Estávamos satisfeitos olhando a nossa obra prima, quando ouvimos, de repente:

— Ei, o que vocês dois estão fazendo?

Olhamos para trás em sincronia e vimos um segurança apontando um flash de luz nos nossos rostos, proveniente de uma lanterna. Pensando a mesma coisa, demos as mãos e começamos a correr no mesmo instante, rindo da situação.

Logo, o homem começou a nos perseguir e, como era treinado para isso, estava bem perto de nos alcançar. Pensei que se nos revistasse, estaríamos ainda mais perdidos, já que era bem provável que Sasuke tivesse alguma droga com ele.

Desesperada ao pensar nisso, fitei Sasuke com o canto de olho e percebi que ele estava divertindo-se, sem nem pensar no real perigo em que estávamos.

Então, simplesmente soltei a mão dele e parei de correr, fazendo com que o segurança trombasse com tudo em mim, caindo junto comigo.

Vi Sasuke virar a cabeça e me fitar confuso, mas consegui formar as palavras “corre, drogas” com a boca sem produzir nenhum som e, felizmente, ele entendeu o recado e continuou correndo, agora mais rapidamente.

— Me desculpa, eu tropecei. – menti para o segurança que me fitava completamente furioso.

Ele levantou-se desajeitadamente e segurou meu pulso de forma violenta.

— Podia perguntar se você sabe que o cemitério está fechado essa hora, mas como vocês sairam correndo, eu tenho certeza que sabe. – ele murmurou, limpando a poeira da roupa recém-sujada.

— Perdemos a noção do tempo, senhor, não vai acontecer de novo. – falei, tentando soar inocente, o que sempre fora um problema pra mim, por causa do meu estilo alternativo de se vestir.

— Não vai mesmo. Vou te levar para a delegacia.

Ergui as sombrancelhas e minha boca acompanhou o movimento, abrindo-se levemente.

— Senhor, por favor, não foi a intenção...

— Calada! – ele exigiu, nervoso. – Seu namorado não perdeu a chance de te deixar sozinha, não é mesmo? Fico perguntando o que de tão errado vocês estavam fazendo.

Quis revirar os olhos, xingá-lo e sair correndo de novo, mas sabia que isso não iria ajudar em nada, então simplesmente respondi, fazendo-me de vítima:

— Por favor, eu não sabia... Pode me revistar, não tenho nada. Não queríamos ter ficado aqui até tão tarde, perdemos a hora e...

Forcei algumas lágrimas e comecei a soluçar.

— Por favor... – dizia, entre meus ataques de choro forçado.

— Não me venha com essa, já estou acostumado com gringos que se acham donos do mundo. Só podia ser americana...

Com essa frase, consegui exatamente o que eu queria. Parei imediatamente de parar e fitei-o, com um olhar feroz.

— Então você está me discriminando por ser americana? – perguntei, com um tom ácido.

Finalmente seu olhar voltou para o meu e eu percebi a sua confusão.

— Não foi isso que eu...

— Foi exatamente isso que você quis dizer. E isso é crime. – falei, lembrando de minhas aulas de direito e agradecendo mais do que nunca pelo diretor não ter me posto em literatura como eu queria.

— Tanto faz, ninguém vai acreditar em você. – ele murmurou, ainda mais bravo, e continuou me arrastando pelo pulso até o portão do cemitério.

— Talvez não, mas na marca no meu braço todos vão acreditar. – repliquei, apontando o meu pulso preso com a minha outra mão. – E agora que a avenida está perto, tenho certeza que tem várias pessoas prestes a me socorrem quando eu gritar por socorro. Acho que a pena por assédio sexual é bem pesada...

O segurança me olhou horrizado, sem acreditar que a menina que tropeçou e chorava descontrolodamente era a mesma que agora estava ameaçando-o condená-lo por assédio sexual.

— Você... Não faria... – começou, desesperado.

— Você quer apostar? – perguntei, em um tom mais alto, demonstrando que tinha coragem de gritar.

O homem continuou com sua expressão de puro terror e eu sorri, triunfante. Desajeitado, me soltou e parou de me encarar, como se estivesse com medo que eu soltasse uma maldição nele.

