MUDANÇA DE CORAÇÃO

4 É como se este mundo pertencesse a você e a mim


"Sim, parece que podemos entender

um ao outro apenas por um olhar

Meu coração ainda está florescendo

é como se este mundo só pertencesse a você e a mim"

— tradução do trecho da música Time With You de Kyunhyun (do grupo Super Junior).

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Quando Ginny terminara com ela Hermione não se sentiu triste, apenas machucada, seu orgulho estava ferido, mas havia percebido que a algum tempo não a amava mais, e foi por isso que chorou por três dias. Hermione queria dizer que não desistiria de Ginny e que a iria reconquistar, queria viver um amor incondicional na qual enfrentariam obstáculos e ficariam juntas, mas não era possível, não se ela fosse ser sincera consigo mesma.

Abrir mão, deixar ir, desapegar; isso liberta de alguma forma, por mais que nos aprisione em lembranças do que poderia ter sido. Ela era inteligente o suficiente para saber que algum momento do seu relacionamento com a ruiva não sentia mais a euforia do início e, talvez, Ginny nunca tivesse sentido. Deveria ser triste, mas não pelos motivos esperados. Quando completara noventa dias após o fim de relacionamento delas, Hermione aparecera na casa de Pansy chorando, a loira não falou nada, apenas ficou sentada do seu lado servindo chá para as duas.

Você não poderia esperar que Hermione não tivesse notado, afinal, ela era uma das bruxas mais extraordinárias que o mundo já havia visto, para não dizer extremamente inteligente e estudiosa. Hermione tinha notado os olhares demorados, a timidez súbita, os movimentos impulsivos de tocá-la, os pequenos momentos de ciúmes abafados por um sorriso falso que no início pensou se algo normal de amigas, já que diferente das suas outras namoradas, Ginny a conhecia a tanto tempo que acabavam tendo uma intimidade maior. Quando Pansy e Hermione começaram a ficar próximas, Rony parara de falar com ela, obviamente com ciúmes e, embora Harry não fosse tão infantil, percebia que ele ficava desconfortável perto da loira. Por que seria diferente com Pansy? Mas não podia mais negar que a loira estava ficando cada vez mais óbvia.

Hermione queria respeitar o espaço de Pansy mas desde que descobrira começou a pensar na possibilidade de se envolverem romanticamente e a reparar mais na amiga e, pior, percebeu que não era a primeira vez que notava a amiga, mas nunca tinha levado seus pensamentos a sério ou pensado na possibilidade de terem um relacionamento, primeiramente por ela ser heterossexual, nunca tendo demonstrado nenhuma outra inclinação, segundamente por ser a maldita Pansy Parkinson, a garota mais irritante que teve o prazer de conhecer. É claro que Hermione notou como ela era bonita, desde o terceiro ano, ou seria quarto? A questão é que beleza nunca sustentou nenhum relacionamento, além de que conhecia a amiga bem o suficiente para saber que se não tivesse um casamento a vista preferiria um relacionamento casual e Hermione, por mais que adorasse a ideia de um relacionamento sério, nunca fora do tipo que idealizava casamento.

E foi no baile de formatura, enquanto sentia a mão fria da loira em si, que seu cérebro pareceu compreender a gravidade da situação. Tinham que conversar sobre isso e estabelecer os limites de seu relacionamento. Talvez fosse melhor esquecer essa atração boba que poderia lhe custar mais uma amiga e, já estava tão apegada aos carinhos inocentes de Pansy que isso já lhe bastava. Mesmo Ginny nunca fora carinhosa.

Desde o início de sua estranha amizade, Pansy lhe confidenciara que não sabia aparatar e logo Hermione tomou aulas com ela mesmo que já tivesse aprendido. Nas primeiras semanas de aula, Hermione insistiu em segurar suas mãos e aparatar com ela, apenas para lhe ensinar e passar confiança, mas se tornara uma situação tão comum que se tornara um hábito. Entretanto, mesmo com essa prova de confiança, foi apenas no natal, quando Pansy a convidara para passar uns dias na sua casa que Hermione entendeu que não seriam apenas colegas de classe, seriam amigas durante os anos que se passassem após Hogwarts.

