Ménage À Trois
1 Muito Calor para uma Noite de Inverno
Notas iniciais
Escócia: Neil.
Brasil: Luciano.
A noite permanecia com aquele melancólico céu coberto por nuvens de chuva, típico da cidade de Londres. O casal havia acabado de voltar de um restaurante, onde comemoraram o aniversário de seis anos de namoro. O silêncio predominava a atmosfera, o inglês olhando para a janela do carro, com semblante pensativo. A situação daquele que estava ao volante – que olhava para o acompanhante pelo canto do olho- não era muito diferente. Até que o silêncio fora quebrado.
– Eu andei pensando um pouco no que conversamos antes... No jantar. – Conversou Arthur, o rosto adquirindo um leve tom avermelhado. Francis relaxou os ombros, soltando uma risada.
– E do que está falando? De como esta cidade é desanimada?
– Não... Não! – Respondera, cerrando os dentes. – Se não quer saber, então não vou dizer mais nada!
– Arthur, mon amour, não foi isso que eu quis dizer... Hm, por que não dá o ar de sua voz? Me desculpe.
O inglês respirou fundo, fechando e reabrindo os olhos com a mesma rapidez. E em um tom determinado, proferira.
– Eu quero fazer uma ménage à trois.
Francis pisara no freio, fazendo com que os corpos se projetassem para frente. Arthur acabou se engasgando com o cinto.
– O-O quê? Arthur, você está bêbado? O vinho foi demais para você?
– Droga, Francis! Eu estou falando sério! Sabe, estamos juntos há seis anos, e eu não aguento mais a mesma coisa! Está ficando monótono!
– Ei, ei! Você está tentando me dizer que está cansado do que eu faço, monsieur? –Perguntara Francis, olhando com incredulidade para Arthur. Aquilo era um absurdo. Ele estava mesmo aceitando sua ideia psicótica?
– É sempre a mesma coisa. Você me paga um jantar, eu me faço de difícil, nós brigamos e eu acabo de quatro para você.
O francês abriu a boca, mas resolvera ficar quieto. Realmente, o relacionamento estava de mal a pior. Segurou com mais força o volante, engolindo em seco.
– Ué, Arthur, mas agora?
– É, agora. É agora ou nunca! – Sem dar uma resposta, o mais velho girara violentamente o volante, fazendo o carro derrapar. Arthur se pronunciara com um gritinho nada viril, agarrando-se ao assento.
E assim deu-se início à caçada.
---------------------------------------------------------------
O relógio soava meia-noite em ponto. O carro do casal estava estacionado ao lado de uma casa modesta, rústica. Arthur segurava o celular com nervosismo, o coração pulsando veemente. A linha estava na espera. Até que alguém atendera.
– Ugh, quem é? – Respondera o ruivo, bagunçando os cabelos. O tom de voz mostrava o quão irritado se encontrava por receber ligações naquele horário.
– Neil...? Sou eu, o Arthur.
– O que você quer à essa hora? Está bêbado? Perdido? Foi estuprado?
– Não é nada disso! Eu— Nós precisamos conversar com você! – Retrucara no mesmo tom irritado.
– Nós?
– Sim... Francis e eu. – Houvera uma pausa do outro lado do telefone, e um suspiro fora ouvido. Neil acabou dizendo que estava tudo bem, perguntando onde eles estavam.
– Nós estamos parados na frente da sua casa.
– Por que já não veio direto na campainha?
– Ora, eu não sabia que você estaria!
– Só cale a boca e venha! – O telefone fora desligado com violência, fazendo com que Arthur grunhisse. Aquela era uma péssima ideia. O inglês e francês saíram do veículo, andando até a casa do escocês –que já esperava-os na porta. Eles entraram, e o ruivo servira xícaras de chá a todos.
– O que faz dois malucos visitarem uma pessoa à meia-noite? –Fora direto ao assunto, tomando um gole do chá. Arthur e Francis se entreolharam, sem saber o que dizer ou por onde começar. O mais novo pigarreou, chamando a atenção para si.
– Bem... Todos nós sabemos como você gosta de whiskey, certo? E se eu dissesse que beber do mesmo whiskey todos os dias, enjoasse? A bebida ficaria sem-graça, você começaria a desenvolver problemas no fígado, além de psicológicos, o que poderia acarretar em muitos efeitos colaterais, como vômit—
– Arthur, você só está piorando, mon amour. Está estragando o clima! – Cortou o francês, soltando uma risada nervosa.
– O quê? Se você faz melhor, vá lá! Diga! Eu só estou dizendo a mais pura verdade!
