Ma Chérie

32 Maldita insegurança


Notas iniciais
Então gente, espero que entendam um pouco mais da Victoria, não vamos esquecer que o passado dela não foi tão fácil assim, apesar dela ser toda serelepe! hehehe Estamos em um ritmo bom, não é?

Pov Victoria

Dizer que eu tinha dormido era pura ironia. Não conseguia pregar o olho por mais de trinta minutos! E a cada vez que acordava, um sentimento diferente me tomava. Estresse por causa do trabalho que sempre aumentava final de ano, já que as lojas queriam um design mais natalino ou de fim de ano. Culpa por ter brigado com a Liz e falado rudemente em alguns momentos. Ciúme por causa desse tal Bruno que eu nem ao menos conhecia. Saudades de minha ruiva, já que apesar de morarmos no mesmo apartamento, nós encontramos dificuldade de passar um tempo juntas.

Resmungando baixo rolei na cama de um lado para o outro até desistir de prolongar mais o meu tempo ali. Era cedo ainda, nem mesmo meu despertador tinha tocado. Tomei um longo banho, comecei a me arrumar desligando o alarme nesse meio tempo. Quando passei pela porta de Liz travei completamente. Fiquei encarando a maçaneta por longos minutos, pensando mil e uma coisas. Deveria bater e pedir desculpas? Mas pelo que exatamente iria me desculpar?

Cansada dessa situação, fui caminhando em passos firmes em direção ao apartamento vizinho, não hesitando em tocar irritantemente a companhia. Escutei barulhos lá dentro, sabia que Anne me xingaria até na minha próxima vida por acordá-la em pleno sábado. Mas quando a porta se abriu, eu encontrei a pequena japa com o cabelo bagunçado e o rosto corado, atrás dela outra cabeleira loira se ajeitava de costas para mim.

–Nicoly já chegou? – questionei arqueando as sobrancelhas e não conseguindo evitar um sorriso malicioso – E você deu as boas vindas.

–O que você quer? – Anne foi curta e grossa, me fuzilando com o olhar repuxado.

–Situação de emergência – respondi entrando na casa sem esperar o convite – Eu nem consegui dormir direito, acho que tive a primeira briga com a Liz.

–Hey Vic – Nicoly cumprimentou depois de ajeitar a blusa.

Ela não estava nem um pouco envergonhada, na verdade, a loira estava sorrindo de maneira divertida. Anne fechou a porta um pouco forte, deixando claro que seu mau humor matinal estava ali.

–Desembucha, o que você fez? – Anne indagou impaciente, cruzando os braços.

–Por que você acha que fui eu que fiz algo errado? – questionei indignada.

As duas garotas me encararam arqueando as sobrancelhas de maneira cética. Claro que seria eu a culpada, Elizabeth era a pessoa mais calma e diplomata que eu conhecia, logo quem iniciaria a briga sempre seria eu. Saber disso me deixava ainda mais para baixo! Resmunguei e comecei a andar de um lado para o outro, Nicoly se jogou em um sofá sem cerimônias e bocejou. Era provável que tinha viajado de madrugada para chegar logo cedo aqui em Santa Mônica.

–Ok, quem é o Bruno? – fui direta ao ponto, fitando Anne um pouco irritada e cruzando os braços.

–Eu sabia que era por isso! – a japonesa bufou e se sentou no mesmo sofá que Nicoly, mas em uma distância segura – Bruno é um aluno meu, um dos melhores no ritmo hip-hop, as vezes é ele quem me dá umas dicas. Ele estava discutindo com o Eduardo, um dos melhores alunos da Liz. Você sabe do desafio certo?

–Eu não gosto dele! – fui enfática em demonstrar todo o meu desgosto – Eu não o conheço e ele vai ficar tanto tempo com minha garota?!

–É um aluno, Vic! – Anne disse sem paciência – Liz está tentando ensinar algo que até mesmo eu vacilei um pouco.

–O que aconteceu? – Nicoly perguntou um pouco confusa.

–Bruno disse que dança contemporânea é coisa mais para mulherzinha e que hip-hop é mais para macho, basicamente isso.

–Oh nossa, Elizabeth deve ter feito um monólogo sobre isso! – Nicoly riu balançando a cabeça.

–Quase, mas ao invés disso lançou um desafio. Ele ensinaria hip-hop para ela, ela ensinaria dança contemporânea, enquanto eu vou ter de ensinar para o Duda uma coreografia também. Vamos nos apresentar no evento cultural.

–O fato é que eu não gostei nem um pouco disso! – interrompi incomodada por ser ignorada, qual é, eu estava sofrendo!

