Ma Chérie

31 Primeira discussão?


Notas iniciais
Olha que estamos indo até bem!

Pov Victoria

Assim que entrei em meu apartamento anunciei um cansado “cheguei ma chérie!”. O que provou servir de nada, pois Anne e Liz permaneceram concentradas nos vídeos de dança que rolavam na televisão, o volume alto o suficiente para que não me escutassem chegando. Revirei os olhos fechando a porta e já indo jogar minha bolsa em qualquer lugar, quando recuei e coloquei o acessório sobre o cabide que Liz comprou. Não queria receber reclamações de minha ruiva!

Aproximei lentamente das duas, elas estavam assistindo algum vídeo que eu nem sabia definir o estilo, mas que tinha lindas garotas mostrando a barriguinha e balançando o cabelo de um lado para o outro.

–BONITO PARA CARA DE VOCÊS DUAS! – gritei bem próxima delas.

Obviamente as duas tomaram um baita de um susto. Anne chegando a levantar e quase correr. Elizabeth colocando a mão no coração e respirando ofegante. Eu não aguentei com a cena e as expressões de assustadas que elas fizeram, logo eu estava rindo.

–Puta que pariu Victoria! – Anne reclamou.

Mon amour, eu não escutei você chegar – Liz ajoelhou sobre o sofá apoiando o corpo sobre o encosto, ficando assim virada para mim que estava atrás do móvel.

–Teria escutado se não estivesse vendo um monte de mulher dançando na televisão – fingi reclamar, colocando as mãos sobre o quadril e me aproximando quase sem perceber – Só porque eu não sei dançar direito não quer dizer que você tem de ficar vendo outras mulheres dançando na nossa TV.

–Eu só estava olhando os passos, je le jure! – Liz falou e segurou na minha blusa, puxando para mais perto até estarmos separadas apenas pelo sofá – Mademoiselle Victoria sabe dançar muito bem a valsa...

–Ok casal meloso, hora de me retirar – mal escutei Anne se despedindo.

Liz chegou a olhar para o lado e sorrir gentil. Mas logo a delicada ruiva estava envolvendo seus braços alvos ao redor de minha cintura, não chegando a me apertar, apenas me mantendo perto, presa.

–Seu semblante é cansado, mon amour – ela falou enquanto seus olhos castanhos estavam cravados nos meus.

–Tive um dia cheio – suspirei levando uma mão até o cabelo dela, os fios vermelhos eram sempre extremamente macios.

–Que tal uma massagem? Não tenho certeza quanto a minha habilidade de massagista, mas eu posso tentar.

Eu quase suspirei só de escutar a proposta. Não tardei a dar a volta no sofá, sentar ao lado dela e tirar meus sapatos. Liz indicou para que eu sentasse de lado no sofá, me fazendo por as pernas sobre o móvel. Ela se posicionou atrás de mim e logo as mãos dela tocavam os meus ombros, apertando um pouco delicado demais.

–Pode apertar amor – falei colocando o meu cabelo de lado.

Ela apertou e logo relaxou as mãos, me fazendo suspirar e quase derreter no sofá. A quanto tempo eu não recebia uma massagem? Liz continuou com os apertos, tocando meus ombros e pescoço, empurrando as alças de minha blusa para a deixando meio solta em meu corpo. O único som provinha da televisão ainda ligada, tocando alguma música de jazz-funk que eu não fazia ideia de quem era, mas que o ritmo me fazia ficar nostálgica de uma certa noite na Bahia...

Como se pensasse a mesma coisa, senti Elizabeth aproximando o corpo do meu até seus lábios alcançarem meu pescoço e depositar ali um longo e delicado beijo. Minha pele arrepiou por completo e isso a fez sorrir ainda com a boca colada em mim. Virei o meu corpo e quando a olhei tive a verdadeira noção de como a minha ruiva estava vestida. Um shortinho curto, uma blusa de alças finas, mas que uma havia caído dando um ar sexy e inocente ao mesmo tempo. Meu corpo reagiu completamente, aquela era provavelmente a garota mais linda, gostosa e suave que eu já tinha visto em todas as minhas vidas!