– Shhh! Então, Neil... O que ele quis dizer é que... Bem. – O ruivo apenas olhava para o casal, com uma das sobrancelhas arqueadas. Francis recomeçara a rir e Arthur encolheu os ombros. Até que o mais velho continuou.
– Topa fazer... Sabe... Um ménage à trois com a gente?
– ...
Arthur e Francis encontravam-se na calçada, de frente à casa do escocês. Os dois encaravam o asfalto, desolados.
– Eu disse que ele não toparia, Arthur.
– Ele não precisava ter sido tão grosso... E mal-educado... E violento. –Sussurrou o mais novo. Um suspiro veio aos seus lábios, e a fala recomeçara. — Droga... A culpa é completamente minha...
– Você bem que poderia ter cortado o papinho de vômito, é claro.
– Não é sobre isso... – Respondeu o inglês, massageando a nuca. —Sabe... O Neil costumava sempre roubar as minhas paqueras, e dessa vez eu tive que me garantir com você. Disse pra ele que você não era tudo aquilo que diziam. – Arthur soltou um risinho nasalado.
– O que você quer dizer com isso?
– Que a fama era maior que o “artefato”, de fato. – Eles se entreolharam durante um bom tempo, até que o francês cerrou os olhos. Como se diz o sábio provérbio: A bicha ficou ofendida.
– Eu não acredito que falou essa mentira pra ele! Não acredito! Ai, que vontade a minha de entrar naquele carro e te deixar aqui!
Os dois começaram a discutir novamente, apontando as falhas que cometiam na hora do oba-oba. Até que alguém os chamara, com um assobio bruto. Os dois pararam de imediato, virando os rostos para trás. Neil estava novamente na porta, de braços cruzados.
– Tudo bem. Eu topo. Mas eu não vou tomar lá atrás. – O casal, de início, ficara sem reação. Depois de minutos sofridos de processamento, ambos se levantaram e adentraram novamente a residência.
Desta vez os três foram para o quarto do escocês. A situação poderia ser estranha, mas valia de tudo para apimentar a relação... Não é?
– Tudo bem. Vamos estabelecer algumas regras para não tornar essa ménage à trois um fracasso. – Anunciara Neil, terminando de retirar a calça. Arthur e Francis copiaram seus movimentos, atentos às palavras do mesmo.
– Primeiro, nada de vagabundo ficar parado. Arranja alguma coisa para fazer. Segundo, não, eu não vou dar pra ninguém. Terceiro, eu não quero saber de fluffly antes, durante e depois do sexo.
Os dois concordaram, ao que Arthur abraçou-se, e Francis piscou para o escocês. De fato, era uma situação estranha. O ruivo olhou para os outros, com um sorriso zombeteiro na face.
– Vocês sabem que a relação de vocês nunca mais vai ser a mesma, certo?
– O que quer dizer com isso? – Perguntou Arthur, atento aos movimentos do irmão. Este, por sua vez, aproximou-se do francês, deixando uma das mãos entrelaçar-se aos cabelos da nuca, puxando-o para um beijo de tirar o fôlego.
Arthur assistiu àquela cena, franzindo os lábios. Claro que estava incomodado. Estava incomodado com a forma como os dois se beijavam tão lascivamente. E de como andaram até a cama, Neil por cima e Francis por baixo. O seu namorado por baixo do seu irmão. O loiro cerrou o maxilar, se aproximando daquela situação constrangedora, em uma confusão de movimentos pseudo-eróticos. Pigarreou.
– E-Ei, Francis... Me dá um espacinho—
Ignorado. Como fazer para que seu namorado e irmão parem de se comer bem na sua frente, sem ser indelicado? Aumentando o tom da voz, é claro. Até que ela atinja o timbre utilizado em uma discussão com Alfred.
– Parem com isso! Droga, Francis seu imbecil, eu—! – Arthur gritou, e sua voz ecoou no quarto. O francês e escocês pararam o que faziam, estupefatos. O mais novo grunhiu, correndo e se escondendo no banheiro do cômodo.
Francis acabou empurrando Neil no chão, para que pudesse ir ao encontro do namorado. Quando o encontrou, agachou-se ao seu lado, preocupado.
– Ei, Arthur... O que houve?
– Eu não... Merda, Francis! Eu não quero mais fazer isso! Eu não quero que as coisas mudem entre nós!
– Mas, Arthur, elas não vão mudar. Isso era para apimentar a relação... Lembra? – Retrucou o maior, afagando os cabelos alheios.
– Isso é estranho... Aquele é o meu irmão...
– Bom, foi você que optou por ele. Vai amarelar agora? Justo agora?
– Quem disse que eu amarelo?! – Exclamou, sentindo as maçãs do rosto se avermelharem.
