O avião pousou nos Estados Unidos mais rápido do que eu esperava. A primeira coisa que eu fiz foi ajustar o meu relógio para o horário certo, eu não queria mais viver de fantasias.

Sai do aeroporto e me deparei com a caótica Nova York. Completamente lotada, poluída e caótica, minha cidade natal se diferenciava em quase tudo de Bristol, mas mesmo assim, eu a amava por completo.

Pisar nas ruas movimentadas de Nova York era como voltar para a casa depois de um fim de semana sofrido. Eu olhei para as pessoas e soube imediatamente que nenhuma delas ia se oferecer para pegar a minha mala e muito menos um apartamento para morar.

Não, eu estava na minha cidade. Minha Nova York. Percebi que nunca tinha me sentido a vontade para chamá-la de minha. Mas não tinha como ser diferente. Sempre fora minha.

Sabia que era impossível arranjar um táxi naquelas ruas, então resolvi aproveitar a minha volta e caminhar. Em Bristol, era fácil chegar nos lugares andando, nada era extremamente longe. Mas em Nova York não. Em NY era impossível andar.

Mesmo sabendo disso, caminhei, como se não soubesse para onde estava indo.

Eu não estava tão cansada como achei que estaria quando me deparei com a soleira da minha casa. Olhei nostálgica para aquela porta e demorei alguns minutos para conseguir me compor e pegar a chave extra em um dos vasos.

Entrei e sorri ao perceber que tudo estava exatamente igual de quando eu tinha saído. Me esforçando para não chorar, vi umas caixas no corredor e me dei conta de que estávamos perto do Natal.

Tsunade sempre arrumava a casa de modo impecável para o Natal, era costume nos Estados Unidos enfeitar o exterior e interior de cada residência de forma exagerada. Por mais desleixada que minha tia fosse, ela sempre levava esse feriado em especial muito a sério.

Eu sempre achei que o Natal fosse só mais um feriado inútil para o mercado ganhar dinheiro às nossas custas, então nunca realmente ajudei a decorar a casa. Mesmo continuando com esse pensamento, eu resolvi pegar os enfeites e enfeitar.

Não era porque eu queria me redimir por ter fugido ou porque estava me sentindo culpada. Eu sabia que devia desculpas a minha tia, mas minha mente estava plena.

Não, eu estava fazendo aquilo por vontade genuína. Eu queria fazer o bem e me sentir útil. Eu realmente estava sendo altruista e aquilo me fez sorrir. Se eu me olhasse no espelho, não me reconheceria.

Apesar de completamente cansada da viagem, passei a tarde toda arrumando a casa, tentando lembrar de todos os detalhes e fazer exatamente igual aos outros anos.

Depois de conectar todos os enfeites coloridos na tomada, colocar toda a neve falsa nas janelas e fazer com que tudo parecesse sair de um filme de comédia romântica, subi para o meu quarto, exausta.

Eu sabia que Tsunade só chegaria mais tarde do trabalho, então não me importei em tomar um banho e dormir. Surpresa com a facilidade que fechar os olhos e relaxar tinha sido, não percebi quando a porta se abriu.

Foi o tempo de me levantar sonolenta da minha cama. Em questão de segundos, minha tia já estava escancarando a minha porta e me fitando inconformada. Fitei-a de volta e ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu não sabia o que dizer, mesmo tendo tanto a falar...

— Puta que pariu! – ela berrou, aproximando-se de mim. – Eu não acredito no que você fez, Cherry.

Ela continuou a berrar comigo, mas eu já tinha parado de ouvir. Eu tinha congelado ao ouvir ela me chamar de “Cherry”. Ela, a única pessoa que sempre insistiu em me chamar de Sakura, finalmente tinha me chamado de Cherry. Bem agora, quando eu já estava tão longe de ser Cherry.

Sorri. Porque nada podia ser tão oportuno quanto aquilo. Era o contrário. Ela sempre tinha errado e não podia ser diferente, como eu poderia pensar que seria diferente dessa vez?

— Você está me ouvindo?! – gritou ainda mais, ao perceber que eu estava perdida em meus pensamentos. Provavelmente irritada por eu estar sorrindo.

— Me perdoa, tia. – falei, roboticamente. Já estava tão acostumada em dizer aquelas palavras para ela, mas dessa vez eram verdade.

— Você nunca mais vai fugir assim, me entendeu? Pelo amor de deus, o que você tem na cabeça? – ela disse, agora em um tom mais calmo. Vi um suspiro de cansaço quando ela finalmente fitou meus olhos diretamente.

— Desculpa. – pedi novamente.

Então, sem mais nem menos, ela me puxou para um abraço e ficou assim por um bom tempo, até perceber que ainda estava brava comigo. Engoli um sorriso e a fitei com cara de quem estava profundamente arrependida do que tinha feito.

— Eu devia te colocar em um reformatório, mas você é maior de idade. – murmurou. – E você decorou a casa tudo errado!

Dei de ombros.

— Você sabe que eu sempre achei que o Natal é-

— Só um feriado inútil para o mercado ganhar dinheiro às nossas custas. Eu sei, eu sei. – ela completou, revirando os olhos. – Vamos, agora você vai ter que me ajudar a arrumar.

— Ok. – concordei, fingindo que eu só estava fazendo aquilo porque estava me sentindo culpada e não porque realmente queria. Mas tudo bem, porque ela também estava fingindo que não ligava pra mim, quando eu sabia que sim.

Tsunade começou a me mostrar como realmente era para decorar a casa e eu a ajudava como se nada tivesse acontecido. Eu estava feliz em vê-la sóbria e eu tinha certeza que ela estava feliz com a minha volta, só não demonstrava.