Já era sábado à noite, tinham terminado de organizar todas as caixas para a mudança que Pansy faria domingo, e estavam tão cansadas que às vinte horas resolveram dormir. Hermione estava confortável em seu pijama amarelo comportado, enquanto Pansy usava um vestido de seda azul. Já perdera a conta de quantas piadas Pansy tinha feito sobre seu pijama desde ontem. Pansy escovava os cabelos na penteadeira, prendendo diversas mechas em bobs para que estivessem perfeitamente encaracolados no outro dia.

— Você parece minha tia Alice – comentou Hermione maldosamente.

— Sorte dela ser tão bonita quanto eu.

— Assim não tem graça provocar você – gemeu Hermione ficando confortável no colchão.

Pansy deu de ombros sem se importar com a reclamação e começou a cantarolar. Hermione passou um tempo em silêncio antes de resolver desabafar.

— Desisto das mulheres, elas são muito complicadas – reclamou pensando no seu relacionamento com Ginny. Depois de mais de trezentos dias era esperado que ela tivesse superado, mas Hermione era muito insistente e Pansy possuía muito pouca paciência para dar corda aos seus devaneios.

— A culpa é sua por só querer relacionamentos sérios, e você ainda diz que eu que sou tradicional.

— Você só quer homem pra casar! – exclama Hermione frustrada.

— Nem sempre. – Pansy sorri maldosamente enquanto se deitava na cama. Hermione faz careta ao imaginar Pansy tendo casos com homens naquela mesma cama.

— Não quero saber da sua vida sexual!

— Você tem ciúmes da minha vida sexual bem resolvida – brincou.

— Vida sexual é muito supervalorizado, eu quero romance.

Pansy zombou de Hermione.

— Quanta blasfêmia. Vai me dizer que não aproveitou seu namorico com a Weasleyzete.

— Quem é que fala namorico?

— Não mude de assunto. – Pansy a cutucou na bochecha, fazendo Hermione se virar para olhá-la nos olhos.

— Não estou mudando de assunto – resmungou. – Não é algo que se converse na cama com uma amiga.

Pansy levantou uma sobrancelha.

— Como você é chata, Granger, nunca quer me contar as histórias legais.

— Mas eu te contei de todos os nossos encontros!

— Ah, não – lamentou Pansy. -, você sabe muito bem do que estou me referindo, mocinha.

— Só porque você é uma pervertida! – reclamou Hermione vermelha. – Você não era assim quando nos conhecemos!

— Eu tinha dezesseis anos! – reclamou ultrajada.

— Pois eu tenho vinte e quatro e acho você uma sem-vergonha.

Pansy bufou entrando debaixo da colcha.

— Ta, ta, tudo bem, agora paga essa luz.

Hermione ficou pensativa entre apagar ou não as luzes. Observou a cara emburrada da amiga.

— Sabe que eu poderia ter me livrado daquele homem sozinha, não precisava interferir.

Pansy sabia exatamente sobre o que ela estava falando. Olhou para a luz que continuava acessa sem entender o porquê de Hermione continuar puxando assunto.

— Você ia arrancar a cabeça dele – acusou a loira.

— Pelo menos assim ele iria me respeitar! – reclamou Hermione com os olhos tão brilhantes que parecia que saiam fagulhas dos olhos.

— Você fica tão sexy bravinha – sussurrou, mas Hermione ouviu. Era desses momentos de fala impulsiva que Hermione já havia notado que estavam ocorrendo cada vez mais.

— É porque você nunca me viu com um chicote na mão! – provocou.

— Hermione! – dessa vez foi a vez de Pansy ficar vermelha.

— Por que tão sensível? Era brincadeira – perguntou calmamente, mas seu interior crepitava em expectativa. Já imaginara como rejeitar Pansy da maneira mais educada possível.

— Brincadeira, sei – respondeu ignorando a pergunta. Hermione gemeu. Odiava rodeios, e odiava mais ainda saber que Pansy estava alimentando um sentimento por si que não podia ser correspondido, não se queria viver em paz. Lançou um feitiço que impediria a mãe de Pansy ouvir a conversa; já era odiada por ela o suficiente por uma vida inteira.

— Okay, Pansy, já que você não vai falar, eu vou falar. Você gosta de mim, não sei como sua cabecinha heterossexual chegou a essa conclusão, mas está óbvio e você precisa se abrir pra mim para que supere esses sentimentos o mais depressa possível!