– Então me mostre que você não é uma franga, Arthur. – A boca inglesa se abriu, pronta para soltar todos os tipos de injúrias contra aquele calunioso francês. Acabou cerrando os dentes e levantando-se – acabando por derrubar Francis no processo- e seguindo novamente em direção à cama. E por lá, estava Neil, aguardando.
– Ei, vocês já se resolveram? – Arthur se aproximou e tomou os lábios do ruivo com brutalidade, empurrando-o na cama. Sentou-se em sua cintura, os olhos cintilando determinação.
– Cale a boca, pedaço de mau-caminho.
E agora fora a vez do Monsieur Bonnefoy observar com cara de nada, vulgo pokerface, aquela cena nada ortodoxa. Arthur tentava ser sexy ao dirigir-se ao seu irmão como “cachorra imunda” e “vermelho-pecado” o que fazia o francês sentir-se levemente desconfortável.
– Arthur.
Chamou o namorado, que no momento, estava ocupado demais enfiando a língua goela abaixo de sua cobaia.
– Arthur, vai com calma. Ei, Arthur. – Francis respirou fundo, cerrando os olhos. Eles estavam ignorando-o de propósito? A esplêndida França não gosta de ser ignorada. Isso Napoleão provara muito bem, no passado.
– Pelo amor de Deus, Arthur, pare com isso! – Exclamou o indelicado francês, puxando o namorado para longe dos braços do ex-amante. Neil voltou à expressão impaciente e Arthur à enfezada.
– O que foi agora? Eu fiz exatamente o que você mandou!
– Você está exagerando! E vai estragar tudo!
– Eu não estrago tudo!
– Eu realmente não sei se você está tentando ser sensual ou só tendo um ataque epilético em cima do Neil! – O dito cujo respirou com pesar, sentando-se na cama. Arthur olhou estupefato para o namorado, a raiva o corroendo por dentro. Agarrou o que vira de mais próximo e tacou tal objeto no francês – que desviara por pouco-
– Errou!
– Dane-se! Você que só estava olhando e agora reclama da minha performance! Eu disse que a sua fama era maior que os seus dotes, Bonnefoy!
– Uh... – Sussurrou Neil, arregalando os olhos. Fora a vez de Francis sentir o rosto queimar. Indignado, agarrou o primeiro objeto que alcançara na cômoda ao seu lado. Sem pensar duas vezes, tacou o cinzeiro na direção de Arthur, que desviou.
E o objeto inanimado chocou-se em cheio contra a face do ruivo.
Francis grunhiu.
--------------------------------------------
– Se ele morrer a culpa é toda sua. – Sussurrou Arthur, observando o irmão desmaiado na maca, que se movia discretamente para os lados ao acompanhar os movimentos da ambulância. Francis empurrou-o com o cotovelo, nervoso.
– Eu não o matei... Ele... Ele parece ótimo!
– É claro, só tirando o fato de que está inconsciente e com um nariz do tamanho de um pinto, seu ignorante!
O resto do trajeto fora feito em silêncio, até que o abençoado hospital chegasse. O procedimento fora o mesmo. Neil fora levado para um quarto, na companhia de Arthur, e Francis fora para a sala de espera, acompanhado por um policial.
–... Eu te odeio. – Resmungou o escocês, acomodando-se melhor na cama dura.
– Para de frescura, isso vai passar. – Respondeu o loiro, observando ao redor. Acabou sentando-se na beirada da cama, suspirando.
– Onde está o Francis?
– Ah... Você sabe. Quando você acaba machucando uma pessoa e a leva para o hospital você precisa explicar-se para a polícia. Acho que ele vai ficar bem.
Não muito distante daquele quarto, um francês atônito tentava explicar-se para um indivíduo vestido à farda britânica.
– Sabe como as coisas são, seu guarda. Elas acontecem.
– E como foi que tudo isso aconteceu? – Perguntara o policial, encarando-o com uma expressão julgadora.
–... Estávamos meditando.
– Nus? –Houvera uma grande e longa pausa.
– É uma técnica grega, muito antiga. Estar nu é ter uma ligação completa com os deuses... E isso é lindo. – Gesticulou o loiro, com auxílio de um gesto das mãos.
– E por que você tacou o cinzeiro na vítima, se estavam meditando?
– Olha, eu não taquei nele, eu taquei no meu namorado, mas ele desviou.
– Então você tacou-o em alguém. –Droga, fora fisgado.
– É, mas não foi por querer. – Francis rira com nervosismo, parando no momento em que vira como a situação era intensa demais para risadas. Recomeçou depois de um pigarreio— Ele é louco!
