Máscaras & Sussurros
27 Armas
Acordei com Jack White. Eu ainda estava no trem e tudo que ouvi foi um Naruto agitado falando que Hinata tinha acordado. Apesar de tentar responder, eu ainda estava muito sonolenta para processar uma frase.
Olhei para o lado na esperança de encontrar Sasuke acordado, mas ele tinha encontrado um lugar para sentar e estava adormecido também. Fiquei um tempo apenas fitando-o, mas lembrei de Naruto e coloquei o celular na orelha novamente.
— Oi.
— Cherry! Você não estava ouvindo? – ele perguntou, nervoso. Eu acenei com a cabeça, em vão. Então respondi, finalmente:
— Não, estava dormindo. Hinata acordou, né?
— Sim, ela está bem, estamos indo para o 301, depois do seu trabalho, tenta passar lá.
Acenei com a cabeça novamente, mas dessa vez não falei nada, esperando que ele me entendesse. Naruto deu um “tchau” rápido e pasou o celular para Hinata, que estava com a voz mais meiga do que nunca.
— Hinata! Você me matou de preocupação. – falei, um pouco mais desperta. – Como você está?
— Estou bem. – ela respondeu. – Não precisava se preocupar, não foi nada, só tive alguns arranhões.
Revirei os olhos.
— Certo. Ainda bem que está bem, Na. Mesmo.
— E você, está bem? – ela perguntou. Porque HInata era assim. Ela tinha acabado de sofrer um acidente de trânsito e estava se importando com o meu bem-estar. Só porque ela sabia que Temari ainda estava brava comigo ou pelo que aconteceu no restaurante... Ela simplesmente notava as coisas.
E se importava.
— Estou. – respondi, olhando para Sasuke de lado. Como não estaria?
— Que bom. Vou desligar, Naruto está enchendo o saco por causa dos créditos.
— Obviamente... Um beijo.
— Outro, boa aula!
Ela desligou e eu suspirei. Eu não merecia nenhuma frase de Hinata, ela era muito boa para mim.
O trem parou subitamente e eu percebi que tínhamos passado a estação que devíamos ter saído. Ótimo, em Nova York isso nunca acontecia porque eles sempre avisavam nos auto-falantes onde estávamos. Pelo jeito, na Inglaterra não era assim...
Fiquei fitando Sasuke por alguns segundos quando finalmente decidi acordá-lo. Com pesar, fui em sua direção e sussurrei seu nome em seu ouvido. Ele se mexeu, mas não abriu seus olhos deliciosamente negros.
— Sasuke. – sussurrei de novo, dessa vez beijando o lóbulo de sua orelha graciosamente.
Vi seus olhos abrirem lentamente e virarem-se para mim. Forcei um sorriso e ele retribuiu levantando-se.
— Boa Cherry, perdemos a estação. – ele disse, com a voz ainda afetada pelo sono.
Revirei os olhos e o empurrei com o corpo.
— Certo. A culpa foi minha mesmo.
Sasuke deu seu meio sorriso e me puxou para fora do trem assim que o veículo parou, a fim de corrigirmos nosso erro.
Ao chegar na faculdade, a conduta de Sasuke perante Kakashi me impressionou, ele não fez nenhum comentário ácido e muito menos dirigiu a palavra para o professor, que sempre que cutucava-o com alguma pergunta, recebia uma resposta correta e sem sarcasmo.
Em tempos, Kakashi me soltava um olhar cheio de duplos sentidos que eu respondia desviando o olhar. Era patético o quanto aquele homem podia ser repulsivo. Ao acabar a aula, percebi que ele estava um tanto decepcionado por não termos arranjado confusão e ainda mais por ainda estarmos juntos.
Estávamos saindo da sala, quando ele não perdeu a chance de dar um último comentário, assumindo que Sasuke ainda não soubesse a verdade e por isso não tinha terminado comigo.
— Sonhei com cerejas, sabe? – disse.
Olhei para Sasuke em tom alerta e esperei uma reação enlouquecedora dele, mas surpreendentemente, ele simplesmente deu um sorriso e respondeu:
— Eu sonhei com cobras. Mundo estranho, não?
Eu não consegui segurar minha risada e olhei para Kakashi com uma expressão de desdém que já usara tantas vezes na vida.
