Ma Chérie
23 Jantar Francês
Notas iniciais
Pov Liz
Tudo estava normal, mas eu adorava esse meu normal. Tão diferente do meu cotidiano na Suíça, o aqui e agora preenchia-me com uma rotina que eu adorava. Acordava, fazia o café da manhã, conseguia beijos de bom dia de Victoria e ia trabalhar em algo que eu amava. Ensinava jovens e até mesmo adultos a dançar, a amar os movimentos e a música, a se entregarem ao momento. Depois, voltava para casa, preparava o jantar e passava o resto de minha noite com Victoria, seja conversando, nos provocando ou simplesmente juntas. Deus, eu não precisava de uma conta bancária enorme para ser feliz, não precisava do luxo quando ali na simplicidade de uma cidade carioca interiorana eu estava tendo tudo o que eu sempre quis em minha vida.
Estava dando uma aula de jazz para a minha turma favorita de jovens. Havíamos criado um vínculo em especial, com uma dinâmica que diferenciava das outras turmas, pois era algo mais avançado e ao mesmo tempo mais divertido. Um dos alunos estava ensinando um passo que viu pela internet, que poderia implementar na coreografia que estávamos bolando juntos. Era algo que eu havia posto e que estava dando certo, que eles trouxessem ideias, movimentos para tornar aquela construção algo mais nosso do que meu. Claro que eu vinha com a parte técnica, ajustando o tempo, encaixando a passagem de um movimento para outro.
–Ok, mes amours, infelizmente o tempo da aula está acabando. Como ninguém se ofereceu para apresentar uma dança essa semana, faremos um longo alongamento porque trabalhamos muito bem hoje – comentei me dirigindo a frente da sala, ficando de costas para o espelho. Olhei para as carinhas desanimadas por terem de ir embora e abri um sorriso sincero e carinhoso – Se me permitirem a oportunidade, gostaria de evidenciar que minha estadia aqui está se tornando maravilhosa por existirem turmas como você.
–Ai meu Deus, ela é tão fofa! – Duda exclamou um pouco agudo, pondo a mão no peito e dando um sorriso bobo.
–Estou apenas expressando por palavras o quanto aprecio a companhia de dançarinos tão brilhantes. Vocês cresceram bastante e acalenta meu coração de orgulho – falei um pouco sem jeito.
–Abraço grupal! – Jéssica praticamente gritou.
Meus olhos se abriram quando aqueles jovens vieram todos em minha direção e literalmente me esmagaram. Eu senti um pouco de falta de ar, culpa dos risos que eu deixava escapar, culpa por me sentir abafada e culpa de eu estar sendo realmente esmagada. Logo depois alguns me abraçaram individualmente antes de deixar a sala. Meu sorriso permanecia inalterado no rosto, grande e contente pelo que tinha acontecido. Eu poderia contar quantos abraços eu recebia por mês quando morava na Europa, se fosse mais do que cinco poderia considerar que a estação estava sendo amável.
–Todos realmente adoram você.
Tomei um leve susto, deixando que minha garrafa de água caísse quando escutei a voz de Henrique se pronunciar dentro da sala já vazia. O encontrei parado perto da porta, usando um calção de dança e uma blusa que colava em seu peitoral definido. Ele era um homem charmoso, apesar de tudo.
–Salut, Henrique – o cumprimentei com um sorriso educado — comment allez-vous?
–Je vais bien, merci – ele respondeu em um francês quase impecável – mas por favor, minhas aulas começaram recentemente e não sei mais do que isso.
–Oui – ri baixinho e terminei de ajeitar as coisas.
–Posso oferecer uma carona? – Henrique questionou incerto.
–Henrique... – já começava a falar em tom de desculpas.
–Olha eu sei, fui um pouquinho lento para entender – ele me interrompeu e passou a mão pelo cabelo sem jeito – Admito que é um pouco complicado imaginá-la com outra garota, sim, é errado pensar dessa forma, eu sei – um suspiro pesado – Mas eu gosto mesmo de você, Elizabeth, tipo gostar a ponto de almejar um namoro sério – meu coração se apertou ao escutar isso – Sei que você está encantada pela Victoria, mas eu quero está por perto quando você desencantar.
O encarei de uma maneira neutra enquanto por dentro encontrava-me em um turbilhão. Henrique não era má pessoa, pelo contrário, era um homem culto, um ótimo dançarino, um rapaz divertido. Era bonito e simpático, tinha sua cota de admiradoras e até mesmo eu sabia disso. Ele estava sendo sincero com seus sentimentos e a forma que via, mas... Nenhuma daquelas palavras me colocava em dúvida o que eu sentia por Victoria.
