Madness
48 Epílogo
Notas iniciais
~ Três meses depois ~
– Senhorita Saori Kido? – Uma enfermeira entrou no quarto, perguntando em sua língua natal. Ela carregava uma prancheta com alguns relatórios. – A Senhorita já está melhor?
A garota encravava a visão fixamente num ponto qualquer da câmara, talvez numa porção de bolsas de soro deitadas no extremo oposto de seu leito. Saori estava muito mais abatida, as pálpebras inchadas numa espécie de lesão causada pelo choro constante; as olheiras, antes inexistentes, despontavam roxas embaixo dos orbes claros. Ela roçava os polegares entre as unhas e sua respiração ficava meio descompassada de vez em quando. Ela direcionou o rosto para a funcionária do hospital, tão lenta que parecia quase morta.
– Sim...?
– Eu chamei o Senhor Tatsumi para te buscar, ele já está a caminho. O médico já te liberou.
– Ok... – A patricinha sussurrou. Parecia que ela não vivia mais, a mente vagava sempre, talvez pensativa pela razão em que a internou por algumas horas.
– A Senhorita ficará bem, não se preocupe. A curetagem é um procedimento severo, porém a recuperação é bem rápida. – A técnica virou-se para a saída, mas foi interceptada pela voz baixa da menina.
– Enfermeira?
– Pois não, Senhorita.
– E-Eu posso saber... Por qual motivo isso aconteceu?
– É difícil dizer. – Ela começou a explicar, um pouco mais sensível por tratar um assunto tão delicado. – Quando um aborto espontâneo acontece, geralmente é porque o corpo da mulher ainda não está pronto para receber um filho... Mas não se sinta culpada. Seu organismo, provavelmente, dava certos indícios... Os episódios de desmaios repentinos, as dores de cabeça e no abdômen, enfim... Não precisa se aborrecer, de verdade.
Saori ouvia tudo como se não prestasse atenção, porém seu cérebro recebia tudo aquilo da pior forma.
– A senhora saberia me dizer se... – A jovem engoliu seco. – Se era menino ou menina?
A enfermeira passou uma das mãos no pescoço e cruzou os dedos na altura do quadril. O incômodo era notório nos pequenos olhos orientais. Ela pigarreou antes de responder.
– O Doutor não soube dizer, já que... Eram dois fetos ainda. Talvez gêmeos. Univitelinos.
Saori sentiu as lágrimas descerem e cortarem o rosto cansado e depressivo, mas os olhos permaneceram amortecidos. Ela suspirou algumas vezes e aceitou aquela tragédia. A única ligação que poderia ter com Saga, os frutos do amor tão puro que ela sentiu, o resquício de seu espírito no mundo... Não era mais realidade.
Tatsumi recebeu a menina de braços e coração aberto, tão preocupado como um pai ficaria. O comportamento de Saori mudou bruscamente desde o suicídio de Saga e não era por menos: depois de algumas semanas, veio a gravidez e os sintomas de que algo não estava normal. Uma avalanche de más situações.
A jovem vestiu uma roupa simples, totalmente diferente do que costumava usar, e foi levada para o carro de cadeira de rodas. Inalou o ar fresco da manhã japonesa, recebendo o apoio do mordomo e entrando com certa moleza no automóvel luxuoso da família. Ela observou a fachada do prédio, tão diferente do Instituto de Psicologia e Tratamento Psiquiátrico de Atenas, com sua estrutura de vidro suntuoso e arquitetura contemporânea.
Agora ela entendia as motivações de Kanon. Tudo na Grécia exalava e retomava a existência de Saga; as ruas oblíquas, as esquinas alegres, os homens fardados do Exército, o cheiro de éter e as paredes brancas de qualquer lugar que fosse, o sol cintilante que lembrava muito o seu finado sorriso. A praia, o xadrez, as roupas...
Era impossível ficar ali e ver as vidas continuarem como se nada tivesse acontecido. Como se ninguém sentisse a falta de Saga. Como se o mundo perdesse um mártir e pessoa nenhuma pudesse notar a sua ausência.
Saori jurou luto eterno. Um dia a dor cessaria, mas o amor e a transformação que a menina herdou da experiência durariam para sempre. E, durante aquela eternidade, Atenas sempre seria um território penoso e carregado de lembranças.
Ela mexia em seu smartphone, receosa em digitar uma mensagem para o gêmeo remanescente. O que ela poderia falar? “Kanon, você foi tio por algum tempo, não temos mais nada sobrando de Saga além das minhas memórias e das suas...”?
A garota respirou com profundidade. Encaminhou apenas algumas palavras de consolo, mais ou menos as mesmas que ela mandava sempre que podia:
“Kanon, espero que faça uma boa viagem. Ligue caso precise de qualquer coisa. Com carinho, Saori Kido.”
