Máscaras & Sussurros
7 Caixa chinesa
Me deixei levar. Luzes, Rostos, Sensações. Sentimentos.
E foi isso, cenas momentâneas que não fizeram sentido nenhum quando eu acordei em um quarto qualquer, que nunca tinha visto na vida. Assustada, olhei para o lado e vi o que eu mais temia: aconteceu de novo, outra noite de perdição que me levou a coisas das quais eu me arrependeria em segundos.
Do meu lado, estava deitado um sujeito com sombrancelhas bem grossas que dormia profundamente. Aparentemente eu estava em seu quarto, em sua cama e havia passado a noite lá.
Ergui o lençol e me deparei com o meu corpo nu. Ótimo. Me segurei para não soltar um gritinho e levantei-me lentamente, já estava acostumada a sair de fininho, mas estava decepcionada comigo mesma, prometi que aquele tipo de coisa não voltaria a acontecer enquanto eu não estivesse em NY.
A terrível dor de cabeça que me seguiu ao levantar-me não permitiu que eu desse mais um passo e meus joelhos conspiraram contra mim e cederam, deixando meu corpo cair novamente na cama.
Virei a cabeça e olhei para o ser deitado, que, para a minha infelicidade, mexeu-se. Xinguei baixinho e voltei a me levantar, dessa vez, mais lentamente para não ser afetada pela ressaca.
– Olivia? – ele falou, com a voz cansada.
Suspirei, sempre inventava nomes e fiquei feliz que dessa vez não inventara um constrangedor. Estava pronta para virar-me e discursar os meus argumentos de sempre, mas o jeito que ele me olhou me desarmou.
Normalmente, os caras olham como se disessem “o que está esperando para dar o fora?”, isso quando o método sair de fininho não funcionava. Mas esse, esse me olhava como se quisesse alguma coisa, como se realmente se perguntasse onde eu estaria indo.
— Bom dia. – eu disse, sabendo que iria me arrepender depois. – Qual é o seu nome?
Ele fez uma careta, pareceu ofendido. Suas enormes sombrancelhas se juntaram em uma só.
— Não acredito que você não lembra, Liv. – ele murmurou. – Eu realmente achei que você não estava bêbada a esse ponto, me desculpe…
O fitei confusa. Por que estava se desculpando?
— Rock Lee. Sou Rock Lee. – disse, logo depois.
Ainda sem entender, acenei com a cabeça e comecei a pegar as minhas roupas do chão, ainda enrolada no lençol.
— Eu vou indo… — sussurrei, me vestindo atrás de uma cômoda que me permitiu fazer uma cabana com o lençol.
– Não vá. – Rock Lee pediu, com outro daqueles olhares. – Você não está brava, não é?
Certamente ele era novo naquilo tudo. Dei um crédito para a sua inocência e resolvi ser gentil.
— Por que estaria, Rock Lee? Tivemos uma noite maravilhosa. – menti, com o meu melhor sorriso. Eu não me lembrava de nada, talvez tenha sido o pior sexo da minha vida.
— Me chame de Lee. – ele disse entre gargalhadas. – Bom, eu me aproveitei de você enquanto estava bêbada e…
— Deixa disso, aposto que você também não estava bem. – respondi, apontando para o espelho quebrado em cima da cabeceira da cama.
Ele sorriu novamente e soltou um olhar de agradecimento. Dei de ombros e peguei a jaqueta de couro do chão, era muito valiosa para se perder.
— Tenho que ir. – afirmei. Era verdade, eu realmente precisava ir. Queria ver como Naruto estava e ajudar na limpeza do apartamento de Temari, que eu tinha certeza que fora afetado pela noite de ontem.
Lee suspirou e fez um gesto para eu ir. Ele me parecia carente e sozinho, era um cara legal. Nenhum cara pediria desculpas como ele pediu.
— Me ligue qualquer dia. – falei, tentando parecer sincera. Pisquei com um olho e sai, o deixando sorrindo.
Assim que sai do prédio, olhei em volta, totalmente perdida em todos os aspectos, não sabia que horas eram e nem onde eu estava, mas pelo menos ainda tinha a minha bolsa, que tinha pegado antes de entrar na balada novamente.
Não poderia ligar meu celular, senão me depararia com as ligações e mensagens de NY. Por sorte, eu tinha decorado o nome da rua do hotel de Naruto e tinha dinheiro suficiente para um táxi.
Eu não estava longe. Paguei o motorista e desci rapidamente, pronta para entrar no quarto 301. Bati na porta mais vezes do que devia e quando, finalmente, fiquei impaciente, abri a porta devagar com a chave que tinha roubado no dia anterior.