— Eu sonhei com raposas. Acho que tudo isso deve significar alguma coisa. – comentei, divertindo-me.
Sasuke pegou na minha cintura e me puxou para perto, provocando-o e eu pousei minha mão em seu peito. Sorrimos juntos e saimos da sala, deixando um Kakashi perplexo e inquieto.
Assim que saimos da vista do professor, suspirei de alívio, não esperava que aquela história se concluísse tão facilmente e pacificamente.
— Aquele maldito. – Sasuke bufou e me conduziu para os campos mais isolados da faculdade.
Conhecendo-o bem, já sabia que ele pretendia descontar toda sua raiva em alguma substância ilícita. Suspirei, ficar sóbria em Bristol estava sendo mais difícil do que eu esperava.
Quando já não estávamos mais ao alcance da vista de ninguém, ele abriu sua mochila e tirou uma pacotinho de pó de um bolso escondido. Suspirei, eu não queria cocaína, não depois da minha última experiência.
— Sasuke... – comecei.
— Não é pra você. – ele falou, violento. – Já sei que você é sensível.
Sensível?
Eu não era sensível, só não era tão masoquista quanto ele. Não gostava de sofrer a toa. Quis dizer isso a ele, mas era tarde demais, ele já tinha preparado sua carreira e estava cheirando livremente.
Sentei-me na grama e acendi um cigarro comum, impaciente e inquieta.
— Certo, se quer agir como um babaca, fique ai. Eu vou para o trabalho mais cedo. – comentei, quando ele estava já no seu refil.
Ele não me respondeu e nem tentou me impedir quando eu levantei e andei rapidamente para longe dali. Eu não me importava de Sasuke se drogar, já que eu não tinha moral nenhum para julgá-lo, mas saber que ele precisava daquilo enquanto estava comigo era completamente enlouquecedor.
Cheguei no meu trabalho e encontrei Chouji em um humor completamente oposto do meu.
— Bom dia, Cherry! – ele me cumprimentou e eu só acenei com a cabeça, colocando meu uniforme.
Ele começou a assobiar e o fitei com um olhar mortal.
— O que você tem? – perguntei, irritada.
— Hoje é meu aniversário, o que significa muitos doces em casa. – ele respondeu prontamente e insuportavelmente feliz.
— Parabéns então, eu acho... – falei, desanimada e voltando logo a me arurmar.
Chouji franziu a testa com o meu comentário e murmurou, amargo:
— Você não é uma pessoa muito sociável, é, Cherry?
Voltei a fitá-lo e ponderei aquela questão por alguns segundos. Era verdade que eu não gostava muito de me relacionar com as pessoas por questões óbvias. Nunca gostei de me apegar para não ter sofrer a perda, mas no final eu era sempre a que amava mais.
— Na verdade eu sou sim, acho que só perdi o jeito porque as pessoas sempre me decepcionam. – respondi, concluindo meu pensamento.
— Talvez se você abraçasse as pessoas no aniversário delas e mostrasse um pouco mais de entusiasmo, você não se decepcionaria.
— O problema é que eu sou exigente demais... – comentei pensativa.
Ele simplesmente juntou as sombrancelhas, confuso, e foi para a cozinha, preferindo não ter que lidar com a minha mente.
Depois de trabalhar de mal humor, cheguei no apartamento de Sasuke, avisando HInata previamente, para que não tivesse ainda mais problemas com Temari. A verdade era que eu queria voltar para casa naquela noite, porque sabia que não ia suportar ver Sasuke se drogando novamente, mas Temari precisava de um tempo para esfriar a cabeça, então não arrisquei.
Abri a porta do loft e me deparei com o cheiro característico de maconha e haxixe, com o qual já estava mais do que acostumada. Sasuke não estava lá, simplesmente sabia, eu já era capaz de sentir sua presença.
Se fosse um dia comum, eu deitaria na cama, abriria meu livro e leria até a minha perdição chegar e eu me afogar na escuridão, mas não, porque ao olhar para os lençóis, vi uma seringa característica e outros resquícios das formas que ele usava para se perder.