Pansy congelou na cama. Seu corpo era como uma estátua, mas seu coração bata tão rápido que parecia que passaria mal e desmaiaria a qualquer instante. Olhou para o rosto impassível de Hermione, o rosto tão sério e calmo que Pansy sentiu raiva como não sentia a sete anos pela morena.

— Se eu gosto ou não de você não é da sua conta! – rosnou Pansy a empurrando da cama sem muito sucesso.

— É claro que é! Você não pode confundir seus sentimentos por mim. Nós somos amigas, boas amigas que já passaram por tantas coisas juntas que é impossível não sentir uma pitadinha de atração, mas seja racional, Pans, você nunca sequer me acha bonita.

E novamente vinha a Hermione tentando colocar argumentos racionais em sentimentos. Isso irritava tanto Pansy ao ponto de querer machucar fisicamente a morena.

— Sinto muito se você me acha tão superficial. Eu entenderia a sete, oito anos atrás, mas depois de tanto tempo juntas, você julga o que deu posso ou não sentir? Vá se fuder, Granger! – a empurrou, dessa vez a machucando com as unhas para que ela caísse. Hermione a puxou junto, mas Pansy conseguiu se segurar na cama. – E se você sente atração por mim devia falar na minha cara, sua covarde mentirosa!

— Sua infantil mimada! – gritou Hermione. – Eu estou tentando proteger você de você mesma! Você não vai conseguir ser feliz comigo, porque eu nunca podia te dar seu sonho de um casamento puro-sangue heteronormativo!

Pansy gritou batendo Hermione com o travesseiro.

— Você nem sequer entende que a anos meu sonho se tornou ser importante pra você!

A partir daquele ponto Pansy já estava chorando e Hermione a encarava com o cenho franzido.

— Isso não faz o menor sentido!

— Pare de tentar dar sentido aos meus sentimentos! Eles são meus!

— Não faz o menor sentido! – Hermione interrompeu seus gritos. – Não faz a porra do menor sentido ter um sonho tão idiota sendo que você já é muito importante pra mim!

Pansy se ajoelhou segurando as bochechas da morena.

— Repete isso!

— Com todos os palavrões? – perguntou hipnotizada pelos olhos azuis. Pansy arregalou os olhos apertando as bochechas diversas vezes antes de segurar os cabelos da morena com delicadeza. – Você é a idiota mais importante na minha vida, e que Merlin me ajude, porque eu quero muito beijar você mas é tão errado...

Pansy negou com a cabeça.

— Você não consegue me imaginar beijando você?

— Eu consigo – sussurrou e logo após ofegou quando Pansy se aproximou, a respiração quente batendo em seu rosto. – Mas eu já passei por isso e sei que vai dar tudo errado.

Pansy negou com a cabeça mordendo os lábios. Isso era demais pra Hermione que tentou desviar o olhar.

— Você não sabe nada do que vai acontecer porque não tem a porra de uma bola de cristal, sua idiota – resmungou antes de encostar seus lábios na bochecha de Hermione. A ex-grifinória não entendia como Pansy conseguia ser doce e carinhosa ao mesmo tempo em que era uma pirralha mimada que a fazia querer matá-la, mas no momento seu cérebro não estava funcionando o suficiente para manter argumentos. – E se tem uma coisa que eu sempre quis descobrir é qual a textura dos seus lábios – falou lhe dando um selinho logo após. Hermione choramingou ao mesmo tempo que levantava as duas mãos de encontro ao corpo magro e macio da loira. – E como será que Hermione Granger beija uma garota?

E foi como se o mundo desaparecesse e seus sentidos se focassem em uma coisa só, um toque, um virar de rosto, os dentes afiados que machucavam os lábios, a língua molhada que bagunçava sua boca, as mãos afoitas que confundia seu corpo, o coração descompassado que a deixava extasiada, a falta de oxigênio que a deixava tonta; seus sentidos tentando acompanhar o ritmo estabelecido no beijo mas Pansy precisava desesperadamente respirar, mas não queria abrir os olhos, não queria encarar o que tinha feito.