–Henrique, preste atenção no que vou falar, porque eu estarei convicta de cada palavra que irei pronunciar – falei me aproximando apenas um pouco dele, meu sotaque se acentuando devido a seriedade do momento – Eu amo Victoria. Eu tenho certeza disso a cada dia que passa. Não insista em um sentimento que não poderá ser correspondido, deixe que ele vá embora para que não doa mais do que o necessário.
–Você a ama e o que? – Henrique parecia ficar levemente nervoso – Você tem certeza disso, mas e Victoria?
–Ela me ama também – respondi prontamente.
–A ama tanto para te pedir em namoro? – ele alfinetou e bingo, atingiu um ponto delicado – Vamos Liz, você é uma das moças mais inteligentes que eu conheço. Por quanto tempo mais você acha que ela irá enrolar? Justamente porque ela não quer nada sério, ela te mantem enquanto você tem o brilho, para depois partir para outra.
–Está insinuando que Victoria me trata como um objeto?! – meu queixo ergueu-se prontamente, minha postura ficando completamente na defensiva – Pondere bem suas palavras, monsieur Henrique!
–Estou dizendo que Victoria é uma pegadora, ela não conhece outra vida. Eu... – Henrique parou, apertou o nariz entre os dedos e respirou fundo – Eu não quero que você se machuque quando poderia estar comigo me dando uma chance.
–Isso é tudo o que tem a declarar, monsieur? – questionei em um tom cortante, ele nada respondeu – Pardon, mas eu terei de reclinar a sua oferta de carona.
–Liz...
–Au revoir.
Peguei minhas coisas e saí daquela sala a passos largos sem nem ao menos olhar para trás. Eu estava chateada. Porém não sabia definir ao certo pelo que. As palavras de Henrique poderiam conter certa mágoa por ter levado um fora, mas também não deixavam de ter um fundo de verdade. O tempo passava e eu demonstrava a Victoria todo o meu carinho e dedicação, ela o retribuía em igual intensidade. Mas... Porque ela não me pedia em namoro? Tal questão já transpassou minha mente em determinadas noite em que me encontrava sozinha. Era a algo que procurava a uma resposta e nunca a encontrava! Agora aparecia-me Henrique, implantando uma dúvida venenosa, relembrando o passado nada agradável de minha brasileira.
Soltei um longo suspiro, percebendo só agora que estava parada a frente da porta do apartamento, imersa em pensamentos que me acompanharam em todo o trajeto para casa. A abri e fiquei estática no lugar. Meus olhos abriram-se em surpresa enquanto meu coração disparava alucinado contra meu peito. Tinha adentrado o apartamento de maneira silenciosa, como sempre fazia, assim Victoria não havia me notado ainda. A brasileira andava de um lado para o outro, ajeitando a mesa de jantar enquanto falava ao celular.
–Você tem certeza que é assim que posiciona os talheres, Pie? – ela questionava um tanto nervosa – Sim eu sei que ela me ensinou essa merda de etiqueta, mas você sabe como a Liz é nesse treco de organização. Tem de ficar perfeito porra! Eu não aceito fazer algo pra ela que seja menos que isso!
Ela estava preparando a mesa para o jantar, mas um jantar romântico. Havia velas quadradas, vermelhas e brancas pela mesa, um balde com gelo e vinho, taças novas e um cheiro que impregnava todo o apartamento delicioso de comida. Ela lutava para organizar a mesa ao modo como dizia a etiqueta, apesar de odiar essas coisas tão detalhadas, Victoria era uma mulher prática. Mas estava fazendo isso por mim. Apesar do ambiente mais romântico, ela estava vestida como sempre. Um shortinho jeans um pouco velho que ela adorava usar por se sentir confortável, uma blusa branca de alças finas e o cabelo solto levemente molhado nas pontas.
Mordi o lábio para conter um suspiro apaixonado e me aproximei mais silenciosamente que pude, observando o jeito que ela apoiava o celular entre a orelha e o ombro e terminava de ajeitar os talheres. Senti o cheiro dela invadir meus pulmões, sobrepujando qualquer outro.
–Está tudo correto, mademoiselle Victoria – comentei quando me recuperei do golpe daquele cheiro tão gostoso.
–AIJESUSCRISTO!
Victoria deu um pulo tão estranho por causa do susto que deixou o celular cair ao chão. Ela levou a mão para o peito e ofegava, eu não sabia se ria ou se pedia desculpas pela falta que tinha cometido.
–Elizabeth Aimeé! – ela exclamou brava e depois congelou – Não, não! Você não devia ter chegado agora, eu não terminei de arrumar o jantar!
–Supostamente eu estou atrasada no horário normal que chego em casa – comentei com um sorriso tímido – Mas se estava esperando me surpreender, não te preocupas, estou bastante surpresa.