Se o integrante da polícia pudesse ver o que o tal namorado estava a fazer agora, concordaria completamente com o francês.
Pois Arthur estava à andar a esmo pelos corredores do hospital, depois de ter respirado uma quantidade generosa de uma substância narcótica poderosamente devastadora. O Hélio. O inglês saltitava, espalhando o caos por onde passava. Senhoras eram tacadas de janelas, reputações de doutores destruídas... O que pode-se tirar como lição desta situação é:
Nunca deixe um inglês sozinho na mesma sala que um recipiente com hélio.
No meio de toda aquela confusão, Arthur acabou esbarrando em Francis, que esbarrou em um médico, que esbarrara em mais uma série de gente; em um completo efeito dominó.
– Francis, precisamos sair daqui. Agora. – Exclama o inglês, segurando no pulso do namorado e assim, puxando-o para a saída.
Para a dor de cabeça dos dois, a noite estava apenas começando.
--------------------------------------
- Acho melhor a gente desistir dessa ideia. – Francis resmungara, cruzando os braços. O olhar vagou até a janela do táxi, observando o movimento quase inexistente na rua. Sentira a mão de Arthur segurar-lhe o braço, pressionando a região de leve.
– Não podemos desistir só porque fizemos um cara parar no hospital! Talvez tenha sido burrice escolher alguém conhecido. Precisamos de alguém só para uma noite... Que nós nunca mais veremos na vida outra vez! – O francês voltou a fitá-lo, os olhos lúcidos. A boca curvou-se em um sorriso discreto, enquanto pensava sobre o assunto.
– Faz sentido... Assim a situação não ficará estranha depois!
– Exatamente. – Sorriu Arthur, com ar arrogante. É claro, aquela brilhante ideia fora dele.
– Mas precisamos encontrar alguém como? Heterossexual não toparia.
– É lógico que não, Arthur. Até parece que um heterossexual iria querer fazer uma suruba com dois gays, use o cérebro, mon amour. – Arthur grunhira, encolhendo os ombros.
– Com licença, eu não quero me meter, mas eu acho que posso ajudar vocês a encontrarem alguém. – Pronunciara-se o taxista, que até o momento encontrava-se em completo silêncio.
–... Você não está se oferecendo, está? – Cautelosamente perguntara Bonnefoy, arqueando as sobrancelhas.
– Não! Eu acabei de levar um bonitinho em uma festa para comemorar que ele virou Bi. – O casal entreolhou-se, trocando sorrisos discretos.
– Uma festa para comemorar que é bissexual? Esse é realmente corajoso! – Admirou-se Francis, coçando a barba rala do queixo.
– Ora, leve-nos até essa festa! – O motorista lançou um olhar de entendimento através do espelho retrovisor. Parou na primeira bifurcação e retornou o caminho, novamente para a festa.
Não demorara muito para que chegassem à uma casa grande, com diversos carros parados à calçada da rua. Parecia uma festa agitada, se vista de fora. Francis pagou pelo transporte, enquanto Arthur descia do mesmo e ia até a porta da frente, que por conveniência, estava aberta. Da mesma saíam e entravam diversos convidados, todos muito bem vestidos. Os dois respiraram fundo e entraram, decepcionando-se um bocado com a situação.
A música que tocava não era das mais animadas, e ninguém ria ou gritava. Havia apenas conversas em grupos separados, sendo as palavras proferidas em tom baixo. Conversas individuais.
– Essa festa está um desastre, mon Dieu! – Exclamara Francis, levando a mão esquerda ao rosto, em total desolação. Arthur analisou o ambiente, à procura de alguém em especial.
– Como encontraremos o boçalidade? – Francis acompanhou o olhar de Arthur, dando de ombros.
– Vamos ter que improvisar. Hm... Aquele ali tem cara de bissexual? – Apontara para um rapaz de tez morena, os cabelos compridos presos em um rabo desleixado. Uma cicatriz arranhava-lhe um dos olhos azuis, e a camisa encontrava-se com os primeiros botões abertos. Arthur mordera os lábios.
– Como eu vou saber? Ele é muito bonito... – Sussurrou, analisando a vítima encontrada pelos olhos de águia de seu namorado.
– E não é? Vamos chegar nele. – Sussurrou em resposta, começando a andar em direção ao moreno. Arthur o deterá.
– Não podemos simplesmente chegar nele e dizer “Hey, eu acabei de te conhecer, mas que tal fazer um ménage à trois comigo e com meu namorado?”, imbecil!