Quando se permitiu abrir os olhos encontrou o olhar sereno de Hermione era firme, não permitindo fugas. Pansy a abraçou, sendo retribuída, o rosto se escondendo nas curvas do pescoço da amiga, e o alívio de saber que era correspondida aliviando o peso no seu coração, um peso que nem sabia que carregara durante tanto tempo.

— Pansy, eu não vou me casar com você, você sabe, certo? – perguntou alisando seus cabelos. Lágrimas encheram os olhos da loira e seu coração se apertou. Ela sabia, mas que droga, é claro que ela sabia.

— Mas você vai ficar do meu lado quando eu contar pra minha mãe? – perguntou e a boca de Hermione ficou seca. Afastou Pansy do abraço a encarando séria.

— Você vai assumir a gente?

Pansy apertou os olhos e passou os braços no pescoço de Hermione que virou o pescoço lentamente em busca de contato.

— Se você não assumir a gente eu nunca mais vou falar com você – ameaçou, e Hermione sabia que ela falava sério. – Já que você resolveu discutir sobre meus sentimentos, ouça atentamente – pediu e Hermione acenou positivamente. – O que eu sinto é que eu quero você aqui comigo, e no ministério quando eu estiver trabalhando, do meu lado nos encontros de alunos, e no meu quarto quando eu estiver dormindo, está entendendo?

Hermione inspirou emocionada e sem saber o que dizer.

— Eu vou ser uma péssima namorada, eu nem tenho o que você está acostumada – apontou para o próprio corpo. Pansy negou com a cabeça.

— Eu que vou ser uma péssima namorada já que desde Nott nunca tive ninguém sério e mesmo naquela época tudo era uma bagunça.

Hermione lambeu os lábios desviando os olhos para a janela, a imagem do céu muito similar ao visto pelas duas no encontro na torre de astronomia, mas ao invés de pinheiros, o céu estrelado iluminava um gigantesco mar rodeado de basaltos.

— Você tem certeza que gosta de meninas? – Hermione perguntou em dúvida.

— Vou ter que te beijar de novo? – provocou sentando-se no colo de Hermione que sentiu reações nada inocentes acontecendo por todo seu corpo. Pansy apertou as bochechas de Hermione, admirando os olhos da morena que a anos se tornara seu porto-seguro. Juntou toda coragem que podia antes de beijar o pescoço de Hermione, subindo e descendo os beijos, espalhando um pouco de saliva em lugares improváveis antes de se afastar e observar seu semblante entorpecido. – Eu não queria ter que dizer isso, porque eu sou uma puta covarde, mas aí vai; Hermione Jane Granger, eu te amo a quase dois longos anos e espero que você me ame de volta ou eu vou arrancar seus cabelos enquanto você dorme.

Hermione arregalou os olhos.

— Você é realmente romântica – zombou, embora não como imaginara na sua cabeça, já que a voz estava muito suave e suas mãos alisavam a cintura da loira. Virou o rosto lentamente e Pansy a segui como um cãozinho. – Eu acho que te amo a tempo o suficiente.

Pansy abriu um sorriso enorme antes e a abraçar.

— Amanhã mesmo peça minha mão em namoro pra minha mãe! – exigiu Pansy e Hermione fez careta.

— Mudei de ideia, acho que te odeio.

Notas finais
Fic publicada para o Desafio de Férias do Nyah!Fanfiction. Yeh o/ Acabou. Eu pensei que não ia conseguir fazer a fic, eu juro! Se eu fosse desenrolar todos os acontecimentos isso iria virar uma Long!Fic e eu não estou a fim. Hahaha Desculpa a enrolação ou se ofendi alguém. Deixe-me saber se vocês gostaram e se teve algo que incomodou vocês. Prometo repensar minha escrita. Voltei a escrever depois de uns cinco anos, então me perdoem as falhas. Música sorteada: The Best Damn Thing de Avril Lavigne. Itens utilizados: Se libertar de relação abusiva, casal LGBT, colegial, feitiços, desejos e estrelas. Trechos utilizados: "Os nossos desejos são como crianças pequenas: quanto mais lhes cedemos, mais exigentes se tornam." "Abrir mão. Deixar ir. Desapegar... Isso liberta de alguma forma. Por mais que nos aprisione em lembranças do que poderia ter sido." Imagens utilizadas (acho que não dá para colocar aqui): estrelas sob uma floresta de pinheiros e Draco e Harry dançando.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!