~
O antigo Sous Chef sentiu a vibração no bolso, pegou o aparelho e pôs-se a fitar as letras. Ele responderia, mas não agora. Quem sabe um dia, na próxima semana, ou quando estivesse de volta, caso ele retornasse. Olhou para trás e viu seu país de nascença, sem saber se poderia partir com gratidão ou se amaldiçoava aquele pedaço medíocre de terra.
Kanon apoiou melhor sua mochila em um dos ombros e seguiu para uma embarcação pequena. Um colega do Porto de Pireu era o responsável por ela e eles viajariam pelo mar Mediterrâneo até o restante da Europa. Talvez Kanon conhecesse continentes orientais, ou que fosse para o fim do mundo. Ele não queria mais ficar na Grécia. Renunciou o emprego no restaurante, a amizade com Shura, os momentos de carinho e reconciliação com Thetis, as lamúrias da perda do irmão com Saori. Sua tristeza era aparente, porém estava tão amargo que não conseguia mais chorar.
– Tem certeza, Kanon? – Um rapaz de cabelos curtos e lilases interveio os pensamentos do grego.
– Sim, Sorento. Vamos embora.
Ele avistou mais uma vez o grande Porto. Fechou as pálpebras e pode sentir Saga próximo de si. Virou as costas para a nação, sem qualquer sentimento de amor. E seguiu o oceano, desejando nunca mais voltar.
~
– Está tudo bem? – A Diretora Geral sentou-se ao lado do namorado, apoiando-se na pequena mesa da copa hospitalar. Mu fitava um espaço invisível dentro da própria cabeça. Ele sacudiu-a levemente, um pouco zonzo por ter se infiltrado tanto em várias reflexões.
– Está tudo bem sim. – Mu bebeu um pouco de café e recebeu um afago nas mãos. Doutora Milla também tinha a bebida em sua posse, mas esperava a quentura do líquido passar. – Você conseguiu falar com o Conselho?
– Sim. Está tudo decidido. Vão me afastar no próximo mês. – A psicóloga disse com um sorriso fraco no rosto. Depois da morte de Saga, ela não tinha mais condições de seguir dirigindo o Instituto. Abriu mão do cargo antes que ela mesma enlouquecesse por dentro. – E você, porque está tão quietinho assim?
– Eu... – Ele enrugou a expressão, juntando as pequenas pintas que tinha na testa. – Recebi um e-mail do meu professor hoje e estou um pouco pensativo.
– Jura? E sobre o que é?
– Sobre Saga. – Os olhares se encontraram mutuamente. – Olhe, eu vou mostrar para você...
O tibetano resvalou as digitais na tela do celular e localizou o texto. Demorou alguns instantes antes de mostrar a missiva:
“Prezado Mu,
Espero que esteja tudo bem por aí! Como vai o namoro? E o emprego, ainda pretende ficar em Atenas?
Eu estou ótimo, tirando a minha dedicação para escrever um novo projeto. Tenho me concentrado em outras teses e estudos sobre Psiquiatria e vi por esses dias um artigo interessante, que me fez lembrar o caso de Saga e alguns episódios relatados por você, antes do suicídio. Aliás, repito minhas condolências sobre a tragédia... É sempre horrível perder alguém, ainda mais dessa forma.”
A Doutora bebericou o café, provavelmente para acalmar um pouco os prefácios de mágoa.
– Imagino as cenas diferentes que ele deve ter visto. Sabe, de pacientes...
– Ah, não muitas... – Mu imitou o gole, voltando-se para a namorada. – Shion sempre foi mais pesquisador e não muito atuante em hospitais.
O par retomou a leitura.
“Bom, como falei antes, a análise era sobre Transtorno Esquizoafetivo, um tipo misto de esquizofrenia e psicopatia. O assunto não é muito debatido pela Organização Mundial de Saúde (você sabe como eu odeio as argumentações daquele povo) e, pelo que percebi, é muito fácil confundi-lo com TDI. O Transtorno Esquizoafetivo afeta as cognições e percepções externas, causando episódios de psicose e alucinações variadas. Seus sintomas não são identificados de imediato e a doença se manifesta na idade adulta. A possibilidade de transmissão é hereditária. O paciente torna-se confuso e maníaco, com pensamentos delirantes... Seus atos são incontroláveis e pode até se chocar com eles e as suas consequências. Eles também podem manifestar fobias, dificuldade no controle dos impulsos e paranoia.”
– Ok... Mas o que podemos concluir com isso? – A médica questionou, quase terminando a bebida.
– Ele chegará lá. Não entendi no começo também. – Mu arrumou seus óculos na face, antes de sorrir para a amante.
“O motivo de ter ligado este artigo ao caso de Saga foi um item em particular: em geral, os indivíduos acometidos pelo Transtorno Esquizoafetivo possuem delírios de identidade, auto-induzindo uma personalidade possuidora de algum destino especial ou propósito maior. Sabe, eu andei matutando aqui... Aquele tal Grande Mestre não dizia sempre que era um salvador e coisas do tipo? Isso me fez raciocinar bastante.”
