Madness
47 A Despedida
Notas iniciais
– O que está acontecendo?! – O antigo interno pressionava as têmporas e gemia pelas dores agudas em seu cérebro. – Pare!!! Eu não... Vá embora!!!
– S-Saga? – Aioros tentou se aproximar, mas uma nova ameaça de disparo o colocou no lugar de antes.
– É você, não é?!? É você que está fazendo isso comigo!!!
– E-Eu...
– Cale a boca!!! – Os olhos encarnaram-se no mesmo tom rubro e o sorriso hediondo brilhou na face do Grande Mestre. – Eu cansei da sua conversa, seu maldito.
– N-Não...
– Foi um prazer conhecê-lo, General.
– Não!!! Não!!!!
Era tarde demais. Aioros pôde sentir os ossos quebrando-se pela caixa craniana, todo o sistema nervoso entrando em colapso pelo tiro dado em seu cérebro. Alguns segundos de consciência foram o suficiente para que a última memória cravejasse seu espírito: a feição demoníaca e repulsiva do assassino desfalecia rapidamente.
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– Senhor, fizemos a varredura pelo perímetro e encontramos um corpo no gramado, na parte sul. Ouvimos um estampido no andar superior, devemos prosseguir?
– Não!!! Por favor, não!!! – Mu implorava para o delegado. – Vamos tentar ligar para ele de novo!!
– Já chega!!!! – Aldebaran vociferou, assustando o grupo que permanecia aflito no plano externo da casa. – Você não vai mandar na minha equipe!!! Eles vão entrar agora!!!!
– E-Ele está certo, Senhor Aldebaran! – Dessa vez, a Diretora Geral tentou interceptar. – Por favor, não o machuquem! Nos dê só mais uma chance!!!
O policial respirou fundo, cruzando os braços. O nervosismo era notório. Não ser capaz de agir era a sensação mais frustrante de todas.
– Ligue de novo. Se ele não atender, eu darei ordem para meus agentes entrarem. Já esperei tempo demais com essa palhaçada!
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O ruído da pistola caindo no chão serviu para despertar Saga de seu transe psicótico. Ele piscou rápido, ajoelhando no chão da suíte.
– O que... – O grego comprimiu o grito da garganta com as mãos, fitando todo o cenário. Um rio de sangue manchava o piso amadeirado do cômodo. Aioros agonizava bem na sua frente e a visão foi se ofuscando de forma gradativa, até cessar por completo. Saga chamou-o diversas vezes, tentando desesperadamente que o antigo chefe voltasse à vida.
O barulhinho do celular aguçou a atenção de Saga. Ele não sabia o que fazer. Olhou para os lados, para a janela, para todos os cantos de sua mente. Aquilo não parecia ser possível...
Ele desligou a chamada e puxou o corpo de Aioros pelos pés até o banheiro do quarto. As hemácias foram se arrastando junto, pedaços internos deixados para trás, o horror estampado na face do inimigo. Colocou o defunto na banheira, trêmulo e desesperado, sujando seu rosto com o sangue expirado.
Saga abeirou-se do aparelho que tocava de novo. Já não ligava para as lágrimas que caíam incessantemente das pupilas.
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– A-Alô?
– General Aioros?! – O Chefe de Polícia perguntou, de forma incerta. A ligação estava no viva-voz para diminuir a aflição de todos.
– N-Não... É... É o Saga. E-Eu...
– Saga?!? – Kanon tomou o smartphone das mãos brutas de Aldebaran, sem medo de ser atacado pelo delegado. – Saga, é você?!?
– Irmão... E-Eu... Eu fiz uma besteira...
Todos se olharam, assustados com a frase. Saori explodiu em lágrimas, segurando-se para não tomar a mesma atitude de Kanon e arrancar o objeto para si.
– Saga, por favor, não faça nada!! Está me ouvindo?! – O gêmeo mais novo examinava uma das janelas do casarão, a do quarto onde o homicídio ocorreu. Engoliu seco ao notar os gemidos de choro do ex-interno. – Saga?!