– Só me imite, e não terá erro, Artie! – Francis piscara, recomeçando a andar em direção ao outro, mas desta vez com movimentos diferentes. O francês rebolava o quadril no ritmo da música, ao fazer movimentos circulares com as mãos. Arthur ficou observando a cena, perplexo. Aproveitou que um garçom passava ao seu lado, carregando uma bandeja cheia de taças de champagne. Pegou uma e virou-a em um só gole, para então, imitar o que o namorado fazia.
Os dois se aproximaram lentamente do alvo, Francis por trás e Arthur pela frente. O moreno franziu o sobrolho em confusão, incomodando-se ao ver que haviam dois malucos o cercando. E o pior. Eles dançavam. Engoliu em seco, se esgueirando por uma fresta abençoada, andando até o outro lado do salão.
–... Talvez tivesse sido melhor a minha ideia. – Respondera Arthur, depois de certo tempo.
– Acho que aquele não era o bonitinho bi, afinal das contas.
– Não me diga, gênio! – Arthur levou a palma da mão ao rosto, massageando a testa. Começara a andar em outra direção, e quando Francis fizera menção de segui-lo, cortou-o.
– Não! É melhor nós nos separarmos. Assim ficará mais fácil de achar o bi. Eu vasculho o lado esquerdo e você o direito.
Francis franziu os lábios, dando de ombros e seguindo na direção estipulada. Arthur continuou seu caminho, procurando por algum candidato aceitável. E como aquilo era difícil! Nem ao menos sabia o que deveria dizer, fazer ou pensar! Quando encostou-se em uma das paredes do amplo salão, Arthur ouvira risadas animadas vindas de um corredor.
Curioso, seguiu as vozes animadas, até dar de frente com uma porta entreaberta. O loiro encostou-se à ela, espiando pela fresta.
– Isso aqui é bom mesmo! – Rira uma voz feminina, de forma exagerada.
– Não é? Consegui lá com um rapaz do sul. – Anunciou uma voz grave, soltando uma risada nasalada e contida no final da frase.
Eles estavam fumando. Arthur arregalou os olhos, o queixo caindo. Onde havia drogas, havia gente louca. E onde havia gente louca tinha suruba. Sem pensar duas vezes, o cavalheiro da Távola Redonda adentrou o quarto, fechando a porta atrás de si. Os que estavam no quarto encararam o recém-chegado, surpresos.
– Isso é forte? – Perguntara, tentando controlar o tom nervoso, fazendo-o parecer mais casual. Falhando no processo. – Porque eu não posso fumar nada forte que eu despiroco legal!
– Isso aqui é uma erva xamânica do baixo Xingu. – Respondera a garota, fumando mais uma leva do cachimbo que tinha em mãos. Rira exageradamente mais uma vez, passando o objeto ao outro rapaz.
– E isso dá... Barato? – O inglês perguntara, sentando-se ao lado dos dois.
– Olha, até dá... Mas a ideia não é essa, sabe? – A belga sorrira para o holandês, que tragara o cachimbo.
– Não? E qual é?
– É um lance espiritual. Desce uma formigação nas extremidades... Uma consciência cósmica! – Aquilo arrancara mais risos da loira, que novamente tomou o cachimbo em mãos, tragando-o lentamente. Arthur apenas observava aqueles dois, e se não fosse pelo teor alcoólico em seu organismo, já teria escapado daquele quarto há muito tempo.
O objeto acabou parando nas mãos de Arthur, que o agarrou e levou-o aos lábios, tragando-o diversas vezes, em ritmo acelerado. Por que estava fazendo aquilo mesmo?
– Ei, ei, não vai muito rápido que bate paranóia, hein. – Alertou o holandês, encarando o mais velho com o semblante curioso.
–... – As risadas foram extintas, e o quarto encontrou-se em total silêncio. Kirkland tirara o cachinbo de seus lábios, sentindo a cabeça girar e as pupilas dilatarem. Uma expressão de temor invadiu o seu rosto e ele deixou o objeto satânico ir ao chão.
– Ah não... Acho que estou paranóico. – Os outros acompanhantes deram de ombros, soltando um muxoxo de pena.
– Não exagere, loirinho.
– Não... Eu estou falando sério. Bateu a maior paranóia agora... Estou começando a suar frio! E-Eu... – Choramingou o inglês, levando as mãos ao rosto. A belga segurou os seus ombros, massageando-os.
– O segredo é não se desesperar... Amigo, amigo. Respira fundo, vamos lá.
– Isso não está funcionando! – Gritou o pobre britânico, levantando-se e jogando-se contra a parede. O olhar vidrado lançava-se em todas as direções, em desconfiança.
– Fica frio, você está viajando errado...
