Máscaras & Sussurros
18 Lições
Depois de passar o resto do dia sendo irresponsáveis e espontâneos, finalmente nos despedimos. Ao vê-lo andando na direção oposta, eu senti meu estúpido coração apertar, e então percebi o quão amarrada ao meu terrível destino eu estava.
Lembro de ter pensado: “fudeu”.
Ao entrar no apartamento, tentei não fazer contato visual com Temari. Eu sabia que não conseguiria mentir para ela tão deliberadamente se ela perguntasse onde eu estava. E, atendendo minhas preces, foram os olhos de Hinata que me encontraram quando passei pela porta.
— Cherry! – ela exclamou ao me ver e deu seu sorriso adorável. Sofri, talvez mentir para ela seria tão díficil quanto….
— Hey. – respondi em um murmúrio e me sentei no sofá. – Amanhã é o primeiro dia aula. – fiz um careta e ela correspondeu.
— Bom, só pra você na verdade. – respondeu-me com um sorriso. – Já achou um lugar para trabalhar?
— Sim. Lee achou um restaurante que estava contratando garçonetes.
Hinata ficou séria de repente e eu revirei os olhos.
– Na, não mandei ele caçar empregos por mim! Ele decidiu fazer isso sozinho…
— Certo, se é isso que você diz… — ela murmurou, ainda séria.
– É verdade! – exclamei e Hinata levantou-se.
– Você sabe o que eu acho sobre isso, mas estou feliz que tenha conseguido o emprego. – disse, sorrindo meigamente e foi para o seu quarto, me deixando ainda pior do que já estava.
Hinata e Temari achavam que eu usava Lee em todos os sentidos possíveis. Que ele era meu bálsamo quando estava carente e, pior, quando precisava de algum favor.
Era verdade que eu clamava por Olívia em momentos de desespero e usava a inocência de Lee a meu favor, mas eu não me sentia bem fazendo isso, nem um pouco. Não era uma opção, era inevitável, era uma parte que eu odiava em mim.
Era só nesse sentido que o usava e isso já estava suficiente para mim. Eu realmente gostava de Lee e as minhas colegas de apartamento não acreditavam nisso. Não acreditavam que eu podia ser boa o suficiente para gostar de alguém como Lee.
Eu também não acreditei no começo…
Era bom conhecer outros lados da minha personalidade torcida e, independente da opinião de Hinata e Temari, eu teria que confiar em mim mesma nesse aspecto.
Apesar das minhas mentiras, fui dormir bem. Tinha passado um dia divertido com Sasuke e isso era o suficiente por enquanto. Tinhamos, do nosso jeito, nos assumindo como alguma coisa que só nós dois sabíamos e compartilhávamos.
Por um momento, tudo estava bem.
Acordei com o meu alarme mais alto do que de costume e coloquei as roupas que menos fariam a minha imagem se destacar em Oxford, meu cabelo já era suficiente…
— Bom dia. – Temari me cumprimentou quando apareci na cozinha para o café-da-manhã. Ela, ainda com seus cabelos soltos, estava de camisola e com uma xícara em mãos. – Quer café?
Acenei com a cabeça e sentamos. A verdade era que eu não estava me sentindo tão mal assim por mentir e esse fato me enojava. Eu devia sentir o mínimo de respeito pela pessoa que me agregou em sua casa, mas de um jeito doentio, eu gostava do segredo, do perigo de ser descoberta a qualquer momento.
– Obrigada. – agradeci quando ela me deu uma xícara com café. – Hinata já foi?
— Sim, ela queria passar no Naruto antes. Ela me disse que Lee aranjou um emprego pra você…
— Antes que você me julgue, eu não pedi nada pra ele… — respondi prontamente.
— Relaxa Cherry, só ia te dar parabéns. – Temari respondeu, me surpreendendo. De todos, achei que ela seria a que mais me repreenderia. Sorri e agradeci com a cabeça, satisfeita.
Tal bondade quase me fez sentir mal por esconder a verdade, mas o podre em mim ainda era maior…
— Sabe, Lee era muito amigo mesmo de Neji… — ela murmurou do nada e eu a fitei. Não sabia muito de Neji, só que não gostava de seu caráter arrogante. Ele estava em várias festas, mas nunca se esforçou para se sociável e nem ao menos simpático.
Além disso, Hinata parecia ter uma dívida com ele, ela sempre tentava ao máximo chamar sua atenção e ser amável com ele, mas nada adiantava. Ele era detestável. Saber que Lee era amigo de alguém tão taciturno me surpreendeu.
