MUDANÇA DE CORAÇÃO
3 Eu estava sufocando no meio da multidão
"Eu estava sufocando no meio da multidão
Elevando minha chuva até uma nuvem
Que caía como cinzas no chão
Esperando que meus sentimentos se afogassem
Mas eles nunca se afogaram, sobreviveram, livres e soltos"
— tradução do trecho da música Believer de Imagine Dragons.
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Pansy Parkinson arrumou seu cabelo pela quinta vez mas seu cabelo não ficava da mesma maneira que ela imaginava, a franja longa enrolando lateralmente perto dos olhos, os cabelos loiros em Chanel; já tinha perdido a conta de quantas maneiras diferentes já tinha cortado e pintado seu cabelo.
— Será que eu ficaria sexy ruiva? – perguntou para seu reflexo no espelho. O reflexo mudou a cor do seu cabelo para ruivo fazendo Pansy rir. – Talvez sem a franja – divagou e o espelho novamente modificou seu cabelo, fazendo Pansy abrir um sorriso enorme. – Definitivamente sexy.
Após mandar um beijinho para o espelho que fingiu desfalecer, a loira saiu do quarto com a roupa de formatura em Política Bruxa e já tinha um cargo a sua espera na assessoria política no ministério, o que não agradou sua mãe que esperava que com seus vinte e três anos ela estaria cuidando de pequenos herdeiros.
Lembrou-se de quando pediu permissão para entrar numa faculdade e sua mãe gritou com ela durante uma semana, chegando a fazer chantagem emocional, o que quase levou Pansy desistir se não fosse Hermione a apoiando durante todo o processo. Sorriu com a lembrança enquanto descia as escadas da Mansão Parkinson que quase perdera quando sua mãe passou a ameaçá-lo logo após se matricular no curso que ficava em uma faculdade ao sul da Irlanda do Norte.
— Perdão pelo atraso – se desculpou com a mãe que já estava pronta a trinta minutos a esperando decidir qual penteado usaria hoje. A festa seria feita em um castelo em Belfast e ela tinha convidado todos os seus amigos, o que queria dizer apenas cinco pessoas. Seu pai estava na prisão e sua mãe não tinha outra alternativa a não ser acompanha-la ou passar a noite sozinha em casa, e desde a separação com o marido não existia mais assustador para a sua mãe do que a possiblidade de ser abandonada novamente, o que era triste, mas impediu que sua mãe a expulsasse de casa quando teve uma boa desculpa.
Ao chegarem no lugar sua mãe ficou bastante feliz em perceber socialites conhecidas, o que a levou a abandonar a filha que ficou perdida sobre o que fazer. Cumprimentou alguns colegas de classe com quem conversava, mas que não tinha muita proximidade, pegou uma taça de champanhe e se dirigiu a sua mesa, seja lá onde ela estivesse. Riu quando percebeu Hermione Granger acompanhada de Harry Potter acenando pra ela da mesa.
— Parabéns, Pans! – cumprimentou a amiga, feliz pela conclusão do curso. Olhou para seu cabelo fazendo uma careta engraçada. – Minha nossa, Pansy, eu fico sem te ver por três meses e você já está com uma franja. Maldito dia em que eu abri minha boca pra falar desse cabelo, parece até que eu joguei uma praga – reclamou a abraçando sem nunca deixar o sorriso sair do rosto.
Pansy mostrou a língua, mas só Harry viu.
— Não fala assim do meu bebê – choramingou alisando os cabelos perfeitamente alinhados. – Olá, Harry – cumprimentou o melhor amigo da amiga. Harry sorriu timidamente logo se sentando enquanto olhava de um lado para o outro procurando Draco Malfoy. Desde que começaram a namorar a cinco meses não se desgrudavam. Hermione achou melhor ignorar o amigo e suas paranoias.
— Um dia seu cabelo ainda vai cair – profetizou enquanto aceitava uma taça de vinho de um garçom que passava do seu lado.
— Vira essa boca pra lá, encosto – reclamou enquanto se sentava na mesa. Nenhum amigo seu havia chegado e Hermione, sendo a nerd que era, não poderia deixar de ser pontual, além de arrastar seu amigo que nesse exato momento estava entediado.