Diferente do que eu esperava, o lugar não estava uma zona, procurei em volta e vi Naruto em sua cama e Hinata em uma poltrona, ambos dormindo. Olhei o relógio, eram duas e quarenta da tarde.
Não havia sinal de Neji e de mais ninguém, então não os incomodei. Sentei no carpete, para esperar Hinata acordar e irmos para a casa.
Suspirei de alívio, estavam todos bem afinal. Só estava um dia lá e já gostava daqueles dois como se fossem meus amigos de anos.
– Cherry? – Hinata balbuciou de repente, me tirando de meus devaneios.
– Oi Hinata, desculpe. – pedi, imediatamente. Não sabia porque, mas se me conhecia bem, tinha feito algo digno de desculpas na noite anterior.
— Pelo que? – ela perguntou, com um sorriso meigo. – Você dormiu aqui?
Neguei com a cabeça, e a dor voltou. A ressaca não me permitia raciocinar direito.
– Vim pra cá porque é o único endereço que eu decorei. – expliquei em um murmúrio. – Você chegou... Chegou a me ver ontem? – perguntei, com medo da resposta.
Ela negou com a cabeça, me privando dos detalhes. Estava prestes a agradecê-la mentalmente, quando ela começou a explicar:
— Eu não te vi mais depois que vim para cá com o Naruto.
Acenei de leve, aliviada, e olhei para o loiro deitado.
– Ele está bem? – perguntei, me importando sinceramente.
– Sim. Quando ele ronca assim, quer dizer que está bem. – respondeu, ainda com um sorriso no rosto.
Eu sorri de volta e me levantei, pelo jeito Hinata ficaria por ali até Naruto acordar, e isso poderia demorar horas.
– Você poderia… É…
— Claro! Me desculpe! – a morena exclamou se sobressaindo. – O endereço! Só um minuto.
Ela abriu sua pequena bolsa e pegou o primeiro papel que viu, e, com seu lápis de olho, escreveu rapidamente o endereço do apartamento.
– Não é longe daqui. – disse. – Dá pra ir a pé.
– Obrigada. – agradeci. E ela entendeu que não era só pelo endereço.
Hinata acenou de volta com um sorriso e sai do 301, pensando em como aquelas pessoas eram boas demais para o meu próprio bem. Novamente, me senti uma intrusa, eu não pertencia aquele quarto de hotel, eu não pertencia aquele apartamento, não pertencia a Bristol…
Era apenas domingo a tarde e eu já tinha me sentido de todos os jeitos possíveis. Então eu liguei meu celular. Já sabia o que me esperava, e dessa vez, eu estava pronta. Estava pronta para deixar a vida de NY de uma vez por todas. De esquecer meus amigos que faziam com que eu me sentisse pertencente a algo.
Assim que liguei o aparelho, meu toque de recepção de mensagem tocou diversas vezes, sem parar. Quando finalmente parou, eu vi, eram 23 mensagens de texto novas. Então, começou o toque de mensagens de voz, foram 13.
Suspirei e comecei a lê-las. Todas se assemelhavam, todas diziam “Onde você está com a cabeça? Achei que estivesse exagerando. Achei que era brincadeira. Eu não sabia que a situação estava tão ruim assim…”
Não entendi. Eu avisei, eles sabiam. Eles me entendiam. Por que agora tudo parecia não fazer sentido pra eles? Então, uma mensagem em especial me chamou a atenção.
“Ma Chérie, como ousa ir embora sem se despedir propriamente de mim? Achei que o que a gente tivesse era especial… Eu, diferente deles, sabia que você tava falando sério quando olhou pra mim naquele dia no The Republic, mas achei que ia se despedir de mim. Só de mim. Porra, vou sentir sua falta, mi amour. Volte logo. Volte inteira.”
Sofri. O que Sai pensava enquanto escrevia essa mensagem? Como ele ousara escrever aquilo pra mim? Eu não era mais apaixonada por ele, eu não devia mais nada a ele. Era como se ele fosse especial o bastante para merecer o meu adeus. Não, ele não era mais. Ele deveria saber disso melhor do que eu.
Fiquei fitando o “volte inteira’ por alguns minutos e pensei como aquilo seria possível. Eu já não era a mesma e só ficara lá um dia, nesse ritmo, voltaria para NY como uma pessoa completamente diferente. E não estava reclamando, aquilo era bom para mim, era uma vitória.
Apaguei todas as mensagens de texto e nem me dei ao luxo de ouvir as de voz. Sabia que as de Tsunade estariam lá porque ela não sabia mandar mensagem de texto.
Meu celular estava prestes a voltar ao meu bolso, quando vibrou, e dessa vez, era a voz de Jack White cantando com sua linda voz para mim.