Antes de Temari continuar, a campanhia tocou e eu mentalizei um palavrão. Teria de lembrar de perguntar o resto da história depois, certamente tinha me interessado.
– Posso ajudar? – perguntei ao abrir a porta. Então, notei quem era e logo dei espaço para que entrasse. – O que te fez sair da cama tão cedo, Shikamaru?
Ele deu um sorrisinho de zoação e eu ri, me satisfazia debochar do namorado de Temari, ele era preguiçoso ao extremo e eu achava cativante o quanto ele era inteligente apesar de não se esforçar nem um pouco para nada.
– A sua cara que não foi. – me respondeu em um tom claro de alguém que acabou de acordar.
– Piadista. – mostrei a língua e ele revirou os olhos.
– Cadê a fera?
Fiz um gesto para que me seguisse e entramos juntos na cozinha. Temari deu um sorriso involuntário ao ver Shikamaru atrás de mim e eu suspirei.
— Não fique tão feliz, ele acabou de te chamar de fera. – provoquei, achando graça.
Temari fingiu uma expressão de choque e disse:
— Já sabemos quem não vai se dar bem hoje a noite.
Rimos e Shikamaru fingiu indiferença, como sempre.
– Nem se você quisesse, você conseguiria ficar longe de mim. – respondeu, abraçando-a fortemente.
Ela ficou virando o rosto para evitar um beijo, mas claramente estava se divertindo. Aquele excesso de fofisse me fez sair da cozinha na mesma hora. Eu nunca fui fã de casais melosos ou românticos. Nunca fui fã de casais em geral.
Achava tudo muito excessivamente falso, parecia que eles estavam brincando de ser felizes o tempo todo, muita hipocrisia, muitas máscaras…
— Estou saindo! – gritei da sala para os dois e me apressei para pegar o trem. Apesar de não me importar de chegar atrasada, não queria chamar atenção entrando depois na sala de aula.
As minhas primeiras impressões de julho se concretizaram, as pessoas realmente se achavam superiores a tudo e todos. Se possível, os professores eram ainda piores, eles realmente achavam que mandavam no mundo e que estar lecionando em Oxford era o melhor que poderiam estar fazendo.
Aguentar aquilo por alguns anos sem enlouquecer não seria fácil, por isso fiquei extremamente aliviada quando Sasuke entrou na terceira aula. Sua presença era, claramente, um diferencial. Todos viraram para olhá-lo.
Notei as mulheres se ajeitando e os homens bufando. Não sabia dizer se era toda a beleza de Sasuke que marcava tanto, seu sobrenome ou sua reputação de delinquente. Ele me cumprimentou com um erguer de sombrancelhas e eu dei um meio sorriso.
Percebi, imediatamente, que ele estava alterado. No pequeno instante, não consegui distinguir o que tinha o deixado daquele jeito, mas resolvi ignorar, eu já sabia bem como a faculdade era insuportável para Sasuke. E como ele estava cursando aquele matéria de novo, supus que era a que ele odiava mais.
— Bem vindos alunos do primeiro ano. – o professor disse, sem entusiasmo nenhum. – Quer dizer, a maioria de vocês…
Revirei os olhos, que babaca. Em três segundos, já tinha percebido porque Sasuke odiava aquela matéria tanto.
A imagem do professor também não ajudava em nada para eu gostar de seu caráter, ele usava os cabelos arrepiados cuja cor me intrigou a principio, mas ao olhar direito, percebi que era um loiro desbotado misturado com fios grisalhos. De longe, era quase branco.
— Sou Hatake Kakashi, mas teremos tempo suficiente para nos conhecermos ao longo do ano, vamos direto ao assunto… — sua voz se arrastava e ele não demonstrava entusiasmo nenhum. Era óbvio que estava lá por nada mais que o dinheiro.
Escondia metade do seu rosto com um tapa-olho grande demais e aparentava cansado o tempo todo. Seria esse o professor que discutira com Sasuke daquela vez? Não sabia dizer, mas me senti do mesmo jeito que me senti outrora, só queria xingá-lo e socá-lo.
Ironicamente, ele ensinaria Ética. Não consegui conter-me e ri alto com a ironia. Ele imediatamente notou e eu percebi que estava ferrada.
— O que é tão engraçado, senhorita? – perguntou com desdém.
Sua expressão de superioridade me irritou tanto que nem liguei se seria expulsa no meu primeiro dia, eu precisava falar o que eu estava pensando daquele idiota.
