Felizmente, no meu trabalho eu não tive que lidar com Lee ou outras surpresas indesejadas. O tempo passou estranhamente mais rápido, talvez estivesse me condenando pelo meu pecado, me fazendo ir ao meu juízo final mais rápido.

Eu teria que ir falar com ele. Não conseguiria olhar para ele de novo sem contar. Eu, que tinha tantos defeitos, não conseguia mentir.

Quando Chouji finalmente me liberou, meu coração apertou. Era a hora de pagar pelos meus pecados. Eu aceitaria as consequências com prazer e, considerando que Sasuke me entendia tão bem, eu duvidava que ele perderia a cabeça.

Nossa relação, ou sei lá como poderia chamar, era muito mais forte e sólida do que um beijo sem sentido. Disso eu tinha certeza, só precisava saber se ele tinha também...

Eu ainda sentia ressentimento, mas finalmente comecei a me acalmar. Não era completamente minha culpa, Kakashi que tinha me beijado. Era ele quem estava errado, não eu.

Ele que era o meu professor, bem mais velho... Eu só tinha retribuido um pouco, por que estava me martirizando tanto?

Depois de quase me perdoar, estava pronta para contar para o meu juíz.

Entrei no apartamento de Sasuke como se fosse minha própria casa, eu sabia que ele não se incomodaria. Rodei o meu olhar pelo cômodo bagunçado e não o encontrei a vista, então simplesmente mandei uma mensagem para Temari dizendo que não iria para casa e deitei-me na cama.

Era fácil ficar ali, confortável, cômodo... Poderia viver naquele ambiente, naquele estilo de vida para sempre. Perdida em meus pensamentos, como sempre, não percebi quando a porta abriu-se e Sasuke entrou.

Fitei-o e sorri. Felizmente, ele estava sóbrio e isso certamente facilitaria minha confissão.

Ele aproximou-se e me beijou ternamente. Afastou-se rápido demais, indo para trás do balcão e preparando um café.

— Kakashi me beijou. – disse, já não conseguia mais segurar. Era impossível ficar no mesmo ambiente que Sasuke e ocultar uma coisa como aquela.

Vi os olhos dele se arregalarem e seu corpo ficar rígido. Então, de repente, ele jogou a xícara que estava em mãos na parede, estraçalhando-a em milhares de pedaços.

Levantei-me com um susto e me aproximei. Apesar de sua fúria aparente, eu não tinha medo dele, nunca tive... Nem no bar, nem no meio da rua ao meio dos berros... Nunca.

— Relaxa. Eu dei um soco nele depois disso, acho que amanhã a máscara dele estará cobrindo ainda mais seu rosto. – disse tentando acalmá-lo.

— Vou matar aquele filho da puta. – ele respondeu, furioso.

Respirei fundo.

— Eu sei que foi escroto, mas eu cuidei dele...

Sasuke estava se esforçando para não parecer ainda mais nervoso do que estava. Ele tinha assuntos pessoais com Kakashi, o odiava mais do que tudo e eu entendia, vê-lo perder assim me deixara ainda mais irritada com o professor.

— Eu estou pensando em processá-lo por assédio. – eu disse, porque queria me vingar. Me vingar por Sasuke, por mim...

— Não seja idiota. Kakashi é muito influente, você não ia conseguir nem chegar perto de um advogado que quisesse acusá-lo. – respondeu, claramente cheio de rancor.

Suspirei.

— Temos que nos vingar de algum jeito.

— Eu vou matar ele. – Sasuke respondeu, mas agora ele parecia mais zombateio. Era óbvio que ainda estava nervoso, mas não falou sério. Eu dei um sorriso e falei:

— Não quero ter que te visitar na cadeia...

Ele não disse nada. Percebi que ainda estava completamente tenso e se segurando para não ir atrás de Kakashi naquele instante, então perguntei, mudando de assunto:

— Naruto está bem? Faz tempo que eu não falo com ele.

Era verdade, nas poucas vezes que eu o tinha encontrado, não tive oportunidade de falar com ele propriamente. Eu sentia falta de Naruto, ele era uma alegria que faltava na minha vida e que mesmo não equilibrando com a morbidez e tristeza, era confortante de qualquer jeito.

