Máscaras na Nuvem
5 Reunião de Negócios
Notas iniciais
Uma sala vazia, pouco iluminada. É tudo isso que as três figuras vem. Exceto, é claro, uns aos outros. Não é só frio, mas a sensação de desorientação e confusão dificulta qualquer entendimento mais profundo da situação. Eles nem se perguntam quem são os outros, apenas querem entender o que estão fazendo ali.
"Sejam bem vindos" — A voz clara e suave vem de todos os lados, inclusive do próprio chão. Na tela, a frente do trio, a imagem realista de uma mulher de olhos cor de mel, cabelos castanhos e pele escura surge. Ela tem um sorriso amistoso no rosto e sua expressão entrega satisfação.
"Vocês foram recrutados para uma missão muito importante"— A figura encara um a um dos três caídos bem à frente da tela. “A confusão que estão sentido faz parte do processo de desmemorização recente" — A expressão amistosa não some no rosto dela, mesmo ao tratar de algo tão invasivo quanto apagar a memória de alguém contra a sua vontade. "Fizemos para que vocês não se recordem da nossa, possível, abordagem agressiva" — Ela explica, sem se mostrar incomodada com o que acabou de dizer.
O fraco tom de laranja da iluminação aumenta gradativamente até tomar conta de tudo. Logo, a tela é tomada por dados de diversos tipos. Os olhos dos três doem, nenhum consegue ver realmente o que está lá.
"Estão contratados por um valor de 120 mil créditos, depositados agora em suas contas"— Conforme a voz da mulher falava, a tela mostrava os valores nas contas reais dos três desnorteados contratados. Era óbvio que aquilo era fruto de alguma operação de invasão nos sistemas bancários. Metade do valor é contabilizado em cada uma das contas.
"A outra metade será incluída assim que o trabalho estiver feito" — Ela diz, mostrando os dados da conta de origem, ainda, com 180 mil créditos.
A confusão de alguns é bem fundamentada, implantes cibernéticos não parecem funcionar, ou apresentam interferência séria. Olhos falham, ouvidos zombem, o tato some. Membros cibernéticos pesam e se tornam apenas um estorvo.
"Na outra sala.."— A figura da tela diz, agora tomando o protagonismo novamente, enquanto uma porta começa a se abrir no fundo da sala. "..Vocês encontrarão roupas, equipamentos e as ordens iniciais da missão" — Cronometradamente, a porta se abre completamente com o término da frase, permitindo um feixe de luz laranja tomar parte da sala onde o trio se encontra.
Olhavam-se, ou tentavam, mas apenas Desmond conseguiu se levantar. Sentia-se fraco, mas diferente dos dois, ele era um homem puro. Pureza era uma característica, ou a nomenclatura, usada para identificar qualquer um que não tivesse nenhum implante cibernético no corpo. Algo raro e, de certa forma muito problemático no mundo da ultra tecnologia, como este é.
O homem e a mulher que restavam não conseguiam estabilizar em uma posição, caiam se desequilibravam, não conseguiam sequer se sentarem. Kazuki esticava seu braço na tentativa de se segurar em Desmond, que se afastava sem perceber. Por mais que tentasse, o Samurai de Ferro não conseguia falar, algo em sua garganta o impedia.
Dentro da sala havia apenas três coisas: dois armários, um em cada lado e um console grande, que Desmond sabia muito bem o que era. Arriscou ao por sua mão na área de leitura, mas obteve sucesso. A iluminação laranja deu lugar a padrão.
Dois gritos, um gutural e o outro pedindo por ajuda. Uma voz feminina e uma masculina.
O homem asiático estava caído no chão respirando profundamente. Sua mão esquerda estava na sua garganta, como se conferisse o estado da mesma. Ele chamava por Desmond de forma que podia, mas sua voz não saia com perfeição. A angustia do sufocamento flertava consigo ainda, mesmo que o bloqueio aos cibernéticos tivesse sido desativado.
Agora havia perguntas em suas duas cabeças de homens. Mas, a primeira de todas era quem era a mulher que não parava de gritar?
Megan Thomas estava estirada no chão, com sua barriga para cima. Ela gritava de forma gutural desde que o bloqueio havia sido interrompido. Kazuki a acude em seus braços e ela para de gritar. Encolhendo-se.
A figura na tela volta a falar, olhando para os dois, diz que ela estava em um surto severo, um ataque de pânico, provocado pela pane dos aparelhos que tanto traziam vantagens para seu serviço, quando liberavam doses de químicas potentes que a anestesiavam em momentos de muito estresse.
Claro, após a resposta inesperada do sistema insensível que o conduzia como cobaias, puderam dimensionar o quão fodidos estavam. A resposta foi rápida e certeira: pareciam estar bem fodidos.
O cômodo com os armários também contava com um apêndice, de design antigo, do início do século, com banheiro e chuveiro. Algo bem simples, que dava a entender que lugar era reformado ou foi construído para remeter a aquela época.
Porra, ficava meio óbvio que era reformado, afinal quem gastaria créditos pra construir um vestiário no estilo 2010?
"Vocês dois não ..olhem para cá" — Ordenou a voz fermina de Megan que entrava no cômodo. A idade e a experiência de vida fazem Kazuki dar de ombros e continuar a tomar seu banho, enquanto Desmond, visivelmente mais jovem, estremeceu de forma controlada.
Os três tomaram banho cada uma em uma baía do banheiro sem trocar nenhuma palavra.
Avaliaram os armários, além de roupas sociais encontraram armas leves, pouca munição e três conjuntos de injeções e nanos chips.
A mulher pergunta sobre o que acham que é, e o homem de origem asiática responde assertivamente: "Rastreadores".
Para Megan soava como quase como um insulto, ela sabia disso, só queria saber por que queriam manter a posição deles em evidência.
O outro homem, de pele negra, interrompe a tensão que ia surgindo entre os dois. Ele explica que não são apenas rastreadores, é um lembrete de que estão sendo observados e de que podem simplesmente agir como quiserem.
Murmurando, Megan, reclama que são coleiras e soca o armário o amassando. Enquanto os dois rapazes concordam.
Os três são diferentes, seus corpos e suas personalidades. A sargento só se sente irritada, fruto do choque que passou a pouco e, que não fingiu que não aconteceu. O hacker estava confuso com tudo aquilo, tentando conectar o que seu roubo tinha a ver com aquela situação, enquanto o Samurai de Ferro avaliava o local com seus implantes cibernéticos buscando uma forma de escapar.
Estavam vestidos com as roupas apresentadas, ternos escuros, neutros, de qualidade impressionante, corte perfeito para seus corpos e perfumados com essências que nunca havia sentido.
Algo de errado não podia estar certo.
"Agora que estão prontos.." — A figura surgiu em uma projeção na parede lisa, dentro do cômodo. "Vocês devem encontrar um homem chamado Don 709" — No mesmo momento os dados do serviço surgem junto da projeção, assim como nos implantes visuais dos que possuíam.
O texto dizia sobre onde acha-lo, um conjunto habitacional ao norte do centro da cidade, o Conjunto Habitacional SHUN III. Também continha informações sobre ele e, o motivo de estarem sendo enviados para busca-lo.
Don 709 é um arquivo morto e alguém quer as informações que ele tem. Alguém muito poderoso, capaz de sequestrar três agentes autônomos de renome, mete-los na porra de uma sala, apagar suas memórias e os obrigar a encontra-lo.
O que o arquivo mostrado não conta é que eles percebem assim que pegam a condução, automática, que os leva até o lugar é que, além de não terem apoio externo nenhum, se trata de um território Baixo, tomado pelo crime e superlotado.
Fale com o autor