Máscaras & Sussurros
31 Cemitério
Entramos na limusine e eu notei que Sasuke estava completamente tenso. Mas não do jeito que estava quando chegamos, como se quisesse ir embora, dessa vez ele estava furioso, segurando-se para não surtar.
Provavelmente estava pensando em seu plano para estragar a cerimônia e aquilo me excitava. Fitei-o e pensei em quais eram as chances dele aceitar transar comigo naquele instante.
Cautelosamente, apoiei minha mão em sua perna e o fitei de modo sugestivo. Para a minha surpresa, ele sorriu e me beijou.
Obviamente, deixei as carícias se aprofundarem e logo estávamos consumando o nosso tão alternativo e torcido amor. Apesar de já nos conhecermos intimamente, era sempre igualmente bom como se fosse a primeira vez.
Era impressionante como Sasuke conseguia me levar as alturas sem nem tentar.
Quando –rápido demais- o veículo parou, já tínhamos terminado a nossa brincadeira mais do que oportuna e descemos ajeitando nossas roupas de próposito, afim de chocar os outros convidados.
Teve efeito, todos olhavam para gente como se fosse muito pecado transar no bnco transeiro de uma limusine que estava indo em direção a um enterro. Talvez fosse, mas não ligávamos, já íamos para o inferno de qualquer jeito...
— Depois de você, senhorita. – ele disse em tom de brincadeira, me deixando passar. Passei como se fosse uma dama e respondi:
— Muito obrigada, nobre cavalheiro.
Estávamos com uma garrafa de vodka nas mãos que roubamos do frigobar da limusine e nossos risos abundantes denunciavam nosso estado mental. Claro que estávamos fingindo, mas as pessoas pareciam realmente acreditar que estávamos bêbados.
Eu ria um pouco mais com o olhar dos convidados e Sasuke tentava evitar familiares para que ninguém o expulsasse antes que pudesse dar o seu tão desejado discurso.
Ele sentou-se na última cadeira da primeira fileira e eu sentei em seu colo, erguendo meu vestido de modo exagerado para que as minhas pernas ficassem mais provocativas.
Percebi que ao nosso lado estava uma mulher elegante de cabelos negros que tinha os mesmos traços de Sasuke, seria a sua mãe? Fiquei pensando em como eles eram parecidos e como exalavam a mesma energia misteriosa e ao mesmo tempo insuportavelmente atrativa.
Ela era incrivelmente bonita e fiquei fitando-a tempo suficiente para que ela virasse para me encarar de volta. Desviei o olhar rapidamente e ela também voltou para a sua posição inicial. Então cheguei a conclusão de que talvez não fosse a mãe de Sasuke, já que ela nem dirigiu a palavra para o filho.
E apesar de Itachi e do pai dele o tratarem daquele jeito, nenhuma mãe conseguiria ignorar o filho com tanto afinco e frieza.
Interrompendo meus pensamentos, o padre que estava realizando o enterro disse de repente:
— E agora vou chamar alguns parentes do falecido para prestar suas condolências. Mikoto Uchiha, por favor, pode subir ao palco?
A mulher ao nosso lado levantou-se de forma galante e eu pensei que eu nunca tinha visto ninguém mais elegante que ela. Ela desfilava em direção ao palco e naquele instante eu pensei que não poderia ser ninguém menos que a mãe de Sasuke. Porque só a mãe de Sasuke seria assim tão perfeitamente fria e sofisticada.
— Meu irmão foi uma pessoa muito querida por mim e por todos... – ela começou em uma voz solene, completamente incomum para alguém que tinha acabado de perder um irmão.
— É a sua mãe? – perguntei baixinho para Sasuke, que a fitava com curiosidade. Ele acenou que sim.
— Esse é o discurso mais falso que eu já vi na minha vida. – ele falou, em um tom não tão baixo quanto deveria. Algumas pessoas atrás comentaram sua intervenção e eu segurei um riso.
Apesar da acidez de Sasuke, eu ainda estava incrédula por aquela mulher nem falar com ele, como isso era possível?
Vi ela forçar algumas lágrimas e logo voltou a sentar-se do nosso lado, como se fosse uma rainha voltando para o seu trono.
— Boa mãe, sua emoção era quase palpável. – ele sussurrou para ela, provocando-a. Nem com esse comentário, ela mostrou alguma reação perante a ele.
Incrédula, apenas fiquei a fitando e pensando em como alguém conseguia ser tão impenetrável.
O padre chamou outras pessoas, e quando todos os discursos se encerraram e ele estava prestes a finalizar, Sasuke levantou-se e anunciou:
— Eu gostaria de falar algumas palavras para o meu querido tio.