— Você é ridícula e eu ainda vou arrancar os fios do seu cabelo quando perder a paciência – ameaçou, mas Pansy não conseguia levá-la a sério, nunca poderia.
— Deve estar passando muito tempo com os Weasleys, está até bruta agora – zombou lembrando-a que a um ano atrás tinha terminado o namoro com Ginny Weasley.
— Mas só fala besteira, eu nem sei o porquê de sermos amigas – resmungou querendo esquecer esse passado sombrio em que tinha pensado que namorar uma garota que até então era hétero era uma boa ideia. Ainda se lembrava claramente de Ginny pedindo para terminar porque tinha se enganado sobre seus sentimentos. A situação feria seu orgulho e Pansy não poderia deixar ela esquecer isso.
— Você ficou encantada com meu jeito de bad girl – flertou piscando para a morena.
— Só se for enojada.
— Não foi o que você disse quando eu te levei na balada antes de um dia de prova – falou chamando a atenção de Harry que já tinha ouvido aquela história um milhão de vezes, revirando os olhos e ignorando as garotas.
— Eu tirei uma nota horrível porque não conseguia ficar acordada durante o teste e você ainda me deu coisas estranhas para experimentar que me fizeram sentir calor em lugares que não irei nomear.
Harry fez careta.
— Ah, parem com essa história, eu não quero imaginar – reclamou escondendo o rosto nas mãos. Hermione fuzilou Harry antes de voltar sua atenção para a loira.
— Ah, meu, eu não aguento me lembrar disso – Pansy começou a rir descontroladamente. – Você começou a tirar a roupa e dançar com toda garota que via na frente!
Hermione queria dizer que não via nenhuma graça, mas, na verdade, era uma lembrança engraçada. Suspirou audivelmente.
— Ainda bem que você me tirou daquele estado deplorável.
— Eu ainda estou emocionada por você ter tentado me beijar – falou sorrindo maliciosamente levantando uma sobrancelha. Hermione sentiu seu rosto começar a esquentar, mas forçou-se a pensar na parte divertida da história e não na constrangedora.
— E você usou aguamenti em mim.
— Bem merecido, sua assediadora! – Pansy empurrou o braço de Hermione.
— Verdade, desculpa – falou Hermione com sinceridade, as sobrancelhas juntas em preocupação. Harry estapeou a própria testa.
— Meu, Granger, você é fofa – comentou a olhando diretamente nos olhos. A morena não sabia o porquê de não conseguir se controlar, seu rosto vermelho e um sorriso tímido no rosto. Foi nesse momento que Draco Malfoy apareceu. Os olhos de Harry chegaram a brilhar e Pansy fingiu vomitar.
— Estão falando de sexo? Porque a cara de Granger está impagável.
— Oh, céus! – Suspirou Hermione virando a taça de vez na boca.
— Está tentando se embebedar de novo? Eu não vou te impedir de ficar pelada hoje! – provocou Pansy sendo fuzilada pela amiga. – Ora, ora, não seja assim, sabe que estou brincando, vou te deixar pelo menos de sutiã.
Dessa vez Harry não conseguiu se controlar, jogou o rosto na mesa rindo loucamente. Draco Malfoy olhou de uma a outra com malícia. Pansy levantou uma sobrancelha pra ele. Antes que a morena pudesse falar algo para se defender, os outros amigos de Pansy chegaram. Blaise Zabine vinha acompanhado de uma ruiva, que Pansy fez questão de prestar atenção tentando adivinhar se a cor ruiva era natural ou não, logo atrás, quase como se tivessem marcado de chegar juntos do Zabini, estava Millicent e Theodore, andando de mãos dadas. Embora o relacionamento deles não tivesse dado certo e Theodore fosse um babaca, Pansy não conseguia se desvencilhar de seu afeto pelo amigo, hoje em dia, realmente sendo apenas um amigo. Com todos os cinco amigos, Penelope, a noiva de Zabine, como logo ficou sabendo, e Harry Potter totalizando uma mesa retangular com nove pessoas.