– Alô? – atendi, me esquecendo de ver quem era. Quase desliguei imediatamente para não ter que ouvir a voz de um de meus amigos, mas a voz que surgiu me surpreendeu.
— Oi, Olívia! – Rock Lee exclamou, me deixando com as sombrancelhas juntas.
Pensei em fingir que estava em um túnel e desligar. Pensei em desligar sem fingir nada e bloquear seu número. Mas então, seu olhar suplicante e inocente passou pela minha mente e me fez responder:
— Oi, Lee.
Tentei imitar a graciosidade de Hinata, mas soou muito forçado e estranho. Tinha certeza que Lee tinha notado o meu tom, então continuei, rapidamente:
— Como está? Eu esqueci alguma coisa ai?
— Estou bem. Não esqueceu… É que… Você disse pra eu te ligar qualquer hora. – ele respondeu, tentando não soar patético. Não adiantou.
Me segurei para não rir de sua extrema carência.
— Verdade, eu disse. – respondi, gentil.
Sua inocência me cativava e, mesmo sabendo que eu estava errada ao alimentar sua obsessão, continuei a conversar com Lee até chegar no apartamento, quando finalmente me despedi e torci para que ele não me ligasse minutos depois.
Assim que entrei, Temari berrou:
— JÁ FALEI QUE…! Ah, é você. Me desculpe.
Eu, de olhos arregalados, entrei cautelosamente no apartamento, sobre o olhar da loira, que, ainda de pijamas, parecia ter acabado de ser atropelada.
— Me desculpe. – pedi, assim que cheguei perto.
— Não se preocupe. – ela respondeu, indiferente. E eu me perguntei o que eu tinha feito. Mas, por mais estranho que seja, eu não queria saber. Não mesmo.
– Quer ajuda com a… — olhei em volta. Que bagunça? Estava tudo limpo, como se tivéssemos acabado de sair. Arregalei os olhos e a minha voz se perdeu, como aquilo era possível?
– Ah sim. Como você é nova, não deve saber as regras da casa. Aposto que a Hinata não comentou nada… – Temari começou, sentando-se no sofá, com uma xicará de café. – Quer?
Acenei que não com a cabeça e sentei-me ao seu lado.
— Nunca, nunca, trazemos as coisas da noite para o dia, entende?
Eu entendi imediatamente. Não era assim em NY.
– Mas, como eu vou saber se…
— A gente deixa as chaves escondidas lá fora, dentro de uma daquelas caixas chinesas, que tem que abrir como um quebra-cabeças, nenhum bêbado seria capaz de pegá-las. – respondeu, simplesmente.
Acenei com a cabeça. Aquilo era genial.
— Genial. – comentei.
Temari riu de satisfação, provavelmente a ideia fora dela.
– Então, nada de “desculpas” e coisas do tipo, certo? – ela disse.
Finalmente tinha entendido porque ela ficara tão brava com Sasuke naquele dia. Ele definitivamente não estava cumprindo as regras de conduta.
Então, deixei meu pensamento se perder imediatamente nele. Eu estava completamente sóbria quando me envolvi tão tenuamente com ele, será que coisas desse tipo valiam naquela ética?
Será que o meu momento inesquecível com aquele cavaleiro das trevas contaria como “coisas da noite”? Fiquei confusa, eu não queria que aquilo se perdesse. Queria me lembrar, queria que continuasse sendo memorável.
Me lembrei das coisas que pensei quando estávamos deitados um do lado do outro. De como eu queria penetrar aqueles olhos ônix, como queria conhecê-lo…
Não, aquilo definitivamente não fora só mais uma “coisa da noite”. A intensidade era muito maior, aquilo foi real.
— Só mais uma regra. – Temari começou, como se lesse meus pensamentos. O modo com que ela disse “regra” pareceu como se fosse o sentido literal da palavra, como se tivesse uma punição se não a cumpríssemos. – Não se envolva com os nossos. Nunca.
Aquilo era familiar. Também decidimos isso em NY depois de vários incidentes. Não deu certo. Me perguntei se na minha nova vida daria. Então me lembrei que já não tinha dado. Sasuke.
Sasuke era um dos “nossos” e eu já tinha me envolvido com ele. E não só sexualmente. Era tão inexplicável.
Como Temari agiria se soubesse que eu já quebrara a principal regra de conduta? Qual seria minha terrível punição? Suspirei e fitei seus olhos verdes.
– Entendido. – eu disse, com a voz carregada de culpa.
Notas finais
Espero que tenham gostado!
E que estejam gostando do rumo que a fic está levando :D
Reviews? *-*
Beeijos :*
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