– Uau. Isso faz sentido em várias situações que passei com Saga...
– Sim. Só que não é tudo, Milla. Veja...
“Outra coisa que me chamou a atenção foi a grande diferença entre os dois transtornos: enquanto o TDI obrigatoriamente traz divisões de ego e identidade, o Transtorno Esquizoafetivo não faz isso. Será mesmo que Saga tinha outra personalidade? Será que o caso dele era tão sério, tão sinistro, a ponto de não separar a realidade da patologia? Imagino que esta é a pior hora para tocar numa ferida como esta, mas será que o diagnóstico dele não era outro? Com outras possibilidades de tratamento e até uma possível cura? Essas perguntas, infelizmente, nunca terão as respostas necessárias, já que o nosso objeto de estudo não se encontra mais vivo. Porém, esses são pontos importantes para as suas investigações futuras, numa tentativa de prevenir novas tragédias.
Espero que esteja firme aí na Grécia e, se possível, gostaria que viesse mais vezes me visitar. Você foi um dos melhores alunos que já tive.
Atenciosamente, Professor Shion.”
O casal entreolhou-se e, agora, a Diretora podia entender a feição vaga e absorta do tibetano. Ela buscou vários acontecimentos em sua mente, ainda incrédula com aquela possibilidade.
– Mas, Mu... Ele tinha todos os sintomas... As lembranças de infância nos confirmaram os traumas, a forma de tratar outras pessoas e ele mesmo, as oscilações de humor e depressão... E-Eu não compreendo!
– Sim, Milla. Porém, você se lembra quando Shaka nos falou que ele não tinha outra personalidade? Que nada se manifestava nas sessões?
– Eu lembro, é que... – Doutora Milla suspirou de forma pesarosa. Sentia-se vencida, em partes. – Não sei, Mu. Nós nunca descobriremos quais eram os reais problemas...
– É. – O outro murmurou e devolveu novas interpretações. – Milla, eu fiquei pensando... Se ele realmente tivesse outro transtorno e não o TDI, Kanon não poderia ser igualmente psicótico? Já que essas causas podem ser genéticas?
A administradora crispou os lábios e tamborilou as digitais na mesa enquanto apreciava a feição de espera do namorado.
– Kanon não é o mais calmo dos homens, certo?
– Você tem razão... É uma pena não sabermos a verdade.
O casal se abraçou carinhosamente, ambos no mesmo nível de melancolia pela falta de Saga. O pior para eles, como profissionais de saúde e indivíduos cheios de estima pelos seus enfermos, não era concluir um possível erro de diagnóstico. O dano, naquele caso, era não poder reparar tais imprecisões a tempo e sofrerem as dores de uma catástrofe como aquela.
~
Saori sentou-se na larga cama, reclusa no quarto da grande mansão japonesa da família Kido. Suas mãos inconscientemente afagavam a barriga, no intuito de amimar dois seres que não estavam mais com ela. Ela contemplou a foto de Saga emoldurada num quadro azul-marinho, uma das tantas que eles tiraram na viagem à Ilha Creta, em cima de uma pequena urna de madeira. Levantou-se e foi até a cômoda, uma espécie de altar personalizado, o canto que ela comprou e estilizou para avivar as memórias do amor que tinha pelo grego.
A menina regressou no triste momento do funeral de Saga, tudo feito às pressas e sem a possibilidade de vê-lo uma última vez. O ataúde preto se desfazia dentro da câmara primária do crematório, o fogo levando embora toda e qualquer motivação da garota. Aquele incêndio dominou seu coração. Kanon passou os braços por ela, os dois choraram amargurados.
Saga estava indo embora para sempre.
Lembrou-se da presença de Shaka, que sentiu um certo remorso por não ter auxiliado o antigo interno naquele momento de desespero; sua filha tinha nascido na Índia. Jogou uma frase a esmo, como consolação, da forma que ele costumava fazer:
“Toda grande caminhada começa com um simples passo, Saori.”
Ela soltou um riso fraco. De fato, precisou de apenas um pequeno movimento para mudar toda a sua vida.
Não era mais a patricinha sórdida e egoísta de antigamente. Sua nova rotina estava preenchida por atos de caridade, com visitas a outros hospitais do globo. Ela não tinha como objetivo virar médica como Mu ou Milla, mas suas ações estavam voltadas para todos que padeciam de alguma moléstia mental. Recordou que, na próxima viagem que faria para Atenas, participaria da inauguração da biblioteca reformada do Instituto; ela levaria o nome de Saga para homenageá-lo.
A jovem acariciou a foto fúnebre e sorriu consigo.
– Espero que você os receba bem aí no céu, meu anjo. Eu sinto sua falta...
Saori beijou a imagem e enxugou as lágrimas tristonhas. Nunca seria tão grata a alguém como era com Saga. Ele mostrou o que era o verdadeiro amor e, mais do que isso, mudou a forma de ver o mundo ao seu redor...
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~ FIM ~
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