Lágrimas de um Lírio
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
Durante o meu primeiro mês na nova escola, aprendi muitas coisas. Primeiro, os brasileiros são completamente estranhos, eles são abertos e não tem medo de serem eles mesmos. Segundo, eles não deixam uma pessoa em paz quando essa pessoa tem histórias para contar. No meu caso, sempre me perguntavam como era a Itália e encontrei nessas conversas um modo de me enturmar com os outros. Kátia tinha razão e ninguém me negou um espaço em seu círculo, porém, me identifiquei com algumas pessoas como o Tiago, um menino que com certeza era gay. Além disso, tinha a Carol e a Beatriz que eram uma das primeiras das classes. Não que eu fizesse muitas coisas com eles, apenas chegava à escola, conversávamos e então voltava para a minha casa onde ficava trancada o dia inteiro. Essa foi a minha rotina durante o primeiro mês, mas havia algo que valia a pena. Kátia lecionava dois dias por semana e sempre ficava observando o seu jeito tão maduro. Fiquei sabendo que ela cursava Biologia Marinha ainda, mas na falta de professores, teve de dar aulas. Nunca entendi muito bem o motivo de ficar a observando, só sabia que gostava de tê-la por perto, talvez ainda fosse muito nova para entender essas coisas.
Dei uma olhada no meu relógio e então bufei cruzando os braços, o ônibus estava atrasado e eu ia me atrasar para a minha primeira aula de trompete. Meus pais haviam me matriculado na escola local para que eu saísse um pouco mais de casa. Sinceramente não protestei, até porque gostava muito de música clássica, afinal eu tinha morado na Itália.
Quando o ônibus chegou estava cheio, paguei o cobrador e então passei pela catraca tentando encontrar um lugar vazio. Meus olhos pararam em um assento vazio ao lado de uma loira familiar que observava a paisagem. Ajeitei a minha bolsa e então fui com um pouco de dificuldade até lá, por causa da movimentação do ônibus. Meus pais haviam me dito que era pra mim descer no terminal, que a e escola só ficava a algumas quadras, mas estava receosa em me perder e acabar na mão de algum pedófilo. Por fim me acomodei no banco e observei a mulher do meu lado, finalmente percebendo que era a Kátia.
– Ah, é você Lily- ela se virou notando que era eu e então sorriu para mim. Cumprimentamo-nos com beijos nos rostos e aquilo me deixou um pouco vermelha.
– Oi professora- sorri de volta para ela e então desviei o meu olhar para a paisagem da cidade, odiava ter que encarar as pessoas.
– Vai pro centro também?- Kátia perguntou provavelmente tentando puxar um assunto para que não ficasse um clima estranho, como estava prestes a ficar.
– Sim, vou começar minha aula de trompete hoje.
A verdade é que eu estava feliz em poder voltar a conversar a sós com ela, sempre tinha alguém junto de nós ou era na sala que a conversa rolava. Mas isso era estranho, não era? Uma aluna se interessar em conversar sozinha com a sua professora.
– Isso é legal Lily, eu fiz aula de violino quando era mais nova, mas sempre fui uma negação- soltei uma risadinha da careta que ela fez, provavelmente lembrando das aulas que teve quando criança.
– Meus pais acham que eu tenho que sair mais de casa, talvez eles estejam certos- respirei fundo e então baixei o meu olhar para os meus dedos que como sempre estavam brincando sozinhos.
– Bem, hoje as quatro e meia vai ter um teatro público, quer ir comigo? Eu te pego na porta da sua escola- confesso que meu coração pulou quando ela disse aquilo. Ela realmente estava me convidando para sair?
Assenti com a cabeça e então no próximo ponto ela desceu, antes me dando um beijo de despedida. Continuei o resto da viajem pensando naquilo, e ao mesmo tempo tentando não pensar em nenhuma expectativa. Na maioria das vezes esse era o meu problema, nunca conseguia esperar algo normal das pessoas. Sempre esperava algo que estava praticamente fora dos alcances delas e então me decepcionava, além disso, acabava colocando a culpa nas pessoas quando a culpa era minha.
Ao descer no terminal, por precaução peguei uma informação com o guardinha do terminal. Ele me indicou melhor o caminho e em menos de dez minutos estava na escola de música. A aula foi normal, não tive muitos problemas e fiz uma nova amiga chamada Amanda, ela e eu éramos as únicas meninas que praticava aquele instrumento. Porém eu tinha um pouco mais de facilidade, tendo em vista que tinha aprendido a tocá-lo na Itália.
O tempo passou rápido e eu ficava cada vez mais ansiosa para me encontrar com a Kátia. Sai da sala com tanta pressa que quase derrubei uma pessoa no chão, mas ela me segurou antes que caíssemos. Quando levantei a cabeça sorri constrangida, era a própria Kátia.
