chegou mais perto e viu, na primeira foto, Kanon e Saga fardados e extremamente felizes. Kanon usava um uniforme branco típico da Marinha e Saga, por sua vez, tinha o traje totalmente camuflado. Os cabelos estavam bem cortados e cada um segurava o seu respectivo quepe, os rostos bem juvenis e com a sua beleza característica. A outra foto era de duas crianças, que também deveriam ser Saga e Kanon, pelo sorriso inconfundível e os cabelinhos azulados. Um era a cópia perfeita do outro.

– Já vi que você achou a foto do nosso primeiro dia, Saori. – O homem disse, colocando duas taças e uma garrafa de vinho na pequena mesa da sala. – Essas duas fotos são as únicas que eu tenho com o meu irmão.

– Vocês estavam muito contentes aqui, Kanon. E eram crianças tão fofas! – Ela sorria, com um brilho nos olhos.

– Eu queria que esse dia não terminasse nunca. Enfim... Eu te desculpo por conseguir um tempo a mais com o meu irmão. E arranjar outro tratamento pra ele sem me consultar. E me seguir até em casa. – Ele disse, rindo. – Espero que você coma peixe, porque é a única proteína que eu consigo com mais facilidade.

– Hoje eu aceitarei tudo que queira me oferecer, Kanon.

– Saori... Não fale desse jeito comigo. Eu posso acreditar em você e te oferecer algo a mais... – Ele olhou a menina sensualmente, que voltou a ficar vermelha. Ao perceber a falta de jeito da patricinha, Kanon gargalhou de forma desprendida. – Você pode se sentar... Ou é um costume da sua família comer em pé?

– N-Não! – Ela riu, nervosamente. Sentou-se à mesa bem arrumada, observando Kanon colocar uma camiseta simples e depois voltar para as panelas. – Você tem um apartamento muito bem organizado. Estou admirada.

– Quando você cresce num orfanato cheio de crianças tão perdidas quanto você e sem nenhum pai ou mãe para realizar as tarefas... – Ele colocava parte da comida em alguns refratários de vidro. – Você meio que aprende as coisas sozinho mesmo. – O homem colocou as peças cheias de comida perfumada sobre a mesa, dirigiu-se para a pia e trouxe os pratos e uma pequena garrafa de azeite.

– Está com uma cara muito boa, devo confessar.

– Bem, não é um prato gourmet como você geralmente deve comer na sua mansão, mas... – Ele despejou o líquido rosáceo em uma das taças, oferecendo para Saori. – Espero que não esteja muito fora dos seus padrões. – Ele fez o prato para a menina, como um cavalheiro deve fazer.

Ela experimentou um pouco da refeição, fechando os olhos em seguida. Guiou-se pela gula e continuou com as garfadas.

– Está maravilhoso, Kanon. – Ela disse, com a boca meio cheia. – Bem que Saga me disse que você cozinhava bem.

– Obrigado, Saori. Nós éramos da turma de mais velhos do orfanato, então sobrava pra gente uma função ou outra. Saga nunca foi de cozinhar, mas ele é um bom dono de casa. Limpa tudo direitinho, até melhor do que eu.

– Ele também me disse que você tem um amigo cozinheiro, é isso?

– Sim, mas ele não é cozinheiro ainda. É auxiliar de cozinha somente. Seu nome é Shura, ele é espanhol. Nos conhecemos por causa de Saga, na época do Exército.

– Vocês nunca pensaram em abrir um restaurante juntos? – Ela aproveitou e deu uma bebericada no vinho.

– Não sei... Acho que precisa de muito dinheiro pra fazer o negócio funcionar. E tudo que eu sei é por aprendizado próprio, não tenho nenhum curso nem nada...

– Bom... – A menina começou. – Eu estive conversando muito com Saga sobre você, ele se preocupa muito com a sua vida aqui fora. E eu também precisava me redimir, depois de ultrapassar tanto a sua posição como membro da família de Saga no hospital. Me dei conta que tomei vários passos que não podiam ser tomados por mim, e sim por você. – Kanon prestava atenção nas palavras da riquinha. – Você conhece o restaurante Strofi, que fica no centro de Atenas?

– Obviamente. – Ele comeu um pouco mais. – É um dos restaurantes mais famosos de Atenas.

– É ótimo que conheça. Conversei com um dos meus conhecidos de lá e ele me disse que precisava de dois Sous Chefs urgentemente... Eu indiquei o seu nome e o do seu amigo espanhol para um teste lá. – Kanon quase engasgou com o vinho.

– Como assim?! Você está me dizendo que eu posso ser Sous Chef de um dos restaurantes mais conhecidos de...

– Sim! Quer dizer, se você tiver um tempo para ir lá fazer o teste. Por enquanto, o começo é como Sous Chef, mas tudo indica que vocês podem crescer lá dentro. – Saori deu uma piscadinha singela para Kanon, que largou os talheres e beijou a mão da moça.

– Saori, eu não consigo acreditar, eu não... – Ele apoiou a cabeça nas mãozinhas da garota. – Muito obrigado! Eu não sei como te agradecer!

– Não precisa me agradecer, Kanon. Eu que gostaria de te agradecer por ser tão legal comigo e me deixar ver o seu irmão no hospital. Espero que a viagem fique menor para você também. – Ela recebeu um beijo carinhoso do irmão mais novo de Saga em suas bochechas.

– Eu vou ligar para o Shura agora mesmo! Aquele espanhol safado vai morrer quando ficar sabendo! – Saori não conseguiria ficar mais feliz com aquela cena. Sentiu que estava conquistando um pouco da confiança de Kanon, finalmente.