Depois de ter descoberto sua história e ter enfrentado seu padrinho, eu me sentia ainda mais conectada ao loiro, mesmo sem nem ter falado com ele sobre o assunto.

— Eu ia falar sobre isso antes de você mencionar que aquele velho filho da puta tocou em você. – Sasuke disse, mudando de tom. – Jiraya finalmente foi falar com ele.

— Que?! – exclamei, exaltada. – Puta que pariu, Sasuke, como você não me falou isso antes?!

Ele apenas revirou os olhos e continuou:

— Parece que ele percebeu seus erros depois de alguma menina de cabelos rosas falar com ele. – ele sorriu e eu ri. – Aparentemente, ele finalmente tinha recebido a herança dos pais do Naruto, mas acabou gastando tudo jogando, invés de dar para o afilhado. Sentiu-se tão culpado que fingiu sua própria morte, porque achava que assim era melhor...

— Velho babaca.

— Você devia ver como Naruto está. Sua energia parece ter multiplicado por mil, se isso é possível.

Eu sorri genuinamente, feliz por ele. Eu finalmente tinha feito algo de útil desde que tinha chegado em Bristol.

— Naruto não ficou bravo? – perguntei, invés de expressar a minha felicidade.

— Sim, por dois segundos.

Sorri. Realmente, Naruto era desse tipo mesmo.

— Sabe, não queria falar isso, mas....

Eu avisei. – Sasuke disse, na sua melhor imitação da minha voz.

Revirei os olhos e dei-lhe uma cotovelada. Ele respondeu me sujando com o chantilly que estava colocando no café. Começamos uma guerra de água como duas crianças e, por um momento, eu desejei que tudo aquilo durasse pra sempre, que eu sempre pudesse me divertir com Sasuke como se não tivéssemos nenhuma responsabilidade, nenhuma obrigação com o mundo.

Mas tínhamos. E o mundo era uma merda.

— Vamos até o 301, ele disse que quer falar com você. – ele finalmente falou, depois que já estávamos completamente ensopados.

— Dá tempo de mais uma coisinha... – insinuei, aproximando-me. Coloquei minhas mãos em seu peitoral e comecei a beijar seu pescoço molhado.

Nossas carícias se intensificaram como sempre e molhamos todo o lençol da cama que já era tão familiarizada com os nossos corpos nus.

Depois de algumas horas que pareceram instantes, finalmente nos preparamos para ir para o hotel. Já nas ruas, Sasuke me ofereceu um baseado, horrorizada, respondi:

— Você só pode estar brincando. Lembra do que aconteceu da última vez que eu aceitei algo de você? Sai fora.

Ele revirou os olhos e murmurou:

— É só maconha, Cherry.

Me ofereceu de novo e eu suspirei, eu realmente queria ficar sóbria e parar com as drogas, mas Sasuke sempre arranjava um jeito de me envolver com elas de novo. No fim, ficar com ele valia mais a pena do que me manter longe das drogas.

Peguei o cigarro e traguei. Eu sentia falta da maconha de vez em quando, mas nunca tinha percebido o quanto até aquele momento. Era tão relaxante, como se todo o peso do mundo saísse dos meus ombros.

Tudo ficava tão mais fácil.

Finalmente chegamos no hotel de Naruto e subimos até o 301. Sasuke não bateu e isso foi só mais uma comprovação do que eu achava antes: eles eram como irmãos.

— Cherry! – Naruto berrou ao me ver e sorriu. Eu sorri de volta e o deixei me abraçar fortemente.

— Oi.

— Americana, por que você não me disse que tinha falado com Jiraya?! – ele queria parecer bravo, mas tudo o que eu conseguia ver era sua exaltação.

— Eu não queria te dar falsas esperanças... – respondi, honestamente.

Ele fez um “pff” e me abraçou de novo. Eu sorri com toda a sua felicidade, eu tinha feito aquilo? Por um instante, eu não me senti tão inútil, consegui me sentir quase bem por aquele breve momento. Mas então, todos os meus pecados voltaram à minha mente, Lee, Kakashi, Temari...