– É claro que eu estou viajando errado, super errado! Ai meu deus, e se eu morrer?!
– Calma, você não vai morrer! – Esbravejou o outro, massageando as têmporas. Os jovens se entreolharam, e começaram a rir.
– Pelo menos não agora!
– Quer dizer, nunca se sabe!
– Espera lá, vocês não estão... Não estão entendendo! – Arthur fizera uma pausa dramática na fala, para puxar o ar com exagero. — Agora fodeu de vez, fodeu, fodeu e fodeu! Eu perdi totalmente a noção, nem sei quem são vocês e... Quem inferno são vocês?!
– Relaxa, assim você só vai despirocar mais.
– E-Eu preciso de uma ajuda amiga... S-Sim... Francis... Francis... Cadê você... – Sussurrava constantemente o desnorteado e desamparado inglês, saindo do quarto agarrado à parede. Os que ficaram permaneceram a rir e a continuar sua sessão de esclarecimento espiritual.
A alguns metros de distância do desespero de Arthur, Francis estava sentado ao lado de um homem de pele morena, cabelos curtos castanhos e olhos de um verde intenso. O silêncio predominava o local, e Francis tentava pensar em como começar uma conversa.
– Pensando na vida? – O espanhol grunhiu, tomando mais um gole da taça que tinha em mãos. Lançou um olhar envergonhado ao loiro que se pronunciara, concordando com a cabeça.
– Pois é... Pensando na vida.
– Adoro pensar na vida... Nos faz perceber... As sutilezas de cada momento, entende? – O moreno ficara em silêncio, crispando os lábios. Francis pigarreia, continuando seu pensamento.
– E essas sutilezas nos levam à situações como essas... E me fazem pensar em como eu vim sentar aqui, justamente do seu lado e tal. Será que o destino não está querendo me dizer alguma coisa?
– Olha, o destino eu não sei, mas eu estou. Não enche o meu saco. – Cortara, afastando-se um pouco mais daquele lunático. O loiro coçara a barba, sem saber o que dizer ou por onde começar.
– Falar em saco, por um acaso mágico da vida, significa que você suportaria pegar em um? – O rapaz; cujo nome era Antônio, arregalou os olhos, encarando o meliante de tal frase. Abriu os lábios em um movimento puro de indignação, levantando-se e se afastando. Francis começara a rir, enterrando o rosto nas mãos.
As coisas eram muito mais simples no tempo em que havia apenas bichas e sapatas. Pelo menos conseguia-se diferenciar quem era quem.
– Ugh... Como será que Arthur está se saindo? – Suspirou, afundando mais no pequeno sofá.
-------------------------------------------
Arthur, em meio às suas alucinações e efeitos narcóticos tentava sobreviver à epilepsia causada por abajures normais. Tudo e todos pareciam uma ameaça, prontos para devorar o seu precioso botão de rosa. O inglês acabou trombando com um rapaz, de aparência muito mais nova, que bebia tranquilamente um copo de refrigerante. Sem pensar duas vezes, o loiro retirou o copo das mãos do pardo, tomando o resto do conteúdo.
– Que sede horrível, meus deus do céu... Espera. – Kirkland encarou o adolescente, segurando o seu rosto com as duas mãos. O jovem endureceu os ombros, assustado.
– Olha só você... Você é índio?
– Hã... Não.
– M-Mas... Você vem de onde, onde nasceu, de quê lugar? – Repetiu o mais velho, arregalando os olhos. O moreninho engoliu em seco, respondendo com muita calma e lentidão.
– Brasil. Eu. Sou. Brasileeeeeiro. Enteeende?
– Brasil... Bra... Pau-Brasil... Pindorama! Está vendo? É nome indígena, você é índio!
–... Eu me chamo Luciano, senhor.
– Luciano, o índio. Luciano, eu preciso de uma palavra de sabedoria, sabe? Eu fumei uma parada xamânica fortíssima lá no quartinho, e agora eu estou muito louco! – O adolescente encarou o mais velho, sem saber o que fazer ou dizer. Acabou segurando os seus ombros, em uma tentativa de fazê-lo se acalmar.
– Calma.
– N-Não preciso de calma, eu preciso é de uma palavra de sabedoria... Pelo amor do seu deus, me dá? – Luciano abriu a boca, e retornou a fechá-la logo, pois não tinha ideia do que deveria dizer. Crispou os lábios uma, duas, três vezes, assim como fizera menção de dizer algo. Arthur apenas encarava-o, não conseguindo conter a expectativa. Acabou desferindo um tapa em seu rosto.
– Me fala uma palavra de sabedoria, porra!
– Dança!
– D-Dança?
