Máscaras & Sussurros
26 Transparência
- Hinata sofreu um acidente com a vespa! – Naruto entrou berrando. Eu e Sasuke nos entreolhamos e ele imediatamente foi em direção ao loiro, consolando-o. Eu estava atônita, não sabia o que dizer. Como assim? Hinata tomava todo o cuidado do mundo, ela nunca sofreria um acidente.
— Cara, relaxa. – Sasuke dizia para Naurto, que estava tremendo e respirando muito rápido.
— Eu tenho certeza que ela está bem. – me forcei a dizer. Mas eu não sabia, eu não sabia se ela estava bem e estava começando a ficar muito preocupada também, mas tinha que me mostrar forte para Naruto. Apesar de ter se reconciliado com Jiraya, Hinata ainda era a pessoa mais importante para ele.
Naruto ainda tremia e eu não sabia o que fazer.
— Calma, com quem você falou?
Ele não conseguia falar nada e eu suspirei, estava quase começando a tremer também, então Sasuke pegou meu celular e ligou para a Temari. Eu ia impedi-lo, porque sabia o quanto ela o odiava, mas ele parecia não se importar.
Torci para que ela relevasse seu ódio e falasse com ele propriamente.
— Temari. É o Sasuke. – ele disse, de cara.
Ouvi uns berros vindo do celular, mas ele permaneceu indiferente.
— É, claro. Agora esquece isso e me fala o que aconteceu com Hinata, Naruto está surtando. – falou, áspero. – Quanta maturidade, Temari, então fala com a Cherry.
Ele me deu o celular e eu fiquei alguns segundos em choque. Quis dizer a Sasuke que ela também estava brava comigo, mas, felizmente, Temari não ligou e disse friamente o nome do hospital onde HInata estava. Não falou mais nada.
Disse o nome para Sasuke e ele me puxou pela mão, empurrando Naruto com a outra. Aparentemente, o local ficava perto do 301, o que fez Naruto ficar se culpando, dizendo que ela estava indo para a casa dele, sem nem saber o que aconteceu de fato.
Sasuke ficava dizendo para ele se acalmar e eu não dizia nada porque não sabia o que dizer. Sem querer, eu ficava observando as ruas para ver se a vespa dela ainda estava quebrada em alguma esquina, mas quando percebia o que estava fazendo, me forçava a parar.
Chegamos ao hospital e Naruto berrou com a recepcionista, que mesmo assim foi gentil com ele e deu-lhe as direções do quarto em que Hinata estava. Como era só um visitante por vez, eu e Sasuke ficamos de fora, esperando na sala de espera. Achei estranho Temari não estar ali, provavelmente ela imaginou que estávamos a caminho e foi embora.
— Calma. – Sasuke disse, me fitando. Quando percebi, estava tremendo a perna compulsivamente e comendo minhas cutículas. – Se ela já pode ter visitas, é porque não foi nada sério.
Suspirei, era verdade. Vendo que eu não tinha me acalmado, ele pegou na minha mão e apertou-a fortemente. Eu forcei um sorriso.
— Está tudo bem. – falou, simplesmente, mas suas palavras não me acalmaram, o que me fez menos angustiada foi o beijo que ele me deu na testa. Eu sorri, dessa vez genuinamente, e parei de tremer minha perna.
Depois de algum tempo, Naruto saiu sendo empurrado por uma enfermeira que claramente não era tão gentil quanto a recepcionista. Ele parecia resmungar algumas coisas, mas ela ameaçou chamar o segurança.
Levantei-me para poder entrar em seu lugar e ela disse:
— O horário de visita acabou, me desculpe.
Então fechou e trancou a porta do quarto. Virei-me para Naruto, furiosa.
— Porra, Naruto! Queria vê-la! – berrei, recebendo vários “shhh” de todo mundo do hospital. Pedi um desculpa silencioso. – Ela está bem?
— Sim. – ele respondeu, claramente mais aliviado. – Algum bêbado idiota fez com que ela batesse, mas não foi nada sério, ela só se machucou um pouco.
Suspirei de alívio.
— Por que não podemos entrar, então? – Sasuke perguntou, tirando as palavras da minha boca.
— Sei lá, eles querem que ela descanse, mas terá alta em algumas horas. Quando ela sair eu ligo para vocês.
— É bom ligar mesmo. – avisei e ele deu seu sorriso característico. Eu amava como Naruto conseguia ser feliz apesar de tudo. Eu daria tudo para ser daquele jeito.
