Ma Chérie

24 Festival de Primavera - Primeiro Dia


Notas iniciais
JC obrigadão pela recomendação. E eu sei que vcs vão adorar esse capítulo

Pov Vic

Finalmente o Festival Primavera! Eu estava contando cada hora, cada minuto e até os segundos para esse momento. Eu tinha certeza que a pediria em namoro nesses três dias de festa musical, apesar de não saber ainda muito bem como.

A viagem havia sido extremamente longa. Pegamos um voo de madrugada para Salvador, capital da Bahia. De Salvador, uma balsa para Valença, uma cidade mais ao interior. De Valença, outra embarcação para chegar em fim ao Morro de São Paulo. Por sorte éramos um grupo agitado e animado, ou aquelas longas horas seriam tediosas e doloridas. Estava, além de mim e Elizabeth, Pierre, Anne, Ian, Arthur e Susana, os amigos de Anne. Aquela não era a minha primeira vez no festival, nem a do Pierre, mas o era dos outros. Eles estavam encantados com a Bahia, com a paisagem e o jeito com que os baianos nos tratavam. Era “meu nego” para cá “oxe” para lá. Além de um sorriso e jeito simples.

Uma das necessidades de tanta viagem por barcos, é que em Morro de São Paulo era proibido o uso de carros e motos. Uma das formas que o governo local encontrou de preservar aquele pequeno paraíso. Assim que desembarcamos, tiramos fotos e mais fotos da entrada que era um arco de pedra. Todos estavam animados, o lugar estava completamente lotado de turistas de todos os lugares, inclusive de vários locais da própria Bahia e estrangeiros.

O vilarejo que havia ali era bastante singular, era simplesmente uma rua única. Exatamente, apenas subida e descida. Tinha uma praça que era o ponto mais aberto, depois para todos os lados haviam lojas para turistas e de conveniência, restaurantes, pousadas, lanchonetes. Quanto mais para baixo, mais perto da praia. O lugar era rústico, praieiro, simples em alguns pontos, luxuoso em outros. Pierre havia conseguido alugar quartos em uma pousada na Segunda Praia, onde aconteceria o festival. Não era um lugar de cinco estrelas, mas eu estava mais feliz do que tudo por meu quarto ter vista para o mar.

–Vic? Poderia me ajudar com a bagagem?

Liz pedia na porta, eu havia abandonado tudo para poder ir até a varanda e inspirar aquele ar de praia. Abri um enorme sorriso e peguei toda a nossa bagagem. Exatamente isso, dividiríamos o quarto, com uma cama de casal por só ter quartos de casais disponíveis quando Pierre entrou em contato. O destino me sorrindo? Esperava que ele continuasse com esse bom humor!

–Isso aqui é tão lindo! – Liz exclamou finalmente indo para a pequena varanda do quarto.

–Espere para ver quando estiver mais lotado – disse a abraçando por trás, apoiando o queixo em seu ombro – Irá lotar ainda mais, pessoas vindo de Gamboa e praias vizinhas.

–Mas não ficará desconfortável com tanta gente? – ela disse hesitante, eu sabia que ela odiava a multidão.

–Não. Obviamente quanto mais perto do palco, maior a aglomeração. Mas veja a extensão da praia, há vários pontos para ficarmos sem passar nenhum tipo de aperto – expliquei e a beijei no pescoço sem malicia, apenas porque precisava – Raramente há brigas, é uma vibe positiva e contagiante, mon ange.

Ela sorriu e apoiou a cabeça em meu ombro, assim como depositou seu peso em meu corpo. A embalei e olhei tudo ao redor. A Segunda Praia estava pronta para o festival, com o palco logo no inicio dela. Sim, o evento todo aconteceria na praia, tendo como chão a areia e o mar logo próximo. Ao final da Segunda Praia havia um espaço singular chamado Ilha dos Namorados.

–Quer descansar? – indaguei depois de um tempo, a sentindo muito quieta em meus braços.

–Oui – ela bocejou – Foi uma viagem divertida, mas cansativa.