– Pelo visto alguém esta com muita pressa pra andar comigo- e ao falar isso ela me deixou ainda mais vermelha.
Kátia não pegou um novo ônibus, ela me levou até a praia e andamos a partir dali, alegando que não era muito longe. Durante o percurso nos conhecemos um pouco mais, ela me contou como era a sua vida universitária e eu lhe disse como era ser “brasileira”, o que realmente era muito estranho. Kátia era uma boa ouvinte e sempre me olhava com atenção e escutava com interesse, quando a conversa estava quase morrendo, ela sempre fazia uma nova pergunta para que não parássemos de conversar.
Chegamos no teatro e por pouco não ficamos em pé. Kátia comprou pipoca para nós e juntas assistimos a uma peça de comédia escrita pelos próprios estudantes da Companhia de Teatro da cidade. Uma hora acabei por derramar pipoca na cabeça na senhora da frente, e umas pombas atacaram a sua cabeça, o que desencadeou um ataque de risada da Kátia e me deixou vermelha como um tomate, mais do que eu já era. Eu estava tendo uma tarde incrível.
– Acha que aquela senhora vai ficar calva?- Kátia me perguntou enquanto andávamos pela areia da praia com as mãos dadas.
– Acho que você foi muito maldosa em rir daquele jeito, podia ter disfarçado poxa- ela soltou mais algumas risadas e então se adiantou colocando-se de frente para mim.- O que foi?
– Estou a procura da minha recompensa por ter feito a senhorita se divertir, afinal nunca te vi assim na escola- quando ela tocou o meu nariz fiquei totalmente vermelha e tentei desviar o meu olhar do dela, mas seu sorriso era encantador de mais.
Aquela era uma sensação estranha, meu coração batia rápido e eu estava começando a suar de tão nervosa que estava. Kátia me olhava de uma maneira estranha, com mais carinho do que o normal e isso me deixava cada vez mais constrangida. Naquele momento, ela não era mais a minha professora madura que eu admirava, mas sim, uma mulher que era capaz de me divertir e me deixar feliz sem muito esforço.
– Uma... uma recompensa?- gaguejei um pouco e engoli em seco, sem saber muito bem como reagir à aquilo.
– Não precisa ser nada grandioso, você já esta com ele aqui, só precisa me dar- então finalmente a minha ficha caiu, ela não estava me tratando mais como sua aluna, mas como uma menina com quem ela podia flertar.
Aquilo foi surpreendente para mim, já tinha beijado alguns meninos, mas nunca achei a melhor coisa do mundo. De vez em quando eu reparava nas meninas, mas nunca soube dizer muito bem se eu era lésbica, ninguém nunca havia desencadeado isso em mim. Mas agora era diferente, Kátia estava ali praticamente se jogando para cima de mim e ela não ligava mais para o fato de ser a minha professora. Ela era uma universitária e tinha o direito de se divertir também.
– Bem, er...- sorri sem querer e ao olhá-la percebi que o sorriso tinha sido retribuído.
Kátia se aproximou e meu coração acelerou ainda mais quando ela colocou a sua mão em meu rosto me fazendo um carinho. Nossos rostos ficaram próximos e eu já podia sentir a sua respiração de encontro com a minha. Estava quase perdendo os sentidos quando meu celular começou a tocar.
– An, me desculpa, acho que são meus pais- me afastei dela tentando controlar a minha respiração e tirei o celular de dentro da minha bolsa.- Alô, oi mãe, não, eu estou com a Kátia, a minha professora, já volto pra casa, não precisa se preocupar- fui respondendo a minha mãe enquanto já andava em direção a avenida, Kátia vinha logo atrás de mim.- Ok mãe, ela me acompanha, não tem problema- desliguei a ligação e então olhei para a Kátia, antes porem que eu falasse alguma coisa, ela me cortou.
– O ônibus esta vindo, vamos- ela pegou a minha mão e corremos em direção à calçada.
Durante o percurso de volta não nos falamos. Eu não sabia o que dizer e não sabia se a Kátia estava irritada por não conseguir a sua “recompensa”, então preferi permanecer calada. Mas o nosso quase beijo não saia da minha cabeça, eu simplesmente não conseguia acreditar que ela podia estar interessada em mim.
– Obrigado Kátia- falei assim que cheguei ao portão da minha casa.- E me desculpa por ter que vim vir até aqui- falei isso meio cabisbaixa.
– Tudo bem Lily, obrigada pela tarde, me diverti bastante contigo, boa noite Lily- ela me deu um beijo na bochecha, deu meia volta e então foi embora.
E foi assim, sem um número, sem um comentário sobre o que tinha acontecido conosco. Ela simplesmente foi embora, mas ao me virar para entrar notei a minha mãe observando pela janela e aquilo me deu uma pequena esperança de que ela simplesmente havia se contido.
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