— Parabéns, Parkinson – Penelope deu três beijos em sua bochecha a felicitando. Depois de Penelope, Zabine se adiantou beijando sua mão como um cavaleiro, sendo imitado por Nott. Millicent a abraçou forte. Hermione e Harry cumprimentaram todos igualmente polido e distantes, nunca tendo realmente se tornado amigos. Hermione ainda guardava suspeitas sobre Nott, mas nada que a impedisse de estar no mesmo ambiente que ele. Depois das histórias que ouvira sobre ele nunca deixou de tentar convencer Pansy de que ela estava praticamente sendo coagida a ter relações sexuais sem estar preparada, argumento rapidamente descartado por Pansy já que nunca fora fisicamente forçada a nada. Hermione sempre mantinha vigilância quando estava perto do moreno, mas, infelizmente nunca conseguiu provar seus atos imorais.
Já eram quase meia noite quando a entrega dos diplomas foi finalizada e todos já estavam meio bêbados. Às dez horas da noite sua mãe tinha ido embora alegando estar cansada, embora Pansy soubesse que ela não suportava estar a tanto tempo perto de uma nascida-trouxa, mas aceitou de bom grado, porque Hermione parecia tão ou mais tensa que a sua mãe. Aproveitando que a mulher mais velha havia ido embora, Draco falou algo no ouvido de Harry o puxando para a pista de dança quando uma música lenta começou. Pansy não conseguia parar de encará-los. Era muito fofo como Draco não parava de sorrir quando estava junto de Harry, não o sorriso maldoso que a maioria das pessoas conhecia, mas um que mostrava suas gengivas e seus olhos se fechavam tanto que pareciam meia lua, um sorriso que forçava todo seu rosto a trabalhar.
Desviou os olhos quando um homem alto e loiro dos olhos castanhos chegou perto de Hermione a chamando para dançar, fazendo com que Pansy fechasse a cara. Fazia dois anos que Pansy tinha percebido que talvez não fosse tão hétero assim, e culpava inteiramente Draco que chegou na sua casa na Irlanda do Norte para passar as férias e a obrigou a ir com ele em boates algbt's em busca de novas experiencias. Na época ela não sabia, mas Draco tinha começado a ter sentimentos por Harry.
Ambos trabalhavam como auror e naquele mesmo ano tinham sido designados para trabalhar juntos e como numa história clichê, depois de quase se matarem acabaram dando uns amassos, o que deixou Draco confuso sobre sua sexualidade e um Harry Potter evasivo que fugiu do loiro por quase um ano inteiro após pedir transferência para outro parceiro. Quando Harry criou coragem para conversar com o loiro, Draco já tinha aceitado seus sentimentos e após um relacionamento casual, Draco pediu Harry em namoro em uma viagem que fizeram a Bruges na Bélgica. Lembrava-se de como ficara tímida no início, mas após observar algumas meninas se pegando na boate percebeu algumas reações vergonhosas no seu corpo, mas tinha sido apenas depois de Hermione ter começado a namorar Ginny que percebeu que talvez não fosse tão amistosa assim com a amiga.
Mesmo depois da negativa de Hermione o homem continuou insistindo, e Pansy notou que a amiga já estava perdendo o temperamento, e inconscientemente alisou a perna da amiga. O vestido de Hermione era rosa e subia até o meio da coxa, exatamente o local onde Pansy estava sonhando passar as mãos, na parte mais alta de suas pernas, no local mais visível para que o engomadinho intrometido pudesse ver.
Quando o homem viu, ao invés de se afastar, pareceu ficar mais animado e colocou a mão por cima da sua, sorrindo para as duas. Quando pensou em levantar a varinha e ameaçar o sem-noção, Hermione já tinha levantado a varinha e, embora não soubesse que feitio ela havia lançado, o homem escondeu o rosto com as mãos reclamando de sentir uma dor enorme enquanto saia correndo. Hermione lhe sorriu vitoriosa, mas não tirou a mão de Pansy, ambas logo voltando seus olhares para Draco e Harry que no momento dançavam agarrados; quase dava para ver Harry enchendo o pescoço de Draco de beijos.
Constrangida, tornou-se autoconsciente da situação em que se encontravam e do que estavam vendo. Olhou para os outros da mesa que estavam muito distraídos conversando com as namoradas, não percebendo o drama que tinha acabado de acontecer. Era quase surreal como ambos conseguiam se fechar em seu próprio mundo e Pansy se perguntou se era assim que casais de verdade, apaixonados, se sentiam.