Dei-lhe um beijo na bochecha antes de me afastar e deixa-la escolher qual seria o lado de sua cama. Tudo bem, eu estranhava um pouco ela não fazer um mísero comentário sobre a cama de casal, mas quem seria eu a iniciar esse tipo de conversa para correr o risco de dormir no chão? Avisei que iria tomar banho e que preferia ir descer para beber e relaxar com a galera. Assim que saí do banheiro, trajando um shortinho confortável, blusa estampada em tons de azul e havaianas nos pés, encontrei Liz em um sono profundo na cama, sem nem ao menos ter tirado as suas roupas. Foi impossível não parar por alguns segundos e admirá-la dormir como o mais belo dos anjos. Contive um suspiro e me aproximei, cobrindo aquele corpo delicado com a coberta sabendo que logo esfriaria um pouco. Depositei um beijo cuidadoso em sua testa e acariciei a bochecha dela com carinho antes de me afastar.

O que aquela mulher tinha feito comigo? Eu nunca havia me imaginado uma mulher tão cuidadosa com outro alguém. Porém quando dava por mim, eu já tinha feito coisas que não faria normalmente no passado. Se era por Elizabeth Aimeé, valeria a pena. Ao entrar no saguão da pousada, Pierre e Ian já estavam se enturmando com alguns outros turistas. Logo estávamos do lado de fora, sentados em uma das mesas que ficava próxima da passarela que havia ali. Bebemos cervejas e alguns drinks, comemos petiscos e rimos muito sobre diversos assuntos.

–Sério que uma moça assim como você é lésbica? – Iago, um dos turistas que conhecemos, mineiro com forte sotaque, indagou desanimado ao descobrir a minha condição – E eu achando que estava conseguindo algo aqui.

–Mais fácil a Mel conseguir algo do que você – Ian comentou rindo mais alto que o normal por causa da bebida.

O grupo novo era pequeno. Iago era alto e pardo, com ombros largos e um corpo não muito definido, mas ainda assim chamava a atenção pelos longos fios negros de seu cabelo que ia até o pescoço. Melissa, ou Mel, era uma garota loira desinibida e com uma risada engraçada que fazia sempre que todos rissem junto com ela. Marco era o seu namorado, um italiano que também vinha curtir o festival e as maravilhas do Brasil, em resumo, aproveitar a namorada em um lugar paradisíaco. Ele entendia perfeitamente o português, por isso quando Ian insinuou aquilo ele remexeu no lugar me fazendo rir.

–Desculpa cara – falei olhando para Iago – Mas eu estou estragada para qualquer outra pessoa.

–Não me diga que está apaixonada! – Mel exclamou surpresa.

–Ela está de quatro por uma ruiva – Pierre dedurou e balançou a cabeça em negação – Perdi uma amiga de guerra, ela está fora da batalha das conquistas.

–Por aquela mulher eu virava qualquer coisa – afirmei sem temor, o que me surpreendeu levemente, era tão fácil assumir que era de uma garota só!

–Espero que aquela mulher seja eu, Victoria.

Eu estava sorrindo assim que escutei aquele sotaque francês sonolento atrás de mim. Iago tinha a boca aberta, encarando um ponto atrás de mim enquanto admirava aquela que viria ser a minha mulher em algum ponto da viagem. Levantei e deparei-me com uma Liz completamente delicada e praieira, quase tive a mesma reação de Iago. Eu nunca me acostumaria com aquela beleza estonteante e delicada. Liz tinha um vestido floral um tanto curto demais, seu cabelo vermelho trançado de maneira desleixada caía sobre seu ombro.

–Dormiu bem, mon ange? – perguntei afastando meu corpo da cadeira e puxando para que ela sentasse.

–Oui, párdon non está aqui com você desde o início, mas eu estava desgastada da viagem – ela pediu naquele jeitinho todo fofo e educado.

Ela sentou, coluna ereta, pernas cruzadas, mãos sobre o joelho, olhar aguçado e naturalmente inteligente. Era uma dama, independentemente de suas roupas ou local. Puxei uma cadeira e a coloquei ao seu lado, prontamente Liz buscou a minha mão e eu entrelacei nossos dedos.

–Meu Deus, ela se transformou – Iago comentou rindo – Onde está aquela garota despojada e boca suja que estava aqui agora a pouco?

–Apaixonou-se, meu caro – ri sem jeito.