— Se eu te ver aqui de novo... – falou, mas eu notei o medo em sua voz. Claramente tinha perdido toda sua auto-confiança.

— Não se preocupe. – respondi, e andei rapidamente para fora do cemitério.

Vaguei sozinha por alguns minutos pelas ruas próximas ao local, quando finalmente fui surpreendida por Sasuke, que me agarrou por trás:

— Cherry, puta que pariu. – xingou-me e depois me puxou para um canto escuro. – Qual é o seu problema?

— Ele ia alcançar a gente e ia te revistar. Íamos nos dar muito mal. – expliquei, como se fosse óbvio.

— Você não precisava ter ficado pra trás, a gente dava um jeito. Fora que eu conheço um cara que pode tirar a gente da cadeia...

Franzi a testa e preferi ignorar o último comentário, ele realmente estava reclamando do que eu tinha feito?

— De nada. – ralhei, com um tom de rancor.

Ele bufou, impaciente, me deixando ainda mais irritada.

— Eu salvei a sua bunda preciosa de ir para a prisão, você no mínimo podia agradecer! – exclamei inconformada, ao ver seus olhos se revirando.

— Certo, Cherry. – murmurou como se estivesse cansado de discutir.

Eu odiava esse tom. Odiava essa atitude de “vou concordar para não ter que discutir, mas tenho certeza que estou certo”. Isso simplesmente me deixava possessa.

Soltei a mão que me segurava com tanta firmeza e parei de andar subitamente. Sasuke não entendeu e virou-se, me olhando com curiosidade. Era incrível como ele sempre conseguia me decifrar, menos em situações tão banais quanto aquela.

— Eu estou certa. – afirmei, com a voz firme. Ele precisava entender que eu estava certa, que eu tinha nos salvado. Eu não queria que ficasse nada pendente entre nós, não queria que ele achasse que eu tinha feito aquilo por nenhum outro motivo a não ser salvá-lo.

Ele ergueu as sombrancelhas, surpreso com a minha frase e aproximou-se com cautela.

— Eu... Estou certa. – disse novamente, como se para confirmar o que eu tinha acabado de falar.

Sasuke continuava me olhando de modo curioso, como se não estivesse acreditando que eu realmente estivesse me agarrando àquilo. Como se o certo fosse deixar pra lá e não insistir em algo tão idiota.

Talvez fosse. Talvez eu devesse simplesmente ignorar e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. Não me agarrar em algo tão pequeno.

Mas algo no clima, algo na situação ou nos olhos de Sasuke, algo na minha mente... Alguma coisa me fez querer lutar por aquilo. Querer desesperadamente argumentar e simplesmente estar certa em qualquer coisa.

Então simplesmente me agarrei na primeira situação em que eu pudesse discutir e me sentir no controle e aproveitei.

Esse era o quanto desesperada eu estava por estar certa em alguma coisa na vida naquele momento.

— Você é louca... – Sasuke murmurou, franzindo a testa, como se tivesse lido meus pensamentos.

Louca.

Então, nessa simples frase, tudo voltou. Tudo o que eu tinha sentido noite passada voltou a tona, como se fosse algo na minha cabeça que sempre estivera lá e estava prestes a me atormentar novamente assim que eu desse corda.

Eu dei.

As palavras de Gai começaram a repetir-se claramente a minha volta, ecoando constantemente sobre as árvores altas. Cada palavra era como uma agulha entrando profundamente na minha pele, sem nenhuma intenção de sair.

Além delas, tudo o que eu conseguia pensar era que foi minha culpa. Foi por minha causa que Lee foi embora. Tudo eu. Porque eu estragava tudo o que eu tocava.

Quando me dei conta, me vi chorando descontroladamente, ajoelhada no asfalto frio da rua. Dessa vez eu não estava fingindo.

Pelo canto do olho, consegui ver um Sasuke borrado pelo efeito que as lágrimas deixavam. Ele me fitava com um pouco de preocupação, mas seu olhar demonstrava algo a mais... Algo quase como medo.

Percebi sua presença chegando mais perto e me deixei envolver naqueles braços que sempre foram confortantes e acolhedores. Ele não disse nada e simplesmente ficou me abraçando até que minhas lágrimas cessaram-se.