–Sabe – disse em um tom baixo, levemente rouco – Acho que minha boca ta precisando de uma massagem também.

–E como se faz uma massagem na boca? – Liz indagou, seu acento francês marcado em cada palavra – Poderia me ensinar?

–Você tem de colocar essa sua linda boca na minha – falava aproximando ainda mais nossos rostos, os olhos dela descendo até meus lábios – E mover até o ar acabar.

Nossos lábios praticamente se tocavam quando Liz sorriu e os encaixou. Só aquilo fazia todo o meu ser reagir, não só o corpo reconhecendo aquele sabor delicioso que era o beijo de Elizabeth. Mas meu coração disparava alucinadamente enquanto as borboletas festejavam o simples fato de ter a dançarina perto de mim. Não houve um domínio sobre o beijo, mas sim uma entrega. Eu a beijava com dedicação, explorando cada pedacinho, brincando e desenvolvendo o beijo da maneira mais íntima, mais nossa. Ele durou até os últimos segundos, nós duas teimosas em soltar a boca uma da outra.

–Você tem a boca mais deliciosa desse mundo – falei sem resistir a dar vários selinhos nela – E a melhor coisa? É que a boca mais deliciosa do mundo me pertence.

Meus lábios sedentos pelos delas já estavam se encaixando mais uma vez, saudosos de um beijo que os deixassem levemente doloridos de tanto beijar. Mas desta vez Elizabeth segurou em mim e me empurrou levemente para trás, deixando escapar um suspiro. Franzi o cenho e fitei aqueles olhos amendoados sem esconder a confusão.

–Preciso te contar uma coisa antes que eu não consiga mais raciocinar direito – Liz falou um pouco hesitante e eu me afastei totalmente desconfiada daquele assunto – Quando eu estava saindo da escola de dança, encontrei monsieur Bruno e madame Duda discutindo. O rapaz dizia que dança contemporânea é algo menos masculino e...

–E não é? – a interrompi pensando alto sem querer.

Eu soube que tinha dito algo errado quando o olhar dela mudou completamente e o corpo de minha ruiva se afastou um pouco mais. Elizabeth estava indignada e me encarando como se eu tivesse dito o maior dos absurdos.

–Pode ter a clara convicção de que não é! – ela exclamou em um tom polido e um olhar frio, oh merda ela estava entrando em seu modo Dama de Ferro – Mademoiselle Victoria me decepciona ao acreditar que um determinado estilo de dança priorize um gênero e ao outro não.

–Bem, é que visualmente falando parece mais fácil para os homens e... – tentei me defender.

–Mulheres não são frágeis porque seus corpos aparentemente são mais delicados, Victoria! Na dança se trata de demonstrar a paixão, os sentimentos, de se mover com liberdade seguindo um determinado ritmo! Por certo que há a técnica, o ensaio, o esforço para se conseguir movimentos perfeitos. Mas o princípio básico é de que qualquer um pode dançar o que quiser!

–Eu nunca duvidei disso, mas até mesmo algumas garotas tem de se vestir mais masculinas para dançar o hip-hop, isso você não tem de negar!

–Assim como homens usam collant ou roupas que deixem o movimento mais puro e isso não os tornam menos homens!

Minha mente infelizmente dizia o contrário. Conseguia visualizar um homem com o habitual traje de ballet, erguendo as perninhas, girando, saltitando e só me vinha na mente uma palavra: viado. Era inevitável já que era uma crença que sempre tive e ninguém antes a tinha questionado, como um pensamento automático e incontrolável.

–Mostrarei a você e a todo mundo o quão errôneo essa concepção é! – Liz levantou do sofá com um brilho de determinação no olhar – Ensinarei uma coreografia ao monsieur Bruno e ele me ensinará a dançar hip-hop. Iremos nos apresentar no evento cultural e devido a isto chegarei mais tarde em casa todas as noites, pois ainda terei de cuidar das coreografias das quais já tinha me responsabilizado.