– Sim... Todos os índios... Hm, possuem uma dança espiritual. Com propósitos... Er, para equilíbrio de espírito e natural. – Arthur arregalou os olhos, segurando as mãos do mais novo.
– É por isso que eles estão sempre... dançando!
– Exatamente! Talvez dançar seja a maneira que eles encontraram para não pirar!
– Luciano... Foi deus que te mandou não foi? Muito obrigado... Você me iluminou agora... – Agradeceu o embirutado Arthur Kirkland, beijando as mãos do garoto. Luciano retribuiu tal gesto, profetizando um “Amém” à causa divina da qual ele não fazia ideia.
– Vish, esse é louco. – Sussurrou ao ver o loiro dirigindo-se à pista de dança, improvisando movimentos que muito lembravam às danças cerimoniais indígenas. Desse manteria distância o resto da festa.
Francis estava cansado de xavecar bonitinhos com potencial para serem bis, e fracassar sempre na paquera. Decidiu partir para a malandragem. Pedir informação ao garçom, por meio de suborno.
– Poderia me dizer quem é o bonitinho Bi dono dessa festa?
– Está vendo o japonês lá na sacada? É ele.
– Merci. – Francis agradeceu com um sorriso, indo até o rapaz estipulado. Bem, ele era bem menor de perto.
– Então... Parabéns pelo Bi. – O japonês encarou o louro, retribuindo o sorriso. Curvou-se de leve, fazendo com que a franja caísse aos olhos.
– Muito obrigado.
– Não há de quê. Na realidade, eu acho isso super bacana, sabe? E eu também sei que o meu namorado ficaria muito feliz de... Você sabe, de fazer com você.
– Seu namorado? – O japonês arregalou os olhos, tentando deixar o assunto quieto. Talvez fosse rude se comentasse algo a mais. Resolveu voltar à proposta. – Ele está me desafiando?
– Digamos que é algo assim. – Sorriu o francês, cruzando os braços. Kiku coçou a bochecha, pensativo. Uma competição amistosa não faria mal, não é? Afinal, como conquistara o bicampeonato de judô deveria estar acostumado à aparição de mais oponentes querendo enfrentá-lo.
– Tudo bem. Eu aceito. Mas qual é a faixa dele?
– Acho que um pouco acima da sua.
– Oh. Assim é melhor, até porquê ele não vai se machucar muito. – Francis iria concordar com o japonês, no momento em que uma jovem loira intrometeu-se entre eles, olhando fixamente para si.
– Você é o Francis?
– Huh...Sim.
– O seu namorado está te chamando. Lá no segundo quarto à esquerda no corredor do salão principal.
– Bem, você se importaria de fazer isso agora? – Bonnefoy perguntara para Kiku, que balançou a cabeça.
– Quanto antes melhor. – Francis arregalou os olhos, surpreso. Mas que japinha mais safadinho.
– Então vamos. – Os dois acompanharam a belga, até o quartinho onde Arthur estava.
O loiro, por sua vez, havia acabado de tomar uma ducha, e agora vestia um kimono de judô. Única peça encontrada no armário, que pudesse utilizar. Estava deitado na cama, completamente abalado. Nunca mais chegaria perto de uma fumaça xamânica do quinto dos infernos outra vez. Ouvira batidas na porta, e Francis entrou em seguida. Arthur sentou-se na cama, aliviado de ver o amado ali.
– F-Francis... Você não sabe o que me aconteceu...!
– Agora não, Arthur, eu encontrei o bonitinho Bi!
– O quê? Ah... E ele quer transar?
– Agora! Ele já está sem camisa, lá no outro quarto! – Comemorou, segurando a mão do inglês.
– Mas já? Esse é ligeiro... Bem, é agora ou nunca!
Os dois finalmente entraram no quarto, onde o suposto “bonitinho bi” estava se alongando. Quando entraram no quarto, os três se saudaram, os loiros aos risos.
– Então, como que nós fazemos? Vai estabelecer alguma regra ou... Só no tradicional? – Perguntara Arthur, sentindo o coração disparar. Finalmente participaria de uma pecaminosa ménage à trois.
– Acho que não será necessário. O básico é o suficiente. – Respondera Kiku, colocando-se de frente ao inglês. Os dois se entreolharam, e Francis ficara ao lado dos dois, mordendo os lábios. Talvez os menores deviam começar primeiro, portanto?
– Então... Eu vou ou você vem?
– Eu acho melhor você vir, sabe, eu sou meio tímido e... – O inglês não fora capaz de completar a frase, pois no mesmo momento, recebera um soco forte em sua fuça, que fizera-o cair ao chão. O golpe fora tão rápido e preciso, e seu dono era tão pequeno, que fora impossível para Arthur desviar. O sangue escorreu do nariz do louro caído, e ele já sentia um dos pés do japonês acertar-lhe o estômago.