–Apresente sua garota – Mel pediu sorrindo solidária.

–Ah, pardon, mas mademoiselle Victoria não me pediu em namoro – Elizabeth não perdeu a chance de alfinetar.

–Ainda não – acrescentei rapidamente.

–Pensei tudo de você, Victoria – Marco disse com forte sotaque italiano – Mas nunca pensei que a bambina seria lerda.

Pierre e Iago explodiram em uma gargalhada e eu fingi uma cara emburrada. Mas logo deparei-me com um sorriso divertido de Liz e ganhei um beijo em minha bochecha. Era impossível ficar brava daquele jeito. Em pouco tempo, Liz e Pierre engataram em uma conversa europeia com Marco, falando de coisas que eu não fazia ideia do que fosse. Enquanto isso eu, Iago, Ian e Melissa falávamos de futebol com vigor. Anne e os outros haviam simplesmente apagado em seus quartos e ninguém ousaria interromper o casal ou acordar a pequena japonesa.

A noite chegou e Liz arrastou-me para o quarto para que eu pudesse descansar antes do primeiro show acontecer, mais tarde.

(...)

As nove horas da noite o lugar já estava completamente tomado de turistas. Julia Moreno, uma das cantoras convidadas, começava o seu show. A segunda praia estava completamente estruturada para o evento. De um lado, o mar, no outro extremo, as pousadas, a passarela e uma fileira de mesas pertencentes as pousadas que continham restaurantes. Sobre cada mesa, havia saquinhos coloridos com velas dentro, dando um ar extremamente confortável e até romântico. Entre a praia e a passarela, havia a festa em si. O próximo ao palco encontrava-se a maior parte da aglomeração. Em uma linha imaginária, no meio da segunda praia, havia barracas de bebidas e até mesmo comidas, como churrasquinhos, crepes e cachorro quente.

Estávamos em um ponto entre o palco e a linha de barracas. A maioria com bebidas e drinks nas mãos. Julia Moreno tacava basicamente música popular brasileira, que variava de covers de Maria Gadú à Legião Urbana, tendo como instrumento básico o seu violão. O ponto onde estávamos era tranquilo, sem muita gente, mas sempre passando pessoas, com grupos próximos ou se locomovendo de um ponto para outro.

Eu estava em um estado em que não poderia descrever. A música boa, o clima bom e fresco da praia, uma turma de amigos divertidos e barulhentos na medida certa. E tinha a Elizabeth. Ela estava completamente deslumbrante. Vestia um vestido vermelho escuro tomara que caia, nos pés tinha uma rasteirinha delicada, mas ela logo se incomodou e a tirou, deixando junto com outros calçados no centro do círculo. O cabelo ruivo esvoaçava com o vento, tamanha a delicadeza que era os seus fios vermelhos. Ela estava deslumbrante e encantando a todos, era difícil alguém passar e não nota-la. Porém esse não era o principal ponto. Eu nunca a tinha visto tão solta, com tantos sorrisos sinceros e divertidos. Seus olhos castanhos mantinha um brilho constante. Ela dançava suavemente, se envolvia com os outros rindo e brincando, mas sem perder aquela aura de princesa que a acompanhava naturalmente.

–Deveria parar de babar – escutei Pierre pirraçando ao meu lado.

–Eu não consigo, olhe como ela está – nem consegui ficar brava, bebi um pouco da batida de morango que tomava. Liz conversava com Mel parecendo comentar algo sobre roupas praieiras e seus absurdos – Eu estou feliz por ela estar feliz, isso tem lógica?

–Sou um ser egoísta, está mesmo perguntando isso para mim? – Pierre questionou e depois riu balançando a cabeça – Mas se eu estivesse apaixonado, acho que diria que sim – ele semicerrou os olhos – Vamos fazer um teste. O que você acha daquela morena?

–Aquela perto da mesa de acarajé?

–Sim, ela mesma.

–Hum... Ela é mais alta do que eu, não tem uma bunda como a da Liz...

–E aquela do outro lado, a de vestido bem curto?

–Pernas malhadas demais, parece homem – fiz uma rápida careta – Mas a do lado dela até que é bonita, tem cintura fina, seios fartos...

–Pardon, mas posso saber o que tanto vocês dois conversam?