–O que? Espera, você ficará mais tempo com um garoto? Quem é esse Bruno?!

Oui, programei um horário extra – ela disse sem vacilar, o queixo erguido, a postura ereta – Estou determinada a isto e nada do que dirá mudará a minha escolha, Victoria.

–Como assim não posso opinar? Minha namorada vai passar mais tempo com um macho que eu nem sei quem é!

O ciúme era um sentimento tão traiçoeiro e venenoso que parecia me corroer mais rápido do que uma terrível doença. Eu não conseguia aceita-la desse modo, meu coração batia dolorosamente contra meu peito só de pensar que ela estaria a sós com outro garoto, uma completa ameaça!

–Minha namorada, não minha dona – Liz falou e suavizou mais o tom – Monsieur Bruno é um aluno da academia, Anne é sua professora, poderá questioná-la sobre o garoto se assim desejar.

–Pode ter certeza que eu vou perguntar! Merda Liz, eu não gosto disso!

Estava começando a ficar nervosa, odiava discutir com ela, odiava me sentir insegura e com tantas coisas se misturando em minha mente. E se ele a tocasse de maneira maliciosa e Liz não notasse? E se ele começasse a conquista-la e conseguisse?

–Eu... – Liz ia começar a falar duro, mas suspirou e deixou os ombros caírem, começando a mexer na barra da blusa – eu não vou mudar de ideia, mon amour. Iria gostar muito que me apoiasse e...

–Não me peça isso agora, eu não seria sincera – a cortei e passei a mão pelo cabelo, não conseguia suavizar o tom de voz – Já entendi que não vai mudar de ideia mesmo eu dizendo que não gosto nem um pouco. Tudo o que me resta é respeitar e engolir, não é?

–Não precisa ser assim, o que passa em sua mente para desgostar tanto assim?

–Você nem ao menos consegue imaginar?! Porra Liz, é um desconhecido que passará horas extras com você, bancando o professorzinho e te tocando e quem me garante que ele não tentará algo? Eu fico possessa só de imaginar isso!

–Eu estou garantindo isso! Je te aime, Victoria – Elizabeth recuou dois passos parecendo levemente magoada – Eu jamais permitira que um homem pensasse que tem alguma oportunidade de flertar comigo e...

–Aqui ninguém flerta! Eles já vão dando encima mesmo, descarados e sem vergonhas, é como o mundo é Liz!

–Você precisa confiar em mim, Victoria! Ou eu não poderia sair sem que estivesse com uma dona do lado me vigiando. Eu não vou deixar de demonstrar a minha paixão pela dança e ensinar isso para todos, eu descobri que eu amo isso e que posso fazer a diferença. Je suis désolé, sei que isso não te agrada – ela fez uma pausa dramática e apontou para a cozinha – O jantar está no forno, basta esquentar. Bonne nuit, mademoiselle.

–Como assim? Aonde vai? Elizabeth!

Mas ela não me escutou, deu às costas para mim fazendo o cabelo ruivo balançar no ar parecendo acrescentar mais drama ainda a situação. Ela caminhou a passos largos até o quarto e fechou a porta com tanta força que meu corpo encolheu ao escutar o som tão bruto da madeira colidindo contra a batente. Rosnei alto, zangada com a situação, odiando a mim mesmo. Por puro impulso, chutei o sofá e senti uma dor infernal no meu dedão do pé. Saltitei xingando todos os nomes que eu conhecia.

Merda, merda, porque eu não consegui lidar melhor com a situação?! Mas naquele momento, o ciúme era tão forte ainda que eu não conseguia enxergar em que ponto estive tão errada para que ela agisse daquele jeito. Segui para a cozinha me mordendo de raiva e estresse, comendo a comida fria mesmo desejando apenas voltar para o momento em que eu estava com a Elizabeth no sofá e aos beijos, e não discutindo daquela forma!