–Você está com um ciúme infundado minha amiga – Anne acusou apontando o dedo para mim.

–Diga se ele não é bonito – exigi colocando a mão na cintura em uma pose agressiva.

–Sim, Bruno é – Anne não hesitou em responder – Mas é dança Vic, sempre há contato físico e movimentos mais sensuais.

–Você está ajudando muito, Anne!

Ai que tudo piorou. Fiquei imaginando eles se tocando para fazer um passo, algumas cenas de filme de comédia romântica passando em minha mente. Ela tropeçando e caindo nos braços dele, ou então em um movimento eles ficando juntinhos. Oh Deus, eu poderia morrer nesse momento!

–Victoria, eu não conheço você – Nicoly começou sentando um pouco mais na borda do sofá, me encarando de um jeito sereno – Mas conheço Elizabeth. A dança sempre foi a paixão dela, mesmo quando lhe foi proibido se dedicar tanto quanto ela queria. Sim, há o contato, afinal é uma arte que demonstra sentimentos com o corpo. Mas também há muito respeito e ninguém mais do que Liz conhece os limites de um espaço pessoal.

–Sempre recebemos cantadas dos alunos novos ou engraçadinhos – Anne acrescentou – Eu te contava as mais estúpidas e ficávamos rindo. Com Liz não foi diferente, ainda mais que ela é uma ruiva gata!

–Espera, como eu não soube disso?! – quase gritei.

–Porque nunca foi necessário! Liz sabia lidar com a situação melhor do que eu mesmo! Ela se afastava, pedia pelo respeito, lembrava que era apenas uma profissional. Nos casos em que ela tinha de ser mais enfática ela sempre dizia que o coração dela já pertencia a alguém e que a pessoa não insistisse para não criar uma situação desagradável.

Eu já podia sentir uma pontada forte na cabeça. Eu queria compreender, eu queria ser a namorada perfeita. Mas o ciúme me fazia uma perfeita vilã, enervava a minha mente de um jeito que eu mal conseguia controlar. A insegurança vinha poderosa nesses momentos, afinal eu era a primeira de Elizabeth, mas o que me garantia que eu seria a primeira e única? Ela estava descobrindo o mundo romântico ao meu lado, merda, até mesmo eu estava descobrindo coisas que eu nunca tinha sentido.

–Ela ama você – Nicoly disse de repente – Você sabe disso, não é?

–Eu... sei sim – murmurei passando a mão pelo meu rosto, sentia-me tão cansada! – Mas ainda assim tem algumas dúvidas cruéis aqui dentro. É meio recente todas essas sensações... Eu não tenho controle nenhum, na verdade, eu sou controlada.

–Mas é algo bom, se deixar ser dirigida por uma queda livre sem fim – Nicoly sorriu suavemente e lançou um olhar rápido para Anne – Mas vejamos, ok, você está insegura. Se não quer que Elizabeth deixe ou troque você, porque está dando motivos para que ela faça isso?

–Bingo! – Anne comemorou a lógica da loira – Você ta sendo tão estúpida que só vai afastar ela e o pior, magoá-la.

–Se ela é a sua pessoa, a que você quer mesmo a conquiste todos os dias e não a deixe vacilar nesse amor – Nicoly deu de ombros – Elizabeth é como uma princesinha que acredita que você é seu príncipe encantado. Então para que ela não fuja com o lobo mal, você terá de ser os dois.

–Merda, no que eu fui me meter?

Choraminguei e soltei um suspiro, para logo depois entrar em desespero ao olhar a hora. Estava atrasada para o trabalho e minha chefinha faria cara feia para mim. Tive de sair praticamente correndo e ainda cheia de dúvidas, afinal eu seria capaz de ser tudo isso por uma mulher?

(...)

Claro que eu não consegui trabalhar direito e isso apenas me estressou mais ainda. Os clientes vinham de ultima hora fazer os pedidos e queriam prazos impossíveis, ou vinham e mudavam tudo quando você estava praticamente acabando. Sem contar que o ar-condicionado tinha quebrado e o calor que fazia dentro daquele prédio era quase infernal. O pior? Eu não conseguia tirar da minha mente Elizabeth Aimeé.

Ela era mesmo como uma princesinha. Delicada, gentil, mas determinada e inteligente. Tão linda e carinhosa, com ideais que todos se esqueceram de como era ter. O que uma garota como ela fazia comigo? Uma garota que fugiu de casa, sobrevivia bem em uma renda mediana. Até pouco tempo atrás era uma verdadeira mulherenga que não me importava nem de lembrar o nome da garota no dia seguinte. Mas agora? Eu nem conseguia sentir tesão direito por outras pessoas!