— Acho errado termos um professor de Ética. Ética por definição é o estudo dos valores morais e princípios ideais do comportamento humano, certo? Bom, estes são variáveis, cada um tem seus valores e ideais, por que deveríamos seguir os que o senhor vai nos ensinar ao invés de seguir os nossos próprios? Isso não prejudicaria a nossa visão de mundo? O que é bem mais importante que a nossa profissão, se me perguntassem…
Não me virei para fitar os meus colegas de classe, mas simplesmente senti que eles estavam de queixo caido ou murmurando sobre a minha ousadia um com os outros.
Kakashi não se deixou afetar, estava pronto para responder-me, provavelmente soltando argumentos melhores que os meus, quando ouviu Sasuke rir ao meu lado.
Obviamente, o professor não perderia essa chance de pegar no pé dele.
— Achou graça, Uchiha? – perguntou, desdenhoso.
— Sim. Perdoe-me pelo reflexo involuntário do meu corpo.
Sua resposta me fez gargalhar e ambos continuamos rindo por alguns segundos, quando o professor simplesmente disse:
— Vamos ver quem vai achar graça no fim do ano quando tiverem que entrar aqui de novo. Saiam da sala, por favor, não quero que o reflexo involuntário do corpo de vocês atrapalhe os alunos que realmente levam suas vidas a sério.
Olhei para Sasuke e percebi que a resposta só nos fizera achar ainda mais graça de tudo e saimos voluntariamente da sala gargalhando.
– Odeio esse cara. – ele disse, quando finalmente paramos de rir.
– Eu não fiquei nem dois minutos com ele e já o odeio também. Foi com ele que você discutiu daquela vez? – perguntei, enquanto andávamos no campus.
Sasuke ficou sério e acenou. Claramente ele não gostava de lembrar de um momento que eu o encontrara tão vulnerável, mas isso não me importava, ele já tinha me achado em estado pior.
Ainda lembrando daquilo, me ocorreu que eu nunca tinha mencionado a Sasuke que eu tinha falado com Jiraya. Já fazia mais de um mês e eu nunca mais tinha visto o velho naquele banco. Provalvelmente ficara com medo de eu levar Naruto lá ou algo assim…
— Eu fui falar com Jiraya. – disse, do nada.
Sasuke bufou.
— Eu te disse pra não falar.
– E eu te respondi que você não manda em mim. – retruquei.
– O que ele respondeu?
— Nada. Ficou cabisbaixo o tempo todo, acho que eu realmente o afetei, talvez funcione…
— Não vai. – ele respondeu, prontamente.
— O que… Claro que…
— Não vai funcionar, Cherry, nem fique esperançosa, você vai se decepcionar. – o tom de Sasuke parecia sério e profundo demais para a situação que nos encontrávamos.
Ele estava só sendo pessimista como sempre ou realmente tinha um motivo para acreditar naquilo? O suposto trauma que passou com seus pais teria alguma coisa a ver?
— Se funcionar, eu vou ficar um mês te enchendo sobre isso. – respondi, para descontrair.
- Por que eu sinto que você vai me encher de qualquer jeito?
Ele deu um meio sorriso e eu ri. Ficamos andando por um tempo em um silêncio cômodo, quando me peguei dizendo:
— Eu acho que vai funcionar… Porque eu mencionei meu pai.
Sasuke parou de andar e fitou meus olhos seriamente. Seu olhar me desarmou.
— Eu disse como me sentia com o abandono do meu pai… Eu joguei sujo, Sasuke. Tenho certeza que o afetei… Eu… Tenho que ter afetado.
Todos aqueles sentimentos que eu estava tendo enquanto discursava para Jiraya voltaram como uma onda e eu me segurei para não cair de joelhos e chorar. Tinha me convencido que estava fazendo aquilo para Naruto, mas depois percebi que era óbvio que era uma necessidade minha, que tudo aquilo era só uma coisa que eu tinha que dizer ao meu pai e usei Jiraya como substituto.
Sasuke percebeu minha aflição e pegou na minha mão. Ele não disse nada, mas aquilo era o suficiente. Sua presença sempre era suficiente. Encostei minha cabeça em seu ombro e continuamos andando pacificamente.
— Uchiha! Garota do cabelo rosa! – ouvi de repente, despertando-me da minha paz. Kakashi estava na nossa frente com sua face pretensiosa. – Minha sala, agora.
Notas finais
Capítulo fresquinho pra vocês no prazo prometido, haha (:
Gostaram? ♥
Beijão :*
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