Depois de finalmente terminamos de arrumar o que eu tinha feito de errado, ela sentou-se na mesa de jantar e ficou me fitando por um tempo.

— Cherry... – ela começou, de repente, em um tom que eu nunca tinha ouvido antes. – Eu sei que eu não sou a melhor mãe que alguém pode ter, mas...

Mãe. Ela tinha dito “mãe” sem nem hesitar. Sem nem parar para pensar. Novamente, tudo o que veio a seguir foi como um borrão e eu só consegui me concentrar naquela palavra. Ela se considerava minha mãe.

— Tia. – a interrompi, num fio de voz. – Você cuidou de mim quando eu não tinha ninguém. Você podia ter me mandado para um orfanato e não mandou. Você escolheu cuidar de mim.


Percebi, envergonhada, que aquela era a primeira vez que eu me dava conta daquilo. De que Tsunade cuidava de mim porque queria. Ela me dava dinheiro, comida e moradia.

Ela me ensinou a ler, a escrever, a andar.

Ela era a mãe que eu nunca tive e o pai que tinha me abandonado.

— Eu nunca te dei valor. – informei, mais para mim mesma do que para ela. – Me desculpa por isso. Me desculpa por tudo... Eu sei que fui uma pessoa díficil... Eu... Eu nunca mais vou fugir desse jeito.

Minhas lágrimas já estavam caindo e eu não me dei ao trabalho de limpá-las, sabendo que viriam mais a seguir.

— Do que você está falando, garota? – ela perguntou, claramente tentando não chorar também. – O que aconteceu com você na Inglaterra?

Dei de ombros e solucei, achando graça da minha própria condição. Tsunade abaixou a cabeça, querendo esconder seu rosto e disse:

— Eu que devia me desculpar. Eu não sei porque você fugiu, mas eu devia saber, devia estar lá por você... Eu sempre perco tanto da sua vida...

— Não foi por você. – respondi imediatamente. – Não foi por sua causa que eu fugi.

Ela levantou o olhar e eu vi o lacrimejar que tanto estava tentando esconder. Vi a sombra de um sorriso, quando ela murmurou:

— Mesmo assim... Desculpa, Cherry. Eu vou tentar ser uma pessoa melhor por você.

Sorri e a abracei na cadeira, sem me importar que meses atrás eu achava que ela era uma péssima tia que não ligava pra mim. Eu tinha crescido e isso era mais que o suficiente, eu não podia me culpar pelo passado para sempre. O jeito era compensar no presente.

— Certo, chega, isso está parecendo uma novela mexicana. – ela comentou, enxugando as lágrimas com as mangas de sua blusa decotada.

— Você ama novela mexicana.

— E eu achando que tinha sentido sua falta... – murmurou zombateia e rimos.

Ficamos um tempo conversando sobre Bristol, sem mencionar – é claro – as coisas ilegais que eu tinha feito e muito menos toda a história de querer me matar etc. Basicamente o que sobrou para dizer foi sobre Oxford.

Estava contando como tinha sido a minha entrevista, quando ouvimos a porta ser aberta violentamente.

Assustadas, pulamos da cadeira e nos entreolhamos, com medo de que fosse um ladrão. Eu realmente estava de volta em Nova York, afinal...

— CHERRY, SUA PUTA! – ouvi uma voz familiar gritar da sala de estar. Sorri ao reconhecê-la e andei até o aposento, me deparando com uma Ino fora de si, me olhando com raiva pura.

Por um instante, achei que ela fosse partir para cima de mim e me socar até eu perder a consciência, mas então, ela começou a chorar descontroladamente e caiu de joelhos.

— Eu... Me disseram... Por que... Voltou. – ela tentava formar frases entre seus soluços.

— Eu não sabia que você gostava tanto assim de mim. – falei, mais para irritá-la do que qualquer outra coisa.

Funcionou. Em um instante ela já estava em pé de novo e me olhando furiosa por trás das lágrimas, que ainda caiam.

Ino era um tanto bipolar. Mas do jeito saudável da palavra, não do jeito eu e Olívia... Enfim.

— CALA A BOCA! – ela gritou. – Eu te odeio! Você me abandonou aqui com aquele bando de macacos babões! Você tem noção do quanto eu quero conhecer a Inglaterra? Por que você não me levou?!

Com esse comentário, eu não aguentei mais e comecei a gargalhar de um modo que não fazia há muito tempo. Lágrimas de felicidade saiam dos meus olhos e tudo o que eu conseguia pensar naquele momento era no quanto eu tinha sentido falta de Ino e seus comentários completamente importunos.

— Nossa senhora, eu senti sua falta, porca. – falei, quando finalmente tinha conseguido ar para respirar.

Ainda emburrada, Ino se aproximou.

— Por que raios você não falou que ia voltar hoje? – perguntou, cruzando os braços.

— Surpresa...? – respondi, cautelosa.

— Caralho, Cherry. – a loira murmurou e me abraçou tão forte quanto pôde.

— Como você sabia que eu tinha voltado? – perguntei ao nos separarmos, de repente me dando conta de que Ino simplesmente tinha aparecido na minha casa de forma abrupta.

— Seu vizinho me ligou, falando que tinha uma menina de cabelo rosas entrando na casa de Tsunade...

— Meu deus, eu moro aqui faz dezenove anos e aquele cara ainda não sabe quem eu sou! – exclamei, achando graça apesar da indignação.

Ela riu e me abraçou de novo.

— Vamos. – falou, me empurrando para fora da porta.

— Onde?

— Engraçadinha. O The Republic, é claro. – respondeu, simplesmente, como se fosse apenas mais uma sexta-feira e eu nunca tivesse indo embora.

Notas finais
Oi lindas, estão bem?
Cap novo para vocês ♥
Como sempre, espero que tenham gostado *-*

Beijão :*