Fazia tempo que eu não sentia aquela vontade de não ir para casa. Era o contrário, quanto mais rápido fosse para o apartamento, eu poderia falar de peito cheio “Ma cherie, cheguei”. Mas agora? Eu estava ali parada na frente da porta a encarando feito uma idiota, uma sensação de frio circulando a minha barriga. Oh sim, eu estava com medo de encarar aquela ruiva e deixar todo o meu orgulho de lado. Afinal, orgulho era tudo o que me sustentou e me fez superar muita coisa na vida.

Eu não podia estar tão errada, não era possível. Eu não errava! Fiz certo em esperar um tempo para pedir minha princesa burguesa em namoro, fiz certo em sair de casa e ir viver a minha vida sem dever satisfações a ninguém.

Então por que eu hesitava tanto?

–Vamos Victoria, você não pode estar com medinho de uma ruiva branquela – falei comigo mesma tentando dar coragem.

Respirei fundo, coloquei a chave, girei, respirei fundo mais uma vez e entrei. Nicoly estava ali dentro, conversando animadamente com Liz. A minha ruiva estava com um sorriso tão estonteante que parei por alguns segundos apenas a mercê daquela cena. Vídeos passavam em nossa televisão e como de costume era de dança. Eu poderia apostar que Liz contava seus planos sobre as apresentações para a amiga. O pior? Elas falavam animadamente em francês. Ah Deus, abençoada seja a língua francesa, pois aquelas palavras cheias de frescuras ditas pela garota eram como o som mais divino.

–Oh, Vic! – Nicoly que me viu parada na sala.

Então Liz mudou completamente. Foi assim que eu tive certeza que eu tinha feito algo de muito errado, mesmo que não entendesse o quanto exatamente. Sua postura ficou prontamente ereta, queixo erguido, olhar amendoados afiados. Ela me desafiava com os olhos ao mesmo tempo em que se mostrava tão educadamente correta.

–É, to em casa – disse sem muito animo, entrando e colocando minha bolsa no cabide – Estava interrompendo os planos pra coisa que a Liz vai fazer com aquelezinho?

Maldito fosse o ciúme que me fazia agir de uma forma tão idiota. Eu sabia que não deveria falar daquele jeito, mas quem disse que conseguia me controlar? Estava estressada ao extremo com o trabalho e queria que o mundo explodisse por não conseguir compreendê-lo como queria.

–Se esta se referindo aos meus planos sobre uma coreografia, oui mademoiselle – Elizabeth falou polidamente.

Ela estava daquele jeito Dama de Ferro. Educada demais. Inalcançável e inabalável.

–Faça o que quiser Elizabeth – resmunguei tirando as minhas sapatilhas, mal a encarando – Ou melhor, você já está fazendo.

–Victoria...

–Não, chega, entendi ok? De alguma maneira eu estou errada – falei sem nenhum traço de delicadeza na voz – Só vou tomar um banho, relaxar um pouco e nós vamos para o 7 Sin...

–Eu não vou, Vic – Liz disse cortando-me, eu a fitei de maneira incrédula.

–O que?! Liz, planejamos isso e por favor eu só preciso sair para distrair a mente! Encher a cara e fazer qualquer merda fora daqui!

–Eu preciso trabalhar em muita coisa, eu não daria conta e não posso reduzir o nível de uma coreografia por ter assumido responsabilidade em outras duas.

–Não seria melhor só cancelar então?!

–Eu não vou faltar com a palavra!

–OK! Então fique aqui você, porque eu vou!

Todo mundo podia ter um dia para se estressar até mesmo porque o céu era azul. Aquele era o meu dia e eu não queria ficar naquele apartamento, tão perto de Elizabeth querendo implorar por um pouco de atenção e não o fazendo por causa do orgulho. Oh sim, eu era teimosa e dura na queda. Eu precisava ser assim desde minha adolescência para poder sobreviver sozinha e me assumindo como algo que a sociedade não aceitava.

Liz me encarou magoada, mas logo assumia a sua postura de dama intocável novamente. Sentou no sofá da maneira mais correta possível e começou a me ignorar. Eu puxei o meu cabelo contendo a vontade de gritar, mas faria exatamente o que tinha dito que ia fazer. Fui para meu quarto e praticamente me tranquei lá dentro. Tomei um longo banho e me arrumei sem me preocupar muito, eu não estava para caçar no fim das contas. Quando sai não encontrei mais Liz na sala, mas havia barulho vindo de seu quarto. Música clássica. Quem no mundo ainda ouvia esse tipo de música?