Horas, minutos ou segundos... O tempo passou desconhecido enquanto ficamos naquele momento tênue de desespero e conforto.

Enquanto ele me abraçava, cheguei a pensar em quanto mais tempo ele aguentaria o meu jeito explosivo e emotivo. Eu era uma bomba relógio e, cedo ou tarde, iria estourar e ele teria que me soltar. Eu simplesmente sabia.

Joguei esse pensamento para longe o mais rápido que pude e simplesmente fitei-o.

— Obrigada. – murmurei, com a voz falha. Eu sabia que não era necessário os meus agradecimentos, mas eu senti a necessidade de demonstrar a Sasuke a importância do seu conforto.

Porque eu nunca tinha tido aquilo antes. Tudo isso era novo para mim.

— Chorar nunca adianta nada. – ele comentou a certo ponto, quando meu ataque histérico finalmente tinha acabado.

— O que sugira que eu faça? Me drogue? – perguntei, ácida.

Segundos depois, percebi o que tinha falado e me arrependi, mesmo prometendo não me arrepender pro nada na vida.

Depois desse comentário, Sasuke me soltou e levantou-se, claramente irritado. Ele obviamente tinha se cansado de toda a minha grosseria e insultos de graça, pois falou, em um tom frio:

— Você precisa resolver as coisas com Temari, hoje não tem como você dormir no loft.

Arregalei os olhos, agradecendo por já estar no chão. Quis perguntar o motivo, quis saber se o que eu tinha dito tinha sido tão fatal assim para ele me expulsar tão deliberadamente, mas preferi o silêncio.

Preferi não mexer na ferida para não abri-la ainda mais. Preferi respeitar suas decisões como ele tantas vezes tinha feito comigo.

Fitei seus olhos negros uma última vez e acenei cabisbaixa com a cabeça, percebendo de repente que aquela era a primeira etapa de uma série de consequências tardias para os meus atos.

Tudo o que viria a seguir seria dor. Seria pura e agoniante dor. Eu tinha essa certeza. Como tinha certeza de que Sasuke ia se cansar de mim, aquele momento foi só a prova de que isso iria acontecer.

— Olha, eu não quis dizer... – comecei, porque apesar de tudo, não queria que ele pensasse que eu achava que era um drogado perdido. Porque isso era o que a família dele achava, e isso não o levou a nada.

— Eu não me importo com o você quis dizer, Cherry. – disse, firme. – Você claramente está fora de si.

Pisquei algumas vezes, tentando absorver aquelas palavras.

— Eu... Eu estou fora de mim? – perguntei, incrédula. – Você que queria ser preso porque conhecia alguém que pudesse te tirar da cadeia!

Ele suspirou e desviou o olhar.

— Não estou falando disso... Não quero discutir com você nesse estado.

Nesse estado?

— Eu sinto muito pelo o que aconteceu com Lee, mas é óbvio que algo a mais está te afetando além dele, então... Tente resolver as coisas com Temari e quando estiver se sentindo melhor a gente conversa. – ele murmurou, como se eu fosse uma criança.

Não conseguia acreditar naquelas palavras.

— Ah, ok, então você vai me mandar embora, porque não consegue lidar comigo nesse estado? – perguntei, com um nó na garganta.

— Não é isso que eu quis...

— Não, eu não me importo com o que você quis dizer. – falei, repetindo exatamente o que ele tinha me dito.

Levantei-me desajeitada e fiz questão de fitá-lo fixamente, antes de dizer:

— E eu não preciso de você.

Assim que as palavras sairam da minha boca, percebi o quão mentirosas elas eram, mas não me corrigi, não podia deixá-lo saber que aquele estado era o meu normal e que o meu louco era bem pior do que aquilo.

E pior, não podia deixá-lo saber que tudo o que estava me mantendo sã era ele e somente ele.

Notas finais
Oiee, capítulo novoo aeae
Demorei uns dois dias porque acabei indo viajar, mas estou de volta!
Não sei se irei no carnaval, mas se sim, assim que voltar tentarei escrever, ok? (:
Gostaraam?
Beijão :*