— Eles não têm vergonha – reclamou Pansy embora não estivesse falando sério.
— Sua mão ainda está na minha coxa – sussurrou Hermione no ouvido da loira que virou para lhe encarar engolindo seco. Seus olhos foram de seus olhos até o corpo da amiga percebendo pela primeira vez o decote suave do vestido, sentindo-se uma pervertida por encarar o colo da amiga tão de perto. Afastou sua mão e cadeira desviando o olhar e torcendo para que a morena não tenha percebido. – Quando você vai me contar? – perguntou Hermione com a voz alta já que estavam mais afastadas.
— Contar o quê? – perguntou de volta nervosa.
Hermione fez uma careta engraçada, mas não respondeu mais nada. Quando um homem moreno e baixo a chamou para dançar, Pansy não pensou duas vezes e se deixou levar, louca para fugir daquele momento de tensão. Quando a dança terminou, ou seja, depois de estar com os pés doendo após dançar umas três músicas, resolveu se sentar. Seus amigos só estavam esperando ela voltar para se despedirem, só sobrando Draco e Harry que não paravam de se beijar, Draco já estava quase sentando no colo do moreno, e Hermione Granger que tagarelava sobre um de seus casos no ministério. Quando já ia amanhecer o dia resolveram ir embora, andaram até o ponto de aparatação do castelo e quando Draco e Harry terminaram de partir, deixando as mulheres sozinhas, Hermione pigarreou.
— Eu pensei em passar o fim de semana na sua casa, se não for incomodo – falou Hermione. – Faz tempo que eu não passo um tempo com você e depois que Harry começou a namorar, Rony casou, Ginny nem olha na minha cara, não tenho muitos amigos pra quem recorrer e eu me sinto meio solitária em casa – completou sorrindo constrangida.
— Então eu fui a última opção? – dramatizou, mas no fundo realmente queria saber a resposta.
— Você é a que mora mais longe e sua mãe não gosta de mim – choramingou puxando Pansy para um abraço, o corpo macio da amiga a apertando enquanto Pansy se obrigava a não prestar atenção quais partes do corpo apertavam quais. – Eu juro que ajudo na mudança – prometeu.
— B-bem... – gaguejou. – Não acho que mamãe vai lhe expulsar, ela anda de muito bom humor, acho até que encontrou um namorado novo – brincou se lembrando de quando contou a amiga do primeiro namorado da mãe após o divórcio; um francês robusto com posses na Irlanda que ria e tudo e qualquer coisa, praticamente um luffa-luffa, segundo a opinião maldosa de Pansy Parkinson, do qual Hermione fez questão de discutir.
Hermione sorriu afastando seu corpo, mas não muito, ainda estando perigosamente perto. Hermione enlaçou suas mãos para que aparatassem, fazendo a boca de Pansy salivar ao sentir a proximidade e de como ela parecia quentinha, aproveitando para entrelaçar seus dedos. Toda vez que ficavam muito próximas, o cérebro de Pansy parecia um viciado procurando qualquer motivo para tocá-la, e a cada instante separadas se pegava fantasiando o que fariam quando estivessem juntas, sobre o que falariam, e quando tinha oportunidade de saciar seus desenhos ingênuos, a satisfação que a tomava era perturbadora. Não era algo que ela pudesse controlar, já que os nossos desejos são como crianças pequenas: quanto mais lhes cedemos, mais exigentes se tornam; e amar nunca foi muito diferente.
Estalou a língua no céu da boca querendo afastar os pensamentos melosos. Não queria pensar que amava a amiga. Atração era algo que Pansy entendia e respeitava, já tivera muitas experiencias, e sabia o que era ter amigos tão próximos, pois conhecia a maioria desde a infância, mesmo que tenha perdido o contato com alguns, mas amar, não sabia nem se amava seus pais, quanto mais uma garota que conversa a apenas seis anos; não fazia sentido. Mas o corpo de Pansy não ligava para o que fazia ou não sentido, porque quando chegaram na mansão e Hermione lhe sorriu, sentiu como se borboletas saíssem do seu estômago.
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