Soltei um suspiro e fui para minha vizinha, estava disposta a pelo menos encher a cara e esquecer meus problemas. Mas advinha só? Nicoly roubava a minha melhor amiga, pois Anne simplesmente não conseguia sair de seu lado. E quando saia, logo tentava voltar. Elas conversavam como se fossem velhas amigas, riam como cúmplices e se olhavam como se pudessem tirar a roupa uma da outra com a força do pensamento. Eu não podia culpar Anne ou exigir que ela me desse atenção, era a noite dela com a loira já que essa vivia na capital.

Aquela balada nunca esteve mais chata. Eu achava a música alta demais e me irritava profundamente quando alguém vinha tentar chamar minha atenção, ainda mais quando começavam a tocar ou insistiam. Fiquei o tempo que consegui longe dos pontos fortes de “caçada”, passando mais tempo perto do bar do que o costume.

–Hey – uma morena parou ao meu lado – Posso te pagar essa bebida?

–Claro, mas não vai conseguir muita coisa – avisei já meio alta, nunca recusaria alguém pagando a minha bebida.

–Posso saber por que não? – ela sorriu de lado parecendo se divertir com minha recusa tão rápido.

–Eu tenho namorada! – bufei e girei o copo com whisky na mão, fazendo um pequeno redemoinho.

–E onde ela está para deixar alguém como você solta assim?

–Em casa, nós discutimos. Merda, não há motivos para Liz duvidar de mim, ela sabe que eu estou de quatro por ela! – olhei para a garota ao meu lado, Deus, era muito gostosa! Mas quem disse que ela tinha o que eu precisava? – Eu estou tão ferrada! Você está aqui, do meu lado, é linda e com coragem de chegar em alguém. Mas você não é ela!

–Sinto te dizer, mas você é um caso perdido – a morena riu e tocou meu ombro de maneira amigável – Só não sei o que está fazendo aqui se a garota que você quer estar em outro lugar. Boa sorte gatinha.

A morena piscou e depois sumiu em meio as outras pessoas alucinadas na parte da boate. Suspirei percebendo finalmente que não tinha nenhum motivo, razão ou circunstância para que eu ficasse ali, bebendo e infeliz. Virei o copo de whisky e fui atrás da Anne para avisar que estava voltando para casa. Ela tinha me abandonado completamente! A encontrei em uma parte ainda pouco movimentada da pista de dança, ela parecia zangada com algo, pois pisava duro enquanto andava para a saída que dava para uma das áreas abertas. Nicoly vinha atrás sorrindo travessa e não tardou a segurar a japinha pelo braço e a puxar em um movimento que a fez parar em seus braços. Resultado? Elas segundos depois estavam trocando um beijo que parecia engolir uma à outra, disputando um domínio que realmente não existia.

Revirei os olhos, peguei o celular e mandei uma mensagem avisando a minha amiga que estava de saída. Não queria imaginar a confusão que seria quando o bando de conhecidos que haviam na balada fossem começar a fofocar que Anne agora curtia a mesma fruta que eu. Oh sim, iriam provavelmente me colocar como má influência... o que eu realmente era.

Quando cheguei ao apartamento não passava de uma hora da manhã. Horário em que normalmente as festas começavam a chegar a seu ápice. Tropecei em meus próprios pés, já que desde o momento em que tinha pisado na 7 Sin tinha começado a beber. Só não sabia ao certo quando fiquei tão mal assim! Encostei à porta esperando que o mundo parasse de girar só um pouco para poder ir para meu quarto, tomar um banho e simplesmente desmaiar.

Senti braços me segurando e tudo o que eu lembro foi de ver vermelho na minha frente. A sensação que eu tinha era de que fechei os olhos por alguns segundos e quando os abri de repente estava em minha cama e já era dia. Minha cabeça explodia como se acontecesse a quarta guerra mundial e meus neurônios brigassem entre si. Sai do meu quarto para encontrar Anne esquentando o almoço.

–Cadê a Liz? – questionei com a voz rouca.

–Saiu com a Nic – Anne deu de ombros – Ela parecia precisar conversar com alguém.

–Estava chateada? – indaguei incerta.

–Não sei, ela estava daquele jeito quando briga com você – Anne tirou do forno algo que parecia ser lasanha – Irritantemente educada e fria.

–Acho que ela cuidou de mim ontem à noite – comentei sentando em uma das cadeiras altas perto do balcão – A sensação que eu tenho é de que estou fazendo uma burrada atrás da outra.