Sasuke pegou na minha mão e guiou-me até fora do hospital, já estava bem escuro do lado de fora e eu me perguntei que horas eram. Ainda tentando me acalmar, Sasuke fez uma reverência e disse:
— Pra onde quer ir, senhorita?
Ele se inclinou para que eu ficasse de cavalinho em suas costas. Nunca imaginaria Sasuke fazendo uma coisas dessa e muito menos eu mesma gostando de um ato tão meloso e romântico.
Mas eu gostei e ri. Me joguei em suas costas e ele fingiu que eu era pesada por alguns segundos.
— Me leve para lugar nenhum. – sussurrei em seu ouvido e ele deu seu meio sorriso delirante.
Eu fechei os olhos e aproveitei a carona, Sasuke andava devagar e eu conseguia ouvir sua respiração. A calmaria era confortante e eu já não sabia quanto tempo tinha passado desde que saímos do hospital.
Quando ele finalmente parou de andar, eu me dei ao luxo de abrir os olhos. Estávamos em uma praça que aparentemente ficava no alto da cidade, pois eu conseguia vê-la quase inteira de lá.
Faltou-me o ar por uns segundos enquanto eu apreciava aquela vista. Cada casa parecia tão pequena, tão insignificante... As cruzes no alto das igrejas se sobressaiam no mar de concreto e tudo parecia tão maravilhosamente organizado.
Mas não de um jeito proposital e tradicional, mas sim de uma forma charmosa e diferente, que me fez ficar ali apenas olhando para Bristol, sem nenhuma palavra para descrevê-la. O fato de estar noite só fazia com que tudo ficasse ainda mais perfeito. O brilho da lua na arquitetura europeia, junto com as poucas luzes que saiam de algumas janelas fazia com que tudo parecesse surreal.
Então, depois de me satisfazer com todos os detalhes daquela visão extraordinária, finalmente virei-me para Sasuke e sorri, apreciando-o.
— E ai? – ele perguntou, claramente me zoando, já que tinha percebido o quanto eu tinha amado.
— Nada mal. – respondi, no mesmo tom e ele sorriu.
Por um momento, eu quis que meus amigos de Nova York estivessem ali. Eles gostariam tanto daquilo tudo e Sai faria um desenho assim que pusesse os pés na praça... Mas, então, encontrei o olhar de Sasuke novamente e mudei de ideia. Eu e ele estava perfeito.
Mais do que perfeito.
Eu tirei sua famosa jaqueta de couro de minha bolsa e coloquei no chão para sentarmos. Ele não se importou. Nos aconchegamos e esperamos o sol surgir para nos tirar daquela escuridão que já estava tão cômoda.
Naquele momento, eu finalmente entendi o que Charlie quis dizer em suas cartas quando falou que sentia-se infinito. Porque eu também me sentia. Eu finalmente compreendi aquele sentimento que ele tanto descrevera no livro.
Era como se tudo sumisse e só sobrasse você, junto com aquele momento que se encaixa tão perfeitamente com tudo que está acontecendo com a sua vida e todos as suas escolhas e pensamentos te guiaram para ele.
Você chega a acreditar que sua vida é para sempre e que tudo o que você vai fazer na vida vai significar o mesmo tanto que aquele instante. Tudo começa a fazer sentido e você se sente... Infinito.
— No que você está pensando? – Sasuke perguntou a certa altura.
— Em como a vida por nos surpreender... – respondi, com a voz fraca. – Quer dizer, há minutos atrás estávamos morrendo de preocupação por causa de Hinata e agora estamos aqui tendo um momento que provavelmente vamos nos lembrar para sempre.
Aquela conversa era claramente muito profunda para a situação, mas Sasuke não pareceu se incomodar. Ele concordou com a cabeça e afirmou:
— As coisas sempre pioram antes de melhorar.
Por mais óbvio que a frase soasse, ela finalmente fez sentido. Eu finalmente parei pra pensar e percebi o quão certeira ela era. Quer dizer, eu não estaria apreciando tanto assim aquele nascer do sol se eu não tivesse acabado de sofrer com o acidente de uma amiga.
Eu gostaria, obviamente, mas acharia um defeito, encontraria alguma brecha para impedir a mim mesma de ser feliz. E depois de passar no hospital, era incapaz de achar qualquer coisa ruim que surgisse depois daquilo.
Sim, as coisas sempre pioram antes de melhorar. Porque “piorar” e “melhorar” são conceitos relativos. E você precisa estar bem para ficar mal, e precisa estar mal para depois ficar bem.
— Vivemos em um ciclo vicioso, então. – conclui e ele acenou.