Liz havia se aproximado mais e provavelmente deve ter pegado uma parte da conversa. Abri um sorriso, ignorando o olhar um pouco sério que ela dirigia de mim a Pierre. Afinal de contas, nenhuma outra garota tinha graça para mim quando eu tinha aquela deusa ruiva.

–Apenas comentando sobre algumas mulheres – fui sincera.

–Oh, um debate entre pegadores apreciando a fisionomia feminina? – Liz perguntou começando a usar o tom educado demais, ela estava com ciúmes.

–Se você está perguntando se a gente estava olhando outras garotas e seus corpos, sim – dei de ombros, falando naturalmente – Nada demais.

–E você ainda admite que estava olhando outras mulheres?! – o tom dela agora era ultrajado.

–Liz, olhar não é pecado, eu estaria mentindo se dissesse que não estava. Não é porque eu estava olhando que eu vou tentar alguma coisa.

–Pois bem – os ombros dela ficaram eretos, seu queixo ergueu-se orgulhoso – A deixarei discutir sobre as vantagens das outras garotas.

–Liz não exagere... – Pierre tentou interceder.

–Não o estou, mon ami, pelo contrário do que afirma. Estou dando espaço para que prossigam. Vou com Anne e Ian passear.

Ela não me deu chance de argumentar. Girou nos calcanhares, o cabelo ruivo seguindo o movimento como um efeito. Liz afastou-se com Ian e Anne, ambos já mais pra lá do que pra cá no nível de álcool. Pensei em segui-los, mas Pierre começou a rir.

–Vai lá cachorrinho, atrás dela – ele provocou.

Daquela vez, me senti atingida com aquelas palavras. O que tinha demais no que eu disse? Eu só havia sido sincera! Elizabeth nem ao mesmo me deu espaço para que dissesse que nenhuma das outras me encantavam como ela fazia. Preferiu agir com ciúme. Pois bem, que ela saísse, ela era livre para isso. Aproximei mais do grupo sem conseguir esconder bem o meu mal humor, acabando por aceitar o copo com whisky e energético que Iago me ofereceu.

Dez minutos se passaram e meus olhos já buscavam por Liz, onde ela estava? Quinze minutos. Será que muitos caras estariam babando nela? Trinta minutos. Onde ela estava que não voltava?! Comecei a ficar ansiosa, a queria perto de mim ao mesmo tempo em que tinha raiva por ela estar levando aquela coisa a sério demais. Como ela conseguia ficar tanto tempo longe quando eu estava para ter um surto. Deus, eu odiava essa dependência, mas também não sabia como fazer parar.

–Vou procurar pela Liz – anunciei finalmente.

–Au au – Pierre pirraçou.

–Vai se foder – disparei.

Ele gargalhou, já com a mente alta. Resmunguei baixo e comecei a andar pela areia. Minha mente fervilhava enquanto meus olhos buscavam por Liz. Porque ela ainda duvidava de mim? Ela já não conhecia esse meu jeito? Já não sabia que eu era sincera a ponto de ser cara de pau, mas ainda assim deixando claro as coisas? Talvez fosse por ainda não termos nada. Não éramos namoradas e naquele momento ela podia estar pensando isso enquanto alguém flertava com ela. Tal possibilidade me fez procura-la mais ainda, me deixando ainda mais frustrada quando não a encontrei.

O show de Julia Moreno já estava finalizando, sendo seguido por um irritante comercial da Tim. As pessoas começavam a se movimentar, indo para as barracas, mudando de local. Agora que seria impossível encontrá-la! Mas então, Flávia, apresentadora do Festiva de Primavera, subiu ao palco e cumprimentou o público.

–Eu tenho aqui em mãos duas passagens para a tirolesa! – Flávia anunciou – Que tal brincar um pouco enquanto Ju Moraes, atração principal dessa noite, não se apresenta? – poucas pessoas se agitaram – Tem alguém apaixonado ai? Então, para ganhar essas passagens, quero ver o corajoso que vai subir aqui e fazer uma bela declaração de amor!