– M-Mas que merda é essa— Francis! Francis! – Tudo fora tão rápido que Francis não tinha reação sequer. A expressão séria demonstrava o desabalo emocional que sentia. Olhou ao redor, tentando ignorar os gritos de dor do namorado, até que achara uma cadeira por perto. Sem pensar muito nas consequências, segurou-a e acertou-a em cheio as costas do japonês.
Kiku caiu no chão, desacordado, e Arthur e Francis mais uma vez corriam desesperados para fora da casa.
E contando com isso, eram mais 10 anos de prisão.
Ao alcançarem a calçada, Arthur chutara a primeira pedra que encontrara no caminho. Por que estava sendo castigado daquele jeito? Ele só queria fazer daquela uma noite especial!
– Merda! O que é preciso pra se conseguir um ménage à trois nessa cidade?!
– Arthur, mon amour, mon ange, não grite tão alto…
– Eu não me importo mais! O que é que eu tenho que fazer pra ver um pênis diferente pra variar? Hein?!
– Vocês disseram ménage à trois? – Uma voz misteriosa surgira das sombras de uma esquina, que fizera o casal parar estático onde se encontravam. Não havia ninguém à vista.
–... Droga, falei cedo demais. – Reclamara a mesma voz misteriosa, e em seguida, surgira da penumbra um rapaz alto, alvo e de cabelos brancos. Os olhos eram de um vermelho vivo, e a julgar por suas maçãs do rosto avermelhadas, ele estava em um decente estado de embriaguez.
–... Quem diabos é você? – Perguntou Arthur, escondendo-se atrás do braço de Francis.
– Sou aquele que chamam por Gilbert. E eu tô interessado em participar. Topam? No meu apartamento. – Arthur e Francis arregalaram os olhos, impressionados com aquele convite ousado de um indivíduo que viera do beco.
– A noite não pode ficar pior. – Grunhiu Arthur, aceitando o convite. Os três, portanto, seguiram em direção à suposta casa no carro daquele albino liberal e aleatório, em um silêncio devastador.
A sorte de toda essa situação é que de madrugada não há trânsito, e o destino da casa chegara rapidamente. Pela fachada do prédio, aquele parecia ser um apartamento luxuoso. Entraram no elevador, e assim, na casa.
– Sintam-se à vontade! – Exclamara de forma animada o dono da residência, abrindo os braços. Os outros dois adentraram o apto, fechando a porta atrás de si.
– Obrigado... – Disseram em uníssono, um pouco envergonhados. Gilbert olhou para os outros, as mãos na cintura. Precisava tirar a tensão da atmosfera. Tivera uma ideia brilhante.
– Que tal um pouco de música? – Gilbert fora até a sala, ligando o potente equipamento sonoro. Uma música eletrônica começara a tocar, e Gilbert balançava o quadril para frente e para trás, sincronizado.
– Da Da Das Boot! Da Da Das boot! Das boot! – Cantarolou o albino, remexendo o corpo esguio, também conhecido por “corpitcho”, em movimentos frenéticos. Arthur e Francis se entreolharam, sem saber o que dizer.
– ... – Alguém precisava dizer algo. Ou aquele alemão vida louca não pararia de soltar as asinhas. Francis pigarreou, pronunciando-se:
– E-Er, já não é meio tarde para deixar a música tocando nessa altura?
– Ah, ja! Mas o povo aqui é um saco mesmo! Reclamam até quando eu ligo a hidromassagem!
– Espera, para tudo. Você tem uma hidromassagem? – Perguntou Arthur, piscando lentamente os olhos esverdeados.
– Eu tenho!
– Puxa... Nosso sonho é entrar em uma, não é, Arthur? – Exclamara Bonnefoy, com um sorriso animado no rosto. O inglês concordou com ele, e os dois pareciam realmente contentes. Gilbert mordeu os lábios, bagunçando os cabelos.
– Bem... É uma hidro bem grande. – Respondera, enfatizando o “bem”.
– Grande como?
– Cabe umas três pessoas... Topam?
Arthur olhou para Francis, e sabia que ele estava pensando o mesmo que ele.
Talvez tivessem finalmente encontrado a sua tão desejada chance de apimentar a relação.
Notas finais
Morrendo de vergonha, UHULES. /yaoming' Bem, a fanfic dividiu-se em dois capítulos.
O outro já está pronto, e será postado no sábado. -q
E aí? comentários? *manly tearsss*
Fale com o autor