Não, eu estava longe de me sentir bem. Eu era um desastre.

Mas por aquele breve e sagrado instante, eu me dei ao luxo de sorrir abertamente, de me sentir feliz.

— Obrigada. – ele disse, sério.

— Eu faria qualquer coisa por você. – respondi, no mesmo tom. Era verdade. Ele tinha me acolhido, tinha sido bom comigo quando todo mundo me julgou... E apesar de ser contra o meu relacionamento com o Sasuke, não mencionava o assunto toda vez que eu o via, como Temari fazia.

Naruto pareceu realmente tocado com as minhas palavras, que pareciam tão óbvias para mim.

— Nossa, Cherry, por um momento você até pareceu uma pessoa normal. – Sasuke disse, estragando o nosso momento e eu revirei os olhos, mostrando-lhe a língua.


— Isso é ciúmes, hein... – Naruto comentou e levou um tapa na cabeça.

Sasuke jogou-se na cama de Naruto e perguntou, depois de um tempo em silêncio:

— O que faremos essa noite?

Naruto riu e copiou o amigo, mas na poltrona de couro que eu tanto gostava.

— Amanhã tem aula... – eu comecei, mas sabia muito bem que essa era uma terrível desculpa. Em Nova York, só usávamos essa quando queríamos sair com alguém que a outra pessoa não gostava, mas depois de todo mundo perceber isso, ficou proibido usar esse argumento.

O loiro nem se deu ao trabalho de responder e Sasuke murmurou, indiferente:

— Certo. Alguma ideia?

— A gente pode ir no Secreto, de quarta tem uns covers legais. – Naruto disse. “Secreto” aparentemente era aquele primeiro bar que eu tinha ido em um dos meus primeiros dias em Bristol, aquele que na cozinha tinha a melhor balada que eu já tinha ido na vida.

E que depois resultou na minha primeira vez com Sasuke. Sim, ir àquela balada era uma ótima idéia. Sorri com a sugestão e acenei com a cabeça rapidamente.

— Estou sem grana. – Sasuke disse simplesmente, fazendo minha expressão reverter-se. Eu não me lembrava de ter pagado da primeira vez... Talvez Hinata tivesse feito essa cortesia para mim, ou por eu ser nova, me deixaram entrar de graça.

Parei para pensar, como exatamente Sasuke ganhava dinheiro? Eu sabia que ele estudava em Oxford, uma universidade cara, e ele saia quase sempre e ainda tinha um apartamento para cuidar sozinho.

Eu sabia que ele não trabalhava e, como tinha uma história complicada com sua família, era bem improvável que pedisse para eles... Com essas perguntas na cabeça, quase não percebi quando ele sugeriu:

— Podemos ir ver o nascer do sol naquela praça daquela vez... – ele disse, referindo-se à alguma coisa que só ele e Naruto entenderam. – Mas é longe.

— Eu topo. – disse, imediatamente. Nascer do sol, com Sasuke, em Bristol? Não perderia aquilo por nenhuma balada. Nunca fui romântica, mas eu certamente não era idiota.

— Nem morto que eu vou com vocês dois sozinho. – Naruto respondeu. – Vou ligar para a Hinata.

Eu sorri. As coisas pareciam estar melhorando. E por mais louco que isso soe, esse fato era uma coisa ruim. Porque se elas estavam melhorando, certamente iriam piorar drasticamente em um futuro próximo.

Minha vida era simplesmente assim. Pequenos momentos de felicidade, infinitos de dor insuportável.

Enquanto Naruto estava na varanda tentando pegar um sinal para ligar para a namorada, eu olhei para Sasuke e o peguei me fitando. Ficamos apenas nos olhando por alguns segundos e eu finalmente sorri, despertando aquele meio sorriso dele que eu tanto admirava.

Eu podia me acostumar com aquele tipo de coisa. Podia mesmo. Pena que aquilo durou exatamente dois minutos.

Notas finais
Heey, perdão pela demora, já sabem como fica no fim do ano, né? D:
Enfiiim, cap novo, espero que tenham gostado (:
Beijão :*