– Irmão... Eu não... – O homem parou quando viu a esposa de Aioros murmurar uma linguagem sem nexo. Ela ainda estava viva.
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A chamada foi interceptada pela postura caridosa e diligente de Saga, que tentou uma aproximação, porém ela parecia consciente o bastante para se lembrar de todas as torturas vividas com o assassino. Ela refreou-se num canto da parede. Seus dedos foram posicionados entre palmas estremecidas, avermelhadas pelo sangue alheio, vacilantes com a própria atitude.
– Me perdoe... – O enfermo sussurrou, mirando a alma da mulher. Era como se clamasse misericórdia para Deus ou uma entidade superior. – E-Eu... Eu sou um monstro...
– N-não, não pense assim! – A companheira foi tomada pela melancolia do pedido. – Seu nome... Seu nome é Saga, não é? – Ela segurou o grego, como se tentasse trazer de volta alguma estabilidade para aquela cabeça doentia. – Aioros me falou muito sobre você.
– Não... E-Eu sou um monstro!
Saga levantou-se apressado e começou a perambular pelo ambiente, ainda sem saber o que fazer ou como proceder. Seria melhor se render à Polícia? Tentar fugir e ser alvejado pelos agentes que estavam lá fora? Terminar de matar a mulher ali e depois...
Ela só conseguia observá-lo, alucinado e desatinado em seus pensamentos, quando tomou um sobressalto. Viu Saga pegando a pistola no chão. Ele sentou e encolheu o corpo, os joelhos grudados no tórax, a mão esquerda fechada e fixada na lateral da testa, a outra agarrando firmemente a arma; todo o conjunto indo para frente e para trás como uma criança assustadíssima pelas visões dos pesadelos psicológicos.
– Eu não posso... Não, eu não posso viver assim... Não...
– P-Por favor... N-Não fa-faça nada... – Ela balbuciou. O telefone tocou mais uma vez e Saga hesitou em atender no início. Se assim fizesse, fatalmente aquelas seriam suas últimas palavras.
Depois de fechar os olhos manchados de sangue e respirar fundo, ele decidiu que já era o momento. Precisava fazer aquilo.
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– Alô?
– Pelo amor de todos os santos, puta merda!!! Saga!!!! – Kanon gritou. – Não desligue assim!! Eu achei que você tinha se matado ou algo do tipo! Escute...
– N-Não, Kanon, eu... Eu não faria algo do tipo sem falar com você antes.
– Como assim?! – O ex-marinheiro sentiu o coração saltar do peito. – Saga, por favor, me escuta! O-Olha, ninguém vai te fazer mal algum, apenas se entregue e dará tudo certo!
– Meu irmão... Me perdoe...
– Você não se atreva... Saga!! – O irmão mais novo estava tão nervoso que a fala não conseguia mais sair da laringe. Doutor Mu acudiu-o, pegando a ligação. Todos estavam exaltados, pois... Aquelas sentenças tomavam a forma muito bizarra de despedida.
– Saga? Saga, sou eu, Mu. Saga? Consegue me ouvir?!
– Doutor Mu... E-Eu... Eu matei ele, Doutor...
Aldebaran meteu-se a dar ordens para alguns agentes depois daquela revelação. Estava tudo ali e muito claro. Ele nunca deveria ter deixado civis tão bisbilhoteiros e atrevidos levarem o controle da situação para tão longe.
– Saga, por favor, vamos combinar uma coisa? Hein?? A Milla está do meu lado, estamos juntos nessa, como sempre estivemos. Você confia na gente?!?
– Me p-perdoem, por favor... Eu nunca quis matar ninguém...
– Nós sabemos disso! Veja, você sai daí, te levamos de volta para o Instituto, nada de mal acontecerá com você, nós voltamos ao tratamento! Saga...?
O choro era ouvido abertamente no outro lado da linha e Mu sentiu a queimação corroendo sua garganta. Milla não tinha frases de acalanto e nem apelos; o choque da situação paralisou todas as suas condições humanas e acadêmicas de ajudar Saga.