–Então não faça! – Anne diferente do que eu esperava, falava suave – Uma hora você terá de superar a insegurança, você já tem a garota, só precisa mantê-la.

–Mas eu não sei como fazer isso!

Quase gritar o meu maior medo me fez quase chorar pela dor aguda que surgiu em minha cabeça. Encolhi toda e pousei as mãos sobre o cabelo, como se assim pudesse amparar todo o mundo que estava contra mim.

–Você não precisa ser perfeita Vic – Anne se debruçou sobre a mesa me entregando um copo com água e um comprimido – Liz gosta de você do jeito idiota que você é.

–Mas ela é tão incrível! – resmunguei depois de tomar o remédio que nem ao menos questionei qual era – Estávamos indo muito bem, eu consegui pedir ela em namoro, aqui em casa era como se fosse o paraíso e... Booom! Tudo explodiu quando surgiu a simples ideia de que outro poderia ser melhor do que eu para ela.

–Quem disse que ela quer algo melhor do que você? Deixe de ser uma tapada, você tem muitas qualidades também Vic!

–Chega, minha cabeça vai explodir de tanto pensar sobre isso, estou morrendo aqui sabia?!

Anne negou com a cabeça e ficou cuidando de mim um pouco mais. Pouco depois de almoçarmos, Liz e Nicoly chegaram. Claro que a dama de cabelos rubros me ignorou por completo, ela era assim quando estava chateada ou ciumenta. Quando se dirigia a mim, era com aquela educação europeia e olhar frio que me fazia encolher como uma criança acuada.

Naquele domingo eu não consegui concertar as coisas. Eu não estava preparada para encará-la e expor minhas fraquezas. Ficamos naquele clima estranho e mais uma vez dormir muito mal. Estava disposta a conversar com ela no dia seguinte, fazer qualquer coisa para arrancar aquele sorriso que eu tanto amava... E as coisas no trabalho beiraram a um desastre quando um dos meus colegas fez uma arte completamente diferente do que o cliente pediu e minha querida chefa pediu para que eu salvasse a reputação da empresa. Cheguei tarde em casa e Liz estava começando a preparar o jantar, o que indicava que ela também tinha acabado de chegar. Lembrar-me do motivo para isso apenas me estressou mais ainda, querendo ou não o veneno me corria só de pensar.

Apenas disse que não estava com fome e que iria ficar trabalhando no meu quarto. Na terça-feira foi a vez dela de se trancar em seu santuário, o único lugar na casa no qual eu não poderia entrar sem sua permissão. Quarta-feira sai para beber com os amigos de trabalho para comemorar o fato de que consegui salvar a arte e ainda receber um elogio de um dos clientes mais chatos que tínhamos. Cheguei embriagada em casa, Liz apenas me olhou, negou com a cabeça e avisou que o jantar estava no forno, pronto para esquentar.

Ela levantou, olhou para mim uma última vez, suspirou e foi em direção ao quarto. O olhar de decepção me destruiu por completo. Chutei minhas sapatilhas, fui até a cozinha, sentei perto do balcão e desabei sobre ele. Bati minha cabeça contra o mármore me xingando mentalmente com fervor. Eu queria fazer as pazes com ela, queria bater naquela porta incansavelmente até ela abrir. Então a beijaria com tanto desespero que nossos lábios ficariam vermelhos. Mas eu não tinha coragem e tinha medo dela não gostar disso. Liz era tão delicada que merecia algo do mesmo nível.

Comi bem pouco, tomei um longo banho e fiquei no meu quarto fingindo assistir televisão, mudando de canal a cada minuto sem me concentrar em nada. Estava tão infeliz que chegava a ser patético. O pior? Era que eu estava prolongando isso tudo por não saber como consertar.

“Não escolhemos sentir a tristeza, mas na maioria das vezes podemos escolher quando parar de sofrer”.

Franzi o cenho ao me lembrar de um dos vários dizeres de minha mãe. Há quanto tempo não pensava na velha? Sentei na cama amaldiçoando como quase sempre minha mãe estava certa.

–Vamos Victoria, você é criativa, faça algo que ela não poderá dizer não – falei comigo mesma massageando as têmporas – Mantenha a garota, a faça feliz, não é isso o que você quer? Então é bom parar de ser idiota e de falar sozinha!

Saltei da cama indo até o meu armário pegar tudo o que iria precisar. Não iria passar mais um dia sem me acertar com Elizabeth!

Notas finais
Acho que vou adaptar Estações pra uma fic original e postar aqui... hm/