Meus olhos se abriram prontamente. Era a minha chance! Comecei a correr para a frente do palco, sem me importar em esbarrar em pessoas e empurrar. Tive de gritar com os seguranças e passar na frente de um garoto já bêbado. Então me deixaram subir e finalmente eu tive uma visão que me fez congelar. O lugar estava tomado por uma multidão na praia, e todos eles iriam me ouvir. Engoli em seco pensando em desistir prontamente.

–Olha que surpresa, temos uma garota querendo fazer uma declaração! – Flávia fez sinal para que me aproximasse – Qual o seu nome?

Alguém me entregou um microfone. Como eu me chamava mesmo?

–Ah, bem, Victoria, mas pode ser só Vic – disse totalmente sem jeito.

–Então Vic, você está apaixonada por alguém?

–Perdida e ferrada por causa disso. A garota surgiu e boom, mudou toda a minha vida.

–Uma garota! Isso é muito legal de sua parte ter coragem para fazer uma declaração aqui. Mas amor é amor e todo o tipo deve ser respeitado! Então vamos lá, faça a sua declaração de amor.

Meu Deus, o que eu iria dizer? Como colocar em palavras o que eu sentia? Como me declarar para aquele mar de pessoas pensando em apenas uma, que aliás, estava bravinha comigo?

–Ei Liz, sei que você vai estar me escutando de onde quer que você esteja – comecei nervosa e pigarreei ao sentir minha voz começar a vacilar – Mas acho que vou deixar claro algumas coisas aqui para você e acho que só para esse pouco de gente que ta prestando atenção em mim. Desde que você entrou em minha vida, todas as outras garotas perderam completamente a graça. Elas não tem o seu sorriso meigo e gentil. Muito menos tem um tom de cabelo vibrante durante o dia, mas que ao entardecer fica levemente mais escuro. Nenhuma outra tem esses olhos de chocolate tão expressivos, eu sei quando eu to fodida só quando você me olha de cima e franze levemente as sobrancelhas. Ou quando estou fazendo as coisas certa quando você me olha como se eu fosse alguém realmente importante... Puta que pariu, perai que meu coração ta disparado demais – afastei o microfone e vi Flávia sorrindo grande, respirei fundo e voltei a encarar a multidão – Eu sei que eu fui idiota de demorar tanto, mas acho que vou aproveitar aqui e dizer que acho muito digno que quando eu descer e te encontrar, você aceite ser minha namorada. Ok? Ok. Valeu, obrigada.

Flávia riu perto do microfone e se aproximou, passando um braço em meu ombro e falando algo com o público que eu mal escutei. Encarava ao chão envergonhada. No fim, acabei ganhando as passagens para a tirolesa. Que era uma coisa sinistra de tão alta, custando oitenta reais só para ser usada. Eu sai do palco e olhei ao redor com a esperança de encontrar com Liz logo ali e ter minha resposta. Mas não a encontrei, mais uma vez. Deixei escapar um suspiro, talvez fosse melhor voltar para a galera e ser zoada eternamente pelo que eu tinha feito. Estava em meu caminho de volta, escutando algumas pessoas desejando boa sorte, alguns comentários desnecessários dos garotos e até umas meninas mais bêbadas dizendo que me aceitavam em namoro. Nisso eu não podia segurar o riso, era tão idiota que chegava a ser engraçado.

Eu estava tão distraída e até mesmo desanimada, que quando um corpo se chocou contra o meu e braços envolveram meu corpo, eu quase caí para trás. Ah, mais um copo de bebida e com certeza eu não teria aquele equilíbrio todo. Tudo o que eu vi foi fios vermelho a minha frente e senti o cheiro de uma fragrância suave. Então eu não precisei ver aquele rosto que eu tanto amava, sabia quem era. Liz me apertava contra seu corpo revelando uma força que eu desconhecia até aquele momento, mas se eu reclamei? Claro que não, mesmo que fosse apenas alguns minutos longe dela, eu sentia a saudade mesclada ao alívio que tive ao finalmente encontrá-la.

–Êtes-vous fou! – ela exclamou finalmente me fitando e afrouxando o aperto.