Até aquele dia, minhas preocupações com as drogas de Sasuke eram superficiais, mas aquela seringa me fez cair de joelhos. Heroína. O que poderia estar tão errado naquela complexa mente para fazê-lo apelar para a maior e pior forma de se perder? Eu não amenizava sua dor? Nossas conversas não serviam como terapia?
Criei coragem para pegar a seringa e segurar aquela arma em mãos, fiquei observando o objeto com pesar. Percebi, finalmente, a dolorosa realidade, Sasuke estava com problemas. Não só psicológicos, mas físicos, estava viciado em todas as drogas possíveis e isso estava o destruindo. Parei para pensar em nossos momentos juntos e me dei conta de que eram raras as vezes em que ele estava em sã conciência.
Talvez fosse muito doloroso ficar muito tempo em sua própria mente, estava tentando evitar seu próprio ser, se esconder em recursos baixos como produtos químicos nocivos.
Meus olhos estavam prestes a me trair enquanto estava ajoelhada com a seringa em mãos, quando ouvi a porta abrir. Deixei cair a droga com o susto e me virei com um sorriso falso, tentando, ainda, manter minhas lágrimas dentro de mim.
Seria hipocrisia ficar tão mal com a minha descoberta? Eu mesma já tinha me drogado com Sasuke afinal, o que me preocupava tanto? Olhei para a seringa novamente e a pontada no meu coração ficou mais forte.
— O que foi? – ele perguntou ao ajoelhar-se na minha frente. Não podia mentir, ele me conhecia muito bem. Fitei seus olhos e um sorriso invadiu sem permissão a minha expressão sofrida ao perceber que estavam sóbrios.
— Por que? – perguntei simplesmente, pois era a única coisa que me importava.
Ele mergulhou profundamente nos meus olhos a fim de ler meus pensamentos como sempre fazia, mas foi em vão, já tinha formado inconscientemente uma barreira invisível.
— Por que o que? – Sasuke indagou em um sussurro, aproximando-se e pousando a mão em meu rosto, notando minha angústia.
Sua delicadeza fez todas as minhas forças se esvairarem e minhas lágrimas cairam violentamente. Por que aquilo me afetara tanto? Eram drogas, eu as conhecia bem, a sensação... Por que estava me matando por dentro?
Sasuke me beijava no rosto para cessar minhas lágrimas de dor, mas seus gestos apenas as intensificaram. Então ele me abraçou e ficamos assim até todas as minhas lágrimas secarem-se na sua blusa rasgada.
Certificou-se que podia me soltar e pegou seu violino. Perfeitamente, começou a tocar aquela melodia peculiar que me cativava tanto, que eu amava exageradamente. A melodia penetrou meus ouvidos e fez meu corpo arrepiar como sempre. As passagens e notas fez meus olhos fecharem-se, podendo apreciar aquela arte propriamente.
Ao terminar – cedo demais – Sasuke largou delicadamente o violino em seu canto próprio e veio em minha direção.
— Obrigada. – murmurei, esquecendo-me, por alguns preciosos segundos, o que me aflingia. A realidade logo bateu de frente, como sempre fazia, e percebi o quanto não podia manter segredos daqueles olhos negros.
Sentei-me na cama e suspirei, pensando em como abordaria o assunto.
— No que está pensando? – perguntei, porque queria saber exatamente tudo o que se passava naquela mente masoquista e o que a aflingia tanto a ponto de se furar. – No Kakashi?
— Não... Em você... – Sasuke respondeu e eu sorri.
— E eu em você.
Ele deu um meio sorriso falso, estava ainda claramente preocupado.
— Acho que vou até o 301 ver a Hinata, quer ir? – perguntei por educação. Ele percebeu que eu não o queria junto e me respeitou, recusando com a cabeça.
— Você vai voltar? – perguntou, com o tom de sua voz beirando ao desespero.
— Sempre. – respondi, alegando nada mais que a pura verdade.
Notas finais
Falando nissooo, FELIZ NATAL ATRASADOOO! Espero que tenham tido um ótimo feriado e aproveitado bastante (:
Se eu não vier a postar até o fim do ano (o que é bem provável, porque vou viajar quase certeza), FELIZ ANO NOVOO! Que 2013 seja bom para todos ♥
E ai, gostaram desse cap?
Beijão :*
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