–Ah merda – Victoria deixou os ombros caírem e fez um bico triste – Mas não era para ser assim, porra sempre que tento fazer algo especial não dá certo. Está vendo como não sirvo pra essas coisas? – ela levou a mão a nuca sem jeito – Atrasei para achar o jantar, você sabe que eu não cozinho, mas não queria pedir as coisas comuns – um suspiro exasperado – Mas aquela bruxa na fila só tava atrasando as coisas!
Ela estava mesmo abalada por ter saído diferente dos planos. Eu a fitava ali, parada entre a sala e a cozinha, brava e acuada ao mesmo tempo, tentando fazer algo romântico para mim. Naquele momento eu tive certeza absoluta que ela me amava. Por que? Victoria era uma típica mulher moderna, independente, festeira e pegadora. Mas agora ali estava a linda brasileira, preparando algo para mim, se preocupando em como posicionar os talheres, escolhendo comida, arrumando o cenário romântico. Eu me sentia derreter por completo ao perceber cada uma dessas coisas. Soltei um suspiro apaixonado, deixei a minha bolsa cair de meu ombro ao chão, produzindo um pequeno som ao impacto, aproximei de Victoria e a agarrei de surpresa, colando meus lábios aos dela apenas pressionando com um pouco de força e mantendo por mais tempo que deveria durar um selinho.
– C'est beau et parfait, mon amour – murmurei contra seus lábios – Eu não pensava que poderia me apaixonar ainda mais por você.
–Ok – ela murmurou também, abrindo um sorriso aos poucos – Isso porque você não sabe o que é o jantar.
–E o que seria? – afastei um pouco o rosto para poder fitar aqueles olhos que continham o meu tom de azul favorito.
–Blanquette de veau e de sobremesa crème brûllée.
–Culinária francesa?!
–“Oui” – Victoria respondeu rindo – Abriu um novo restaurante, a dona é uma velha conhecida e preparou para mim. Consegui saí mais cedo do trabalho e tive essa brilhante ideia que não deu muito certo mas...
A interrompi com um novo beijo, dessa vez um agitado e animado, apesar de curto. Eu podia sentir meu peito borbulhando em júbilo. Seria possível existir alguém com defeitos e ainda sim ser o ser mais perfeito que existe no mundo?
–Façamos assim – Vic pegou minhas mãos e as apertou – Vá tomar um banho enquanto eu termino de arrumar. Ah, posso pegar seu notebook? Eu coloco para reproduzir todas as músicas que tiverem nomes estranhos.
–Carla Bruni, coloque as músicas dessa pasta.
Dei um último beijo nela antes de pegar minha bolsa e correr para o meu banho. Deus, eu parecia que teria meu primeiro encontro ali. Tal pensamento fez meu coração já disparado quase desfalecer. Não poupei esmero ao me arrumar, escolhendo um bonito e simples vestido branco, respingando um perfume suave no pulso e no pescoço, passando uma maquiagem leve. Ao sair do quarto e chegar a sala, Victoria terminava de acender as velas. A iluminação estava baixa, apenas a luz da sala acesa deixando o lado da sala de jantar mais obscurecido. A voz de Carla Bruni estava baixa e melodiosa em algum canto.
Aproximei de Victoria quando ela assoprava o fósforo, escutando meus passos ela virou o corpo e abriu um sorriso que rasgou meu coração em vários pedacinhos. Abri um sorriso sem jeito, tímido e apaixonado, abaixando o olhar e me aproximando mais lentamente. Escutei um suspiro vindo dela antes que a brasileira pegasse minha mão e a beijasse de maneira casta.
–Eu não sei dizer isso de uma maneira rebuscada – Victoria disse com a voz intensa, obrigando-me a fita-la e mergulhar naqueles olhos azuis – Mas você é a mulher mais linda que eu já vi. E-eu... Deus, eu nem sei buscar palavras para dizer só o que te ver causa em mim, estou ficando nervosa aqui então isso é o máximo que irá conseguir de mim agora, ok?
–Oui. É mais do que suficiente, mon amour.
Fiquei na ponta dos pés para mais uma vez tomar aqueles lábios para mim em um beijo apaixonado. Victoria prontamente envolveu minha cintura com seus braços, me apertando forte contra seu corpo. Enlacei seu pescoço, entregando-me completamente ao beijo que se mostrou lento, gostoso, nosso. Sem tempo, sem pressa, sem domínio. Apenas nossas bocas e língua se envolvendo, se acariciando, se amando a sua maneira.
–Devo fazer uma coisa assim mais vezes, você não para de me beijar – Victoria sussurrou.
Eu ri e ela me apertou um pouco mais antes de me soltar e roubar mais um selinho. Victoria ia sentar e eu já estava me dirigindo para o meu lugar a mesa quando ela soltou uma expressão de exclamação chamando minha atenção. Ela bateu na própria testa, levantou rapidamente e foi puxar a minha cadeira.