— Sim. Porque se tivermos só bons momentos, em algum ponto eles não serão mais bons, porque não teremos nada ruim para comparar. Precisamos dos maus momentos...
Suspirei.
— Esses momentos ruins podiam ser um pouco melhores... – disse, quase suplicando.
— Se fossem, os bons não seriam assim. – Sasuke respondeu e isso me satisfez.
Porque valia a pena. Valia a pena sofrer se a recompensa fosse momentos como aquele. O sol finalmente tinha começado a nascer e sua luz se espalhava lentamente pelo telhado das casas de Bristol.
Os barulhos urbanos começaram a ficar mais claros e, de repente, já não estávamos mais sozinhos contra o mundo silencioso lá embaixo. Quando já não havia mais sombras para o sol cobrir, Sasuke pegou minha mão e nos levantamos. Ele pegou sua jaqueta e me cobriu.
— Eu acho que preciso ir na aula. – disse, de repente. Eu já tinha faltado muito e ainda era o começo do ano letivo. Não podia perder a bolsa que tinha conseguido ao explicar minha situação, mas também não tinha a mínima vontade de me encontrar com Kakashi novamente.
Sua expressão ficou séria de repente, provavelmente por se lembrar do que o professor tinha feito comigo.
— Eu vou com você. – afirmou, decidido.
— Tá, mas não quero que você seja expulso por minha causa, então sem gracinhas com Kakashi.
— Cherry, você deu um soco nele e ele não te expulsou... Eu posso provocá-lo um pouco. – argumentou, bufando.
— Sasuke, ele já pega no seu pé o suficente. – respondi, alegando o óbvio. – Se você for expulso, não vou sobreviver naquele lugar...
Era verdade. Apesar de achar as matérias interessantes, odiava as pessoas de lá, todos eram tão mesquinhos e nascidos em berços de ouro, não tinham a menor ideia do que era a vida real.
— E por que você acha que eu continuo indo nas aulas dele? – ele perguntou e eu sorri.
Após um tempo andando em direção ao trem, ele pegou um baseado e me ofereceu. Aceitei porque sempre que eu discutia comigo mesma sobre o assunto, a parte sóbria perdia, então não queria mais perder meu tempo.
Os efeitos da maconha eram –como sempre- relaxantes, todas as minhas preocupações banais e fúteis pareciam inúteis quando eu fumava. E queimar meus neurônios era um preço baixo para tal sensação, então não me importava.
— Duas só de ida. – Sasuke disse para a mulher do caixa depois de apagarmos os cigarros.
Ele me entregou meu ticket e entramos no veículo juntos, me lembrando da primeira vez que tínhamos feito aquilo. Como conversamos sobre meus modos e quando eu joguei a jaqueta pra fora da estação só para me sentir no controle da situação.
Percebi, então, que mais eu ficava com ele, menos controle eu tinha. Sobre tudo. E eu não ligava mais, porque eu gostava. Gostava de não ter que me preocupar em fazer joguinhos ou falar coisas inteligentes para que Sasuke gostasse de mim, porque ele não ligava para essas coisas.
Ele gostava da minha essência, da parte mais profunda do meu ser. E aquilo bastava.
A viagem para Londres era relativamente longa e ainda estávamos um pouco chapados, então com certeza não seria tão agradável. Vimos apenas uma cadeira vazia e ele apontou-a para mim.
— Senta. – disse.
E por mais simples e banal que aquele gesto parecesse, significou o mundo pra mim. Como ele genuinamente me colocou antes dele mesmo, porque quando quando alguém está chapado, nunca pensa primeiro em gentileza. Então, eu sabia que ele tinha feito aquilo por puro altruísmo e não para me impressionar ou para ser bondoso, ele não precisava dessas coisas comigo, já me tinha por completo.
Sorri e sentei. Então, como tinha passado a noite em claro, encostei a cabeça no vidro e dormi. Era de se imaginar que eu, que sempre tive problemas para dormir e sempre acordei no meio da noite por causa de pesadelos, não conseguisse cochilar em um trem lotado.
Mas eu consegui. E foi um sono simples e profundo. Assim como a minha relação com Sasuke naquele momento tão tênue.
Notas finais
Cap novo pra vocês! Olha, como tá chegando Natal etc, não sei se vou conseguir postar direitinho, mas certeza que antes das festas eu postou pelo menos um e aproveito e desejo tudo de bom para vocês (:
E ai, gostaram? Coloquei um toque de "As Vantagens de Ser Invisível" porque li esse livro faz pouco tempo e me apaixonei perdidamente, ahhaha.
Enfim, beijão :*
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