O caminho da porta até a nossa mesa pareceu infinitamente maior do que o normal. Qual era a verdade sobre Kankuro afinal? Por que Temari tinha mentido? Ávida por explicações, sentei-me rapidamente e fitei os olhos claros de Gaara, esperando respostas.

— O que você sabe? – ele perguntou.

Sabendo que ele iria esconder qualquer emoção, não hesitei em contar exatamente o que Temari tinha me contado. Explicitando tudo, desde o que ela tinha falado que Sasuke tinha dito, até o fim.

O ruivo ficou me fitando com indiferença até o fim da minha história. Então simplesmente falou:

— Ótimo. Ela ainda acha que foi culpa dele.

Franzi o cenho, indignada.

— Gaara... Do que raios você está falando?

— O que eu disse antes, Cherry. – ele parecia impaciente. – Ela precisava de alguém para colocar a culpa. Senão iria surtar.

Pisquei algumas vezes, querendo mostrar que ali não era nem perto do suficiente.

— Kankuro estava se envolvendo com drogas pesadas, eu e Sasuke estávamos tentando impedí-lo. Quando Sasuke desceu, deixando-o sozinho, ele estava me procurando.

— Então por que ele disse a Temari que...

— Ele não queria deixá-la preocupada.

Pensei em todas as coisas que Sasuke podia dizer para não deixar Temari preocupada. E ao invés delas, ele disse: “Kankuro está chapadasso lá em cima, preferi deixá-lo sozinho.” Eu lembrava das palavras de Temari como se tivessem sido ditas no dia anterior.

— Ele podia ter dito qualquer coisa. – falei o que estava na minha mente.

— Ele também não estava completamente sóbrio... – Gaara respondeu, dando de ombros. Era estranho ver alguém defendendo Sasuke para variar. – Quando ele me achou, me avisou que Kankuro estava mal e que era melhor subirmos. Ele quis ir comigo, mas eu disse que era melhor ir sozinho. Naruto precisava dele.

Pisquei. Aquilo era simplesmente muito para absorver.

— Ele estava exagerando nas bebidas e Naruto não pode beber muito. Sasuke é o único que ele ouve e vice-versa, então eu falei que iria olhar Kankuro enquanto ele ia cuidar de Naruto. Ele ficou discutindo comigo por uns instantes e... Talvez se não ficássemos reclamando e fôssemos logo socorrer o meu irmão, as coisas seriam diferentes.

Engoli um seco e desviei meu olhar. Novamente, eu sabia exatamente o que viria a seguir. E ouvir de Gaara era ainda pior do que ouvir de Temari. Porque ela contava com um rancor claro, com ódio. Ele não. Nos olhos de Gaara só havia dor e tristeza.

— Então finalmente o convenci de que podia ir sozinho e Temari me encontrou enquanto eu subia as escadas. Eu disse a ela que ia ver se Kankuro estava bem e ela me seguiu, é claro. Eu devia ter dito que tinha sido Sasuke quem tinha me avisado, mas eu estava aflito demais para raciocinar.

Ele parou de falar e, por um momento, achei que não iria mais explicar nada porque era muito doloroso. Mas ele só tomou um gole de cerveja, e continuou como se fosse a vida de outra pessoa.

— Essa parte você já sabe.

Acenei com a cabeça lentamente e evitei seus olhos novamente.

— Eu percebi que Temari estava surtando. Que ela nunca se recuperaria daquilo. Então preferi que ela substituisse a tristeza por ódio. – continuou.

Juntei as sombrancelhas e pensei no quão egoísta aquilo soava, apesar de não parecer.

— Eu sei que isso soa egoísta. – ele disse, lendo meus pensamentos. – Mas Sasuke e eu concordamos em deixar Temari acreditar que tinha sido culpa dele. Então começamos a fingir... Era uma boa distração para nós depois do que tinha acontecido, e Temari podia odiá-lo o quanto ela quisesse, sem ter que pensar que Kankuro estava morto.

A friedade e indifereça de Gaara me impressionava e eu não podia deixar de pensar no quão errado tudo aquilo era. Tomada por uma raiva repentina, soltei:

— Não acredito, Gaara. Isso é ridículo.

Ele me fitou e suspirou.

— O plano de vocês funcionou perfeitamente. Porque Temari odeia Sasuke mais do que tudo nesse mundo. Por uma mentira. – continuei, com minha fala cheia de rancor.

— Cherry, se você visse os olhos de Temari naquela noite, você faria a mesma coisa. – ele respondeu, sem demonstrar emoção.

Bufei.

— Não. Eu não faria. Temari tem o direito de se sentir como ela quiser. Eu sei que você não queria que ela lidasse com a morte do seu irmão, mas você só prolongou a dor dela. Ela tem que lidar com isso todo dia ao olhar para Sasuke. Você conseguiu lidar com isso, você veio pra cá e superou. Ela não, Gaara. Ela não teve a chance de superar, porque estava preocupada demais odiando o Sasuke.

Finalmente, percebi algo nos olhos claros do ruivo que não estavam lá antes. Não soube lê-los, mas notei que tinha afetado-o de algum modo.

— Eu não tinha...

Então ele se calou e fitou a mesa. Não era minha intenção fazê-lo sofrer ou relembrar o passado, mas eu estava feliz por ele estar sentindo alguma coisa.

— Me desculpa Gaara, eu não devia ter trazido tudo isso a tona. – falei, sincera.

Ele ergueu sua cabeça e eu vi o meu reflexo em seus olhos lacrimejados. Desviei rapidamente, aquela dor era muito para eu suportar.

— Eu também não superei, Cherry. – murmurou e eu engoli um seco. – Eu não acho que nenhum de nós vá superar. Nunca.