–Ia esquecendo disso, é falta de costume – Vic disse em tom de desculpas.
–Merci, madame – disse sorrindo e não reclamando do agrado.
Victoria também sorriu e deu um beijo em minha bochecha. Ela também estava extremamente carinhosa naquele momento. Observei a comida a mesa, meu estômago reagindo prontamente demonstrando-se faminto e saudoso. Não me fiz de rogada e comecei a me servi quando vi Victoria abrindo o vinho e preenchendo nossas taças.
–Eu poderia questionar o por que? – indaguei sem aguentar a curiosidade.
–Por que o que? – ela rebateu distraída.
–Porque decidiu isso? Essa surpresa?
–Fiz um trabalho com tema francês, fiquei pensando em você mais do que o normal e olha que eu penso muito – Victoria ia falando naturalmente, começando a se servir também – Foi então que eu pensei que você deveria sentir falta de casa, apesar de saber que gosta daqui. Claro que gostaria, está comigo, mas enfim. Pensei que poderia fazer algo quanto a isso, te dá um gostinho de casa. Então lembrei que Bernadete tinha aberto o seu próprio negócio e corri atrás, pedi para minha chefinha me liberar e pan, aqui estamos.
Victoria bebeu um pouco do vinho, diretamente, sem balançar ou fazer qualquer outra das coisas que um rico faria. Ela não deixava de ser ela, uma garota brasileira de classe média, sem deixar de xingar para se expressar ou falar de maneira simples, cheia de vícios de linguagem. Vestida de maneira simples, improvisando um cenário romântico. Victoria era uma mulher simples, espontânea, sem medo de falar. Deus, isso era tão encantador! O valor do ato que ela tinha feito, pensado em mim, ter cogitado como eu me sentia longe de casa e ter providenciado algo para amenizar isso... Eu encontrava-me em um ponto de emoção que me deixava sem palavras.
–Fiz mal? – Victoria interpretou errado o meu silêncio – Algo não te agradou? Olha eu sei que sou um pouco... Sei lá, rústica? Sem essas frescuras burguesas e acho que nunca serei, mas eu meio que tentei e...
–Não quero que pense assim – a interrompi e busquei sua mão sobre a mesa, entrelaçando nossos dedos – Eu só estou encantada com tudo o que você fez. Percebe que fez algo para mim sem esperar nada em troca?
–Quem disse que não? Estou ganhando beijinhos e olhares apaixonados! – Victoria tentou desviar.
–Isso tem de mim todos os dias, mademoiselle – abri um sorriso derretido – Mas o fez para mim, por mim, preocupou-se com meus gostos apesar de achar algumas coisas fúteis e inúteis.
–Ah bem... Sim, isso ai – Victoria encolheu na cadeira, sem jeito, corada e acuada – Se você gostou, vou ter cumprido minha meta. O que tem de mal nisso?
–Quando faria isso no passado, antes de me conhecer?
–Sabe que nunca. Eu não sou tão... Romântica, mas é você e eu apenas pensei, eu só achei que...
–Merci – a interrompi antes que se embaraçasse mais com as palavras – É uma das coisas mais lindas que já fizeram por mim. Mesmo sendo simples, mas tem um valor inestimável por ter sido feito por você a sua maneira – sorri mais ainda antes de soltar nossas mãos – Você fala mais com ações do que com palavras, Victoria.
Foi falando isso que eu percebi, finalmente. Ela já não era mais a mesma de antes. Estava ali, me cortejando, flertando e cuidando. Foi uma mudança até sutil, que nem mesmo eu percebi tão rapidamente. Apesar da diferença ser gritante, meus olhos abriram-se para a realidade apenas agora. Henrique estava errado. Victoria não precisava me pedir em namoro ainda, por mais que ela soubesse que já estávamos juntas. Acreditava que ela precisava do tempo dela, de absorver as coisas e a aceitar, para então por em palavras o que nós éramos. Porém, por enquanto, eu iria me contentar com cada ação surpreendente que Victoria tinha a me oferecer.
–Isso me lembra uma certa vez quando minha irmã Cassie acertou um escargot na cabeça de um garçom – disse saudosa, com um brilho nostálgico no olhar, não contive o pequeno riso – Papai ficou tão sem jeito e furioso com ela, mas depois estávamos eu e ela rindo das expressões de papai.
–Escargot são aqueles caracóis? Como vocês comiam isso?
Embarcamos em uma conversa sobre os diferentes costumes da Europa e o Brasil. Era uma conversa suave, com algumas histórias minhas que fazia Victoria rir e me deixar com uma ponta de saudade aguda em meu peito. Porém ela estava certa, ali era meu lugar agora, ao lado daquela mulher, vivendo uma vida simples e tão enfeitada de coisas pequenas e ao mesmo tempo intensas.
Fale com o autor