Nessa hora, virei-me imediatamente para fitar Mikoto e, incrivelmente, seu rosto ainda estava indecifrável. Tentei achar Itachi e o pai de Sasuke na multidão, mas não consegui.
— Claro, pode subir no palco, Sr. Uchiha. – o padre disse em um tom calmo e eu segurei minhas risadas.
Estava pronta para segurar qualquer um que tentasse impedi-lo de subir, mas nada aconteceu e, para a minha surpresa, Sasuke conseguiu começar o seu discurso com sucesso. Então apenas voltei a me sentar e fitei-o com curiosidade e ansiedade.
— Estamos aqui hoje para lamentar a perda do meu querido tio Orochimaru. – começou, com um tom zombateio que não pude deixar de notar. – Posso dizer que nós éramos muito próximos, eu sempre gostei muito dele, principalmente pelo fato dele morar na França e eu na Inglaterra.
Ouvi alguns cochicos da plateia e ri baixinho.
— A cerimônia está incrivelmente bem feita, qual das mulheres dele que a preparou? São três só chorando aqui na primeira fileira, fico imaginando quantas outras estão fingindo tristeza na platéia.
Mais cochichos.
— Sabe, quando eu era pequeno, eu sempre achei que ele tinha muitas mulheres pelos motivos mais óbvios. Dinheiro, principalemente. Mas então eu cresci e percebi que não tinha nada a ver com isso, claro.
Nessa hora, comecei a notar uma movimentação nas cadeiras e algumas pessoas inquietas.
— É claro que ninguém como tinha como imaginar, porque ele sempre foi um ótimo ator. Ou melhor, um artista completo. Fingiu ser hétero por toda sua vida e continuaria sendo em morte se não fosse seu querido sobrinho para esclarecer isso para os seus familiares. Me diga, Lily, quanto mesmo ele te pagou para fingir ser sua esposa por tantos anos?
Ele gesticulou o braço em direção a uma mulher loira que chorava na frente do caixão e ela se sobressaiu. Corando e completamente indignada, estava prestes a falar alguma coisa, quando Sasuke continuou:
— Com certeza deve ter sido milhões, já que ele sempre teve muito dinheiro. Claro que quase tudo foi com lavagem de dinheiro, mas deixemos esse detalhe de lado por um instante.
Houve mais movimento e dessa vez, já havia uma grande massa de cochichos e barulhos de bocas se abrindo em puro choque. Eu estava satisfeita por aquelas pessoas estarem acreditando em cada palavra que ele estava falando, porque sabia que era verdade.
— Vamos nos concentrar no porque eu amo o meu tio tanto. Bom, até os meus catorze anos, ele me amou de todas as maneiras possíveis, se é que vocês me entendem. Sim, estou falando de pedofilia e estupro, perdão pelo palavreado, tia Jude.
Então, todos já estavam em completo êxtase. Enquanto alguns se mexiam desconfortavelmente, outras simplesmente ficaram mais interessadas e pediam para os vizinhos se silenciarem para poderem ouvir.
Os cochichos não paravam e eu achei que alguém finalmente iria impedir Sasuke, mas ninguém parecia disposto a isso. Fitei Mikoto e, novamente, não soube ler sua expressão. Ela parecia hipnotizada no que Sasuke estava dizendo, provavelmente em puro choque.
— Mas então eu consegui esfaqueá-lo. Sabe aquele ferimento que ele diz ter conseguido em um acidente de carro? Então. – Sasuke deu um sorriso sombrio. – Aquilo é a cicatriz de quando eu cortei as bolas dele fora.
— Sasuke! – Mikoto finalmente se manifestou, horrorizada.
— O que foi, mãe? Me desculpe, eu sempre esqueço o quanto você odeia o drama. Lembra quando você me mandou para a França para ficar com o meu tio? Ele me torturou pelo que eu tinha feito a ele, sabia? E qual foi a desculpa que você deu, mesmo? Ah sim, aprender francês. A verdade é que ela já não conseguia mais lidar comigo, depois do que eu fiz com o...
Então, o som do microfone cortou-se e sua fala pairou no ar, sendo interrompido por todos os cochichos que agora soavam como berros em um show de rock.
Olhei em volta para ver quem tinha cortado o som e me deparei com Itachi ao lado da caixa de som, olhando para Sasuke com pura raiva. Sorri ao ver sua expressão e levantei-me, pensando que já era hora de dar o fora dali antes de sermos presos.
Felizmente, Sasuke percebeu a mesma coisa, fez uma reverência e desceu do palco sorrindo de satisfação. Veio em minha direção e pegou a minha mão, guiando-me para a rua.
Todos os olhos nos seguiam enquanto seguiamos para longe do cemitério.