Saori enxugou as lágrimas receosas e perguntou se poderia falar um pouco com o namorado, pelo menos ela considerava-o como um. Seus dedos bambos receberam o objeto como se fosse um tipo de tesouro imaculado; algo que lhe custasse a vida caso caísse no chão.
– Saga? – A menina perguntou, baixo e desoladamente.
– Saori... – A voz grossa de Saga soluçou mais alto e com mais força, parecia que o desespero havia tomado o seu cérebro por completo. – Saori, me perdoe...
– Saga, por favor, não faça nada... Nós vamos te ajudar, eu vou te ajudar...
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Dentro do quarto, o homem permanecia retraído nos ângulos de sua consciência. A companheira de Aioros sussurrava coisas, umas manifestações positivas, para que ele descontinuasse tudo e seguisse em frente, sem temores... Mas Saga não conseguia absorver nada.
Sua mente voltou para a noite em que beijou Saori a primeira vez. O sonho lúdico que presenciou; a jovem correndo em câmera lenta, sorridente e radiante, os olhos quase fechados de sublimação, os pés descalços, os lábios rosados encostados nos seus... O cheiro do mar enlevou seus sentidos e uma onda de felicidade apoderou o organismo, como as mesmas ondas que testemunharam o ato celeste daquela noite. Por um breve momento, um milésimo de segundo, Saga pensou que sim, tudo poderia dar certo.
– Saga... Por favor, não cometa loucuras... Não faça isso comigo...
– Saori, e-eu... Eu nunca quis te machucar. Me perdoe.
– Você nunca me machucou! Por favor, eu não quero viver sem você... Eu te amo!
Saga foi dominado por derradeiras gotas de agonia, como vermes que corroem o equilíbrio mental, trazendo mais e mais exasperação para a cena. Ele não esperava a confissão de Saori. Não podia esperar um sentimento mais puro e humano como aquele... O amor.
Saga sempre procurou o amor e nunca teve. Porém, nos seus instantes finais, ele soube que o possuía e, pior... Estava prestes a abrir mão dele.
O amor...
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– Eu também te amo, Saori. Eu não posso mais viver assim... Me perdoe.
A ligação foi finalizada. Um tumulto começou a se formar, pois Kanon procurava desesperadamente se livrar do grupo e lançar-se em direção ao local do crime.
– Não, me solta!!! – O gêmeo correu para a casa, sendo seguido por uma legião de policiais, o grupo familiar de Saga e o delegado. Quase caiu na disparada e não podia ligar menos para isso. O mundo podia explodir, ou um meteoro cair em cheio na Terra; o Apocalipse poderia estrondear por todos os continentes... Porém, ele não ligaria. Seu único objetivo era salvar o irmão.
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Saga levantou-se, inspirou fundo e seguiu para o banheiro da suíte, a mão persistindo em segurar a arma. Os orbes apagaram-se repentinamente, de tal maneira que a vida parecia ter se esvaído. Ou, talvez, ele já tivesse aceitado a fatalidade do seu destino.
– Não, filho... Não!! – A esposa de Aioros dizia, ao mesmo tempo em que procurava alcançar a pele de Saga, ou a sua lucidez. Pois era aquilo: Saga não estava mais lúcido. Seus clamores foram ignorados e rompidos pela porta trancada do outro cômodo.
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O grego admirou os azulejos coloridos da parede, era um tom muito bonito de azul. Encarou o corpo do general ali, extinto, acromático e inexpressivo. Tudo era muito dual, oposto, contrário. Duas cenas tão destoantes e adversas. Um sentimento familiar e bem recebido.
Ele estava assustadoramente calmo. Mirou a pistola e o silenciador, fungou algumas vezes, cerrou as pálpebras.
Por fim, aquela seria a sua rendição.
Encostou o metal frio em sua têmpora e puxou o gatilho.
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Kanon ouviu um barulho, não soube dizer o que era, mas seu coração não falharia nunca. A ligação dos gêmeos era tão forte e tão intensa que um saberia quando o outro deixasse de viver. Como se uma corda de juta os unisse, fundindo as almas numa só. A adrenalina na corrente sanguínea foi o suficiente para abrir a primeira entrada, mas um baque diminuiu consideravelmente a sua força.