Eu queria levantar e abraçá-lo, mas nem eu e nem Gaara éramos pessoas que demonstrávamos nossos afetos fisicamente. Então, apenas disse:

— Kankuro não iria gostar disso.

— Provavelmente não. – concordou em um sussurro.

— É. – acenei e forcei um sorriso, tentando me lembrar de como Hinata me confortava quando eu estava triste.

Depois de alguns minutos em silêncio, que surpreendentemente não foram estranhos, mas sim cômodos e necessários, ele deu um gole de cerveja e falou, em um tom bem mais descontraido do que antes:

— Então quer dizer que você ficou com Sasuke mesmo achando que ele era um assassino?

Ri com a ironia.

— Sempre tive uma queda por psicopatas, lembra daquela época que eu amava o Alex de Laranja Mecânica e sempre o defendia? – perguntei, achando graça.

— Como esquecer? Você usou cílios postiços no olho direito por quase um ano.

Caímos na gargalhada, provavelmente já afetados pelo álcool e passamos o resto da noite lembrando de coisas vergonhosas que nós tínhamos feito no passado. Passar o tempo assim com um amigo de infância tinha sido o bônus de um dia ótimo e eu estava feliz por ter voltado para Nova York.

Em menos de uma semana, eu já estava sentindo que eu nunca tinha ido embora. Era tudo exatamente igual, menos eu. O que era curioso, porque eu costumava achar que tudo estava em constante mudança e eu estava presa em mim mesma, nunca podendo mudar.

Agora, felizmente, era o contrário. E isso era bom. Eu não estava mais tendo ataques no meio da noite e nem tinha ao menos pensado em me tornar outra pessoa além de mim mesma.

Porque, de repente, ser eu mesma bastava. Havia pessoas que gostavam de mim como eu era e eu finalmente tinha percebido isso.

O Natal chegou rapidamente, e tínhamos prometido ajudar Sai no bar, porque nenhum de nós realmente ligava para o feriado. Depois de almoçar com Tsunade, trocamos presentes, ela me deu uma pulseira que cobria todas as minhas cicatrizes do pulso, o que foi absolutamente perfeito. Àquela altura, minha tia já tinha percebido que eu fazia terapia pelo computador e tinha juntado os fatos.

Cicatrizes mais terapia, igual á disturbios. Quando ela me perguntou, eu não neguei. Apenas disse que tinha tido alguns tempos dificeis e, para minha felicidade, ela não aprofundou no assunto, apenas dizendo que se eu precisasse de alguma coisa, ela estava lá por mim.

Assim que o Natal familiar acabou, corri para o The Republic, obviamente atrasada. Em feriados, o lugar lotava e Sai sempre pedia para nós o ajudarmos. Apesar de ser um trabalho, nunca cobrávamos nada e fazíamos tudo de bom grado. Afinal, acabávamos ganhando bebida de graça e nos divertíamos sempre.

Entrei correndo e bati de frente com Kiba, que derrubou uma bandeja vazia. Fiquei um tempo rindo da cara dele, até ele levantar e bater na minha cabeça.

— Você está atrasada, achei que tinha fugido sem avisar de novo. – falou, brincando e eu sorri.

— Talvez eu faça isso! – retruquei, obviamente de brincadeira, mas ele ficou sério de repente.

— Nunca mais, Bomb. – seu tom era estranhamente sério e eu fiquei com vontade de rir. Porque a ideia de fugir nunca parecera tão absurda naquele momento. Eu tinha tudo o que queria.

— Pode deixar, mamãe.

Kiba revirou os olhos e me empurrou, apressado para deixar a bandeja no balcão.

Dei uma boa olhada em volta e vi o quão cheio aquele lugar estava. Consegui distinguir algumas pessoas na multidão, mas me apressei para pegar um avental e ajudar.

— Aleluia, Chérie! – ouvi Sai falando por trás, enquanto eu colocava o avental.

— Foi mal, estava com a minha tia. – expliquei, dando de ombros e ele acenou com a cabeça para que eu fosse logo ajudar.

— Feliz Natal! – berrei enquanto o perdia de vista.

Ele resmungou algo de volta que eu não tive tempo para decifrar. Olhei em volta e vi os meus amigos correndo de um lado pra o outro, servindo pessoas bêbadas demais e felizes demais.

E, ao invés de criticá-las e julgá-las e reclamar de como tudo aquilo era supérfluo e desnecessário, eu apenas sorri. Sorri porque, pela primeira vez na vida, eu entendi o que era o Natal e o que as pessoas chamavam de espírito natalino.

Não sabia se eu gostava muito desse novo esclarecimento mental, mas não pensaria naquilo naquele momento. Vi Ino sorrindo pra mim e fui em sua direção.

— É impressão minha ou você está gostando de trabalhar de graça? – perguntou, indignada.

Dei de ombros e ela riu da minha cara.

— Daqui umas semanas você já vai estar toda de saco cheio de tudo novamente, vai ver. – a loira informou, sem realmente saber o que aquilo significava.

— Se isso acontecer, vou ter que fugir de novo, vamos ver se dessa vez eu paro na África. – respondi, brincando. Porque eu não queria voltar a ser quem eu era quando fugi.

Eu não queria sentir-me fora de lugar o tempo todo e querer ir pra longe, fugindo de mim mesma. Não. Eu não ia voltar àquela posição. Eu sempre achei que estava vivendo o bom, mas que ele não era o suficiente. Mas agora, eu realmente tinha provado o bom de verdade, não tinha como voltar para o mais ou menos.

Notas finais
Oooie queridas! Gente, quem leu o mangá e está surtando para o próximo levanta a mão ahahaha Kishi ainda me mata do coração, sério!
Enfim, gostaram? ♥

Beijão :*