— Ótimo trabalho. – comentei, no meio das minhas risadas e ele acenou com a cabeça.
— Acho que agora ninguém nunca mais me chama para um enterro.
— Você está brincando? Eu vi várias velhas super interessadas no que você estava falando, certeza que amam um barraco, vão te chamar certeza.
Meu comentário fez ele rir ainda mais e eu o acompanhei. Estávamos tão estranhamente felizes que quase não parecia a gente.
— Onde você pensa que está indo? – ouvi por detrás, mas Sasuke não parou, continuamos andando rapidamente para longe da cerimônia.
-Você acha que pode estragar o enterro do seu tio e simplesmente cair fora?! – gritaram. Olhei para trás e vi o dono do acesso de fúria. Era Itachi.
Sasuke continuou se movando, ignorando-o, mas eu sabia que ele estava pronto para respondê-lo com comentários ácidos.
— Sasuke! – o irmão gritou, inconformado com a conduta do caçula.
Então, ele parou abruptamente e virou-se devagar.
— Eu só achei que aquelas pessoas mereciam a verdade, Itachi. – disse, com um tom incrivelmente controlado. — Há tantas mentiras nessa família, ainda bem que eu não sou mais parte dela.
Virou-se novamente e continuamos a andar a passos largos, deixando um Itachi sem palavras atrás de nós.
Passamos pela limusine e eu olhei confusa para ele, onde estávamos indo? Continuamos em linha reta, até acharmos um pequeno espaço aberto entre algumas árvores.
— Ainda tem uma coisa que eu quero fazer, mas temos que esperar a cerimônia acabar e todos irem embora, então pode ir pra casa se quiser. – falou, sentando-se na grama.
Revirei os olhos.
— Você está brincando? Nunca me diverti tanto. – respondi, me juntando a ele no chão.
Ele deu um meio sorriso e suspirou.
— Você realmente odiava seu tio. – comentei e ele se conteve em apenas acenar com a cabeça. – Por que seus pais e Itachi não acreditam em você?
Seus olhos encontraram os meus e Sasuke ficou sério de repente.
— Vamos dizer que eu nunca dei muito material para que eles confiassem em mim.
Suspirei, eu sabia exatamente do que ele estava falando. Quando você começa a mentir, não só para todos, mas para si mesmo. E então, lentamente, todos acabam perdendo aquela confiança em você e tudo o que sobra é a sua mente mentirosa.
— Mesmo assim, você não falaria uma coisa dessas sem fundamento. – insisti.
— Eu, Sasuke Uchiha, estudante de direito e herdeiro do império Uchiha, não. Mas Sasuke Uchiha, o drogado que fugiu de casa e roubou dinheiro do irmão, sim.
Fitei-o. Então a história de Itachi era verdade, afinal? Era por isso que ele evitava o irmão? Estava devendo para ele?
Tentei não pensar muito naquilo, porque era certamente uma conduta enojante, então simplesmente ignorei.
— Isso é ridículo, eles são seus pais, deviam te aceitar como você é. – falei, parecendo uma daquelas mulheres que escrevem livros de auto-ajuda.
— Diz isso pra eles. – Sasuke murmurou e deitou-se, fechando os olhos.
Depois ficamos em silêncio até tudo se acalmar no cemitério e todos os convidados forem embora. Eu não me incomodei nem um pouco com a falta de diálogo, ficar em silêncio com qualquer um me enlouqueceria, mas com Sasuke era cômodo, era confortável.
— Vamos. – ele disse, quebrando aquele momento e pegando minha mão ao levantar.
Chegamos no túmulo e ele tirou uma lata de spray de dentro de sua jaqueta. Fiquei me perguntando como não a tinha reparado antes.
A lápide era incrivelmente grande, certamente mostrando o quão rico aquele homem tinha sido em vida. Toda feita de mármore branco e revestida com palavras douradas, que mencionavam algumas citações famosas. E mais embaixo, estava escrito:
“Aqui jaz um homem digno de nossa admiração. Lutou em vida e tornou-se bem sucedido não só em sua vida profissional como na pessoal, sendo amado por todos. Um amigo, um marido e um irmão.”
Sasuke, sorrindo, balançou a lata, abriu-a e pixou, logo depois da última palavra:
“... e gay.”
Sorri e o abracei de lado. Aquilo sim era um epitáfio preciso.
Notas finais
Mais um capitulo para vocês, *-*
Eu até pensei em fazer algo mais pesado, mas sei lá, preferi deixar assim porque pensei que o Sasuke estaria um pouco afetado com a presença da família dele e tal...
Enfim, me falem o que acharam (:
Beijão :*
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