A mulher de Aioros estava paralisada, olhando para o nada, parecia que algo de errado havia acontecido.
Naquele momento, ele sabia. A dor era real e ele sabia.
A outra ponta da corda não estava mais lá...
– Não, não, não!!!! – Kanon gritava para a segunda porta, chocando-se contra ela. Os gritos se transformaram em lágrimas e murmúrios rapidamente. – Não... Saga!!!
Ele voltou um pouco, tomou fôlego e partiu o pé para cima da fechadura. A madeira abriu-se num estrondo. O corpo inanimado jazia ali, esmorecido numa grande poça carmesim.
Kanon sacolejou o irmão em seus braços. Descrente, desesperado, colérico... Golpeado pela agressão dura e permanente da morte. Segurou-o como se segurasse um bebê, pronto para ninar num sono eterno. Os pingos misturavam-se na face cadavérica com a vermelhidão antiga de Aioros e o rubro quente do próprio sangue de Saga. Kanon urrava para os céus, todos os deuses, implorava por misericórdia enquanto agarrava seu parente.
– Saga!!! – O enlace não poderia ser mais fraterno. Os rostos idênticos se juntaram. O primeiro, totalmente finado; o outro, chorando e gemendo apelos, para que a vida do ex-capitão retornasse.
Doutor Mu entrou no banheiro e sentiu as pernas bambearem. Os fragmentos de órgãos soltos pelo piso, as pupilas moribundas, o orifício recém feito no crânio... Naquele instante, não conseguiu evitar certas lembranças que teve com Saga. Conversas tão intensas, revelações imprecisas, mudanças bruscas de auto-avaliação. Rememorou as várias vezes em que o grego dizia ser aquela a sua última atitude em vida: trazer a morte para si antes de levar desgraça a alguém.
Doutora Milla ajoelhou-se ao lado de Kanon, igualmente chorosa e atormentada. Sempre se entristeceu em ver um dos seus ferido ou morto, ainda mais quando a causa é o suicídio. Mas aquele homem, aquele homem em especial, o bonitinho do nono andar... Ela acarinhou os cabelos manchados de sangue e sofreu a perda, tanto quanto o gêmeo que ali estava.
Vários agentes invadiram o quarto na mesma hora, parte deles ficou no andar inferior rastreando o local. Alguns foram socorrer a esposa, ainda estagnada no chão. Saori mantinha o pequenino pulso firme em seu peito, estática no meio do corredor, segurando-se para não sucumbir.
Ela não podia perder as esperanças! Saga poderia estar vivo, não poderia? Aqueles gritos e choros não eram reais. Ele estava lá dentro, bem e ansioso para vê-la. Ambos sairiam dali juntos, e seriam felizes, e ela acordaria daquele pesadelo. Era isso, só um pesadelo...
Mais gemidos altos de Kanon a trouxeram para os fatos. Ela criou coragem e adentrou o lugar. Fitou a mulher caída, homens checando seus sinais vitais, rastros e mais rastros de sangue pelo assoalho... Foi até o banheiro, pois lá estavam as lamúrias, mais concretas e palpáveis que as próprias lágrimas escorridas pelas bochechas.
Saori viu Saga. O amante estava estirado nos braços de Kanon. Os dedos, aqueles que tanto lhe fizeram carinho, que percorreram seu corpo nu diversas vezes, no meio de risos e afagos... Todos estavam marcados de vermelho. As pernas, os braços, o tronco forte e cheio de cicatrizes que fez de seus devaneios adolescentes uma paixão madura e duradoura, já não estavam mais com o brilho costumeiro. O rosto, tão belo como uma pintura, digno de tirar sua atenção egoísta e imersa em fantasias onerosas e mesquinhas, no meio de um corredor branco, numa visita medíocre e tediosa de um hospital qualquer... O rosto estava ali. Já defunto.
A vista escureceu, seus sistemas entraram em colapso, a conhecida sensação de falta de ar e energia apanhou a menina em cheio... Saori caiu desmaiada na frente de todos.
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