–No meio dessa frase não escutei nenhum “oui, mon amour” – reclamei fazendo bico e depois respirei fundo – Havia mais coisas que eu queria falar, mas eu queria que apenas você escutasse – então aproximei os lábios do ouvido dela, soltei um longo suspiro – Eu amo você como nunca pensei ser capaz de amar, ou até mesmo acreditei ser possível. Eu era uma ignorante quanto a relacionamentos, sem esperanças ou fé de que um dia encontraria algo assim. Mas encontrei. Por favor Aimeé, seja minha, eu não quero passar mais um dia sem poder te chamar de minha garota – engoli em seco e falei ainda mais baixo, totalmente sem jeito — Vous voulez sortir avec moi?

Eu havia ensaiado com Pierre aquela frase. Eu a estava pedindo para ser o meu amor. Quando afastei o rosto, deparei-me com uma Liz de olhos castanhos marejados, os ombros baixos e uma expressão de fragilidade que me preocupou.

–Eu posso esperar o tempo que você precisar, eu só pensei que estava na hora e você tinha sumido e eu queria você por perto e eu sei que você ficou zangada e...

Eu estava disparando a falar de tão nervosa, mas Liz calou-me com um selinho. Então a vi sorrindo de uma forma tão linda que eu podia derreter ali mesmo, só porque sabia que aquele sorriso era para mim.

–Oui, mon amour – ela finalmente respondeu — Je t'accepte.

–Ah cara, eu só preciso entender o Oui! – exclamei explodindo de felicidade, dessa vez sendo a minha vez de agarrá-la com força – Eu prometo minha menina, eu prometo que vou tentar fazer você não se arrepender. Eu não sei namorar, mas eu vou dar o meu melhor pra ti. Eu te amo, eu te amo tanto, tanto!

A escutei rir, uma risada gostosa e sincera, uma que me contagiou e me fez dar vários beijos por aquele rosto lindo e delicado enquanto ria. Liz segurou em minha mão e se afastou um pouco, parecendo ter em sua boca um sorriso imortal.

–Onde estava? Eu passei boa parte do show te procurando – comentei franzindo o cenho.

–Ian encontrou uma estrangeira austríaca e eu o ajudei – Liz explicou – Não concordo muito com essas coisas de ficar por uma noite, mas ele me garantiu que faria de tudo para ficar só com ela durante o resto do festival. Tive isso como um romance de verão e decidi ajuda-lo.

–Eu entrando em desespero pensando que você poderia estar recebendo cantadas quando na verdade você que estava bancando o cupido – reclamei e revirei os olhos.

–Eu não gostei da forma que você estava olhando para aquelas garotas – ela confessou e abaixou os ombros tímida – Eu sei que é errado de minha parte, no momento foi mais forte do que eu pude controlar.

–Espero não ter de repetir aquele discurso todo, ou melhor, eu pego qualquer um aqui que me escutou para repeti-lo – ri e segurei o seu rosto entre as mãos – Mas posso resumir aqui mesmo. Você é, definitiva e sem sombras de dúvidas, a garota mais linda que eu já conheci.

Liz começou a corar forte e sorrir. Eu não pude resistir por mais tempo, levei uma mão a nuca dela e a puxei para um longo beijo apaixonado. Aquilo selou o evento mais importante de minha vida. O que eu pedia a mulher de minha vida para ser apenas minha.

Depois do beijo, retornamos para a turma e, como eu previ, fui provocada pelo resto da noite. Mas nada disso importou, pois também pelo resto da noite, Liz não se afastou nem dois metros de mim. Ela não conseguiria ficar longe, assim como eu também não o conseguiria, e sabe? Nem mesmo queria algo assim.

Notas finais
Aleeeeluia né gente? hauhauahuahauh vou por aqui algumas imagens pra vcs poderem ter uma ideia de como o lugar é lindo. Segunda Praia - http://s2.glbimg.com/50mNqTHQ6Ivi2Wd8ePCEhzCn9dNrUaH2Hhi72d-W3hxIoz-HdGixxa_8qOZvMp3w/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2013/03/22/morro-de-sao-paulo.jpg Na vila é tipo um caminho único, subida e descida, nem tem como se perder, a cada lado tem uma coisa diferente -> http://blog.morrodesaopaulobahiabrasil.com/wp-content/uploads/2012/03/DSC00295.jpg Praça da Vila -> http://www.morrodesaopaulobrasil.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/04/vila5.jpg Próximo capítulo tem mais imagens dos lugares.